| Luis
Ernesto Rodriguez Tapia (1) |
| |
RESUMO
Estudo teórico a respeito da relação conceptual entre descrição
e análise de uma história clínico psiquiátrica e compreensão histórico
historiográfica. Formula-se a tese de que existe sintonia conceptual
entre: a) descrição e análise numa história psiquiátrica e b) aspectos
da compreensão histórico historiográfica. Procede-se à descrição
e interpretação de itens estruturais de uma história psiquiátrica
em relação a aspectos da compreensão histórico historiográfica em
bases analítico existenciais. Conclui-se que a tese do estudo mostra
fundamentação adequada.
UNITERMOS: história psiquiátrica; anamnese; historiografia; existencialismo.
1 INTRODUÇÃO
Por princípio ético, uma história de tratamento anterior ou uma
hospitalização como usuário não deverão por si mesmas justificar
qualquer determinação presente ou futura de um transtorno mental;
a determinação de que uma pessoa é portadora de transtorno mental
deverá ser feita de acordo com padrões médicos aceitos internacionalmente
(2).
No que segue, é explorada a relação conceptual entre itens estruturais
de uma história clínico psiquiátrica e aspectos da compreensão histórico
historiográfica.
Isto, visando promover um diálogo possível a partir de uma preocupação
humanística em comum.
2 TESE DO ESTUDO
Formula-se a tese de que existe sintonia conceptual entre: a) descrição
e análise numa história psiquiátrica e b) aspectos da compreensão
histórico historiográfica.
Tese, a ser fundamentada em bases analítico existenciais.
3 HISTÓRIA PSIQUIÁTRICA E COMPREENSÃO HISTÓRICA
3.1 História psiquiátrica
História psiquiátrica (3) é o registro da vida do paciente, que
permite ao psiquiatra compreender quem o paciente é, de onde vem
e para onde irá, provavelmente, no futuro. A história é a própria
narrativa da vida do paciente contada em suas próprias palavras,
sob seu próprio ponto de vista.
A obtenção de uma história detalhada e abrangente de um paciente
é essencial para a confecção de um diagnóstico correto e formulação
de um plano de tratamento específico e eficaz.
Uma história psiquiátrica pode ser estruturada em cinco itens essenciais:
1) Dados de identificação
2) Queixa principal
3) História da doença atual
4) Doenças anteriores
5) Historia pessoal pregressa (anamnese).
Itens estes, explicitados a seguir.
1) Dados de identificação
Estas informações oferecem um resumo demográfico relativo ao paciente,
visam características potencialmente importantes do paciente que
podem afetar o diagnóstico, prognóstico, tratamento e adesão ao
tratamento.
2) Queixa principal
A queixa principal enuncia o motivo da busca de auxílio. Deve ser
registrada incluindo-se uma descrição da pessoa que ofereceu as
informações, caso o paciente não consiga falar.
3) História da doença atual
Esta parte da história psiquiátrica oferece um amplo quadro abrangente
e cronológico dos eventos que levaram até o atual momento na vida
do paciente. A evolução dos sintomas do paciente deve ser determinada
e resumida de uma forma sistemática e organizada.
Quanto mais detalhada a história da doença atual, mais provavelmente
o médico fará um diagnóstico acertado.
4) Doenças anteriores
Esta seção da história psiquiátrica é uma transição entre a história
da doença atual e a história pregressa pessoal do paciente (anamnese)
onde são descritos episódios passados de doenças tanto psiquiátricas
como médicas.
Deve-se dar especial atenção ao primeiro episódio que assinalou
o início da doença, já que os primeiros episódios freqüentemente
podem oferecer dados cruciais sobre eventos precipitadores, possibilidades
diagnósticas e capacidade de manejo.
5) História pessoal pregressa (anamnese)
Além de estudar a doença e a situação atual de vida do paciente,
o psiquiatra precisa entender completamente a vida pessoal do paciente
e seu relacionamento com o problema apresentado.
A anamnese é geralmente dividida nos principais períodos de desenvolvimento,
as emoções predominantes associadas com os diferentes períodos de
vida devem ser anotadas.
Itens estes, a serem ulteriormente recapitulados.
3.2 Compreensão histórica.
Dentre as significações de compreensão de história (4) ter-se-ia:
1) "passado" sem efeito sobre o presente, e também o contrário,
o "passado" que ainda surte efeito sobre o presente "aqui
e agora real";
2) "proveniência", o contínuo de acontecimentos e influências
que atravessa o passado, o presente e o futuro;
3) transformações e destinos dos grupos humanos e de sua cultura;
4) histórico, o que é "legado" na tradição, quer seja
conhecido historiográficamente,
ou admitido como evidente, ou ainda velado na sua proveniência;
Reunindo ter-se-ia: "história" é o acontecer específico
do ser humano que se dá no mundo; acontecer que inclui o "passado"
sem efeito sobre o presente e o "legado" que ainda influi
na coexistência social.
Com base nestas significações de "história" procede-se
a recapitulação ou interpretação dos itens estruturais de uma história
psiquiátrica.
4 RECAPITULAÇÃO
4.1 Aspectos conceptuais
História psiquiátrica foi definida como registro da vida do paciente,
que permite ao psiquiatra compreender quem o paciente é, de onde
ele vem e para onde provavelmente irá no futuro.
Isto, estaria em sintonia com a compreensão de história enquanto
"proveniência" ou contínuo de acontecimentos e influências
que atravessam o passado, o presente e o futuro.
Por sua vez, quanto aos itens estruturais de uma história psiquiátrica,
ter-se-ia o que segue.
1) Dos dados de identificação
Já nos dados de identificação tem-se em vista características potenciais
do paciente que possam afetar o diagnóstico, prognóstico, tratamento
e adesão.
Isto, sugere sintonia com a significação de história enquanto "proveniência",
e enquanto "passado" que ainda surte efeito sobre o presente
real aqui e agora, visto acima.
2) Queixa principal
Este item enuncia o motivo da busca de auxílio, e inclui a descrição
de outros informantes que não o paciente. Ter-se-ia o sentido de
descrição efeito no "aqui e agora presente". A inclusão
de testemunha(s) teria sintonia com a significação de "história"
enquanto acontecer específico do ser humano que se dá no mundo.
3) Da história da doença atual
Este item da história psiquiátrica oferece um quadro cronológico
abrangente dos eventos que levaram até o momento atual na vida do
paciente. Isto, estaria em sintonia com a compreensão de história
enquanto "proveniência" ou contínuo de acontecimentos
e influências que atravessam o passado, o presente e o futuro.
4) Das doenças anteriores
Item da história psiquiátrica onde são descritos episódios passados
de doenças psiquiátricas e médicas. Isto, estaria em sintonia com
a compreensão de história enquanto "passado" que ainda
surte efeito sobre o presente aqui e agora real.
5) Da história pessoal pregressa (anamnese)
A anamnese é geralmente dividida nos principais períodos de desenvolvimento,
as emoções predominantes associadas com os diferentes períodos de
vida devem ser anotadas.
Este item também estaria em sintonia com a compreensão de história
como "passado" como "passado" que ainda surte
efeito sobre o presente "aqui e agora real".
4.2 Aspectos metodológicos
Na explícita descrição, ou registro de dados e informações nos itens
estruturais de uma história psiquiátrica tem-se, respectivamente:
1) os dados de identificação oferecem um resumo demográfico relativo
ao paciente;
2) a queixa principal registra o motivo da consulta e a descrição
de informantes;
3) na história da doença atual, a evolução dos sintomas do paciente
deve ser determinada e resumida de forma sistemática e organizada;
4) nas doenças anteriores são descritos episódios passados de doenças
tanto psiquiátricas como médicas.
5) na história pessoal pregressa a anamnese é geralmente divida
nos principais períodos de desenvolvimento, devem ser anotadas as
emoções predominantes associadas aos diferentes períodos de vida.
A interpretação, conforme citado em estudo historiográfico da visão
de mundo em hospital psiquiátrico (5):
1) começa com a ordenação ou agrupamento sistemático do material
de experiência segundo temas racionais ou coerências de sentido;
2) a seguir viria a interpretação psicológica ao colocar-se vida
anímica no material de experiência;
3) o material precisa ainda de um complemento de experiência, mediante
conclusões, analogias, pressupostos e teorias.
De modo geral interpreta-se o individual com base num todo já pressuposto
obtido, por sua vez, a partir do individual. Daí, as relações recíprocas
entre análise e síntese, indução e dedução em toda interpretação.
Origina-se, assim, o círculo hermenêutico inerente a toda interpretação.
Isto, estaria em manifesta sintonia com a dinâmica de compreensão
e interpretação histórico historiográfica.
Então, ter-se-ia, também uma sintonia metodológica entre; a) descrição
e análise numa história psiquiátrica e b) aspectos da compreensão
histórico historiográfica.
5 DISCUSSÃO
Indiscutivelmente a historiografia como toda ciência de fato depende
de uma concepção de mundo dominante (6). Isto, também se aplica
à ciência psiquiátrica.
O diálogo ora proposto a partir de uma preocupação humanística em
comum, teria por base uma concepção existencial de mundo.
Concepção de mundo, que conforme dito em estudo de experiência terapêutica
psiquiátrica e reconstrução existencial de mundo (7), envolve uma
visão teórica de homem em sociedade a ser ainda explorada. Isto,
também se aplica ao empenho de reconstrução histórico historiográfico.
6 CONCLUSÃO
Conclui-se que a tese de que existe sintonia conceptual entre: a)
descrição e análise numa história psiquiátrica e b) aspectos da
compreensão histórico historiográfica, mostra fundamentação adequada.
7 NOTAS
1 Luis Ernesto Rodriguez Tapia é Doutor
em Psicologia Clínica/PUC-SP, Pós-Doutorado em Psiquiatria/ FMRP-USP,
Assistente Social, Professor Titular Depto. de Clínica Médica/ Faculdade
de Medicina, Universidade Federal de Uberlândia.
2 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução No. 1407 de 08 jun. 1994.
Diário
Oficial, Seção 1, p.8799-8802, Brasília, jun. 1994.
3 KAPLAN, H.I., SADOCK, B.J., GREBB, J.A. Compêndio de psiquiatria:
ciências do
comportamento e psiquiatria clínica. Porto Alegre: Artes Médicas,
1997, p. 263-264.
4 HEIDEGGER, M., Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 183-184.
5 TAPIA, L.E.R., CONTEL, J.O.B., CAMPOS, M.A., Visão de mundo em
hospital dia
psiquiátrico: exegese existencial de textos científicos da equipe
terapêutica.
Jornal Brasileiro de Psiquiatria. vol. 46, n. 4., p.223-226, Rio
de Janeiro, abr. 1997.
6 HEIDEGGER, M., Ser e tempo. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 199.
7 TAPIA, L.E.R., CONTEL, J.O.B., Experiência terapêutica grupal
e reconstrução
existencial de mundo do paciente: casuística em hospital dia/FMRP-USP.
Jornal
Brasileiro de Psiquiatria. vol. 45, n. 10., p.581-584, Rio de Janeiro,
out. 1996.
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