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EDIÇÃO ESPECIAL CADERNO DE EDUCAÇÃO
 
Artigo
 
Celebrando Merce Cunningham

 

Celebrando Merce Cunningham

Por Denise Zenicola
NO PALCO
Dia 24 de março de 1992.
Hora: 20h
Programa: Change of Address, Inventions (1989),
Trackers (1991), How to pass, Kick, Fall and Run
Local: City Center Theater,131 w 55st

No programa, uma antiga coreografia, "How to pass, Kick, Fall and Run" e uma música peculiar; no fosso da orquestra um grande número de instrumentos eletrônicos sintetizadores, fios e cabos eletrônicos, mais sintetizadores, amplificadores e muito mais. Johm Cage levanta-se e agradece, por mais de 5 minutos, os aplausos e começa a falar.
Em cena, oito bailarinos da Companhia Merce Cunningham iniciam as primeiras formas da coreografia, estreada há muito tempo. Áo invés de tocar, John Cage conta histórias sobre Cunningham, como um encontro que teve com um Hindu Sarabhai onde conversaram sobre dança, de um patrocínio recebido pela companhia, ocasião em que Cunningham, ao ser perguntado o que faria com o patrocínio recebido, afirmou que comeria.
No palco, os bailarinos continuam a executar a coreografia com precisão. Então, entra em cena o próprio Cunningham, já idoso, (amparado por um andador locomove-se com dificuldade entre os demais). Merce, com mais de setenta anos nesta época, faz mais uma das suas famosas intervenções em momentos do espetáculo, como Hitchcock em seus filmes e alguns mecenas de pintores primitivos em seus quadros.
Mantendo o ritmo da fala, Cage, diz: _ "Um dia, enquanto Merce varria o estúdio na rua 14, chamaram à porta. Ao abrir, dois homens apresentaram-se como inspetores municipais e que queriam falar com o responsável. Merce respondeu: sinto, eu aqui só venho limpar..."
Este é um típico exemplo da relação entre Merce Cunningham e John Cage. Esta coreografia dura aproximadamente uns vinte minutos. Uma dança rápida, ágil_ como seu título indica_ em cujo curso, enquanto os bailarinos dançam, John Cage conta histórias, anedotas, pequenas cenas do cotidiano. O tom do inusitado e do humor é que cada história deve durar aproximadamente um minuto; de maneira que, se a história é contada em poucas palavras ou é curta, deve ser narrada lentamente ou, se inversamente a história for muito longa para ser contada em apenas um minuto, Cage deverá contá-la a toda velocidade.
Ao terminar a apresentação, a maioria da platéia aplaude emocionada, por longo tempo; algumas pessoa ficam de pé em silêncio e outras saem apressadamente, felizes por se livrar das falas, ruídos e som dodecafônico, ainda considerados estranhos, de John Cage.

NA AULA
24 de março de 1992
Hora: 16H30
visita a Merce Cunnigham Dance Company-
Local: 55 Bethume Street
at Washington, NY, NY.

Neste mesmo dia, durante a tarde, tive a oportunidade de assistir à aula da companhia. Uma aula técnica. Alongamento, Barra Solo, exercícios no centro e deslocamentos em diagonal. A aula começa com exercícios que exploram completamente cada articulação e estabelece modelos básicos de movimento para coluna e braços, quadril e pernas, cabeça e torso para fora. Na parte final da aula, combinações de novos movimentos são introduzidos com tempo e orientação no espaço não convencionais. O peso do corpo muda subitamente em combinações que trocam de direção. As seqüências são quebradas, adicionadas, recombinadas e variadas, na diagonal. As correções na classe partem do movimento e do tempo utilizado e são também designadas para encorajar os praticantes a aprender as novas seqüências rapidamente, retendo o máximo possível e adaptando a diferentes espaços caminhos ou duração.

NA CRIAÇÃO

Cunningham elabora suas complexas coreografias sozinho em seu estúdio. Para ele, fazer dança é uma atividade privada, não social e ele é descrito como recluso e silencioso, enquanto está neste processo de criação coreográfica. O resultado deste trabalho solitário assemelha-se a uma grande bricolage; ele aproveita o que está à sua disposição. Ele faz diagramas que ajudam a determinar seqüências e organização do grupo. Cunningham trabalha com seus dançarinos tentando alcançar novos movimentos e anotando-os. Ele trabalha pensando concretamente sobre espaço abstrato, tempo e movimento humano. Atividades combinadas que produzem dança. Como Balanchine, Cunningham vê a si mesmo mais como mestre artesão que criador; Cunningham contudo, não tenta fazer a dança perfeita, só arranja movimentos em dança.
Quando ele fala sobre sua técnica de dança, Cunningham como Graham, refere-se ao corpo como um instrumento e em técnicas de equipar o corpo do dançarino, como um meio de expressão. Mas, o que pode expressar o corpo para Cunningham? Diferente do corpo de Graham, que expressa quase sempre realidades da psique, o corpo de Cunningham expressa somente um jeito de movimento. Mais próximo de Balanchine que de Graham, Cunningham acredita que "é sobre comprimento e largura e palmos de um corpo sustentado em ação muscular que a dança invoca imagens" Para os dois coreógrafos a significação da dança começa de movimentos próprios um tanto da relação entre movimento e psique. No entanto, Cunningham também difere radicalmente de Balanchine em termos de imagem da dança. Onde Balanchine desenvolve o espetacular, virtuoso dispositivo do corpo perfeito, Cunningham apresenta a atividade diversa de um corpo articulado. A técnica de Cunningham tem suporte na visão da dança através da investigação no corpo de movimentos possíveis, e não necessariamente belos. Cada parte do corpo pode mover-se de maneiras específicas e áreas do corpo participam em modelos organizados de movimento com outras áreas. Porque todos os movimentos de todas as partes do corpo são igualmente interessantes, cada movimento pode ser desempenhado com concentração, plenitude e consciência direcionando-se no espaço. O resultado é uma coreografia completa de novas situações. Seu interesse em movimento tem resultado em aproximar composições de dança ligando de intuição e jogo a estruturas de bricolage e troca. Ao fazer dança, pode usar métodos aleatórios para determinar qualquer ou todos os segmentos: os movimentos têm a sua própria ordem, seu caminho espacial ou direção; o número de dançarinos, entradas e saídas; o comprimento a e ordem da parte da dança. Cunningham tira de si mesmo a decisão do que fazer sobre a dança e assim permite, por não antecipação, descobrir sobre novos movimentos e novas organizações.

NA PRÁTICA

Em 2002, quando sua companhia celebra 50 anos de existência, para efeito de estudo, podemos afirmar que o trabalho de Merce Cunningham, no conjunto da obra produzida em parceria com John Cage, tem cinco características principais: recusa das formas expressivas; descentralização do espaço cênico; independência formal entre música e movimento; a introdução do acaso na coreografia; a decomposição das seqüências "orgânicas" dos movimentos.
Segundo Copeland e Cohen, críticos e historiadores de dança têm usualmente dividido a dança em categorias. A partir deste século, a dança foi separada em dois grandes gêneros antagônicos: o ballet e a dança moderna. Mais recentemente, durante os últimos 15 ou 20 anos uma terceira outra designação, o pós-moderno, também foi adicionado. Merce Cunningham é uma figura que transita entre a dança moderna e a pós-moderna (1989)(1). Estas cinco características na sua obra são certamente as responsáveis no estabelecimento deste seu acesso precoce para a pós-modernidade.

1- A recusa das formas expressivas (esvaziar o movimento)
Embora muitas seqüências de movimentos requeiram grande destreza, as danças de Merce Cunningham não priorizam realizações virtuosas nem aludem a formas ideais de movimento. Ao invés disso, elas enfatizam a individualidade de cada corpo humano: cada forma do corpo que dança, estilo ou qualidade de movimento com seu "apetite por movimento" (Foster, 1986).
As linhas de movimento, embora pareçam com as clássicas, não têm as mesmas propostas do balé. Além do mais, não contam histórias, nem têm uma direção semântica. O foco de suas danças é o fato físico do corpo- o que braços e pernas, torso e cabeça podem fazer em relação ao tempo, espaço e gravidade.
Os movimentos na dança de Cunningham enfatizam o corpo articulado, combinando várias vezes as partes do corpo, de formas variadas. Movimento segue movimento sem preocupação de desenvolvimento, casualidade ou fluxo. Ocasionalmente os dançarinos movem-se em uníssono ou pausam para compor uma forma assimétrica.
Desta forma, com a negação de todo referente expressivo, ou seja toda motivação de sentimentos ou representações de movimento que não do próprio movimento, Cunningham usa a técnica do que chama de 'esvaziar o movimento'. Tal prática, similar à usada na Yoga, consiste em deslocar o ritmo do pensamento para os movimentos do corpo, partindo do controle da respiração. O ritmo do corpo não segue mais o pensamento e a respiração passa a acompanhar o ritmo dos movimentos(2).
Ao esvaziar o movimento da experiência da emoção, com suas representações desencadeando o movimento, Cunningham esvazia também o espaço da cena e, principalmente, o espaço do corpo entendido como um espaço emocional. Tal condição de dançar é conseguida ao forçar o bailarino a se concentrar no movimento puro, na "gramática" do movimento. A consciência do corpo prende-se na energia, articulações, movimentos, sem ater-se às emoções, fios condutores de narrativas ou afetos. Observa-se facilmente, como a expressão fisionômica claramente expressa, a grande concentração dos bailarinos em sua atividades. Eles olham atentamente, de forma difusa e alerta, eles concentram na sensação cinestésica do desempenho do movimento e do espaço a volta deles , e igualmente estão conscientes da audiência, dos outros dançarinos, além da sua própria atividade_ porque os movimentos representam nada mais que a si mesmos, o dançarino apresenta uma inexpressividade no movimento que parece obedecer a percepção de uma lógica intrínsica do próprio movimento vivido. E é desta forma que o bailarino ocupa-se da gramática do movimento. No entanto, para que a gramática do vazio possa "se tornar sentido", é preciso que preencha o vazio deixado por ela própria dando através da sua orientação um sentido para o movimento. A este estado, Cunningham chama de "consciência do corpo constituída pelo corpo de pensamento"; tal consciência dirige o movimento dançado. Para Cunningham cria-se um outro corpo onde há:

Essa exposição manifesta de energia, ou seja, de energia levada a uma intensidade suficientemente forte para fazer com que o aço se funda em alguns bailarinos, é a mais fascinante que existe. Não é o sentimento de alguma coisa, é a precipitação do espírito e do corpo numa ação tão intensa que, durante o breve instante considerado, o espírito e o corpo são apenas um ( apud Gil, 1999).

Apresenta-se desta forma a sua nova unidade de movimento. Este esvaziamento permite um outro preenchimento, um novo tipo de movimento passa a circular ou melhor "flutuar" na dança.

2- A descentralização do espaço cênico
No decorrer das coreografias de Merce Cunningham observa-se que freqüentemente os bailarinos andam dentro ou fora do palco explorando outros espaços. Mais comum ainda é estar andando com um grupo e, a qualquer momento, mudar abruptamente deste para outro. E começa aí uma nova seqüência ou repete-se a anterior.
Em suas coreografias, os bailarinos espalham-se por todo o espaço sem uma hierarquia, não há pontos de concentração únicos. Não há direções fixas, cada bailarino estabelece novas relações com o espaço a qualquer momento.
Para Cunningham, são os "indivíduos que se movimentam e se reúnem" "não se trata de heróis, nem de emoções, nem de estados de espírito, mas apenas de indivíduos". Logo, nada de identificação com o meio ambiente. Despojamento absoluto, porque o corpo do bailarino é "proposta e indagação" (apud Portinari, 1989).
Desta forma, a audiência é livre para observar através de variadas possibilidades de interpretação da dança. A super abundância de atividade no espaço associada com a sugestão das entradas e saídas em espaços diferenciados, que continuam atrás das fronteiras do espaço, insinuam uma sensação de múltiplas referências do mundo, inúmeras possibilidades.

3- A independência formal da música com o movimento
Para Cunningham a música e a dança constituem séries divergentes que só se encontram em certos "pontos estruturais", o que ele chama de uma "não - relação" (non relationship). Certamente a música não contribui na estrutura da dança pois, com seu próprio princípio ordenador, igualmente esquivo, nega qualquer relação entre ambas.
Sem dúvida, de todas as rupturas propostas por esta dupla, a que mais demorou a ser aceita foi esta e é, justamente esta, que melhor explica o sucesso do binômio Cage /Cunningham. Delfín Colomé, em uma das suas crônicas para a revista Dansa -79 em Paris observa:
A de Merce Cunnigham tem sido uma das poucas companhias que têm atuado nesta última temporada com música ao vivo. Para quem goste da música do nosso tempo, resulta em impressionante espetáculo contemplar a bateria de John Cage, a quem nos seus setenta anos e com uma artrite avançada tem restado um ápice de genealidade e sua incondicional David Tudor, junto a Martin Kalve y Takehisa Kosugi. Uma boa parte do público vaiou os músicos ao fim do espetáculo enquanto aplaudia fervorosamente a companhia, ficando demonstrado, ainda em 1984, não entenderam nada, não entenderam que Cunningham não pode entender-se sem Cage e sua banda, como também não pode compreender-se sem a plástica de Rauschenberg, Warhol, Stella, Johns, etc (1989).

A ruptura de Cunningham com a concepção tradicional das relações entre dança e música parte de um postulado muito claro. Para Merce Cunningham, a dança não é sentimento em movimento, é só movimento, no mais simples e excludente dos sentidos. E, uma vez separada de tudo que não seja precisamente movimento, separa-se também da música.
Desta forma, Cunningham libera a dança da obrigação de contar uma história, de manifestar um sentimento, seguir uma música ou de narrar uma idéia. Para ele é necessário conferir uma autonomia total, a fim de que a dança possa existir por si e ante si, sem outros recursos, restituindo ao movimento uma utilidade primária, um conteúdo em si do que havia se esvaziado ao longo da sua evolução.
"O tema da dança é a dança mesma", diz Cunningham. Com tal afirmação Cunningham não faz mais do que afirmar os princípios da pop-art onde a obra de arte não representa a realidade, e sim é uma realidade em si mesma.
Phillippe Soupault, já em 1928, escreveu sobre esta independência:
" Música e dança são duas artes que devemos considerar não como inimigas, e sim como irmãs. A essência de uma é totalmente diferente da essência da outra. A dança deve ter a liberdade de governar-se por suas próprias leis"(apud Colomé, 1989).

Foi preciso esperar mais alguns anos, até Cunningham se encontrar com Cage. Um encontro que hoje pode avaliar-se como um dos feitos mais importantes para a arte da dança do século XX.
Alguns fatores facilitaram tal encontro. Os músicos dos anos trinta não consideravam Cage como um dos seus. No entanto, os bailarinos eram capazes de utilizar seus sons, sem maiores problemas.
Por outro lado, Cunningham estava esperando quem reafirmaria suas idéias indicando-lhe sistemas e métodos em que basear as teorias. Este seria Cage.
Os pontos básicos de contato entre ambos criadores serão a dissociação radical da dança e da música e a utilização do acaso. Em Cage, Merce Cunningham fala a um músico disposto a trabalhar em sua mesma linha. Entre ambos, assinala Paul Boucier, existe "a sensação de um clima comum". É uma espécie de dupla cumplicidade mudando as convenções de todo tipo.
Para proceder a dissociação da música e da dança, Cunningham e Gage não tiveram problemas. Cunningham pede um tempo de música ( quinze minutos ou uma hora), Cage toca durante este tempo e pronto. E isto é tudo. Para isto não é necessário ensaiar conjuntamente e os bailarinos não escutam a música até o momento do ensaio geral. Cunningham e Cage provaram que esta possibilidade funciona bem.
Merce rebate o esquema clássico tradicional em um dos seus textos - em prosa poética- , estabelecendo em um dos seus parágrafos uma peculiar comparação:
É duro para muita gente
aceitar que a dança não tem nada
em comum com a música, a mais que
o elemento do tempo e a divisão
do tempo. O espírito pode dizer quão
belo é quando a música sugere,
ou explode em mil cores.
Mas no outro extremo pode ver-se
e escutar-se, na música que acompanha
os movimentos dos animais
selvagens nos filmes de Disney
Lhes rouba seus ritmos
instintivos e os reduz em caricaturas.
Certo é uma conciliação humana, mas o que não o é?
(apud Colomé, 1989)

4- A introdução do acaso na coreografia.
"O maior propósito é não ter propósito, viver apenas a natureza aleatória da vida. Olhar para o mundo e não para si mesmo", dizia Cage, ao falar de seu trabalho e de Cunningham. A dança de Cunningham traz a idéia de evento, situações que se arranjam conforme o acaso da vida. O conceito do acaso é conseguido através de mudanças aleatórias de seqüências, que parte mais de um sujeito que tem sentimentos pessoais e que os quer exprimir desta ou daquela maneira. Vez por outra, o uso do acaso impossibilita a conexão tradicional da música/coreografia, onde a música pontua tempos de espaço, ritmo e conexão com os outros bailarinos ou, freqüentemente, ainda coincidências ao acaso no ritmo ou textura das duas artes encontram-se em contrastes em suas dinâmicas e intensidade. O resultado não é caótico, mas real. O movimento é inovador, plenamente articulado, mas nem sempre gracioso ou deslumbrante.
O uso do acaso não faz mais que acentuar a convergência congruente dos resultados. Tais matizes, distingue James Klosty : "Para Cage, o acaso é uma via para desarmar o poder da vontade individual e iludir os ditados do gesto pessoal. Para Cunningham, em troca, é menos uma eleição filosófica que uma ferramenta pragmática e potente. Cunningham usa o acaso como poderia utilizar um ímã, para atrair possibilidades que estejam fora de seu alcance e dispor os materiais, como se tratasse de partículas de ferro, relacionando-os de maneira inaudita" ( 1975). Essas novas relações multiplicam as articulações tradicionais do movimento. O uso do acaso permite também novas possibilidades ao corpo de fazer movimentos ainda não explorados. Como diz Cunningham: "Era sem dúvida uma das razões pelas quais eu comecei a utilizar métodos do acaso na minha coreografia, a fim de quebrar os modelos ( patterns) pessoais de coordenações físicas memorizadas" (apud Gil, 1999). Desta forma, a incidência de hábitos pessoais e preferências é reduzida quando o coreógrafo não decide exatamente o que será feito em seguida, apenas como a decisão será tomada. Em algumas das suas peças, por exemplo, Cunningham inventa movimentos individuais a então arranja operações de troca para determinar sua seqüência tão bem quanto caminho espacial ou duração da seqüência. No entanto, na maioria das vezes, Cunningham coloca decisões como: se movimentos podem ser repetidos, qual caminho espacial- círculo, arcos, linha diagonal, zig zags- ocorrerão, ou que limite de tempo será, nas mãos dos bailarinos. Em conseqüência desta liberdade de escolha oferecida ao bailarino, Cunningham se desassocia da autoria da sua obra coreográfica. O resultado é um heterogêneo grupo de movimentos e a falta da simples mensagem autoral (3).
Os bailarinos de Cunningham trazem sua própria paixão e interpretação de dança em cada performance. Cunningham não dirige sua motivação para o movimento; ele apresenta as seqüências, direções e tempo; o dançarino refina o fraseado, compreende o valor de cada movimento e a lógica da seqüência, acoplando o movimento com um tempo preciso e apresenta a expressividade do movimento em si.

5- Decomposição das seqüências "orgânicas" dos movimentos
A presença do acaso permite ainda desfazer a organicidade do corpo: as seqüências ganham uma autonomia que vem da autonomia das partes do corpo. Movimentos fazem conexões com outros movimentos inimagináveis até então. Esta possibilidade vem ainda alterar o tradicional conceito de equilíbrio regido até então na dança. Como afirma Cunningham:
Isto compreende o problema do equilíbrio do corpo e a conservação de uma parte contra outra. Se utilizamos o torso como centro do equilíbrio e como eixo vertical, então a questão do equilíbrio estará sempre relacionada a esta parte central, os braços e as pernas se equilibrando mutuamente de cada lado de várias maneiras, e se movendo uns em oposição aos outros. Se utilizamos o próprio torso como força movente, permitindo à coluna se tornar a força de motivação numa mudança visual do equilíbrio, o problema será sentir o quão longe a mudança de equilíbrio pode ir em uma direção qualquer, e em uma combinação qualquer de tempo, e se mover então instantaneamente rumo a uma outra direção qualquer e em uma outra combinação de tempo qualquer, sem ter que quebrar o fluxo do movimento servindo-se do peso, quer graças a uma mudança real do movimento, quer graças a uma parada no tempo, quer devido a outros meios (apud Gil, 1999).

Desta forma, Cunningham pratica a possibilidade real da coluna do bailarino ser um eixo móvel, em constante movimento, obrigando, desta forma, uma constante alteração do eixo de equilíbrio em numeroso eixos móveis , um equilíbrio metaestável, como nomearia Deleuze, que decompõe o todo do corpo em partes. Desta forma, segundo José Gil:
Os movimentos atingem um ponto máximo de deformação e de assimetrias como se múltiplos corpos coexistissem num só corpo. Eis que a multiplicação das articulações permite instaurar, no mesmo instante, séries divergentes de movimento: as dos gestos desconectados de outros gestos em um mesmo corpo; a que forma cada corpo de um bailarino com relação a um outro corpo; as da música e dos gestos dançados, individuais ou de grupo (1999).

CONCLUSÃO

Assistir a um espetáculo de Merce Cunningham é uma rica experiência. O observador pode escolher entre cada uma das referências apresentadas e ocasionais fabricando incidentais narrativas, e pode navegar junto em significantes momentos da dança. Cada experiência de olhar é única, difícil, porque cada pessoa tem a sua herança de associações na dança e porque cada olhar pode literalmente fazer uma dança diferente. A interpretação do espectador na dança firmará a impressão de que o movimento humano é o sujeito da matéria. O que se vê é a existência do homem retratada como um corpo movendo-se - articulada, inteligente, passional. Isto, pode-se ver, é o que Cunningham tem em mente quando ele refere-se à dança como "um movimento imagem da vida".
Segundo Jacqueline Lesschaeve, Cunningham afirmou em uma entrevista concedida a ela que "sempre pensei que devia atacar ou perguntar tudo, em todas as direções. Não sei se consegui, mas sentia que deveria estabelecer simultaneamente as questões do movimento, do espaço do tempo, da música, das artes visuais para, ao mesmo tempo, permitir que cada elemento fosse mais interdependente e forte".
Partindo desta afirmação, pode-se compreender tanto a sua obra específica como sua contribuição global, em definitivo, a cerca da dança atual. A partir daí, Cunningham aplica uma rigidez quase religiosa. Neste sentido, ao falar de disciplina, com seu famoso bom humor teria dito : "Orar é muito bom para os joelhos o que é o mesmo para a dança contemporânea".
A série de rupturas promovidas por Cunningham não só preconizadas como também as efetivamente levadas às últimas conseqüências, fazem com que alguns estudiosos da Dança Contemporânea considerem que: a Dança Contemporânea não nasceu do mítico recital de Martha Graham 1, e sim quando Merce Cunningham consegue, depois de grande falta de entendimento, conectar com o público fazendo com que "o espectador revise seu próprio sistema de percepção ao admitir deliberadamente que as novas fórmulas de expressão podem estabelecer comunicação entre a obra de um artista e seu auditório"(4).
Entendemos que ambos Graham e Cunningham respondem a necessidades específicas, no tempo, sentidas pela dinâmica que fez evoluir a dança do século XX. Possivelmente o fenômeno Cunningham não teria lugar se não tivesse existido antes o fenômeno Graham. Contudo, o certo é que em Cunningham há mais ruptura do que em Graham, cujo estilo está mais preso aos termos clássicos em evolução do que aos termos de revolução.
Garaudy (5) dá conta do fenômeno Cunningham, situando-o na condição de ser o ponto zero, do gênesis, o princípio, ao dizer: "O que este estranho bruxo tem feito e dito, devia ser feito e dito. Constituía, em todos os planos, um passo necessário para o limite, primeiro ao ir ao extremo da abstração, depois para sair-se dela. Esta posto em dúvida, de forma radical, o postulado sobre o que a dança_ em todas as épocas e civilizações_ tem podido fundar-se. Trata-se de um momento necessário que nos leva, de alguma maneira, a um marco da dança e nos permite assim repensar seu sentido, seus princípios e seus métodos depois de fazer tábua rasa de todos os prejuízos". E ainda conclui, "Depois de amainar este ciclo, o céu ficou mais livre de não poucos miasmas e podemos ver mais claro" (1973).
Outro testemunho muito indicativo é o de Alfred Kazin, que em sua autobiografia New York Jew fala de seus encontros com os dois personagens, John Cage e Merce Cunningham, que o assombraram "por seu ar de viver só para a arte e a liberdade". Alfred cita "No exercício desta arte/liberdade, liberdade/arte, Cunningham, de acordo com a formulação de seus princípios, rompe com os vínculos tradicionais que ligam a dança com os conceitos de movimento, espaço, tempo, música e artes visuais".
Ao falar sobre sua obra, Merce Cunningham declarou: "Sim...desta forma soa tudo tão cerebral...mas para mim é bem mais como um encantamento: como um bosque encantado de coisas diferentes" (Cunningham,1968).


1- De 18 de abril de 1926, quando, em tal ocasião a crítica introduziu o termo Dança Contemporânea.
2 - Simpatizante da filosofia oriental, o zen budismo, Cunningham vê a arte não como modo de expressão de sentimentos
3- Uma das premissas de Cunningham, o uso do aleatório permite o estabelecimento de uma aproximação com a crítica literária recente, no que se refere A morte do Autor, estudos aprofundados na teoria literária por Roland Barthes e Michel Foucault.
4- Jacques Barril, em "La Danse moderne", Vigot Editions, París, 1977.
5- No Livro de sua autoria Dançar a Vida.


Merce Cunningham (1919) iniciou sua carreira como membro da Martha Graham Company. Após encontrar John Cage e sua música, trabalhar com ele no Black Mountain College e efetuar estudos sobre Zen Budismo aproximou estas duas experiências para seu trabalho coreográfico. Em trabalho de constante parceria com John Cage , Cunningham trabalhou com diversos compositores e artistas plásticos, incluindo Andy Warhol, David Tudor, Christian Wolff, David Behrman, Gordon Mumma, Robert Rauschenberg, Jasper Johns, e Remy Charlip. Seus concertos aconteciam de duas formas basicamente: apresentações formais e colagens experimentais, chamadas eventos, fazendo cortes de várias peças. Cunningham dirigiu sua escola em New York, coreografou várias peças, fez várias performances e participou com sua companhia de longas excursões pelo seu país e exterior. Várias publicações têm sido feitas sobre a obra de Merce Cunningham.


Referência Bibliográfica:
COLOMÉ, Delfín. O Indiscreto Encanto da Dança. Madri: Turner, 1989.
COPELAND, Roger e COHEN, Marshall. What Is Dance? New York: Oxford University Press, 1983.
CUNNINGHAM, Merce. Changes/Notes on choreography, New York: Else Press, 1968.
FOSTER, Susan L. Reading Dancing: Bodies and Subjects in Contemporary American Dance. California: University of California Press, 1986.
GARAUDY, Roger. Dançar a Vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1973.
GIL, José.O corpo do bailarino. Conferência apresentada em Columbia, New York: 1999.
KLOSTY, James. Merce Cunningham. New York: Review Press, 1975.
PORTINARI, Maribel B. História da Dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989.

 

 

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