| EDIÇÃO ESPECIAL | Caderno de Temas Existencias | |
| ARTIGO |
| A Psicoterapia Existencial e as Transformações do Término do Milênio | |||
Quando Kierkegaard substitui o "penso, logo existo" de Descartes por "sinto, logo sou", acrescentando que pensar é tornar-se um espectador da vida(1), incentiva a reflexão que remete a uma possível conclusão: sentir é viver, então, em toda a sua plenitude. Essa alteração do paradigma da época foi responsável pela fundamentação do pensamento existencialista, e é a partir dessa afirmativa que desenvolve-se essa consideração. O final do século XX está trazendo consigo modificações fenomenais a todos os segmentos relacionais do ser. No segmento econômico, por exemplo, podemos observar a crescente participação da mulher, em termos mundiais, na população economicamente ativa. Hoje, 50% dessa população é formada por pessoas do sexo feminino. Rose Marie Muraro, em recente artigo afirma: "As diferenças entre o homem e a mulher (exceto as reprodutivas) não são biológicas, mas fabricadas pelo sistema econômico.(...) Uma delas é a vivência da subjetividade, mais valorizada pelas mulheres. Devido a seu treinamento para viver no domínio do privado, as mulheres tendem a ver as pessoas.(...) Com a entrada em massa das mulheres no âmbito público, elas trazem consigo também uma nova maneira de encarar a realidade objetiva, integrando-a com a subjetividade." (2) Essa tendência cria possibilidades para o surgimento de novas relações sociais, e por isso é preciso repensar todas as práticas até então realizadas; é indispensável estar atento a essa nova mulher e à sociedade advinda desta transformação. É necessário estar sensível às mudanças e visualizar antecipadamente as construções e reconstruções iminentes. Estudos variados sobre a condição da mulher têm demonstrado como se "naturalizou" a relação - mulher/ser fraco/ser emocional X homem/ser forte/ser racional. No mundo economicamente pautado na valorização da quantidade, o que importava era a força física para o trabalho braçal e por isso essa relação era extremamente salutar para os donos do capital, que assim, justificavam as diferenças salariais entre homens e mulheres que exerciam a mesma função. Porém, com o avanço tecnológico, o trabalho intelectual passou a ser mais valorizado; percebeu-se então, que algumas características reputadas como femininas (não necessariamente da mulher) fossem, talvez, a solução para o surgimento de relações sociais mais humanas e construtivas. Os paradigmas estão, novamente, em processo de mudança. A Psicoterapia Existencial, que visa facilitar a investigação do indivíduo por ele mesmo, precisa compreender este processo para realmente poder estar junto com o cliente neste seu co-nascimento. É necessário destacar-se que, se neste momento vive-se a época onde estão ocorrendo as maiores transformações da história da humanidade, e que o futuro dos psicoterapeutas existenciais será grandemente afetado por essas mudanças, suas atitudes hoje já devem prospectar o amanhã. É importante se perguntar: Quem é o meu cliente futuro? Que psicoterapeuta devo ser para poder atendê-lo? Que conhecimentos devo adquirir para poder acompanhar e compreender o que está por vir? Como posso reinventar o que faço hoje para poder estar junto com ele? Nesta linha de pensamento é preciso estar atento à afirmação de Luiz Marins: "A única certeza estável para o século 21 é a certeza que tudo vai mudar. A mudança é a maior característica de nosso tempo (...) É tempo de ser diferente, inovar, criar, mudar ou morrer." (3). É preciso construir o século XXI hoje! E é de fundamental importância que a Psicoterapia Existencial se adeque ao mundo globalizado e atenda aos problemas por ele gerados, sem estigmatizá-los, porém, com consciência de que devem ser encarados de uma forma localizada e especializada, ou seja, que o profissional descubra qual a clientela que quer atender para poder preparar-se para conhecer "o mundo" por ela vivido, tendo a clareza de que há singularidades nas vivências de cada indivíduo em especial, mas existem aspectos vivenciados pelo conjunto dos membros de um mesmo nicho, que devem ser considerados para melhor poder ajudá-los. Um exemplo atual é a discriminação sofrida pelos portadores do vírus HIV: mesmo que cada pessoa a encare de uma forma, em menor ou maior grau, "todos" serão afetados por esse tipo de comportamento social em relação à sua condição. Assim também, poderíamos nos aproximar, para citar outros exemplos, da condição dos portadores da Síndrome de Down, dos portadores de deficiências, dos usuários de drogas, dos desempregados crônicos ( excluídos do sistema econômico devido ao fim de suas profissões, entre outras razões), e de inúmeros outros "grupos" que possuem características comuns, mesmo preservando as suas individualidades. Faz-se necessário deixar claro, entretanto, que embora seja importante ter um conhecimento amplo, é muito difícil alguém conhecer tudo de tudo. Pode-se dizer inclusive, que é necessário conhecer pouco de tudo, mas é fundamental conhecer muito de pouco e ser um expoente em uma determinada questão. Sabe-se que o Existencialismo surge como contraponto à cisão cartesiana, que divide o homem em sujeito (razão) e objeto (emoção). Portanto, neste momento histórico, em que se retoma a valorização da intuição e da percepção como fundamentação para a reconstrução social, surge a condição do ser inteirar-se e ser. Abre-se espaço para a Psicoterapia Existencial revelar-se e cumprir o seu objetivo de facilitar a "investigação do indivíduo na busca de lhe fazer sobressair ou revelar, livremente, o que nele há de individual, particular, único e concreto." (4) Para concluir essa consideração, é importante frisar que com a crença de que nada é sagrado, acredita-se que tudo pode ser mudado e transformado para melhor, bastando para isso, ter-se a visão do futuro que se quer e a disposição para enfrentar as mudanças. Psicóloga
Maria Lúcia do Couto Figueiredo
(1) LESSA, J. M. A Prática da Psicoterapia Existencial. p. 17 (2) MURARO, R. M. Mulher e Poder: a que viemos?. Coluna: Tendências & Debates. 20/04/99 (3)
MARINS Fº, L. M. Mudar ou Morrer: o desafio empresarial do novo
século. (4)
LESSA, J. M. Idem. p. 42
LESSA, J.M. A Psicoterapia Existencial .7ª edição. Rio de Janeiro. 1998. apostila MARINS Fº, L.M. Vision 2005: o sucesso hoje não garante o sucesso amanhã Coleção Vídeo Business. São Paulo: Commit ------ . Mudar ou Morrer: o desafio empresarial do novo século. Coleção Vídeo Business. São Paulo: Commit MELLO, S.M. Os Fundamentos do Gerente Permanente. fita de vídeo. São Paulo: Coopers & Lybrand MURARO, R.M. Mulher e Poder: a que viemos?. Jornal Folha de São Paulo. Coluna: Tendências & Debates. 20/04/99 -------. A Mulher no Terceiro Milênio: uma história da mulher através dos tempos e suas perpectivas para o futuro. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1995 SAFFIOTI, H.I.B. O Poder do Macho. 2ª ed. Coleção Polêmica. São Paulo: ed. Moderna, 1987 Conheça os Psicoterapeutas Existenciais na Internet Para incluir seu nome clique aqui Psicólogo, inscreva-se no Curso à Distância: Curso de Introdução ao Existencialismo via Internet ou Correio |
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