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Caderno de Sexualidade Humana

 

Vamos Acabar com os Mitos?
Maitê Schneider*

Os mitos ligados à sexualidade em geral são muito fortes e estereotipados, devido à pouca discussão que se faz acerca deles e também ao pouco conhecimento real do assunto.

É mais fácil e cômodo brincar com o rótulo criado do que discutir seriamente as muitas questões que envolvem o desejo, a atração e o amor homossexual, bissexual e até mesmo transexual.

"Brincar" parece nos isentar de qualquer tipo de responsabilidade perante o mundo real. "Brincar" parece ser um jogo de poder tudo, sem dever nunca explicar o que foi dito. "Brincar" é não ter argumentos e nem coragem de encarar a si mesmo e as verdades que conhece dentro de si e que não ousa discutir.

Chega de brincadeiras. Está na hora de tratarmos com a seriedade devida os mitos da sexualidade, que tantos fantasmas criam e que acabam assustando pessoas comuns, gente do cotidiano, jovens se descobrindo, senhoras que nunca encontraram-se plenas e felizes, pessoas como a gente. Desvendar os mitos criados é o primeiro passo para que se comece alguma construção positiva do bem-estar da coletividade em geral e do ser humano em particular.

Precisamos desta discussão para que os mitos não continuem se propagando de maneira errônea e criando cada vez mais rótulos e limitações na finalidade maior das pessoas, que é a de amar.

A seguir, alguns mitos criados e o que realmente existe de verdade nisto tudo:

Ser passivo é ser menos digno.
Ser ativo é ser superior.
Ser ativo numa relação homossexual é não ser homossexual.
Quem é ativo é o "homenzinho", quem é passivo é a "mulherzinha" .
Estes rótulos foram criados pelo machismo de nossa sociedade e pela imposição do patriarcalismo como única forma da construção de uma sociedade sadia. A sociedade criou o falso mito de que quem se entrega, doa-se ou "quem é passivo" torna-se subjugado ou que pode ser dominado.

Bem sabemos que estes rótulos somente levam a aumentar as muitas diferenças que já nos são passadas através da educação e dos conteúdos deturpados da realidade. Ao criarmos estas ordens e ao continuarmos estimulando estes preconceitos estaremos dando margem para que haja sempre um dominador e um dominado, envolvidos numa relação de oprimido e opressor, onde não há igualdade alguma que seja respeitada.

Bissexual é um gay enrustido.
O mundo é gay.
Todo heterossexual é homossexual, só não saiu do armário ainda.
Ser normal é ser heterossexual.
Bissexual é um homem hetero que transa com outro homem, um homossexual masculino que transa com mulhers, uma homossexual feminina que transa com homens ou uma mulher hetero que transa com outra mulher.
Mais rotulações e crendices que se formaram e continuam fazendo parte do modo de pensar de muita gente.

Todos devem ser livres para serem o que quiserem, e no momento em que desejarem. Hipocrisia nossa ficar achando que todos têm que ser alguma coisa e levar este estigma para o resto da vida. O importante é estar bem consigo mesmo, não importando a forma de sexualidade vivida.

A travesti é sempre "passiva"
O michê é sempre "ativo"
O gay é quem dá.
Novamente a história de que “quem come" está livre de toda a culpa e sujeira do pecado que a educação e a religião imputam ao amor entre iguais, ou qualquer outra forma de amor que ela não julgue ser aceitável.

A travesti pode ser passiva ou ativa, o michê idem, e para ser gay, homossexual, bissexual, transexual ou travesti você não precisa necessariamente ter que "dar". Temos que acabar com o mito negativo das aparências. Nem sempre o que você vê no exterior da pessoa representa a sua sexualidade. A sexualidade é algo muito mais profundo, está no sentimento e não somente na roupa que se veste e no trejeito que se possui.

Toda travesti é marginal, drogada e prostituta.
Toda transexual é linda, inteligente e de bem com a vida.
Todo homossexual é fanático por sexo e não pensa em outra coisa.
Aqui antagonismos continuam sendo colocados. Por que sempre temos que colocar opostos para que consigamos avaliar alguém ou alguma postura??? Por que para que "A" faça sucesso, "B" tem que ficar na pior???

Há transexuais que se prostituem, travestis inteligentes, transexuais que sãos marginais. Há travestis de bem com a vida e transexuais também. Transexuais lindas e travestis mais lindas ainda. Tem travesti que vive drogada, também tem as que não. Vivemos num universo de diversidades, e como tal não encontramos pontos comuns em atitudes e maneiras de pensar. É muita ignorância rotular as pessoas num grupo e querer que todas ajam de igual maneira e tenham condutas similares.

Com base nos mitos acima citados (e duvido que você nunca tenha pensado ou exteriorizado pelo menos um deles), podemos perceber o quanto há de errado em basearmos nossas afirmações e opiniões em cima desta mitologia toda.

Uma sexualidade sadia somente se constrói quando deixamos de lado tabus, mitos e preconceitos, e partimos para a vivência real e plena daquilo que realmente somos: seres sexuados predestinados a viver o amor em toda a sua plenitude.

© Maite Schneider é Vice-Presidente do Instituto Paranaense 28 de junho de Direitos humanos


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