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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Psiquiatria

 

DIÁLOGO

 

A Abordagem Fenomenológico-Existencial em Psicopatologia
 
Fotografia tirada em 14/10/2000 no Rio de Janeiro - Brasil

 

O cenário é um Hospital Psiquiátrico em Lisboa quando inicia um diálogo entre 2 médicos residentes:

Luís - Ainda bem que te encontro. Sei que estiveste naquele seminário sobre psicoterapia existencial do Dr. Y e talvez me possas ajudar a compreender essas teorias complicadas sobre as quais tenho curiosidade, mas pouca informação disponível.

Marta - Frequento, com efeito, os seminários, mas não sei se estarei à altura de transmitir tudo o que lá é dito. Já tentaste ler alguma coisa sobre esta posição teórica?

Luís - Tentei, mas desisti rapidamente. O jargão técnico é igual ou pior do que o dos lacanianos! O em-si e o para-si, o nada da consciência, o ser-para-a-morte, a intencionalidade, a epoché. Não percebi nada, mas sinto que há qualquer coisa com interesse no meio de tudo isso, para a compreensão psicopatológica dos meus doentes.

Marta - No meio de tantas teorias abstractas, sente-se a necessidade de um retorno ao concreto, de olhar para as coisas directamente e vê-las tal qual são e se apresentam, um olhar livre de qualquer teorização prévia, pondo esta como que "em suspenso" ?

Luís - É isso mesmo, antes das teorias estão os fenómenos que queremos estudar e compreender, no nosso caso, os fenómenos mentais perturbados.

Marta - Concordarás então que, para serem vistos tal qual são, estes fenómenos têm de ser desligados de toda a "ganga" que os rodeia e oculta, de modo a poderem ser intuídos no que têm de essencial?

Luís - Sim, decerto.

Marta- Mas é nisso que consiste o método fenomenológico proposto por Husserl!

Luís - Ah, sim?! É mais simples do que pensava. Mas já o fazemos ao estudar o DSM-IV. Há lá descrições puras, ateóricas. É isso a fenomenologia?

Marta - O DSM-IV valoriza o que é observável. Mas não concordas que para a compreensão do humano é mais importante a descrição do fenómeno tal como aparece à consciência do sujeito, refiro-me ao doente não ao observador?

Luís - Queres dizer que só assim é possível descortinar o sentido do sintoma ou fenómeno, para lá da sua mera descrição?

Marta - Sentido que é conferido pelo próprio sujeito, na medida em que a consciência é intencional.

Luís - Nunca percebi lá muito bem essa história. Então o sentido não é inconsciente?

Marta - Se quiseres recorrer a uma outra ordem da realidade... mas estamos a afastar-nos da fenomenologia. Não concordámos que devíamos permanecer no âmbito do fenómeno a estudar?

Luís - Sem dúvida.

Marta - Repara que se a consciência não é uma coisa, toda a consciência é consciência de alguma coisa. A consciência é como um foco que ilumina as coisas, está voltada para fora de si.

Luís - Estou a ver. É isso a intencionalidade.

Marta - Penso que a investigação fenomenológica não se fica pela descrição. É preciso perceber as suas implicações genéticas, descobrir o modo como o psíquico dá lugar ao psíquico, como queriam Minkowski e Von Getsabel.

Luís - Genética? Mas isso não é psicanálise?

Marta - Não se trata de relacionar com a infância, mas com o encadeado de fenómenos psíquicos. Descobrir a perturbação geradora.

Luís - Perturbação geradora? Mas as causas das doenças mentais são desconhecidas.

Marta - Não estava a pensar nem em causas nem em modelos explicativos. Recordo-me que combinámos olhar para as coisas sem lentes teóricas, ingenuamente, por assim dizer. A perturbação geradora é apenas o fenómeno que torna compreensível todo o conjunto. Façamos um exercício. O que é essencial na psicose?

Luís - O afastamento da realidade?

Marta - A perda da ancoragem ao real na bonita expressão de Merleau-Ponty. Para que o real seja "ancorado" é preciso que seja suportável, senão refugiamo-nos no delírio.

Luís - Ou na toxicodependência.

Marta - Ou noutra coisa qualquer. O peso da âncora pode ser maior ou menor. Mas na psicose há perda de contacto vital com a realidade, como dizia Minkowski.

Luís - É bonito! O delírio pode ser compreendido a partir da vida da pessoa.

Marta - Talvez não tanto da vida mas da sua existência.

Luís - Qual é a diferença?

Marta - A vida não sabe que vive, a sua única finalidade é aumentar a biomassa. Lembra-te da aventura da vida desde as primeiras células da sopa primitiva à constituição da biosfera. Muito do que fazemos situa-se no plano da vida. O humano escapa-se...

Luís - Há quem defenda que muitos dos nossos comportamentos, mesmo elaborados, se devem à estratégia da replicação dos nossos genes. Ora bolas, somos apenas um local de passagem dos genes.

Marta - Local de passagem de genes para uns, de significantes para outros, pouco importa, a nossa experiência imediata, indesmentível, é de que estamos no mundo e temos consciência dele, ser homem é ser consciente, consciente de si próprio e de estar no mundo, numa palavra, existir.

Luís - Mas os objectos não humanos, não existem?

Marta - Observa aquele carro mal estacionado, ali no local reservado às ambulâncias. Antes de ter existência real já tinha sido concebido na mente de um qualquer designer, a sua essência (que, neste caso, é forma de carro) precedeu a sua existência.

Luís - O homem quando nasce vem à partida com um certo equipamento genético. Por outro lado, nasce num certo espaço geográfico, numa certa classe social, numa certa família, tudo isso o condiciona.

Marta - Sim, deve condicioná-lo, mas não o determina. É livre de escolher o que fazer, em qualquer circunstância. Diria Sartre: Não interessa tanto o que fizeram de mim, mas o que eu faço com aquilo que fizeram de mim...

Luís - Essa da liberdade nunca me convenceu, quem me dera ser livre de fazer o que me apetece!

Marta - Não devemos confundir liberdade com omnipotência, não somos livres de determinar o que nos acontece, mas somos livres da nossa possibilidade de escolha de como agir face ao que nos acontece.

Luís - Há os condicionamentos exteriores. Num regime ditatorial, por exemplo. Sartre dizia que os franceses nunca foram tão livres como no período da ocupação alemã. Estavam claras as possibilidades de escolha. Colaborar com o inimigo, juntar-se à Resistência. E ainda a possibilidade de não escolher.

Marta - Não escolher é já uma escolha, tu viste o filme Assassinos Natos de Oliver Stone?

Luís - Vi.

Marta - A dada altura a protagonista feminina vinga-se do pai de quem sofreu abusos sexuais durante toda a infância e adolescência e decide matá-lo com a ajuda do seu comparsa. Seguidamente amarram a mãe desta a uma cama e ateiam-lhe fogo. Antes disso, a dita personagem diz à mãe qualquer coisa como isto: "tu nunca fizeste nada". A atitude de abstenção, passiva, a não escolha da mãe, traduzia-se na realidade pela conivência com a situação de abuso da qual tinha conhecimento, o que infelizmente se passa com grande parte das mães, quando há abuso dos filhos por parte do pai ou padrasto. Não escolher foi a sua escolha.

Luís - Começo a sentir-me angustiado.

Marta - É a angústia existencial. A liberdade angustia porque implica responsabilidade. A partir de agora não podemos responsabilizar ninguém pelos nossos actos, nem a nossa infância, nem o inconsciente, nem os genes, nem os neurotransmissores. Escolhemos, somos os únicos responsáveis.

Luís - Pelo que oiço, diria que sou também responsável por esta angústia. Fui eu que escolhi interrogar-te sobre o maldito seminário. Podia não o ter feito.

Marta - Estarias de má-fé, como alguns doentes que pretendem enganar-te ou mais frequentemente, enganar-se a si próprios. O eu que engana é também enganado.

Luís - Os doentes mentais estão de má-fé?!

Marta - Alguns estarão. Genericamente, digamos que a patologia mental limita a liberdade de ser e de vir-a-ser.

Luís - Sempre há limitações à liberdade...

Marta - Continuam a poder escolher... Mas a análise do dasein que podemos traduzir como ser-aí, para dizer ser-no-mundo, revela que há perturbação das categorias existenciais: corporalidade, espacialidade, temporalidade.

Luís - Pois compreendo. O hipocondríaco tem alterações da dimensão da corporalidade.

Marta - E o que achas do deprimido?

Luís - Não consigo ver...

Marta - O que é essencial na depressão?

Luís - Será a tristeza patológica?

Marta - Há depressões sem tristeza. Mas por que é que o deprimido está triste? Não será porque antecipa o seu futuro negativamente, sem esperança, e está preso ao passado pela culpa e pelo remorso?

Luís - Sim, é temporalidade, agora percebo.

Marta - Há uma inflexão do arco temporal. O deprimido está preso ao passado. E, já agora, o obsessivo, com o seu gosto pela ordem. "Um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar." Um mundo perfeito, mas morto, sem tempo, um eterno presente. Não te faz lembrar nada?

Luís - Certos doentes, mas também certos regimes políticos.

Marta - Dissemos que o delírio do doente pode ser entendido a partir da análise da sua existência, das escolhas que foi fazendo ao longo seu percurso biográfico, do seu projecto. Tive há pouco tempo internada uma doente, de raça negra, que entrou com ideias delirantes de perseguição e alucinações auditivas. Era uma boa empregada doméstica, mas a dada altura não permanecia por muito tempo em nenhuma casa, porque quando se deitava ouvia ruídos de aparelhagem na sua almofada. Para a doente, estes ruídos eram sinal de que os neo-nazis precisavam dela e queriam a sua colaboração para tomar o poder. Mediante a sua recusa, perseguiam-na, o que a levava a fugir, mudar de casa, de cidade. Vou poupar-te aos pormenores da vida desta mulher, as humilhações que sofreu, podes imaginar, uma negra em terra de brancos. Mas repara que, apesar de humilhada, era necessária. Era ela que limpava e arrumava tudo. Precisavam dela para manter o poder de a humilhar e perseguir. Não compreendes o delírio?

Luís - Sem dúvida. Também tive uma doente que se julgava a rainha de França. Era professora de História. Estudou a fundo a genealogia da Casa Real francesa e chegou à conclusão de que era a herdeira do trono. Tratava os pais, de aparência humilde, com frieza, alegando que não era filha deles, que não passavam de criados que a tinham adoptado. O espantoso é que, a dada altura, a doente diz-me: "Sempre soube que não era filha deles, a outra sim, é a verdadeira filha (referia-se à irmã). Sempre me trataram de maneira diferente. Eu era a enjeitada."

Artigo publicado in A Banha da Cobra? Ensaio sobre a Prática Psiquiátrica Contemporânea

Psiquiatra Victor Rodrigues
Professor de Psicopatologia do ISPA - Portugal
Editor do Caderno de Psicopatologia do Jornal Existencial On Line 


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