EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias

 

ARTIGO

 

Sociedade de Consumo e Droga
Psicólogo José Antônio Zago

Artigo originalmente publicado na IMPULSO - Revista de Ciências Sociais e Humanas, Piracicaba, Editora UNIMEP, 11(25): 93-102, 1999.

RESUMO: O consumismo colocado como forma absoluta de valor de vida em sociedade pode propiciar relacionamentos nos quais a afetividade é substituída por mera troca de objetos.
Esse aprendizado do outro-coisificado pode embotar, principalmente no jovem, a busca em seu íntimo de respostas mais positivas para o conceito de si mesmo e de um posicionamento social mais construtivo e participativo. Tal pode ser doloroso e as drogas podem então aparecer como a "solução-mágica" para o problema.
Palavras-Chaves: SOCIEDADE DE CONSUMO - DROGA - MÍDIA - NEOFILIA - EDUCAÇÃO PREVENTIVA.

CONSUMER SOCIETY AND DRUG.
ABSTRACT: The consumerism put in an absolute form of life value in the society could endanger relationship where the affection is substituted mere exchange of objects.
This apprenticeship of the objecteless-other could obstruct the capacity of the young to search in his internal referential, developed by the concrete objects of consumption, more positive answers of one's self conceitedness and his social positioning. Such may be painful and the drugas might then appear as a magical-solution for the problem.
Key words: CONSUMER SOCIETY - DRUG - MEDIA - NEOPHILIA - PREVENTIVE EDUCATION.

O homem é um ser vivo diferente de todos os outros do planeta. Uma bela e frondosa árvore, por exemplo, é também um ser vivo. Imponente e de rara beleza, contudo não tem consciência disso, nem mesmo que é um ser vivo. Tal igualmente ocorre com todos os outros seres vivos, desde o vírus até um organismo complexo. Apenas o homem possui consciência que é um existente, do que pensa, sente e é capaz. E é o único ser vivo que pode contemplar a beleza de uma árvore, estudar um inseto ou conhecer a si mesmo e os seus semelhantes. É um ser-no-mundo, que o transforma e pode modificar a si próprio.

Desde os seus primórdios o homem busca um significado para a existência e para o universo, para o sentido de si mesmo e para a compreensão de suas relações para com o próximo.
A concepção de mundo na Antiguidade, para o homem grego e para o homem da Idade Média era de um mundo harmonioso, finito, perfeito e divino. O cosmos era visto como perfeito e acabado, restando ao homem a função de admirar ou contemplar a natureza e o mundo. A admiração, assim Platão definiu a filosofia, era considerada a mais bela atividade humana: o homem procurava refazer em seu pensar a ordem existente no cosmos. Desse modo, ele não atuava na natureza; pelo contrário, tinha profundo respeito por ela. A Terra e o homem eram considerados o centro do universo.

O século XVII marca a presença revolucionária do racionalismo. A imagem de mundo passa a ser oposta daquela compreendida pelos princípios de Ptolomeu. As idéias de Copérnico, embora apresentadas por Aristarco quinze séculos antes, são definitivamente reconhecidas: não é mais a Terra o centro do universo; é o Sol. O mundo não é algo acabado, perfeito, finito. Porém, infinito e sem hierarquias. É o início da supremacia do mecanicismo contra o animismo. De contemplativo o homem passou a ser ativo na natureza. Descartes, ao partir do cogito, procurou pela subjetividade, mas entendida por ele como o pilar do qual tudo ocorre, tudo ilumina e tudo dá sentido. Com isso, a subjetividade, seguindo a razão impessoal, tornou-se idealista, cujo apogeu é configurado por Hegel.1
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1 Cf. CARMO, 1974, pp. 6-10.

O método cartesiano, cada vez mais aprimorado, possibilitou praticamente o domínio completo da razão. Permitiu e tem permitido grandes avanços científicos e tecnológicos, estimulando o homem a empolgar-se com o seu poder de transformar o mundo. E com isso caiu na ilusão de ser o "senhor" do cosmos. Assim, gradativamente, e alimentando essa ilusão com cada avanço tecnológico, foi incorporando também a idéia de "estar fora" do universo. A "relação" homem-máquina, típica de nossa era tecnológica, tem conduzido o homem a uma imagem distorcida de que ele próprio é uma máquina. E "funcionando" como máquina, sua subjetividade, suas questões mais íntimas e suas crises intransferíveis foram ideologicamente ignoradas.2

O MAL VIVER NO CONSUMISMO
John Watson, o pioneiro do behaviorismo, e que mais tarde abandonou a carreira universitária para ser um bem sucedido publicitário, disse certa vez que se lhe dessem alguns bebês os transformaria em advogados, pessoas famosas, pedintes ou ladrões, haja vista que poderia condicioná-los da maneira que quisesse.3

Nem todos se dão conta do quanto é manipulado e condicionado pelos meios de comunicação social, especialmente a TV. Com a propaganda o telespectador pode ser levado a consumir inúmeros produtos. Somos condicionados à uma vida voltada ao consumo e para a satisfação básica de nossa animalidade: comer, beber, vestir, luxo, conforto, etc.

A TV é igual uma vitrine, não só com uma gama de produtos de consumo, mas principalmente como meio de controle ideológico por parte de grupos econômicos e do próprio governo que é representativo da elite dominante. E os pais, fazendo inadvertidamente o jogo dessa ideologia, percebem-se como bons pais ou de fato amando os filhos dando-lhes tudo materialmente.
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2 Segundo o exposto por CHAUI que a ideologia é o conjunto lógico e sistemático de idéias, valores e normas de conduta que indicam aos indivíduos o quê e como pensar, agir, sentir e valorizar. O objetivo da ideologia é fornecer aos membros da sociedade uma justificativa para as diferenças ali existentes, sem nunca referir que elas são resultantes da divisão da sociedade em classes. É também a forma pela qual as idéias da classe que domina se tornem ou se pareçam universais, naturais e verdadeiras para todas as classes. A origem da ideologia está na própria divisão da sociedade em classes contraditórias, a partir das divisões na esfera da produção. Cf. CHAUI, 1982, pp. 82, 83 e 113.
3 WATSON, citado por WHELDALL, 1976, p. 64.

Evidentemente, as pessoas de parcos recursos financeiros são também solicitadas a consumir. E não podendo consumir, contudo estimuladas pelo jogo ideológico, sentem-se falidas ou desvalorizadas tanto no que se refere ao poder ter quanto ao desejo de ter. Nesse caso qualquer objeto que sugere ou que dê um mínimo prazer é visto como indispensável.
As crianças e os jovens são os alvos preferidos na criação de novas necessidades pela mídia. Incapazes de entender o que é a TV e o que visa a propaganda, passam a querer tudo o que é apresentado, crescendo assim hipersensíveis ao prazer. É o que Lorenz denomina de "neofilia", a afinidade irresistível para com tudo que aparece como novidade, a qual é resultante da doutrinação das massas.4

A neofilia é a patologia social de nosso tempo. Nem é preciso detalhar o que sentimos quando entramos em um hipermercado. Somos condicionados a tornarmos dependentes, ou seja, adictos a um considerável número de produtos. Temos assim, em nosso meio, adictos a roupas, livros, sapatos, aparelhos eletrônicos, comida, bebida, etc. A rigor, segundo os desejos dos magnatas da produção.
Vivemos na sociedade onde o valor prioritário é ter posse de coisas, de objetos e de pessoas. O indivíduo é classificado pela marca de sua roupa, pelo cargo que ocupa, pelo carro que tem, pelo tipo de trabalho que desempenha ou pela quantidade de pessoas que dirige. Ter é ser tornou-se o valor da sociedade de consumo. E se não podemos ter algo que desejamos de imediato, já que a ideologia do consumo não facilita o aprendizado de esperar ou de adiar ganhos, os patrocinadores da mesma nos oferecem em "suaves prestações".

Assim, os objetos têm um "valor" maior que o humano. O homem é valorizado pelo que possui e por isso corre o risco de nessa sedução se transformar em um ser-coisificado. Para identificar-se com o seu meio ele precisa ter, e cada vez mais. Se não pode ter, há o risco de uns quererem até tirar de quem tem. E isso geralmente ocorre com as pessoas de todas as classes sociais quando vivem solitárias de si mesmas, desejando ou apegando-se a objetos como forma de esconder suas crises, ou seja, uma alienação.
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4 Cf. LORENZ, 1974, p. 63.

Aí, a pessoa em seu mundo interno está distante de si mesma; no mundo externo ausente de sua realidade social.
Conhecendo uma favela podemos verificar que ela é um dos mais evidentes paradoxos de nossa época. Num barraco, por exemplo, sem as mínimas condições dignas de moradia, provavelmente poderá ser encontrado aparelho de TV, geladeira, vídeo, fogão a gás, liqüidificador, entre outros eletrodomésticos.

Não somos contrários ao fato dos moradores das favelas possuírem tais objetos. O que questionamos é que boa parte dessas pessoas não tem em seu barraco leite ou fruta para liqüidificar ou alimento na geladeira para diminuir a sua fome.
Que sociedade é esta que estimula e condiciona o consumo onde a aparência de ter algo é mais importante que o conteúdo?

Nisso tudo o que conta mesmo são as aparências, pois quando na sociedade os três eixos, 1. produção; 2. criação de novas necessidades pela mídia e 3. consumo, são absorvidos como valores absolutos, estão longe de atender as aspirações mais humanas. Tudo converge para os aspectos materiais, do ter, do possuir, enfim, das aparências. As relações de afeto são substituídas, então, por mera troca de objetos ou ganhos e o relacionamento entre pessoas se torna materializado. Como resultado desse tipo de relacionamento emergem duas condições de vida em sociedade: a superproteção e o abandono. Na primeira está presente a riqueza material; na segunda, a pobreza e a exclusão. Mas, em qualquer desses extremos o indivíduo pode estar mergulhado na miséria humana, a qual se manifesta em duas intenções básicas do consumismo doentio: a gula e a inveja. E ambas retroalimentando o universo ideológico do consumir e do competir.

CONSUMISMO E DROGA
É nessa sociedade que privilegia o ter, transformando a pessoa em simples instrumento; que prega ideais de bem viver, mas que na prática seus reais "valores" são o consumo e o acúmulo de objetos, e que pela mídia controla as maneiras de pensar, sentir e agir dos indivíduos, que o jovem, geralmente entre a puberdade e a adolescência, se vê frente a um vazio interior, sintoma de uma forma social de viver sem sentido. E ao perceber esse vazio sua tendência é preenchê-lo com coisas materiais, no que sempre foi condicionado a fazer: consumindo.
Incapaz de trabalhar seus problemas e crises íntimas, busca "soluções" apenas no mundo das exterioridades ou das aparências. E nessa busca pode ir ao encontro das drogas, legais e ilegais, que acenam como "solução mágica" para que a vida continue "sem problemas".

Na história de vida de um dependente de droga, de modo geral, seus primeiros contatos com ela é quando a pessoa está buscando mais intensamente o conceito de si mesma e a sua identidade psicossocial. Se a sociedade de consumo pode tornar o outro-coisificado, o dependente, sem dúvida, torna o outro-negado.

À medida que estreita a dependência, o indivíduo gira tal como um satélite em volta da droga, transformando-a em centro de seu viver e com isso se ausentando de suas relações pessoais e do processo social; não podendo, pois ausente, realizar mudanças na sociedade porque sua escravidão com as drogas o coloca à margem desse processo.5

Do mesmo modo que o consumidor alienado e compulsivo busca nos objetos (= aparência) uma maneira de manter na superficialidade uma vida interior carente ou de pouco significado, também o dependente busca na droga uma forma de evitar a pensar suas crises e problemas, que seriam, se trabalhados, possibilidades de vida nova, de novos passos e de novos projetos. É provável, então, que a função do uso, do abuso ou da dependência de drogas na sociedade é impedir o indivíduo de pensar. Quando a pessoa não consegue encontrar um sentido para a existência, pensar ou estar consigo mesma é um processo doloroso.

As drogas são usadas, então, para anestesiar esse sofrimento e para bloquear a possibilidade de sentir dor emocional. Assim como o portador do Mal de Hansen, que por não sentir dor física provoca a destruição de partes de seu corpo, o dependente torna-se insensível emocionalmente com a drogadição, arruinando a si mesmo e a seus projetos com consequências também para o seu corpo, consequências que se materializam nos acidentes, ao se expor em risco de vida em tentativas conscientes ou veladas de suicídios parciais ou total, por exemplo com uma overdose ou na vida promíscua se sujeitando a contrair uma doença grave como a Aids.6
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5 Cf. ZAGO, 1998, p. 68.
6 Cf. ZAGO, 1996, p. 147.

O dependência de drogas é, enfaticamente, uma forma de negar si mesmo, isto é, um eu-negado, já que sob o efeito de uma droga fica alterado (alter = outro), distante de si mesmo e, portanto, do semelhante. Este acaba sendo manipulado (= usado) pelo drogadicto apenas como extensão de si para alimentar a sua dependência. Em outras palavras, por não amar a si mesmo, não ama os outros; por negar ser si mesmo genuinamente, transforma o semelhante também em o outro-negado. O dependente "funciona", desse modo, como uma "máquina" que repete sempre a mesma operação.
Assim, o dependente, não adoeceu porque começou a tomar drogas, mas por já estar adoecido existencialmente faz por meio das drogas uma tentativa de "solução" ou "cura" para as suas feridas mais íntimas.7

CONDIÇÃO PARA A MUDANÇA
Em um instrutivo romance sobre a história da filosofia, Gaarder lembra que Kierkegaard tinha um olhar atento para a individualidade, questionando a filosofia da unidade dos românticos e o historicismo de Hegel que haviam despojado o indivíduo da responsabilidade pela sua própria existência.8
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7 Destacamos os três significados interligados que, quando incorporados ou assimilados, caracterizam o indivíduo adoecido existencialmente: a). O contexto social consumista onde a aparência é colocada, pela ideologia, como mais fundamental que a essência; b). O consumismo que leva a pessoa a acreditar que as "soluções" estão sempre no exterior de si mesma, nos objetos. Sentir-se vazia, em crise ou em angústia é proibido no mundo coisificado; c). A ideologia do consumo inculca nas pessoas a confusa idéia de que estar bem de vida é o mesmo que estar de bem com a vida. Cf. ZAGO, 1994, pp. 155-156.
8 Cf. GAARDER, 1995, p. 402.

No dizer de Sartre o teor da obra de Kierkegaard é o resgate da individualidade, do sujeito concreto, cuja existência é um fazer próprio que não pode ser assimilada por um sistema ou um conjunto de idéias. Estas podem pensar o sofrimento, mas são incapazes de transformá-lo, pois o sofrido é sofrido em si mesmo e para si mesmo:

... a dor, a necessidade, a paixão, o sofrimento dos homens, são realidades brutas que não podem ser superadas pelo saber... (...) Há, entre nós, psiquiatras e psicólogos que consideram certas evoluções de nossa vida íntima como o resultado de um trabalho que ela exerce sobre si mesma; neste sentido a existência kierkegaardiana é o trabalho de nossa vida interior - resistências vencidas e sempre renascentes, esforços sempre renovados, desesperos superados, malogros provisórios e vitórias precárias - enquanto este trabalho se opõe diretamente ao conhecimento intelectual. (...) não são as idéias que modificam os homens, não basta conhecer uma paixão pela sua causa para suprimi-la, é preciso vivê-la, opor-lhe outras paixões, combatê-la com tenacidade, enfim, trabalhar-se.9

No mesmo enfoque, Heuscher destaca em Kierkegaard a questão da autenticidade como a condição para a construção de um relacionamento social saudável:

Kierkegaard enfatiza que relacionamentos inautênticos resultam de dominação, submissão ou de dependência mútua (fusão). Somente individualidades genuínas podem proporcionar relacionamentos sociais fortes e saudáveis.
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9 SARTRE, 1973, pp. 122-123.

Isso significa que cada eu, embora comprometido com o Outro, permanece autônomo. Esse relacionamento comprometido é o que Kierkegaard denomina de "amando um ao Outro em Cristo", que a moderna fenomenologia descreve, sem metáforas religiosas, de "relacionamentos intersubjetivos" ocorrendo no domínio transcendental.10

Desse modo, conhecer intelectualmente os efeitos nocivos das drogas e somente parar de tomar drogas não modificam a pessoa dependente. Tratamentos que visam apenas a desintoxicação não têm um resultado duradouro. É preciso que o dependente pare de tomar drogas para poder pensar, refletir, quer dizer, trabalhar-se, para mudar sua visão de mundo e dos valores a fim de descortinar novas possibilidades de escolhas, isto é, transformar seu projeto suicida em projeto de vida. Sem esse trabalho interior é muito difícil, para quem quer superar sua dependência, encontrar ou buscar respostas novas e construtivas para os problemas e crises da existência.
E que nesse processo de mudança também envolva o dependente a recolocar o Outro, o semelhante, como centro de sua relação, a fim de resgatar ou dar nova feição a si como eu responsável, crítico e capaz de participar do nós-social exercendo plenamente a cidadania.11

Para transformar o projeto suicida em projeto de vida é condição fundamental que a pessoa dependente de droga esteja sinceramente disposta a trabalhar-se. Essa disponibilidade é o "fermento na massa" para o crescimento pessoal e social. Sem estar autenticamente disponível ao trabalhar-se, as mudanças serão somente aparentes e temporárias.

E conforme transforma seu projeto suicida em projeto de vida, a pessoa vai exercendo sua intersubjetividade de forma mais genuína e em direção ao semelhante, agregando-se ao tecido social saudável e forte.
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10 HEUSCHER, 1987, pp. 21-22.
11 Cf. ZAGO, 1995, p. 135.

E poderá perceber, além de ser si mesma autenticamente ou sem artifícios, que a tarefa de existir é trabalhar construtivamente o provisório. Ou seja: nada existe no mundo dos objetos que dê a solução definitiva aos problemas íntimos ou às crises da existência. Existir é um trabalho sempre por fazer.

CONDIÇÃO PARA A PREVENÇÃO
Como afirmamos, o uso de droga é uma tentativa de "solução" ou "cura" para os problemas de uma existência já adoecida por um viver sem sentido na sociedade consumista.
Uma droga consumida tem para o seu consumidor, sem ele saber exatamente, o significado de um "remédio", ou melhor, de um "mau remédio", pois são conhecidos os desdobramentos graves decorrentes do uso, do abuso ou da dependência de drogas, tanto no aspecto individual quanto no familiar, social, material, jurídico, etc. A droga não resolve os problemas ou as crises de uma vida; pelo contrário, a "relação" com ela apenas encobre as crises existentes provocando outras adversidades.

Quando se refere à prevenção, geralmente é pensado nas ações de combate à produção e ao tráfico de drogas. Embora essas ações sejam importantes e necessárias, elas visam principalmente a questão-objeto. No entanto, essas ações serão sempre insignificantes se, ao mesmo tempo, não for igualmente priorizada a questão-humana, quer dizer, a valorização da pessoa.

Ações de valorização da pessoa não devem ser entendidas apenas no campo estrito de informar a população, em especial a população de risco, crianças e adolescentes, sobre os problemas que podem advir do uso de drogas. Esse tipo de informação é importante se feito de maneira séria, ética e respeitando a população alvo, que é composta basicamente por pessoas em formação. Daí que a mídia, em regra, tem colocado em risco essa mesma população quando se utiliza de maneira sensacionalista ao tratar desse assunto, ao mostrar os labirintos do tráfico e da produção das drogas, como as crianças de rua fumam crack ou como estão enriquecidos materialmente os que produzem e traficam drogas. Algumas dessas reportagens chegam ao cúmulo de mostrar como se prepara o crack para o uso!

Quanto as drogas legais como o tabaco, álcool, "medicamentos", entre outras, nem é preciso comentar. Parece que insconscientemente a mídia acaba fazendo, na sua forma de abordar o assunto, a propaganda por excelência das drogas.
Entendemos que ações de valorização da pessoa antecedem meras informações sobre os efeitos nocivos das drogas. Essas ações se referem às condições que possibilitam uma vida social de convivência segura e sem exclusões. Não somente aos excluídos materialmente, mas também naqueles onde está ausente um sentido mais positivo da existência. Para muitos, hoje, a vida em sociedade é conviver cotidianamente com a experiência do sub-humano. Para outros, cotidianamente é um viver por viver.

Ações de valorização da pessoa estão essencialmente ligadas à condições dignas de vida, como saúde, educação, emprego, moradia, lazer, etc. Não que essas condições, em todos os casos, tenham que ser dadas, gratuitas. Mas que sejam alcançadas em conjunto, compartilhadas.

No âmbito da Educação sistematizada não significa simplesmente na elaboração de programas com informações preventivas sobre as drogas. Porém, que a Educação, como instrumento de desenvolvimento de cidadania, possibilite ao educando aprender a pensar criticamente e a posicionar-se para ser capaz de fazer escolhas que contribuam para com o seu crescimento pessoal e social. Em outras palavras, que o processo seja formativo para que desenvolva um consciência e uma crítica responsáveis. Tal como o conceito de Paulo Freire que a educação crítica considera os homens como seres inacabados e incompletos em uma sociedade também inacabada.12

E que o diálogo educador-educando possibilite a conscientização que deve ser entendida como um compromisso histórico, inserindo-se na história como sujeitos que criam seu existir conforme fazem e refazem o mundo.13
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12 Cf. FREIRE, 1979, p. 81.
13 Cf. FREIRE, 1979, p. 26.

Portanto, não se trata de tornar possível ao educando o aprendizado de um posicionamento crítico apenas em relação às drogas, porém que esse aprendizado seja para a vida como um todo. Não para uma vida futura, mas para a vida no momento mesmo, verdadeiramente; no presente do sujeito concreto que se presentifica quando assume um posicionamento crítico e construtivo no mundo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARMO, R.E. Fenomenologia Existencial; estudos introdutórios. Belo Horizonte: O Lutador, 1974.
CHAUI, M.S. O que é Ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1982.
FREIRE, P. Conscientização; Teoria e Prática da Libertação: uma introdução ao pensamento de Paulo Freire. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979.
GAARDER, J. O Mundo de Sofia. São Paulo: Companhia da Letras, 1995.
HEUSCHER, J.E. Love and authenticity. American Journal of Psychoanalysis, New York, 47 (1): 21-34, 1987.
LORENZ, K. Civilização e Pecado. São Paulo: Artes Novas, 1974.
SARTRE, J.P. Questão de Método. Em: Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973, pp. 115-197, vol. XLV.
WHELDALL, K. Comportamento Social. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
ZAGO, J. A. Drogadição; um jeito triste de viver. Informação Psiquiátrica, Rio de Janeiro, 13 (4): 155-158, 1994.
___________________
_________. Drogadição; o tratamento na comunidade terapêutica. Informação Psiquiátrica, Rio de Janeiro, 14 (4): 133-137, 1995.
_________. Considerações sobre os aspectos psicossociais, clínicos e terapêuticos da drogadição. Informação Psiquiátrica, Rio de Janeiro, 15 (4): 145-149, 1996.
_________. Drogadição, self, contos de fadas e recursos terapêuticos: um ponto de vista fenomenológico-existencial. Informação Psiquiátrica, Rio de Janeiro, 17 (2): 67-71, 1998.

Psicólogo José Antônio Zago

Mestre em Educação (UNIMEP)
Atua no Instituto de Psiquiatria Américo Bairral, Itapira, SP


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