| Psicóloga Teresinha
Peres |
Este
trabalho pretende, ao trazer à tona o tema Psicoterapia de Grupo,
abrir um espaço para que possamos discutir este método psicoterápico,
suas aplicações, validade e alcance, sob os fundamentos fenomenológico-existenciais.
Afinal, por que psicoterapia de grupo? Ou melhor, por que não psicoterapia
de grupo, se a situação de grupo proporciona uma compreensão mais
profunda do ser humano através das suas relações com o psicoterapeuta
e com os outros membros do grupo, iluminando-o de uma forma multidimensional?
Há quase unanimidade em considerar J.H.Pratt como o iniciador da psicoterapia
de grupo, em 1905. Ele trabalhava com pacientes tuberculosos, tendo
como objetivo acelerar a recuperação física destes por intermédio
de medidas sugestivas para que se estabelecesse um clima de recuperação
entre eles. Seguiram-se muitos outros, mas destaco dois nomes que
influenciaram marcadamente a história dos grupos no mundo.
J.L. Moreno e o Psicodrama
A contribuição de J.L. Moreno é peculiar e inovador.
Em Viena, trabalhou com grupos de prostitutas e crianças. Emigrou
para os Estados Unidos em 1925, introduzindo a técnica do psicodrama
neste país. Em 1942, fundou a Sociometric and Psychodramatic Institute
e a primeira Sociedade de Grupoterapia, a American Society of Group
Psychoterapy and Psychodrama, sendo seu primeiro presidente.
A psicoterapia de grupo, para Moreno, converteu-se em psicoterapia
da ação - Psicodrama - , penetrando, assim, segundo ele, em todas
as dimensões da existência.
Diz
Moreno: "Sinto-me deleitado e também divertido pelo feitio caprichoso
assumido pelo rumo que as idéias tomam, descobrindo nas deliberações
da filosofia existencial o conceito central que introduziu na psicoterapia
há 44 anos, desenvolvido ao máximo - o conceito de encontro significativo
e seu relacionamento com a existência".
O Psicodrama é um testemunho eloqüente da mudança da rigidez do divã
para a busca de novas possibilidades na relação terapêutica: a existência
humana, a intencionalidade da consciência e a ação, o encontro ( e
não a transferência ) entre os membros do grupo são privilegiados
neste caminho que pesquisa e valida a psicoterapia de grupo.
Carl Rogers e a Terapia Centrada no Cliente
Carl
Rogers (1902 - 1987) foi um dos mais importantes profissionais de
seu tempo, tendo escrito mais de 250 artigos, publicado em torno de
20 livros, além de ser difícil precisar o nº de horas gravadas em
aúdio e vídeo de suas entrevistas psicoterápicas. Essa produção inicia-se
em 1935, mas só começa a aparecer publicamente em 1940, num discurso
na Universidade de Minnesota. Neste, e em outros inúmeros artigos
que se sucederam, aparecem suas crenças e condições para uma experiência
terapêutica libertadora, aplicadas, a partir de mais ou menos 1965,
a trabalhos de grupos.
Rogers
cria os chamados "Grupos de Encontro" que são grupos vivenciais
que podem ser residenciais, - os participantes "moram" em
um local com infra-estrutura preparada para este objetivo durante
um final de semana, o que é mais comum, ou em períodos maiores, de
7 a 15 dias ou não residencias com duração de 1 ou 2 dias.
Nestes grupos, acompanhando as tendências da Terapia Centrada no Cliente
quanto à relação diádica o facilitador ou facilitadores do grupo (nome
que Rogers dá ao terapeuta de grupo) privilegiam o processo de relações
entre os participantes de grupo e a recrição da singularidade por
meio do encontro e do confronto entre as diferenças ("atitude
dialógica", de Buber).
Diferentemente
do modelo clínico de psicoterapia até então praticado, centra o trabalho
do facilitador na relação fenomenológica entre ele e os membros do
grupo e não na aplicação de teorias e técnicas.
E quais são, segundo Rogers, as atitudes do psicoterapeuta que facilitam
o aparecimento deste tipo de relação?
Ele
fala das seguintes condições facilitadoras básicas:
Empatia - Segundo penso, o facilitador precisa estar vivenciando uma
compreensão empática e exata do mundo interno de seu cliente e que
seja capaz de comunicar alguns dos fragmentos significativos dessa
compreensão. Perceber o mundo interior de sentidos pessoais e íntimos
do cliente, como se fosse o seu, mas sem jamais esquecer a qualidade
de "como se", é a empatia, e parece essencial para uma relação
que provoque o crescimento.
Aceitação
Positiva Incondicional - Se tudo que uma pessoa exprime (verbalmente
ou não verbalmente, direta ou indiretamente) sobre si mesmo, me parece
igualmente digno de respeito ou de aceitação, isto é, se não desaprovo
nem deprecio nenhum elemento expresso dessa forma, experimento em
relação a esta pessoa uma atitude de consideração positiva incondicional.
(Carl Rogers/G. Marian Kniget)
Congruência - Com esta condição, queremos dizer que
os sentimentos que o psicoterapeuta está vivenciando são acessíveis
a sua consciência, que é capaz de viver estes sentimentos, senti-los
na relação e capaz de comunicá-los, se isto for adequado. Significa
que entra num encontro pessoal direto com o cliente, encontrando-o
de pessoa para pessoa.
A partir, principalmente do legado de Moreno e de Rogers, podemos
pensar uma psicoterapia de grupo sobre bases existenciais considerando
que:
_ nos grupos terapêuticos, os participantes não são
vistos como representantes de mecanismos psíquicos mas sim como pessoas
que têm diversas maneiras de "estar no mundo"
_ num grupo terapêutico, os participantes têm a oportunidade de compreender
significativamente as dimensões da existência, por exemplo, a temporalidade,
a intencionalidade, a ansiedade, além da diversidade dos valores humanos
e das diferentes atitudes frente a existência.
_ na relação com o outro posso interagir com sua diferença, autonomia
e particularidades próprias, confirmando minha existência e a do outro
como única e singulares entre os seres vivos deste mundo; posso aprender
a viver em harmonia com essa diferença e a aceitar as condições ontológicas
da existência.
Afinal, como diz Buber:
"O Eu se cria na relação com o Tu".
Teresinha Perez
Psicóloga e Psicoterapeuta
Coordenadora do GPFE - Grupo Petropolitano de Psicologia Fenomenológica
Existencial
Referências
Bibliográficas:
1- Moreno, J.L. - Fundamentos do Psicodrama - Summus, 1983
2- Carl R. Rogers e Barry Stevens - De Pessoa para Pessoa - Livraria
Pioneira Editora - São Paulo, 1976.
3- Citado em Fonseca, Afonso H. Lisboa da - Trabalhando o Legado de
Rogers sobre os Fundamentos Fenomenológicos Existenciais - Maceió,
Gráfica Editora Bom conselho Ltda, 1998
4- Idem 2
5- Buber, Martin - Do Diálogo e do Dialógico - São Paulo - Perspectiva.
1984.
Bibliografia:
Além dos citados nas referências bibliograficas,
- Abordagem Centrada na Pessoa/John Keith Wood, Vitória, Editora Fundação
Ceciliano Abel de Almeida, 1994
- Grupo sobre Grupo - Luiz Alberto Py et alli - Rio de Janeiro. Rocco,
1987.
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