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ANA
MARIA RIBAS CARDOSO
Rio de Janeiro
Agosto 2002
Resumo
Este artigo pretende comentar o lugar da avaliação institucional
no redimensionamento das instituições de ensino superior
no âmbito da realidade histórico-social brasileira, assumindo
como referência que a educação é um caminho
possível para resgatar e integrar a humanidade perdida do homem
ao longo do violento século XX.
Tal proposta delimitar-se-á, portanto, em torno do processo
de avaliação institucional no contexto universitário,
pensado a partir de dois eixos, a saber: o resgate da qualidade/excelência
dos aspectos pedagógicos (ensino) e administrativos (gestão
de recursos materiais, financeiros e de pessoal qualificado) e, a
esta coligada, a concretização de uma gestão
democrática que aceite a participação de toda
a comunidade acadêmica e permita a tomada de decisões
respaldada pelo princípio da autonomia.
Sob tais diretrizes, a exigir que alunos, professores e a universidade
sejam avaliados com responsabilidade e ética, é significativo
ressaltar que as instituições de ensino superior - para
além dos confrontos pelo poder e do legado do corporativismo
- podem colaborar efetiva e ativamente à construção
de um Brasil desenvolvido, socialmente justo, fraterno e aberto ao
diálogo amplo e responsável que se oponha ao Brasil
da falta de perspectiva, da injustiça social e da mesquinhez.
Neste sentido, a avaliação institucional não
pode ser encarada como um processo que se destina ao manuseio e à
aplicação de técnicas que visam medir resultados,
desempenhos e/ou produtos. Ela configura, a nosso ver, uma alternativa
capaz de gerir e suscitar novos debates no meio acadêmico, uma
vez que pode colaborar à transformação da mentalidade,
rever comportamentos docentes e discentes, reestruturar práticas
administrativas e possibilitar a reabilitação do diálogo
como prática de conhecimento.
I - Considerações Iniciais.
A nossa pretensão é comentar o lugar da avaliação
institucional - aqui entendida sob a dupla dimensão interna
e externa - no processo de (re) construção da universidade
contemporânea no âmbito da realidade histórico-social
brasileira.
Tal proposta encontra-se articulada à problemática de
redimensionamento das instituições de ensino superior
e, em conseqüência, a necessidade de (re) definir seus
novos papéis diante dos acontecimentos históricos que
abalaram a humanidade a partir das últimas décadas do
século passado. O historiador inglês Hobsbawn (1998:
25-6) tem razão ao afirmar que:
No fim deste século, pela primeira vez, tornou-se possível
ver como um mundo em que o passado, inclusive o passado no presente,
perdeu seu papel, em que os velhos mapas e cartas que guiavam os seres
humanos pela vida individual e coletiva não mais representam
a paisagem na qual nos movemos, o mar em que navegamos. (...) Olhando
para trás, vemos a estrada que nos trouxe até aqui.
Não sabemos o que moldará o futuro... Esperemos que
seja um mundo melhor, mais justo e mais viável. O velho século
não acabou bem.
É
inegável, diante disso, que a educação tem um
papel histórico a cumprir nas sociedades contemporâneas,
colocando-se como instrumento, senão de mudanças radicais,
porém de resgate dos vínculos humanos e , do mesmo modo,
enquanto um caminho possível para resgatar e integrar a condição
humana. (ver MORIN, 2001).
Cumpre conhecer, segundo a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional os parâmetros que norteiam a organização
do sistema educacional em nosso país, especialmente da 'educação
superior' (ver DEMO, 2001) que, durante tantas décadas, viu-se
premida pela burocratização e pela falta de compromisso
com a transformação social.
A delimitação do presente artigo compreende, portanto,
o campo da IES no Brasil, enfatizando o processo de avaliação
institucional como um instrumento para rever e aperfeiçoar,
quanto à dimensão externa, a qualidade dos serviços
e produtos prestados e, quanto à dimensão interna, as
relações sociais, humanas e interpessoais, buscando
inclusive a melhoria continuada dos integrantes da comunidade acadêmica.
(Cf. GADOTTI, 1999).
Tal perspectiva circunscreve dois eixos de discussão, a saber:
o resgate da qualidade dos aspectos pedagógicos (excelência
de ensino) e administrativos (gestão de recursos materiais,
financeiros e humanos) e - a esta articulada - a implementação
de uma gestão verdadeiramente democrática que aceite
a participação de todos os segmentos da comunidade acadêmica
e permita a tomada de decisões respaldada pelo princípio
da autonomia.
A par de tais diretrizes, sublinhamos que a IES pode colaborar ativa
e efetivamente à construção de um Brasil desenvolvido,
educado, fraterno e aberto ao diálogo amplo e responsável
que se oponha ao Brasil da falta de perspectiva, da injustiça
social e da mesquinhez.
II - O Lugar da Avaliação Institucional no redimensionamento
das Instituições de Ensino Superior.
A avaliação institucional não mais é vista
como um instrumento de controle burocrático e centralizador,
em conflito com a autonomia. Ela está sendo institucionalizada
como um processo necessário de administração
do ensino, como condição para a melhoria do ensino e
da pesquisa e como exigência da sociedade democrática.
Mesmo assim, ela encontra resistências. (...) Não se
constitui numa prática constante. É algo a ser instituído
num instituinte onde não existe muita cultura da avaliação.
(...).
Moacir Gadotti.
Muito se tem refletido a respeito das novas perspectivas da educação
nacional como um todo, suas necessidades e possíveis soluções.
Neste sentido, a IES - à luz das contribuições
do processo de avaliação institucional - precisa comprometer-se
com a busca permanente da excelência dos cursos de graduação
e pós-graduação e transformar-se, para além
dos confrontos pelo poder, em um lugar de troca instigante de idéias
e criação e (re) criação do conhecimento
humano, premissa esta que subjaz à necessária articulação
ensino-pesquisa.
Isto porque o compromisso fundamental é com a formação
de alunos capazes de se inserirem crítica e humanamente na
realidade histórico-social circundante, principalmente quando
vivenciamos, na contemporaneidade, os desdobramentos das orientações
políticas neoliberais que vêm definindo para o sistema
universitário critérios de 'qualidade' segundo a ótica
empresarial (Cf. VAIDERGORN, 2001) ao mesmo tempo em que, numa dimensão
macro, multiplicam as desigualdades sociais, acentuam as nossas carências
seculares e legitimam o mercado como locus das relações
sociohumanas.
A avaliação institucional, nesse contexto, tem importantes
contribuições a oferecer na busca do redimensionamento
da IES. Como uma área recente no campo da educação,
ela difere sobremaneira da avaliação educacional, pois
intenta avaliar e/ou acompanhar políticas, planos ou projetos
institucionais (Cf. NASCIMENTO, s/d). Enfim, ela se destina a avaliar
sistemática e continuamente as ações desenvolvidas
pela IES, a partir de duas dimensões que forçosamente
interagem entre si, a saber: a dimensão técnico-administrativa
e a dimensão técnico-pedagógica.
Sob tal perspectiva, a avaliação institucional julga
e acompanha - respeitando a identidade da instituição
- o desempenho, o resultado e o produto do processo educativo, não
se reduzindo jamais a uma mera aplicação de técnicas,
nem a quantificação dos dados obtidos. Por isso, concordamos
que:
A avaliação entendida como um processo deve atender
uma tríplice exigência: (a) é um processo contínuo
de aperfeiçoamento de ensino; (b) uma ferramenta para o planejamento
e gestão compartilhada da escola e (c) um processo sistemático
de prestação de contas à sociedade. (NASCIMENTO
& NUNES, s/d: 50)
O
objetivo global é revisar modelos e práticas pedagógicas
e administrativas vigentes em diversas instituições
de ensino superior , merecendo destaque as concepções
que informam e embasam a política, os projetos e programas
institucionais, as formas de transmissão do saber, o que incide
diretamente sobre a proposta de educação adotada, e
os próprios mecanismos que avaliam a utilização/
apropriação dos serviços e produtos oferecidos
pela instituição.
Avaliar é bastante diverso de medir a produtividade através
da quantidade de produtos ou da eficiência mediante aplicação
de provas, testes e/ou questionários. Estas formas autoritárias
e restritas de avaliação não dão conta
da riqueza do ser humano, nem levam em conta a complexidade das relações
sociais e humanas que caracterizam a vida universitária no
mundo atual.
Por isso, não basta, somente, sugerir a avaliação
institucional como um dos caminhos para discutir a reconstrução
da universidade. É imperativo definir com clareza os seus critérios
a serem obrigatoriamente presididos pelo princípio da autonomia,
respeitando a diversidade e a heterogeneidade que caracterizam a universidade
e o trabalho docente (Cf. GADOTTI, idem: 5).
A avaliação institucional deve a priori se constituir
em um processo descentralizado e diversificado, não podendo
se fundamentar em critérios uniformes e reconhecendo que a
multiplicação das formas de avaliação
favorece a democratização do processo ao invés
da rigidez burocrática.
Outrossim, cabe destacar que a ênfase à autonomia como
um dos pilares da gestão democrática da IES implica
em exigir e aceitar que alunos, professores e instituição
sejam avaliados. Por um lado, no que se refere ao contexto mais amplo,
trata-se de prestar contas à sociedade que arca, financeiramente,
com a educação que recebe, e, por outro, no que tange
à dinâmica interma, a intenção é
realimentar a processo educativo, a fim de rever objetivos e reformular
estratégias (Cf. NASCIMENTO e NUNES, idem: 49).
Uma avaliação prioritariamente quantitativa traz resultados
estáticos, porque não articula, dialeticamente, a IES
à sociedade da qual faz parte, nem capta a realidade sociocultural
de todos os segmentos da comunidade acadêmica, descontextualizando-se.
Defendemos, portanto, uma avaliação institucional democrática
e participativa. Ela proclama uma prática transformadora, capaz
de introduzir diferentes abordagens para a IES, buscando a qualidade
dos serviços e produtos, através de um constante aperfeiçoamento
das áreas administrativa e pedagógica.
Mediante a avaliação diagnóstica, formativa e
qualitativa, bem como através de um processo coletivo de análise
e reflexão, a IES será capaz de se reconhecer enquanto
tal, estabelecendo democraticamente o seu projeto político-pedagógico
e institucionalizando os princípios ético-morais e culturais
em que deve se sustentar para enfrentar os desafios do século
XXI.
Logo os programas e projetos institucionais - alvo de infindáveis
discussões entre profissionais de diversas áreas do
conhecimento - não representam uma ação política
solitária, mas devem, ao contrário, englobar e ressignificar
a maneira da sociedade produzir, criar e difundir seus valores, bem
como contribuir à construção de uma IES baseada
na gestão democrática e na articulação
dinâmica e criativa ensino-aprendizagem.
A IES deve abrir caminho para a emancipação do conhecimento
e do próprio ser humano, ao invés de se constituir em
um lugar de planejamentos burocráticos rígidos e práticas
pedagógicas anacrônicas que viabilizam um saber compartimentado
e, muitas vezes, descontextualizado das vidas dos estudantes universitários.
A qualificação para enfrentar a competitividade do mercado
é necessária. A IES, não obstante, deve ter a
priori o compromisso com a formação do homem em suas
múltiplas dimensões, o avanço do conhecimento
e a construção de uma sociedade verdadeiramente democrática.
É em torno deste compromisso que a avaliação
institucional representa um caminho novo capaz de redimensionar práticas
administrativas e pedagógicas ainda vigentes, tendo como pilar
a gestão baseada na autonomia e na participação
efetiva da comunidade acadêmica.
III - Considerações Finais
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo,
a energia.
Clarice Lispector
Frente à nova realidade histórico-social que introduziu
mudanças nos modos de viver, trabalhar, produzir, pensar e
até mesmo sentir dos homens, e quando ainda buscamos 'como'
e 'para onde' seguir, (re) pensar as Instituições de
Ensino Superior à luz da avaliação institucional
pode oferecer uma alternativa ao modelo propagado pela modernidade
utilitária pregada pelos cânones neoliberais. Este modelo
supervalorizou a competitividade como rumo certo e legítimo
para o homem se inserir e participar, com sucesso, do mercado, acentuou
as nossas carências, colocou como um dos dogmas o domínio
da tecnologia e engendrou concepções e práticas
que se apropriaram da idéia de consumo fácil do ensino
/ saber. Isto acabou por desvincular a educação superior
das práticas científicas criadoras geradas nas atividades
de pesquisa .
A história recente da República brasileira mostra-nos
que, apesar das revisões legais da organização
de nosso sistema educacional, incluindo a proposta de gestão
democrática e autônoma dos recursos financeiros, materiais
e de pessoal qualificado, as IES, diante dos ventos globais a favor
do neoliberalismo, não articulam democraticamente docência
e pesquisa como práticas sociais criadoras.
Encerrado o longo período de vigência da ditadura militar,
as IES ainda defrontam-se com o legado do corporativismo que atesta
privilégios para um círculo de docentes e impõe
a exclusão para tantos outros, evidenciando que a velha universidade
continua resistindo (DEMO, idem) na Nova República.
A despeito de tais limites e contradições, o compromisso
deve ser com a formação sólida do corpo discente
e com as mudanças socioculturais a serem realizadas em nosso
país, preparando-nos para enfrentar, com dignidade e ética,
as exigências econômicas e as adversidades conjunturais.
Em que pese o discurso neoliberal da igualdade de oportunidades, do
alcance da qualidade e da capacitação do pessoal em
múltiplas direções, a evasão permanece
como uma realidade em curso. As instituições privadas
de ensino superior funcionam como alternativa - embora muitas vezes
sem a garantia da qualidade - às universidades públicas
de difícil acesso, porém com vagas ociosas (Cf. SOUZA,
s/d) e apontadas como 'atrasadas' devido aos seus custos.
Neste sentido, sobreleva-se o processo de avaliação
institucional que ajuda a implementar a gestão democrática
e autônoma da IES, tanto revendo objetivos e princípios
administrativos e pedagógicos, quanto ressignificando o processo
educativo. Por isso, a avaliação institucional não
pode ser encarada como um processo que se destina ao manuseio e à
aplicação de técnicas que visam medir resultados,
desempenhos e/ou produtos.
O compromisso da avaliação institucional no contexto
universitário reside no alcance da qualidade/excelência
global e integrada a partir das seguintes dimensões: (1) recursos
financeiros, materiais (espaço físico e materiais) e
de pessoal qualificado, especialmente dos docentes; (2) processos
e procedimentos que envolvem situações ligadas ao ensino
e a integração didática com outras áreas
da universidade, e, por fim, (3) os produtos do processo educativo
que se referem à formação discente e aos serviços
prestados pela IES.
Não precisaríamos de mais estímulos para sublinhar
a relevância do tema ora apresentado. Outrossim, desejamos enfatizar
as contribuições do processo de avaliação
institucional para gerir e suscitar novos debates no meio acadêmico,
colaborando à transformação da mentalidade; revendo
comportamentos docentes e as condições de formação
discente; reestruturando práticas administrativas, et pour
cause eliminando as distorções burocráticas e
o legado corporativista da IES, que, durante décadas e décadas,
impediram antes de tudo o próprio diálogo como prática
de conhecimento.
IV - Referências Bibliográficas:
1.
CHAUÍ, Marilena. Ideologia neoliberal e universidade. In. OLIVEIRA,
Francisco & PAOLI, Maria Célia (Orgs.) Os sentidos da democracia
- políticas do dissenso e hegemonia global. co-edição.
São Paulo/Petrópolis: Fapesp/Vozes, 1999, p. 27-51.
2.
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In. LOPES, Eliane Marta Teixeira et al. (Org.) 500 anos de educação
no Brasil. 2 ed. Belo Horizonte/MG: Editora Autêntica, 2000,
p. 151-204.
3.
DEMO, Pedro. A nova LDB - ranços e avanços. 12 ed. Campinas,
SP: Papirus, 1997.
4.
GADDOTTI, Moacir. Avaliação institucional - necessidade
e condições para a sua realização (versão
preliminar). Teleconferência, 6/ 3/1999.
5.
HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos - o breve século XX 1914-1991.
2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
6.
MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar
o pensamento. 3 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001.
7.
NASCIMENTO, Nilton. Avaliação institucional: perspectiva
conceitual e metodológica. Texto xerografado; Rio de Janeiro,
s/d.
8.
_____________ e NUNES, Lina Cardoso. A avaliação institucional
na escola de ensino fundamental: (re) pensando fundamentos e ações.
Verbo de Minas, s/d, p. 49-56.
9.
SOUZA, Paulo Renato de. Formação do educador e avaliação
educacional - avaliando a política educacional implementada.
Conferência proferida no V CEPFE, s/d.
10.
VAIDERGORN, José. Uma perspectiva da globalização
na universidade brasileira. Cadernos Cedes, ano XXI, nº 55, novembro
2001, p. 78-91.
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