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EDIÇÃO ESPECIAL CADERNO DE EDUCAÇÃO

 

Artigo

 

O " GRÀN FINÀLE" DE CLARICE LISPECTOR
 
Carlos Alberto dos Santos Abel

Mesmo que todas as partes de um problema pareçam ajustar-se como peças de um quebra-cabeça, há que refletir que aquilo, que é provável não é necessariamente a verdade e que a verdade nem sempre é provável.


Clarice Lispector no romance, A hora da estrela, torna-se uma nova e vigorosa escritora do povo, da realidade brasileira deste fim de século. Judia ucraniana, nascida em 10 de dezembro de 1920, Clarice chegou ao Brasil com dois meses de idade (Maceió), em fevereiro de 1921, morrendo no Rio de Janeiro, em 9 de dezembro de 1977.
O percurso da protagonista de A hora da estrela, a querida Macabéa, é a reprodução daquele feito por Clarice, quando de sua chegada ao Brasil. As duas vão da província para a capital do país. O nome Macabéa é uma evocação da cultura judaica, lembra-nos os Macabeus que lutaram em defesa da fé e da religião contra o poderoso Império Romano.
Sua literatura é marcada por duas fases ? a primeira (iniciada com Perto do coração selvagem em 1943, seguido por mais de vinte livros ), a das dores existenciais banais do pequeno-burguês, do não-sei-o-que-vou-fazer-da-minha-vida. Uma alegoria da solidão, uma solidão que rescalda, de pessoas que têm um ego profundo, estranho, que vivem uma existência interior deformada, uma vida de fuga à realidade; a segunda (apenas uma obra, A hora da estrela, de 1977), a solidão dos proletários, aguçada pelo morar mal, comer mal, vestir mal, ganhar mal, uma miséria concreta, real e objetiva, resultante de uma exploração consciente e organizada pela burguesia e pelo latifúndio. Pessoas que reagem tipicamente diante dos acontecimentos do dia-a-dia de nossa sociedade, personagens que enfrentam uma sofrida e dura realidade no dia-a-dia.
A marcha do demiurgo, na direção da escritura do povão, como a roda da história, não voltaria jamais. Teríamos, como disse Engels, a respeito de Balzac, mais uma vitória do realismo na literatura brasileira.

O título era Humilhados e ofendidos. Ficou pensativa. Talvez tivesse pela primeira vez se definido numa classe social. Pensou, pensou e pensou! Chegou à conclusão que na verdade ninguém jamais a ofendera, tudo o que acontecia era porque as coisas são assim mesmo e não havia luta possível, para que lutar?

Na sua marcha para uma escritura renovada, ela foi buscar, no macrocosmo brasileiro, um semovente para o seu microcosmo, representante da miséria toda: uma nordestina, de dezenove anos, virgem, terceiro ano primário, órfã de pai e mãe aos dois anos, martirizada pela tia que a criou, uma indesejada da sorte, pária dessa sociedade capitalista selvagem, injusta e desumana, onde o pauperismo é dividido autocraticamente ? a maioria tem-no em doses maciças.

Volto à moça: o luxo que se dava era tomar um gole frio de café antes de dormir. Pagava o luxo tendo azia ao acordar.

O drama de Macabéa é o padrão da grande maioria da população brasileira. Um "padrão" que interessa, na medida em que é universal, espraiando-se por toda nossa realidade, um universal concreto e vívido, acontecendo no agora de todos os deserdados. As Macabéas, empregadas domésticas, comerciárias, industriárias ou campesinas, serviçais da classe média, da burguesia e do latifúndio, moradoras das casas humildes, dos barracos das favelas, dos cubículos, chamados de quarto-de-empregada, um-gueto-sem-janela, apertado e sufocante, as sem-teto-lar-dinheiro-justiça, sem-nada, nas ruas calorentas e friorentas das ruas de nossas cidades ocidentais-cristãs. Bernard Shaw, socialista sarcasta, salientava que, no capitalismo, o pobre tem um direito inalienável: só ele pode dormir debaixo da ponte...!
Clarice critica o mundo degradado. Vai-nos conduzindo pela vida sem esperança das Macabéas. "Macabéa empalideceu: nunca lhe ocorrera que sua vida fora tão ruim". Através de um estilo personalíssimo, vai-nos trazendo informações acerca da protagonista. Verdadeiros achados. Tesouros de naturalidade. Arte maior. Didaticamente forma-se o quadro: "Você, Macabéa, é um cabelo na sopa".
Uma das marcas da mestria clariceana é a fixação de Maca pela cultura (quase sempre inútil) da Rádio Relógio Federal ? uma das facetas mais tocantes do romance ? pois ela, mulher de parcas falas e de diminuto intelecto, amava os anúncios e as palavras normalmente inintelegíveis dos locutores:

Foi assim que aprendeu que o Imperador Carlos Magno era na terra dele chamado Carolus. Verdade que nunca achara modo de aplicar essa informação.

Os proletários de A hora da estrela são sós, não são solidários nem têm solidariedade de ninguém, não há a justaposição dialética, indivíduo-sociedade, ego-coletividade, indivíduo-classe social. Solitários, não podem lutar contra as regras injustas de um jogo que têm de sofrer. O campo da justa e as regras, da burguesia. Os despossuídos, ou aceitam passivamente tudo que lhes é imposto, ou passam a agir como o autêntico "picareta", o pícaro, o sobrevivente, como Olímpico, namorado da protagonista, assassino e ladrão. Karl Marx brilhantemente cognominou essa escória de lumpenproletariado,

termo que traduz o alemão lumpenproletariat, como "o lixo de todas as classes", "uma massa desintegrada", que reunia "indivíduos arruinados e aventureiros egressos da burguesia, vagabundos, soldados desmobilizados, malfeitores recém-saídos da cadeia /.../ batedores de carteira, rufiões, mendigos" etc. ...

No mundo capitalista, os valores morais degradados, deteriorados, os lumpenproletários, medram nesse caldo de cultura. Os Olímpicos e suas peripécias, os pícaros, os anti-heróis, manhosos, cínicos, inescrupulosos, mas determinados a sobreviver e a tirar todas as vantagens possíveis de tudo e de todos. Procuram realizar-se, desejam sair da condição de servos, querem ser patrões, proprietários, querem tornar-se o açoite dos seus iguais. Como, numa premonição, afirma Olímpico:"? Sou muito inteligente, ainda vou ser deputado".

E não é que ele dava para fazer discurso? Tinha o tom cantado e o palavreado seboso, próprio para quem abre a boca e fala pedindo e ordenando os direitos do homem. No futuro, que eu não digo nesta história não é que ele terminou mesmo deputado? E obrigando os outros a chamarem-no de doutor.

O pícaro tem um projeto pessoal, quer alcançar suas metas, um ideal individual e não de classe. Os Olímpicos, concretizando seus planos, não afetarão o conjunto da sociedade, e a justiça continuará legal, mas amoral, injusta, a alienação perpetuada:

Não se arrependeu um só instante de ter rompido com Macabéa pois seu destino era o de subir para um dia entrar no mundo dos outros. Ele tinha fome de ser outro.

Quando vemos o circo político brasileiro, não concordo com os cientistas que afirmam que, após a próxima hecatombe nuclear, próxima e última, só sobreviverão os ratos e as baratas, não concordo, pois, acrescentaria muitas das figuras sórdidas que campeiam na nossa burguesia ? os de dentro e os de fora do aparelho do estado, mas todos participando da mesma maracutaia.
A crítica política de Clarice Lispector não nos lembra Graciliano Ramos em seus melhores momentos? Com uma diferença: Graciliano mostra-nos a miséria dos nordestinos no seu habitat natural, e Clarice leva a nordestina para o Rio de Janeiro, contudo ambos os escritores apontam e condenam a miséria de seus personagens no campo e na cidade.
Clarice que estava morrendo cancerosa, e sabendo que morria, deixa-nos esse testamento literário, entristecendo-nos mais ainda, por perdermos uma escritora que seria, sem sombra de dúvida, o grande demiurgo do Brasil nos estertores do século XX.

Rua do Acre. Mas que lugar. Os gordos ratos da rua do Acre. Lá é que não piso pois tenho terror sem nenhuma vergonha do pardo pedaço de vida imunda.

Macabéa morava num "velho sobrado colonial", na Rua do Acre. E vejam o "calembour", o jogo de palavras, que Clarice arma, quando fala dos "gordos ratos da Rua do Acre": os ratos representam-se a si mesmos, bichanos nojentos, mas, também, metaforicamente, Clarice denuncia a burguesia mercantil, que domina as trocas comerciais de todo o Estado do Rio de Janeiro, de todo o Brasil, de todo o mundo globalizado.
Os personagens vivem uma existência medíocre, encarcerados dentro de si mesmos, aprisionados pela estagnação social, com horizontes curtos e paupérrimos, reforçando a alegoria da solidão, da alienação e da marginalização. A hora da estrela tem uma atmosfera quase irrespirável de miserabilidade trágica, de fatalismo irreparável ? a realidade econômica, o elemento gerador de todos os conflitos. No seu caudal, envolve-se tudo, o interior e o exterior dos personagens... a sociedade burguesa determinando, impondo sua ideologia, e o proletariado, não tendo como enfrentá-la, a não ser que se mudem as regras do jogo. Um lado, com a clara percepção da defesa intransigente de seus privilégios, o outro, sofrendo a dura discriminação social que o levará, um dia, a explodir na revolucionária determinação reivindicatória. O gênio do demiurgo traz-nos um fragmento de tempo, em um ambiente acanhado, com personagens mesquinhos, descerrando-se o painel de toda a realidade de nosso Brasil.
Eisenstein dizia que, quando se assiste a um filme, vê-se, na tela, a forma, e, ao mesmo tempo, fazemos, inconscientemente, sem nenhum comando intelectual, uma confrontação com a contra-forma, que é a situação política, social, econômica, financeira, religiosa etc. que cerca aquela obra artística. Podemos declarar o mesmo de qualquer obra de ficção. Quem ler esse romance terá uma visão da realidade do migrante nordestino, uma visão que é uma relação entre o mundo empírico e o mundo do imaginário, relação mediatizada pela mundividência e pela mundivivência de Clarice. Comove-nos a visão humanista da escritora, o humanismo, o grito de desespero contra a solidão e a alienação mutiladoras do indivíduo, a luta pelo homem integral, pela felicidade dos despossuídos. A criadora, defendendo a humanidade, coloca-se à frente, na vanguarda do proletariado. A sua ótica, a do grupo social amesquinhado, uma visão crítica da sociedade burguesa. O epílogo de A hora da estrela aproxima-se do de Quincas Borba, Clarice e Machado de Assis, dois grandes ficcionistas, dois grandes demiurgos, dois grandes romances. Rubião, protagonista machadiano, está morrendo:

antes de principiar a agonia, que foi curta, pôs a coroa na cabeça. /.../
? "Guardem a minha coroa, murmurou. Ao vencedor...
A cara ficou s?ria, porque a morte ? s?ria; dous minutos de agonia, um trejeito horrível, e estava assinada a abdicação.

Em A hora da estrela, no final, Macabéa vai à cartomante: "Madama Carlota havia acertado tudo, Macabéa estava espantada. Só então vira que sua vida era uma miséria". Dá-lhe prognósticos felizes. Paradoxalmente, Maca sai, é atropelada e morta: "Vencera o Príncipe das Trevas. Enfim a coroação". A pequena proletária, de uma vida sem perspectivas, de sacrifícios, encontra o "seu maravilhoso destino", augurado pela Madama. Morre certa da felicidade alcançada. Tanto ela quanto Rubião expiram na glória imaginada, para eles, realizada. Nas palavras de Machado e de Clarice, impressionam-nos o humor negro e a ironia, pois Rubião e Macabéa sentem a centelha da vitória, pirrônica, para, logo depois, serem destruídos pela chegada da "Indesejada das gentes". Esse humor de Clarice aparece com força no próprio título do livro: A hora da estrela, a undécima hora da travessia de todos torna-se para os proletários o momento em que assumem o foco da atenção na ribalta do espetáculo de sua própria morte: "a hora de estrela de cinema de Macabéa morrer".
Para Clarice Lispector, a palavra não é apenas um significante e um significado, mas, antes de tudo, um símbolo, com validade por si mesmo dentro do contexto, contudo também representativo de um estado de existência no momento da escritura.
Keats ensinou-nos:

O caráter do poeta é tudo e nada [não tem eu]... Um Poeta é a coisa menos poética do mundo, porque não tem identidade -- está continuamente a se enformar e a preencher outra pessoa.

Isto acontece em A hora da estrela, na criação dos personagens, mas a proximidade da morte da escritora, faz-nos encontrá-la dentro da narrativa ficcional, pois encontramos os seus males físicos e mentais, retratando-se no seu término existencial, como pessoa empírica e criatura demiúrgica, revelando-nos o amor pela literatura e a presença ameaçadora da morte. Lendo-se esse romance, vemos, sentimos, sofremos, vivenciamos Clarice Lispector. Morremos com sua inopinada despedida do globo terráqueo. Encontramos a cultura judaica transfigurada na rebeldia, na procura da identidade, no fatalismo diante da existência, no Destino, presidindo todas as coisas, na tragédia e no instinto de sobrevivência. Esbarramos com o fim de sua travessia, a doença terminal, a inconformação do ser humano que sabe que tem de partir, mas que luta, para continuar se doando.

E agora ?agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas? mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.

Observemos a pontuação de Clarice: "Mas ? mas eu também"! Ela também? A dúvida (?) e a confirmação (!). Sim, ela também! Podíamos perguntar: Mas nós também?! Os morangos conduzem-nos ao hino homérico a Demeter e ao conhecimento de que as frutas dos vivos, em particular a romã, só podem ser comidas pelos que ainda estão apartados da morte. Ela, apesar do perigo do Estige, ainda podia consumi-las, sem o perigo de ser jogada aos fogos do Inferno.
A interpretação psicológica é válida? É válido desvendar o processo criador a partir da figura empírica, do ser social do escritor? Dependendo da obra e do autor... devemos desmitificar essa história do trabalho crítico puramente técnico e isento de emoção. Um trabalho de base psicológica deste tipo não valora qualquer tipo de literatura, mas esclarece o processo criador, torna-nos cúmplices da autora e por que não co-autores?
A leitura de qualquer texto de Clarice é sumo de muita taquicardia, muito trabalho e muita comoção! Concordo com Harold Bloom, quando afirma que se conhecermos o autor, a leitura será mais prazerosa, mais envolvente, mais catártica... Um seco analista literário diria que essas informações não interessam à literatura. Interessam sim, porque iluminam quase todos os meandros do texto, muitas vezes, um farol que nos faz encontrar a saída do labirinto. Repetindo-me enfaticamente, essas qüestões genéticas não tornam desprezível o julgamento estético da literatura, que existe e subsiste pelas qualidades de obra de arte e não, obviamente, pela análise da psicologia do escritor, um acréscimo, jamais o principal.
A solidão, um "leitmotiv", é sempre sua grande preocupação que avulta ainda mais pela dificuldade de comunicação da protagonista Macabéa: "Ela falava, sim, mas era extremamente muda". Esse paradoxo, fala/mudez, é um contraditório irônico e cômico que dói no leitor, como uma bofetada. Clarice captou, com rara acuidade, toda a solidão de nossa protagonista, toda a alienação, num emaranhado, que evita sua integralização na sociedade:

Pois que a vida é assim: aperta-se o botão e a vida acende. Só que ela não sabia qual era o botão de acender. Nem se dava conta de que vivia numa sociedade técnica onde ela era um parafuso dispensável.

O problema da comunicação torna-se mais chocante, quando se encontram pessoas-ilhas dentro desse universo alienado: por, exemplo, Macabéa e o doutor. Um diálogo de surdos. A ternura e a cupidez. O médico, "desatento", "que achava a pobreza uma coisa feia", detestava os pacientes, "desatualizado na medicina e nas novidades clínicas mas para o pobre servia", queria "ter dinheiro para fazer exatamente o que queria: nada".

? Você está com começo de tuberculose pulmonar.
Ela não sabia se isso era coisa boa ou ruim. Bem, como era uma pessoa muito educada, disse:
? Muito obrigada, sim.

A emoção é o condicionamento de toda a sua obra. Clarice incorporou ao texto a sua mensagem de despedida da vida e do anseio de permanecer entre nós, os vivos de hoje... Coloca, no último texto, seu substrato humano, descobre-se, desnuda-se, alegria e dor, felicidade e tristeza, "pois por enquanto é tempo de morango"... A uma escritura instigante como essa, podemos acrescentar as observações de Freud (Moisés de Miguel Ângelo):

Toda autêntica criação poética deve decorrer de mais de um motivo, mais de um impulso no pensamento do poeta, e deve admitir mais de uma interpretação.

A obra aberta dá margem a variadas interpretações, todas válidas, desde que articuladas com o texto, considerando-se ainda mais que, se nenhum objeto, por mais simples e primitivo que seja, pode ser inteiramente descrito, também havemos de considerar que não há limites para a interpretação do texto literário. Conhecendo a Clarice Lispector do mundo empírico, conhecendo a Macabéa do mundo imaginário, envolvemo-nos, fruímos, adentramos o espírito de A hora da estrela. Naqueles momentos da leitura, mesmo depois, rodeados por aquele halo mágico da criação artística, somos Clarice e Macabéa, Clarice, Macabéa e o mundo, o todo e a parte do romance.

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Gregório de Matos Guerra

Faço minhas, as palavras de um personagem das Histórias de calendário, peça de Bertolt Brecht:

Já observei que afastamos muita gente da nossa doutrina por termos para tudo uma resposta-feita. Não seria conveniente estabelecermos em benefício da nossa propaganda, uma lista de todas as qüestões que nos parecem ainda não estar solucionadas?

Pegando esse gancho de Brecht, dirijo-me aos leitores desse ensaio, conclamando-os a pensarem nas montanhas de lacunas, de "gaps", de buracos sem fundo, que qualquer trabalho hermenêutico apresenta, porque sempre haverá soluções a qüestões infinitas com respostas não finitas, o encontro e a detecção de verdades, remetendo-nos também para a epígrafe de Freud.
Clarice Lispector transmite-nos a idéia de que escrever é mistério, enigma; escrever é magia, encanto; escrever é passar do aquém para o além-túmulo, deixando testemunho. Mesmo a pequenina Macabéa, o espetar de um alfinete na anca do elefante capitalista, incomoda, e, por isso, os escritores, todos, os ótimos, os bons, os regulares, os péssimos, todos aqueles que criam literatura a partir da folha de papel em branco, são temidos, e, por isso, afastados, desprezados, pela classe dirigente, porque são perigosos, muito perigosos, porque pensam e fazem pensar.

Mas quando escrevo não minto. Que mais? Sim, não tenho classe social, marginalizado que sou. A classe alta me tem como um monstro esquisito, a média com desconfiança de eu possa desequilibrá-la, a classe baixa nunca vem a mim.

A classe alta considera-a "um monstro esquisito", e di-lo com toda a razão, porque a escritora não faz parte do seu modo de produção, ? não faz, porque não quer?, e a burguesia tem um projeto, a extorsão dos "outros"; a classe média desconfia, porque tem medo, vive temerosa, no fio da navalha, entre o proletariado e a burguesia, desprezando o primeiro e invejando o segundo; a classe baixa (sic), o proletariado, completamente desorientado, desorganizado, avança num prato de comida, nunca, num livro. Sabemos que é mais importante o que entra na cabeça do que tudo aquilo que pode entrar pela boca... mas vá-se argumentar nestes termos com um faminto...
A Macabéa de Clarice Lispector, digo, a Macabéa Brasileira do Brasil, representante de todas os deserdados de nosso mundo-cão, vagueia ao léu da sorte e do destino, passando pela vida como o ar, confirmando o truísmo de Kalman Shulman de que "amar a a humanidade é fácil, o difícil é amar seres humanos". As Macabéas reforçam a idéia de que o capitalista brasileiro desmente as palavras de Ricardo III: "Não há besta por mais feroz que seja, que não tenha um pouco de piedade."
Clarice cunhou palavras que marcam a existência de sua protagonista e a de todos nós: "O que queria dizer que apesar de tudo ela pertencia a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito." Está bem acompanhada pelo prêmio Nobel, o grande Hemingway que também decretou em O velho e o mar, que "o povo pode ser destruído, mas nunca derrotado". Jorge de Lima, excelente poeta brasileiro, junta-se aos dois no quadro de "A mulher proletária", uma pintura contundente:

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há de ver, há de ver:
a tua produção,
tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar teu proprietário

Todos esses demiurgos levam-nos a ver a literatura como uma forma de conhecimento, pois o escritor depura a realidade, fazendo com que ela surja sem sombras aos nossos olhos ? o que não sucede na vida empírica ?, expondo as classes sociais em movimento. Poderia apontar outros literatos que também têm a sensibilidade à flor da pele, porque "o poeta é a antena do povo" (Ezra Pound), pois os demiurgos representam as aspirações do ser humano, e, assim, nada os separa e tudo os une, seja lá qual for a latitude, a nacionalidade ou o tempo de sua vida. Todos concordamos com Albert Schweitzer (De minha vida e meu pensamento): "À pergunta de saber se sou pessimista ou otimista respondo que meu conhecimento é de pessimista, mas minha vontade e minha esperança são de otimista."
Clarice Lispector criou Macabéa, entretanto não fez literatura panfletária. Vemos que Friedrich Engels e Clarice caminham juntos, quando lemos a carta do sábio a Margaret Harkness, no início do ano de 1888, acerca do romance, A city girl:...¨: "se tenho alguma crítica a fazer, será talvez a de que seu romance não é bastante realista. O realismo, para mim, implica, além da verdade do detalhe, a apresentação verdadeira de personagens típicos em circunstâncias típicas". Macabéa e todos os personagens de A hora da estrela agem tipicamente em situações típicas, sejam proletários ou não, todos são criaturas tão vivas ou mais, do que as que nos cercam no nosso medíocre viver. Clarice apresenta o problema, não dá a solução, porque ela conta a vida de uma personagem e, em momento algum, pretende escrever uma tese política, mas a travessia existencial de Macabéa torna-se uma condenação do sistema capitalista, particularmente do desumano capitalismo selvagem da burguesia e do latifúndio de nosso sofrido Brasil, a oitava economia do mundo e a penúltima em distribuição de renda.
Terminando, oferto àqueles que acham que Clarice perverteu sua escritura em A hora da estrela o poema de Bertolt Brecht, encerrando este caleidoscópio:

O ANALFABETO POLÍTICO

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política.
Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais


FREUD, Sigmund. Se Moisés fosse egípcio. In: ---. Edição eletrônica brasileira das obras psicológicas. Rio de Janeiro: Imago, s.d.
LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. 9. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
Idem, ibidem, p. 48.
Idem, ibidem, p. 41.
Idem, ibidem, p. 86.
Idem, ibidem, p. 70.
Idem, ibidem, p. 45.
BOTTOMORE, Tom, ed. Dicionário do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Zahar, 1988. p. 223.
LISPECTOR, op. cit., p. 55.
Idem, ibidem, p. 75.
Idem, ibidem, p. 37-8.
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 806.
Idem, ibidem, p. 94.
LISPECTOR, op. cit., p. 96.
BANDEIRA, Manuel. Consoada. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983.
LISPECTOR, p. 94.
FORMAN, M.R., org. The letters of John Keats. New York, 1935.
LISPECTOR, op. cit., p. 98.
Idem, ibidem, p. 36.
Idem, ibidem, p. 36.
Idem, ibidem, p. 77.
Idem, ibidem, p. 78.
Gregório de Matos Guerra, poeta barroco brasileiro (1623-1696).
LISPECTOR, op. cit., p. 25.
SHAKESPEARE, William. Ricardo III. Ato I.
LISPECTOR, op. cit.,. p. 90-1.
LIMA, Jorge de. Mulher proletária. In: ---. Poesias completas. Rio de Janeiro: J. Aguilar, Brasília, INL, 1974.

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Carlos Alberto dos Santos Abel
E-mail: ccasabel@aol.com
Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Pesquisador Associado Sênior na Universidade de Brasília (UNB)
Professor aposentado pela Universidade de Brasília (UNB)
Continuando em atividade, lecionando em cursos de pós-graduação no Centro Universitário da Cidade.

Último livro: Graciliano Ramos; cidadão e artista, publicado pela Editora da Universidade de Brasília.

 

 

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