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Tamara
Quírico*
Né si può imaginare quanto di varietà sia nelle
teste di que' diavoli, mostri veramente d'inferno. Nei peccatori si
conosce il peccato e la tema insieme del danno eterno
Giorgio Vasari
Este
artigo comenta a Commedia, de Dante Alighieri (1265/ 1321), e o afresco
do Giudizio Universale, de Michelangelo Buonarroti (1475/ 1564), a
partir da análise das influências teológicas,
filosóficas, políticas e iconográficas decisivas
na elaboração de ambas as obras. Buscaremos indicativos
que permitam relacionar uma obra à outra. Célebres e
consagrados ainda em seus tempos, os dois artistas deixaram para a
posteridade, cada um a seu modo, suas idéias e crenças
sobre o mundo - e além dele.
...
Escrita entre os anos 1314 e 1321, durante o período em que
Dante esteve exilado de Florença, a Commedia discorre sobre
a Natureza e a variedade da existência humana, bem como sobre
a salvação celestial. Através de uma viagem imaginada
por Dante em seus sonhos, mostra a busca da bondade, da verdade e
da beleza. A Commedia sintetiza assim características da cultura
da Baixa Idade Média.
Poema essencialmente sacro, divide-se em três partes (Inferno,
Purgatório e Paraíso), cada qual com trinta e três
cantos; é evidente uma alusão ao número três,
empregado com conotações simbólicas pela Igreja
. Um canto suplementar de introdução completa o total
de cem, número múltiplo de dez, símbolo da perfeição.
A viagem de Dante é investida de um profundo sentimento religioso;
mostra-nos o caminho que todo homem deve percorrer para atingir a
contemplação divina. Seu poema apresenta-nos uma intensa
mensagem cristã.
O poeta florentino vê no conhecimento espiritual de Deus a base
para toda ação concreta. Expõe suas mágoas
e desejos, reafirmando ainda suas concepções éticas
e políticas do mundo.
Dante assume o pensamento da Igreja na época, segundo o qual
o Além estaria dividido em três instâncias distintas.
Inicialmente esboçada por Vergílio, esta divisão
foi adaptada ao contexto cristão por Santo Agostinho, em sua
obra De civitate Dei; passou a ser aceita e difundida pela Igreja
como doutrina somente a partir da segunda metade do século
XII .
A Igreja adotou uma visão geocêntrica do mundo: a Terra
seria o centro do Universo, e os astros realizariam movimentos de
rotação ao seu redor. Ela estaria dividida em dois hemisférios:
boreal - a parte dos continentes habitados, tendo Jerusalém
como "centro dos centros"; e hemisfério austral,
com os oceanos inacessíveis e as antípodas de Jerusalém.
Abaixo do hemisfério boreal, o Inferno, cuja forma topográfica
seria a de um funil que se estreitaria até o centro da Terra,
onde estaria Satanás. No hemisfério austral, uma ilha
com uma montanha; o Purgatório seria a própria montanha,
e no seu topo começaria o Paraíso, quase como um prolongamento
natural do Purgatório .
A Commedia procura explicar essa divisão geográfica
a partir do próprio Demônio:
Desta parte caiu do céu;
e a terra, que se alçava
por medo dele fez do mar véu,
e veio para o nosso hemisfério,
para fugir deixou um lugar vazio,
reaparecendo deste lado, para cima correu
Conforme
Marco Lucchesi, Satanás, após cair dos Céus,
teria perfurado a terra no hemisfério austral (inicialmente
coberto por terra firme), originando a forma afunilada do Inferno
até o centro do planeta; a terra fugiu para o hemisfério
boreal, e suas águas cobriram o austral.
Para evitar qualquer contato com o monstro, a terra, que lhe estava
adiante, fugiu para trás, deixando vazio o imenso abismo infernal.
Retrocedendo, a terra acaba por emergir do outro lado do hemisfério,
em meio às águas, formando a sagrada montanha.
Sempre
que possível o poeta apóia-se na tradição
difundida pela Igreja. Considerava sua Commedia como opus doctrinale,
oculta sob as belas formas da poesia:
Ó vos que possuis intelectos sãos
Vide a doutrina que se esconde
Sob o véu de versos estranhos
Em
acordo com a tradição eclesiástica, também
Dante crê na existência do castigo sem fim: o pecado cometido
pelos homens afastaria as criaturas de seu Criador.
O poeta florentino inspira-se na Eneida de Vergílio: a experiência
de Dante é semelhante à de Enéias (protagonista
da obra do poeta romano), que desce ao Inferno com o objetivo de alcançar
as regras práticas da vida. Vergílio, que em vida exaltou
os ideais de paz e justiça, é escolhido por Dante como
guia em sua viagem até o fundo do Inferno; representa a razão
humana que leva à procura da felicidade ainda na Terra. E após
a subida da montanha do Purgatório, será Vergílio
quem o entregará a Beatriz, conduzindo-o pelo Paraíso,
até alcançar o céu de Deus.
No Inferno dantesco não existe ação do homem;
os atos dos condenados dirigem-se para o vazio; são ações
sem objetivo : Nas palavras de Marco Lucchesi:
Tudo no Inferno sublinha a noite da alma: a selva escura do pecado
e dos suicidas, as palavras da porta, a ausência das estrelas,
as tochas nos muros da cidade de Dis, etc. Perda de Deus, dor imensa.
A
estrutura do Paraíso fundamenta-se na idéia de um aperfeiçoamento
progressivo das energias naturais e sobrenaturais. É por isso
que as almas estão, no Paraíso, em círculos diversos,
nos quais admiram, proporcionalmente aos seus méritos em vida,
a visão de Deus. Ao empregar a concepção ptolomaica
do universo dividido em nove céus concêntricos , Dante
assente também com a idéia teológica da Hierarquia
Celeste, do Pseudo-Dionísio. Para este, existe um grande hiato
entre o homem, na terra, e Deus Criador ; esse vazio seria preenchido
pelos anjos, divididos em categorias pelos nove céus de acordo
com seus diferentes graus de perfeição. O poeta florentino
assimila também a noção do mesmo autor, segundo
a qual Deus seria luz, elemento primordial de todos os seres.
O poeta concede ao seu poema um significado alegórico, explicado
por ele próprio no último capítulo de sua obra
De Monarchia : o caminho que todos os homens percorreriam para atingir
a redenção; Dante não representaria um único
indivíduo, mas sim toda a humanidade.
...
Construída em 1473, a Capela Sistina abriga em seu interior
obras que estão entre as mais imponentes já realizadas
em toda a História da Arte. O teto, pintado originalmente segundo
o gosto gótico, foi substituído por afrescos encomendados
a Michelangelo pelo papa Júlio II, entre 1508 e 1512. O Giudizio
Universale, que recobre toda a parede do altar, ocupou o artista florentino
por seis anos, tendo sido apresentado ao público em 1541 .
O esquema teológico que esteve na base da escolha das cenas
estabelece uma ligação entre o início da história
- a principal cena de todo o conjunto é, sem dúvida,
a da criação do homem, representado pela figura de Adão
- e a vinda de Cristo no momento de nos julgar. Ou seja, entre o princípio
e o fim dos tempos. Mesmo o afresco do Giudizio Universale, iniciado
cerca de vinte e cinco anos depois, possivelmente fez parte do projeto
inicial.
Os afrescos do teto contrastam com o do Giudizio: nos primeiros percebe-se
a preocupação com o nu clássico; aprecia-se a
habilidade do artista ao expressar os sentimentos mais nobres e cristãos.
No teto da Sistina, o homem é colocado como tema central da
obra; mesmo os pecadores e sofredores possuem uma grandeza própria.
Os afrescos apresentam vitalidade, leveza, que não são
mais percebidas no Giudizio Universale.
Ele é sombrio, carregado de violência e pessimismo; "uma
das mais torturadas e dramáticas criações na
arte" . Para Wölfflin, uma análise do teto da capela
sem qualquer perturbação requisitaria a exclusão
do Giudizio do campo visível, voltando-lhe o observador as
costas . Possivelmente a sobriedade presente no afresco é decorrente
da crise espiritual e política que seguiu-se à Reforma.
As figuras do Giudizio não expressam mais o conceito humanista
de beleza ideal, e sim o profundo e trágico pessimismo que
se abateu sobre Michelangelo após o saque de Roma, em 1527.
O artista parece estabelecer críticas aos protestantes através
de ícones da cultura cristã, como rosários e
santos com seus respectivos atributos; nas lunetas, Michelangelo apresenta
o triunfo dos símbolos da Paixão de Cristo, trazidos
à cena por anjos: a coluna da flagelação, a cruz,
a coroa de espinhos.
Não há uma fonte única para a realização
do Giudizio Universale. A temática de sua obra pode ser encontrada
tanto na Bíblia quanto na Commedia e no Dies Irae. Neste poema,
escrito no século XIII, discorre-se sobre o Apocalipse e os
horrores do Dia do Juízo Final, cuja lembrança se dá
através das visões dos profetas e sibilas, do mundo
reduzido a cinzas, das trombetas que ressoam entre os sepulcros, e
do Cristo que reina e julga. Michelangelo pode ter se baseado igualmente
nas idéias de Girolamo Savonarola (1452/ 1498), monge e reformista
italiano que pregava o caráter irrevogável e irreversível
do Juízo Final, e portanto a necessidade de arrependimento.
De acordo com James Hall, "em sua versão totalmente desenvolvida,
o Juízo Final é um compêndio de cenas e motivos
que nos fazem um relato da doutrina cristã".
A
crença de uma segunda vinda de Jesus Cristo para nos julgar,
tem suas origens nos textos dos Evangelhos, especialmente em Mateus
. Durante a Baixa Idade Média, as fontes para a iconografia
do Juízo Final já não eram apenas os Evangelhos,
mas textos apocalípticos e escritos extra-canônicos.
O medo da proximidade de um novo milênio, e com este a possibilidade
do fim dos tempos, popularizou o tema.
As cenas que evocam o Juízo Final, pintadas até o fim
da Idade Média, seguem basicamente o modelo bizantino de faixas
horizontais, planificadas, iniciando-se com a figura de Cristo envolto
por uma mandorla; uma calma extática. O principal exemplo desse
tipo de esquema é o grande mosaico na catedral de Torcello,
próximo a Veneza, datado do início do século
XII. O mais célebre nos foi legado por Giotto, nos afrescos
da Capela dos Scrovegni.
O mosaico de Torcello e o afresco de Giotto tiveram grande importância
para Michelangelo. Mas nenhum outro artista ou obra exerceu tanta
influência sobre o pintor florentino quanto Dante e Luca Signorelli
.
Luca Signorelli realizou na capela de S. Brizio, catedral de Orvieto,
entre 1499 e 1503, um ciclo de afrescos onde retratou a história
do fim do mundo de forma extremamente imaginativa. Alguns trechos
do Giudizio Universale tiveram sua inspiração aí
.A série de torções de suas figuras nuas, ressaltando
a estrutura orgânica dos corpos, denota a influência de
Signorelli, que estudou a representação do nu em movimento;
trabalhos seus no Museu do Louvre comprovam isso.
Mesmo Signorelli, no entanto, reservou somente à cena de seus
condenados uma dramaticidade mais intensa: as figuras formam uma compacta
massa de corpos, unidas pelo desespero e pelo horror. As outras cenas,
como as que representam a Ressurreição e o Paraíso,
caracterizam-se pela tranqüilidade.
Em contraponto com todas as representações anteriores,
o afresco de Michelangelo forma um bloco unitário, perpassado
por uma poderosa energia. Seu Giudizio Universale possui um forte
movimento circular; arremessa o observador para o turbilhão
da cena, intensificando o impacto dramático de uma já
tão opressora imagem.
Michelangelo buscou suas fontes também na cultura popular.
O artista apresenta algumas anedotas sobre a iconografia da morte:
o embate entre o anjo e o demônio para a conquista de uma alma;
a salvação obtida através da prática do
rosário e assim por diante.
Em Signorelli possivelmente inspirou-se para conceber seu Giudizio
na parede do altar; todos os outros Juízos Finais foram realizados
nas paredes de entrada das igrejas. Como Signorelli, adotou a nudez
para a representação dos corpos ressuscitados; do Cristo
de Orvieto - realizado não por Signorelli, mas por Fra Angelico
-, assimilou o gesto ameaçador de rejeição e
condenação.
Michelangelo representou em seu afresco suas próprias idéias
sobre a morte e o dia do Juízo Final, baseando-se na interpretação
das obras e dos fatos comentados acima.
...
A consciência moral e religiosa de Dante tem suas raízes
tanto na ciência quanto na fé, manifesta através
da sensação de um Deus vivo em nós mesmos e que
nos fala. De acordo com Otto Maria Carpeaux,
o mundo de Dante é astronômicamente fechado, conforme
o sistema ptolomaico; é politicamente fechado, conforme a teoria
dos poderes temporal e espiritual do Imperador e do Papa; é
filosòficamente fechado, pela escolástica de São
Tomás de Aquino, que sabe responder a todas as perguntas e
dúvidas, pela harmonia perfeita entre a Razão e a Fé.
Michelangelo
travou internamente sua luta pessoal entre razão e fé.
No Giudizio Universale, é possível ver a mudança
em sua crença religiosa: do otimismo que emana do teto da Sistina
ao pessimismo. Apesar de, ao fim de sua longa vida, dizer-se arrependido
por haver transformado a arte em religião, as obras de sua
maturidade são repletas de uma espiritualidade poucas vezes
alcançada na juventude.
Na Commedia, as ações e os fatos são utilizados
de forma a enaltecer o Deus cristão. Dante coloca no Inferno
o profeta Maomé, mutilado pelos demônios, no círculo
destinado aos semeadores de discórdia:
Enquanto nele tudo ver horrorizava-me
olhou-me, e com as mãos abriu o peito,
dizendo: Vê como me dilacero!
Vê como é estropiado Maomé!
Para
Dante, o profeta muçulmano seria um grande pecador. O sentido
do divino consiste na participação ativa do Ser Criador
em todas as formas de manifestação da existência;
tudo na natureza depende de Deus, mesmo os monstros do Inferno e os
espíritos do Mal.
Michelangelo foi considerado profano por muitos em seu tempo. Foi
duramente criticado ao retratar a Cristo seminu e sem barba, assemelhando-o
a um deus grego . Suas figuras desnudas chocaram a sociedade na época
. Mais tarde, as partes consideradas impróprias foram cobertas
com panos .
Tendo como origem a tradição primitiva de que existiria
uma hierarquização geográfica (uma maior altitude
física corresponde a uma superioridade espiritual), em Dante
o Purgatório atua como um recinto sagrado que conduz ao mundo
dos espíritos, função semelhante à do
Monte Olimpo na Grécia Antiga - hierarquização
que não ocorre no afresco de Michelangelo. Eliminando o esquema
das faixas horizontais, criando uma grande composição
circular, dominada pelo Cristo, e não inserindo as imagens
características do bestiário medieval: assim Michelangelo
humanizou seu Giudizio, trazendo-o ao plano de uma realidade mais
concreta.
Mesmo existindo tantas diferenças nas duas representações,
os especialistas dizem em consenso que Dante exerceu influência
direta sobre Michelangelo na concepção de seu afresco.
É notório que ele se dedicava com afinco à leitura
do poeta florentino, assim como da obra de Petrarca e das Sagradas
Escrituras.
"Dando tanta força às pinturas de tal obra, que
verificaram-se as palavras de Dante: Morti li morti, i vivi parean
vivi", comenta Vasari nas Vite .
Em ambos os trabalhos prevalece o eixo vertical: movimento de subida
em direção ao Criador ou de descida em direção
ao Inferno. No afresco de Michelangelo, se em uma extremidade as imagens
parecem subir aos céus, auxiliadas por anjos sem asas, no lado
oposto estão os condenados, como que a nos mostrar (e a nos
lembrar) este caminho vertical duplo, tanto de ascensão quanto
de queda.
Outros elementos comuns são talvez os únicos que nos
remetem a um classicismo no afresco de Michelangelo, excetuando-se
o Cristo e a Virgem: as imagens pagãs do inferno dantesco.
São eles Caronte, transportador dos mortos, e Minos, Rei dos
Infernos. Michelangelo deu sua própria interpretação
às personagens mitológicas: Minos foi inspirado em uma
figura da corte papal ; Caronte atua nas duas obras como passagem,
movimento que parte da momentaneidade terrena e se dirige para o Eterno.
Assim Vergílio o descrevia:
Um barqueiro horrível, Caronte, olha estas águas e este
rio, de uma imundície hedionda. Uma longa barba grosseira lhe
cai do queixo; seus olhos são chamas imóveis; um sórdido
pedaço de tecido preso por um nó pende das suas costas.
Ele mesmo empurra o arpéu e manobra os remos da barca cor de
ferro, onde transporta as sombras dos mortos, já muito velho,
mas com a sólida e verde velhice de um deus.
Ao
contrário de como a mitologia clássica e também
Vergílio o descreviam (isto é, como um velho de aparência
e de anos), Caronte, em Michelangelo, assemelha-se a um demônio,
com orelhas alongadas, pele escura e olhar alucinado, comprazendo-se
com a dor das almas que transporta. Seu barqueiro do Aqueronte materializa
como poucas imagens este trecho da Commedia:
Caronte demônio, com olhos acesos como a brasa,
eles acenando, a todos recolhe:
bate com o remo em qualquer um que se incline
Também
os demônios que conduzem os condenados ao Inferno têm
sua inspiração na obra de Dante; tanto o diabo dantesco
quanto os demônios da Sistina são aniquilados pela Potência
Divina. E a própria idéia de retratar a Cristo como
um deus mitológico pode lhe ter vindo da Commedia: o poeta
florentino compara Cristo a Sommo Giove .
Ambos os artistas partem de uma longa tradição, dando,
contudo, sua interpretação pessoal: é onde se
manifestará a originalidade de cada um. Dante em muitos momentos
segue um caminho oposto ao adotado pela Igreja, priorizando o poético
em relação ao teológico. Diz Marco Lucchesi a
respeito do limbo:
Não restam dúvidas (
) de que se teologicamente
a região é maldita, a poesia faz com que se torne sublime,
grave, a ponto de lembrarmo-nos da tessitura semelhante à do
Paraíso. Poeticamente estamos tão longe do Inferno,
apesar de nele se incutir o limbo. Contradição poética
riquíssima
A
teologia tradicional reserva o limbo apenas às boas personagens
do Antigo Testamento, libertadas pelo Cristo ressuscitado; o poeta
insere também, neste espaço, as almas dos justos nascidos
antes da vinda de Cristo. Inclui aí os sábios do passado:
Homero, Demócrito, Aristóteles etc. Em seu universo
poético, Dante não poderia permitir que os mestres da
Antigüidade Clássica, que tantos ensinamentos lhe legaram,
padecessem junto aos pecadores.
Michelangelo adota a iconografia tradicional, mas alguns detalhes,
bem como a concepção imaginativa , demonstram sua genialidade.
Eliminou de seu Giudizio Universale o tipo de representação
comum no bestiário medieval e nas representações
antigas da cena:
Os demônios são humanos em forma e o Homem não
é arrastado à punição sem ser capaz de
compreender a causa de sua danação. A consciência
de seus atos, o entendimento - tarde demais - de que ele é
o único responsável por seu próprio desastre,
é a mais pungente, a mais terrível das lições
que a visão das forças do Inferno de Michelangelo força
sobre o espectador.
O
mal está no homem, e não fora dele. É a tragédia
da humanidade esmagada pela ira divina, que engloba-nos a todos: eleitos,
condenados ou meros espectadores.
Tanto Dante quanto Michelangelo opõem-se à idéia
aristotélica de que Deus não atuaria na terra e nem
olharia por nós. Ambos mostram que Ele nos contempla, sim,
vindo inclusive a nos julgar no momento adequado. Deus toma conhecimento
do mundo, tanto é que o criou a partir do nada. Dante e Michelangelo
legam-nos a esperança da contemplação eterna
do Criador. Mas o pintor florentino revela-nos também um futuro
sombrio: a beleza de Deus cede lugar ao Cristo enfurecido que julga.
Ecoam no Giudizio Universale as palavras escritas sobre a porta do
Inferno dantesco: Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate . No universo
de Michelangelo não há serenidade alguma.
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