EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias

 

ARTIGO

 

Reflexões Sobre o Encontro na Relação Psicoterapêutica Fenomenológica Existencial
Psicóloga Teresinha Perez

A existência humana é, em seu nível mais fundamental, inerentemente relacional. Por isso, a psicoterapia fenomenológica existencial enfatiza a relação inter-humana, de pessoa a pessoa, um ser frente a outro ser, o encontro. Encontramos referência sobre o encontro na obra de Binswanger através de um dos modos de ser a partir dos quais o Dasein se revela e que se exprimem, para ele, através da dualidade, pluralidade e singularidade. O modo dual "existe no ser-em-relação-de-reciprocidade, tanto no amor como na amizade, uma penetração de um no outro e não somente uma postura de um ao lado do outro. Essa unidade na dualidade é possível porque o princípio organizador que rege a relação entre um e outro é o encontro" (Giovanetti - 1989). Também Medard Boss, ao rejeitar o conceito de transferência, insiste na necessidade da existência de uma relação inter-humana autêntica entre o psicoterapeuta e seu cliente.

Que outro significado ainda podemos dar à palavra encontro? Giovanetti reserva o termo encontro "para uma situação onde o outro (aquele com o qual entro em relação) afeta, de alguma maneira, o curso de minha existência, principalmente na dimensão em que ele (o outro) me faz crescer. É assim que, na perspectiva existencial, a relação entre o terapeuta e o "cliente" deve ser vista como um encontro, pois ela traz no seu bojo, com todas as suas especificidades, o questionamento do status quo do meu dia-a-dia e desenvolveria um número imenso de comunicações que provavelmente vão mudar o rumo da minha vida". Essa definição de encontro especifica a relação terapêutica, diferenciando-a de outras relações que temos em nosso cotidiano. Ainda, segundo Giovanetti, "posso ter duas maneiras de vivenciar um encontro:
- se com minha resposta o outro vai ser para mim um simples objeto do meu desejo, a relação será objetal.
- se, por outro lado, com a minha resposta o outro vai ser para mim - e eu vou ser para o outro - uma pessoa, o tipo de relação será o que chamamos relação pessoal."

Estas duas formas de encontro, a primeira a visão do outro como objeto acabado e não como uma estrutura existencial; a segunda, a visão do outro como pessoa, como es-trutura inacabada, que se desvela e se recria, com quem estabeleço uma relação interpessoal, tem uma correspondência com os conceitos EU-ISSO e EU-TU, em Buber.

É impossível falar de encontro sem considerar a obra de Martin Buber, filósofo austríaco que pensa o homem como um ser: que se constitui como ser humano através do ''entrar em relação'', que fundamenta sua existência a partir do seu atuar no mundo, que é a expressão da linguagem que usa. Sua grande contribuição à filosofia foi a de ter feito uma ontologia da relação, ocupando-se com o que de essencial acontece entre os seres humanos e entre o homem e Deus. Acredita, ainda, que é através da palavra que o homem se introduz na existência.

Buber destaca duas possibilidades do EU revelar-se como humano: através do relacionamento EU-TU e do relacionamento EU-ISSO. Sobre a relação entre eles, diz Buber: ''O ISSO é a crisálida, o TU a borboleta. Porém, não como se fossem sempre estados que se alternam nìtidamente, mas, amiúde, são processos que se entrelaçam confusamente numa profunda dualidade". Eu-Tu e Eu-Isso são chamados por Buber de palavras-princípio e ele ressalva que "não há Eu em si, mas apenas o Eu da palavra-princípio Eu-Tu e o Eu da palavra princípio Eu-Isso." É novamente a afirmação de que o homem é um ser em relação, ser-com o mundo.

O reino do Isso, o domínio do Isso, acontece quando eu percebo, experimento, quero, sinto, penso em alguma coisa. "O mundo como experiência diz respeito à palavra-princípio Eu-Isso", diz Buber, acrescentando que "a palavra princípio Eu-Tu fundamenta o mundo da relação". Embora Buber, às vezes, se refira ao modo de ser Eu-Tu como relação plena, imediata e que engloba a totalidade do ser, ressalto que ambas as palavras-princípio fazem parte da existência humana e são inseparáveis Quanto à relação psicoterápica, ela deve ser uma busca permanente do modo de ser Eu-Tu que inclui a afirmação do outro como pessoa, o reconhecimento que terapeuta e cliente são o mesmo tipo de ser, além de uma postura fenomenológica que, através da epoché, propicie uma abstenção de julgamento para que o cliente possa ser encontrado sem obstáculos, na sua singularidade.

Bibliografia

Giovanetti, J. P. -
O existir humano na obra de Ludwig Binswanger - I Encontro Brasileiro de Análise Existencial Terapêutica - 1989
Giovanetti, J. P. -
Encontro na perspectiva terapêutica existencial - III Encontro Brasileiro de Análise Existencial Terapêutica - B.H.M.G.
Buber, Martin (1979) - Eu e Tu - São Paulo, Editora Moraes
Buber, Martin (1982) - Do dialógo e do dialógico - São Paulo - Perspectiva.
Boss, Medard - Psychoanalysis and Daseinsanalysis - New York, Basic Books, 1963


Teresinha Perez
Psicóloga e Psicoterapeuta
Coordenadora do GPFE - Grupo Petropolitano de Psicologia Fenomenológica Existencial


Conheça os Psicoterapeutas Existenciais na Internet

Para incluir seu nome clique aqui

Psicólogo, inscreva-se no Curso à Distância:

Curso de Introdução ao Existencialismo via Internet ou Correio

Estude sem sair de casa

LIVROS RECOMENDADOS

 

©1999 - Todos os direitos reservados à SAEP - Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica Webmaster: Jadir Lessa: jadirlessa@msm.com.br

 

 Rua Conde de Bonfim, 370 Sala 1005 - Tijuca - Rio de Janeiro - RJ - CEP 20520-054 - Tel. (021) 2567-4420, Telefax (021) 2264-8615 e Celular (021) 9323-2129