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Uma publicação da SAEP Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica | |
| EDIÇÃO ESPECIAL | CADERNO DE EDUCAÇÃO | |
| Artigo |
| O " GRÀN FINÀLE" DE CLARICE LISPECTOR | |||
Mesmo que todas as partes de um problema pareçam ajustar-se como peças de um quebra-cabeça, há que refletir que aquilo, que é provável não é necessariamente a verdade e que a verdade nem sempre é provável.
O título era Humilhados e ofendidos. Ficou pensativa. Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social. Pensou, pensou e pensou! Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo o que acontecia era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar? Na
sua marcha para uma escritura renovada, ela foi buscar, no macrocosmo
brasileiro, um semovente para o seu microcosmo, representante da miséria
toda: uma nordestina, de dezenove anos, virgem, terceiro ano primário,
órfã de pai e mãe aos dois anos, martirizada
pela tia que a criou, uma indesejada da sorte, pária dessa
sociedade capitalista selvagem, injusta e desumana, onde o pauperismo
é dividido autocraticamente ? a maioria tem-no em doses maciças.
O
drama de Macabéa é o padrão da grande maioria
da população brasileira. Um "padrão"
que interessa, na medida em que é universal, espraiando-se
por toda nossa realidade, um universal concreto e vívido, acontecendo
no agora de todos os deserdados. As Macabéas, empregadas domésticas,
comerciárias, industriárias ou campesinas, serviçais
da classe média, da burguesia e do latifúndio, moradoras
das casas humildes, dos barracos das favelas, dos cubículos,
chamados de quarto-de-empregada, um-gueto-sem-janela, apertado e sufocante,
as sem-teto-lar-dinheiro-justiça, sem-nada, nas ruas calorentas
e friorentas das ruas de nossas cidades ocidentais-cristãs.
Bernard Shaw, socialista sarcasta, salientava que, no capitalismo,
o pobre tem um direito inalienável: só ele pode dormir
debaixo da ponte...! Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele chamado Carolus. Verdade que nunca achara modo de aplicar essa informação. Os proletários de A hora da estrela são sós, não são solidários nem têm solidariedade de ninguém, não há a justaposição dialética, indivíduo-sociedade, ego-coletividade, indivíduo-classe social. Solitários, não podem lutar contra as regras injustas de um jogo que têm de sofrer. O campo da justa e as regras, da burguesia. Os despossuídos, ou aceitam passivamente tudo que lhes é imposto, ou passam a agir como o autêntico "picareta", o pícaro, o sobrevivente, como Olímpico, namorado da protagonista, assassino e ladrão. Karl Marx brilhantemente cognominou essa escória de lumpenproletariado, termo que traduz o alemão lumpenproletariat, como "o lixo de todas as classes", "uma massa desintegrada", que reunia "indivíduos arruinados e aventureiros egressos da burguesia, vagabundos, soldados desmobilizados, malfeitores recém-saídos da cadeia /.../ batedores de carteira, rufiões, mendigos" etc. ... No mundo capitalista, os valores morais degradados, deteriorados, os lumpenproletários, medram nesse caldo de cultura. Os Olímpicos e suas peripécias, os pícaros, os anti-heróis, manhosos, cínicos, inescrupulosos, mas determinados a sobreviver e a tirar todas as vantagens possíveis de tudo e de todos. Procuram realizar-se, desejam sair da condição de servos, querem ser patrões, proprietários, querem tornar-se o açoite dos seus iguais. Como, numa premonição, afirma Olímpico:"? Sou muito inteligente, ainda vou ser deputado". E não é que ele dava para fazer discurso? Tinha o tom cantado e o palavreado seboso, próprio para quem abre a boca e fala pedindo e ordenando os direitos do homem. No futuro, que eu não digo nesta história não é que ele terminou mesmo deputado? E obrigando os outros a chamarem-no de doutor. O pícaro tem um projeto pessoal, quer alcançar suas metas, um ideal individual e não de classe. Os Olímpicos, concretizando seus planos, não afetarão o conjunto da sociedade, e a justiça continuará legal, mas amoral, injusta, a alienação perpetuada: Não
se arrependeu um só instante de ter rompido com Macabéa
pois seu destino era o de subir para um dia entrar no mundo dos outros.
Ele tinha fome de ser outro. Macabéa
morava num "velho sobrado colonial", na Rua do Acre. E vejam
o "calembour", o jogo de palavras, que Clarice arma, quando
fala dos "gordos ratos da Rua do Acre": os ratos representam-se
a si mesmos, bichanos nojentos, mas, também, metaforicamente,
Clarice denuncia a burguesia mercantil, que domina as trocas comerciais
de todo o Estado do Rio de Janeiro, de todo o Brasil, de todo o mundo
globalizado. antes
de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça.
/.../ Em
A hora da estrela, no final, Macabéa vai à cartomante:
"Madama Carlota havia acertado tudo, Macabéa estava espantada.
Só então vira que sua vida era uma miséria".
Dá-lhe prognósticos felizes. Paradoxalmente, Maca sai,
é atropelada e morta: "Vencera o Príncipe das Trevas.
Enfim a coroação". A pequena proletária,
de uma vida sem perspectivas, de sacrifícios, encontra o "seu
maravilhoso destino", augurado pela Madama. Morre certa da felicidade
alcançada. Tanto ela quanto Rubião expiram na glória
imaginada, para eles, realizada. Nas palavras de Machado e de Clarice,
impressionam-nos o humor negro e a ironia, pois Rubião e Macabéa
sentem a centelha da vitória, pirrônica, para, logo depois,
serem destruídos pela chegada da "Indesejada das gentes".
Esse humor de Clarice aparece com força no próprio título
do livro: A hora da estrela, a undécima hora da travessia de
todos torna-se para os proletários o momento em que assumem
o foco da atenção na ribalta do espetáculo de
sua própria morte: "a hora de estrela de cinema de Macabéa
morrer". O caráter do poeta é tudo e nada [não tem eu]... Um Poeta é a coisa menos poética do mundo, porque não tem identidade -- está continuamente a se enformar e a preencher outra pessoa. Isto acontece em A hora da estrela, na criação dos personagens, mas a proximidade da morte da escritora, faz-nos encontrá-la dentro da narrativa ficcional, pois encontramos os seus males físicos e mentais, retratando-se no seu término existencial, como pessoa empírica e criatura demiúrgica, revelando-nos o amor pela literatura e a presença ameaçadora da morte. Lendo-se esse romance, vemos, sentimos, sofremos, vivenciamos Clarice Lispector. Morremos com sua inopinada despedida do globo terráqueo. Encontramos a cultura judaica transfigurada na rebeldia, na procura da identidade, no fatalismo diante da existência, no Destino, presidindo todas as coisas, na tragédia e no instinto de sobrevivência. Esbarramos com o fim de sua travessia, a doença terminal, a inconformação do ser humano que sabe que tem de partir, mas que luta, para continuar se doando.
E agora ?agora só me resta acender um cigarro e ir para casa.
Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas? mas eu
também?!
Observemos a pontuação de Clarice: "Mas ? mas eu
também"! Ela também? A dúvida (?) e a confirmação
(!). Sim, ela também! Podíamos perguntar: Mas nós
também?! Os morangos conduzem-nos ao hino homérico a
Demeter e ao conhecimento de que as frutas dos vivos, em particular
a romã, só podem ser comidas pelos que ainda estão
apartados da morte. Ela, apesar do perigo do Estige, ainda podia consumi-las,
sem o perigo de ser jogada aos fogos do Inferno. Pois que a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável. O problema da comunicação torna-se mais chocante, quando se encontram pessoas-ilhas dentro desse universo alienado: por, exemplo, Macabéa e o doutor. Um diálogo de surdos. A ternura e a cupidez. O médico, "desatento", "que achava a pobreza uma coisa feia", detestava os pacientes, "desatualizado na medicina e nas novidades clínicas mas para o pobre servia", queria "ter dinheiro para fazer exatamente o que queria: nada".
? Você está com começo de tuberculose pulmonar.
A emoção é o condicionamento de toda a sua obra. Clarice incorporou ao texto a sua mensagem de despedida da vida e do anseio de permanecer entre nós, os vivos de hoje... Coloca, no último texto, seu substrato humano, descobre-se, desnuda-se, alegria e dor, felicidade e tristeza, "pois por enquanto é tempo de morango"... A uma escritura instigante como essa, podemos acrescentar as observações de Freud (Moisés de Miguel Ângelo): Toda autêntica criação poética deve decorrer de mais de um motivo, mais de um impulso no pensamento do poeta, e deve admitir mais de uma interpretação. A obra aberta dá margem a variadas interpretações, todas válidas, desde que articuladas com o texto, considerando-se ainda mais que, se nenhum objeto, por mais simples e primitivo que seja, pode ser inteiramente descrito, também havemos de considerar que não há limites para a interpretação do texto literário. Conhecendo a Clarice Lispector do mundo empírico, conhecendo a Macabéa do mundo imaginário, envolvemo-nos, fruímos, adentramos o espírito de A hora da estrela. Naqueles momentos da leitura, mesmo depois, rodeados por aquele halo mágico da criação artística, somos Clarice e Macabéa, Clarice, Macabéa e o mundo, o todo e a parte do romance. O
todo sem a parte não é todo, Gregório de Matos Guerra Faço minhas, as palavras de um personagem das Histórias de calendário, peça de Bertolt Brecht: Já observei que afastamos muita gente da nossa doutrina por termos para tudo uma resposta-feita. Não seria conveniente estabelecermos em benefício da nossa propaganda, uma lista de todas as qüestões que nos parecem ainda não estar solucionadas? Pegando
esse gancho de Brecht, dirijo-me aos leitores desse ensaio, conclamando-os
a pensarem nas montanhas de lacunas, de "gaps", de buracos
sem fundo, que qualquer trabalho hermenêutico apresenta, porque
sempre haverá soluções a qüestões
infinitas com respostas não finitas, o encontro e a detecção
de verdades, remetendo-nos também para a epígrafe de
Freud. Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim. A
classe alta considera-a "um monstro esquisito", e di-lo
com toda a razão, porque a escritora não faz parte do
seu modo de produção, ? não faz, porque não
quer?, e a burguesia tem um projeto, a extorsão dos "outros";
a classe média desconfia, porque tem medo, vive temerosa, no
fio da navalha, entre o proletariado e a burguesia, desprezando o
primeiro e invejando o segundo; a classe baixa (sic), o proletariado,
completamente desorientado, desorganizado, avança num prato
de comida, nunca, num livro. Sabemos que é mais importante
o que entra na cabeça do que tudo aquilo que pode entrar pela
boca... mas vá-se argumentar nestes termos com um faminto... Mulher
proletária, Todos
esses demiurgos levam-nos a ver a literatura como uma forma de conhecimento,
pois o escritor depura a realidade, fazendo com que ela surja sem
sombras aos nossos olhos ? o que não sucede na vida empírica
?, expondo as classes sociais em movimento. Poderia apontar outros
literatos que também têm a sensibilidade à flor
da pele, porque "o poeta é a antena do povo" (Ezra
Pound), pois os demiurgos representam as aspirações
do ser humano, e, assim, nada os separa e tudo os une, seja lá
qual for a latitude, a nacionalidade ou o tempo de sua vida. Todos
concordamos com Albert Schweitzer (De minha vida e meu pensamento):
"À pergunta de saber se sou pessimista ou otimista respondo
que meu conhecimento é de pessimista, mas minha vontade e minha
esperança são de otimista." O ANALFABETO POLÍTICO O
pior analfabeto é o analfabeto político.
FREUD, Sigmund. Se Moisés fosse egípcio. In: ---. Edição
eletrônica brasileira das obras psicológicas. Rio de
Janeiro: Imago, s.d. ______________________________________________________ Carlos
Alberto dos Santos Abel |
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