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Uma publicação da SAEP Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica | |
| EDIÇÃO ESPECIAL | Página atualizada em 08 de outubrobro de 2000 | |
| ARTIGO |
| O Conceito de Papel no Psicodrama | ||
O significado de rôle é o de uma
folha contendo um escrito e o de papel o material
utilizado na confecção da folha.Da mesma forma, a
palavra portuguêsa papel significa,de modo geral, o
material utilizado para a escrita.Constata-se que os
significados originais de rotulus foram incorporados na
lingua portuguêsa pela palavra papel.Isso porque,além
de indicar o material utilizado na escrita (papiro),papel
refere-se também à "personagem representada por um
ator",ou à "parte que cada ator desempenha no
teatro,no cinema,na televisão,etc."e,ainda, à
"atribuição de natureza moral , jurídica ,
técnica , etc."(4),isto é,desempenho ,função, Em relação ao teatro,todo papel
necessita de um ator e todo ator tem um papel a
desempenhar.Sabe-se que o teatro pode sobreviver sem um
texto escrito, prescindir da cenografia (representação
ao ar livre), e até dispensar a palavra (mímica).Pode
existir (como durante séculos) sem o diretor.Mas o
teatro jamais viverá sem o ator. Com o tempo, ainda na Grécia e Roma
Antiga,as diversas partes da representação teatral eram
escritas em "rolos" e lidas pelos pontos aos
atores que procuravam decorar seus respectivos
"papéis". Nos séculos XVI e XVII,com o teatro
moderno,as partes dos personagens teatrais eram lidas em
"rolos" ou fascículos de
papel.Passou-se,assim,a designar cada parte cênica como
papel ou "role". É esquecido a miúde, que a moderna teoria dos papéis teve sua origem no teatro,do qual tomou suas perspectivas.Tem uma longa história e tradição no teatro europeu,a partir do qual desenvolvi, gradualmente,a direção terapêutica e social de nosso tempo. Introduzía nos Estados Unidos em meados da década de 20. Dos papéis e contra-papéis, situações de papéis e conservas de papel, desenvolveram-se naturalmente suas extensões modernas: o executante de papel, o desempenho de papéis, a expectativa de papel, a passagem ao ato (acting out) e, finalmente, o psicodrama e o sociodrama. (18,p.28) A tarefa do Teatro Veienense da Espontaneidade, entre 1921 e 1923, foi a de produzir uma revolução no teatro, procurando modificar por completo os eventos teatrais. Das Stegreiftheater representou a fusão ator-autor e expectador no ato da criação e representação do drama. Rompe a oposição entre ator e autor, entre pessoa e drama, criando a vida sem necessidade de textos. Elimina a hierarquia entre os atores (o protagonista não é fixo como na tragédia grega ). Desaparece a separação entre platéia e atores, pois cada membro da platéia pode tornar-se ator e vice-versa. Platéia e atores são, assim, os únicos criadores. Tudo é improvisado: a peça, a ação, o motivo, as palavras, o encontro e a resolução dos conflitos. O palco também desaparece, surgindo em seu lugar o palco-espaço, o espaço aberto, o espaço da vida, a vida mesma. Surge,assim, um novo tipo de teatro.
Não um teatro repetitivo, de peça escrita pelo
dramaturgo, decorada, ensaiada e encenada sucessivamente.
O Teatro da Espontaneidade é sempre uma peça única,
que flui e se consuma no aqui-agora do ato vivencial dos
atores-criadores. Um teatro vivo, teatro vida.
"Minha visão do teatro foi moldada segundo a idéia
do self espontaneamente criativo", diz Moreno.
(l5,p.17) A teoria psicodramática dos papéis leva o conceito de papel a todas as dimensões da existência humana, desde o nascimento e ao longo de toda a vida do indivíduo, enquanto experiência pessoal e modalidade de participação social. Situa-se no conjunto da teoria moreniana que sempre se refere ao homem em situação, imerso no social, buscando transformá-lo através da ação. O conceito de papel, que pressupõe interrelação e ação, é central nesse conjunto articulado de teorias, imprescindível, sobretudo, para a compreensão da teoria e prática do psicodrama. O homem é um ser que, a partir do impulso da espontaneidade, poderá desenvolver a "centelha divina criadora" que traz em si mesmo. "O homem é um gênio em potencial, que lutando contra as conservas culturais, através da espontaneidade criadora, chegará a assemelhar-se a Deus e encontrar sua liberdade". E se o homem não desenvolver essa espontaneidade, ele adoece, segundo Moreno. Tal concepção entende que o existir humano é um viver em coletividade. O indivíduo se realiza pelo desempenho de papéis na sociedade. "Este enfoque se funda no princípio de que o homem tem um papel a desempenhar, cada indivíduo se caracteriza por uma variedade de papéis que regem seu comportamento e que cada cultura se caracteriza por uma série de papéis que,com maior ou menor êxito, impõe a todos os membros da sociedade." (l6,p.81) Encontra-se, assim, na concepção moreniana de homem como gênio que se desenvolve a partir da espontaneidade, a dimensão do indivíduo, e na concepção de homem como membro de um grupo inserido numa coletividade, a sua dimensão social. O ponto de união entre ambas, para Moreno, encontra-se no conceito de papel: "Todo papel é uma fusão de elementos particulares e coletivos, é composto de duas partes: seus denominadores coletivos e seus diferenciais individuais." (l6,p.68) Dessa maneira, como síntese unificadora, o papel -conceito social- conecta com a espontaneidade, de conteúdo individual. Papel e espontaneidade caminharam juntos desde os primeiros trabalhos de Moreno com seu teatro de improviso: "O desempenho de papéis foi a técnica fundamental do teatro espontâneo vienense. Dada a predominância da espontaneidade e da criatividade no desempenho de papéis,este foi chamado "desempenho espontâneo-criativo"". (17,p.157) Essas duas dimensões, a individual e a
coletiva são encontradas nos diferentes sentidos e
concepções de papel apresentadas por Moreno ao longo de
sua obra: Moreno ora define o papel como função prescrita e assumida pelo indivíduo,ora como a "forma real e tangível que o eu assume"passando do plano dramático ao social.Para ele,o papel ora se refere à uma pessoa imaginária,ora a um modelo para a existência ou a um personagem da realidade social,uma imitação da vida ou uma forma tangível do eu.E,como observa Rocheblave-Spenlé,destaca-se o sentido de representação teatral e ação,funções sociais desempenhadas pelos indivíduos na sociedade,representação da individualidade das pessoas,modelo de experiência,"parte"de uma pessoa real representada por um ator,caráter ou função assumidos numa realidade social e cristalização final do modo de realizar ações especiais,como pai,mãe,etc. A mesma autora observa, por outro lado, que enquanto a maioria dos autores que trataram do tema (tais como G.H.Mead, R.Linton, Parsons...) enfocam os papéis como facilitadores das relações sociais pela sua previsibilidade e por representarem padrões de conduta aceitos, Moreno ilumina um aspecto novo e original do papel: a possibilidade criativa do homem que o assemelha a Deus cujas ações são criadoras e espontâneas. Englobando sintèticamente os
diferentes sentidos do termo papel propostos por Moreno,
Gonçalves,C., Wolf,J.R, e Almeida,W.C., definem papel
como "a unidade de condutas interrelacionais
observáveis,resultante de elementos constitutivos da
singularidade do agente e de sua inserção na vida
social."(11,p.68) ORIGEM DOS PAPÉIS E O SURGIMENTO DO EU "O desempenho de papéis é
anterior ao surgimento do eu.Os papéis não emergem do
eu; é o eu quem , todavia, emerge dos
papéis."(18,p.25) Moreno distingue três tipos de papéis: os fisiológicos ou psicossomáticos,os psicológicos ou psicodramáticos e os sociais. Considera-os como "eus" parciais. Postula que entre o papel sexual,o do indivíduo que dorme,o do que sonha e do que come,desenvolvem-se "vínculos operacionais"que os conjugam e integram numa unidade,considerada uma espécie de eu fisiológico,um "eu parcial",um conglomerado de papéis fisiológicos. Do mesmo modo,no decurso do desenvolvimento e história do indivíduo,os papéis psicodramáticos vão se agrupando, formando uma espécie de "eu psicodramático".O mesmo ocorre, finalmente,com os papéis sociais, constituindo um "eu social". O fisiológico,o psicodramático e o social são apenas "eus parciais". Moreno afirma que o eu inteiro,realmente integrado,de anos posteriores,ainda está longe de ter nascido.É necessário que se desenvolvam,gradualmente,vínculos operacionais e de contato entre os conglomerados de papéis sociais, psicológicos e fisiológicos para se identificar e experimentar,após sua unificação,aquilo que é chamado de "eu". No processo de desenvolvimento infantil
os papéis psicossomáticos auxiliam a criança a
experimentar seu corpo (dimensão fisiológica/
cor-poral). Por outro lado,os psicodramáticos vão
proporcionar as condições da criança experimentar e
desenvolver sua psiquê(dimensão psicológica do eu) e
os sociais,por sua vez,contribuem para produzir o que se
denomina sociedade (dimensão da realidade
social).Corpo,psiquê e sociedade são as partes
intermediárias e integrantes do eu total. Na primeira fase da matriz de identidade ( a da identidade total indiferenciada) os papéis que primeiro aparecem,ligados às necessidades e funções vitais,são os psicossomáticos,tais como o de ingeridor, defecador ,dormidor ,etc. O conceito de papel psicossomático, para Moreno, encontra-se vinculado ao de zona, foco, iniciador, aquecimento, conjunto de determinantes e/ou condições que ocorrem,por exemplo,no ato de mamar,na relação mãe-filho."Toda zona é o ponto focal de um dispositivo físico de arranque no processo de aquecimento preparatório de um estado espontâneo de realidade,sendo tal estado ou estados componentes na configuração de um papel."(18,p.108) Os papéis psicossomáticos são os primeiros desempenhados pelo ser humano.Definem as marcas gravadas pela ordem vital e constituem os primeiros papéis a exigir do homem uma colocação frente à sua propria existência.Representam padrões de conduta ou funcionamento na satisfação das necessidades fisiológicas,incluindo aí o modus operandi,o clima afetivo-emocional com que os egos-auxiliares interatuam com a criança no atendimento dessas suas necessidades.De certa forma, já existe relação nas respostas que as necessidades ou funções fisiológicas recebem dos egos-auxiliares.A partir,portanto,da forma como foram experienciados os papéis psicossomáticos,a criança continua o processo de assimilação de novos aglomerados ou "cachos"de papéis,pois a partir da formação dos primeiros ocorre como se cada novo papel surgido tendesse a se aglutinar com os outros por influência ou "transferência do fator E".Moreno entende o papel como a primeira unidade ordenadora e estruturante do eu. Já na segunda fase da matriz ( a da identidade total diferenciada), embora não tenha surgido ainda a diferenciação entre objetos de realidade e imaginários,a criança começa a "imitar"parte daquilo que observa.Moreno denomina tal processo como "adoção infantil de papéis"que consiste em duas funções: dar papéis (dador) e receber papéis(recebedor).Exemplifica com a situação de alimentar: a concessão de papéis é realizada pelo ego-auxiliar (mãe) e o recebimento de papéis é feito pelo filho ao receber o alimento.A mãe ao dar o alimento aquece-se em relação ao filho para execução de atos de certa coerência interna.E o bebê,ao receber o alimento,aquece-se também para a execução de uma cadeia de atos que igualmente desenvolvem certo grau de coerência interna.Como resultado de tal interação vai se estabelecendo, gradualmente, uma certa e recíproca expectativa de papéis nos parceiros do processo.Expectativa esta que cria as bases para todo o intercâmbio futuro de papéis entre a criança e os egos-auxiliares. O primeiro universo termina quando a experiência infantil de um mundo em que tudo é real começa se decompondo entre fantasia e realidade.Desenvolve-se a construção de imagens e começa a tomar forma a diferenciação entre coisas reais e coisas imaginadas.É o início do segundo universo infantil,marcado pelo surgimento do que Moreno denominou "brecha entre fantasia e realidade",(constituindo a terceira fase da matriz de identidade). Surgem, então, dois processos de aquecimento: um de atos de realidade e outro de atos de fantasia.Dessa divisão do universo em fenômenos reais e fictícios, surgem, gra-dualmente,um mundo social e um mundo de fantasia, separados do mundo psicossomático na matriz de identidade. Emergem,agora,formas de representar papéis que põem a criança em relação com pessoas,coisas e metas,no ambiente real,exteriores à ela (papéis sociais) e com pessoas,coisas e metas que ela imagina lhe serem exteriores (papéis psicodramáticos). A partir da ruptura entre realidade e fantasia surge a diferenciação dos papéis sociais e psicodramáticos,até então misturados.Os papéis de mãe, filho, professor,etc. são denominados sociais, separados dos psicodra-máticos que são personificações de coisas imaginadas,tanto reais como irreais.Num diagrama de papéis(l8,p.129) Moreno representa a divisão entre ambos como tênue,mas atribui maior espaço e predominância aos psicodramáticos. Com o desenvolvimento desses novos conjuntos de papéis (os sociais relacionados com o mundo real,os psicodramáticos com o mundo da fantasia),completa-se a terceira fase da matriz de identidade, denominada a da inversão de papéis onde,primeiro existe a tomada de papel do outro para,em seguida,ocorrer a inversão concomitante de papéis,o que acarreta uma transformação total na sociodinâmica do universo infantil. Os papéis psicodramáticos e sociais completam as condições para o surgimento do eu.Os três papéis definidos por Moreno, desdobrando-se em aglomerados ou "cachos"correspondem aos papéis precursores do ego,constituindo os "eus parciais" psicossomático, psicodramático e social. Nos sociais opera,fundamentalmente,a função da realidade mediante interpolações de resistências,não produzidas pela criança,mas que lhe são impostas pelos outros,suas relações,coisas,atos e distâncias no espaço, no tempo.Dessa maneira,através dos papéis sociais,o indivíduo vai incorporando ou é inserido no mundo da realidade da cultura,dos padrões de conduta,valôres,deveres,etc..É o mundo instituído da conserva cultural. A dimensão psicodramática constitui a contrapartida da realidade,já que nos papéis psicodramáticos opera,fundamentalmente,a função da fantasia.Moreno entendia como papéis psicodramáticos tanto os desempenhados no cenário durante uma dramatização,quanto os oriundos da fantasia,da imaginação como produções imaginárias do indivíduo. "Os papéis psicodramáticos são personificações de coisas imaginadas,tanto reais quanto irreais".Correspondem,portanto,à dimensão mais individual da vida psíquica,à "dimensão psicológica do eu",livre das resistências extrapessoais, a não ser as criadas por ele mesmo. Com a brecha entre a fantasia e a realidade o indivíduo adquire a capacidade de iniciar processos de aquecimento diferenciados,tanto para o desempenho de um ou de outro tipo de papel.E o fator que vai garantir essa passagem do mundo da fantasia para o da realidade e vice-versa é a espontaneidade como princípio da adequação da ação do indivíduo a seus próprios papéis. A fase da inversão de papéis que ocorre no segundo universo infantil(precedida pela do duplo e a do espelho) representa a culminância do processo de desenvolvimento do eu e constitui a base psicológica para todos os processos de desempenho de papéis e para fenômenos como imitação,identificação,projeção e transferência.Inverter e desempenhar o papel do outro,não surge de súbito nem ocorre nos primeiros meses de vida.Somente com a integração dos papéis precursores,em torno do terceiro ano,a criança dispõe de uma identidade que lhe permitirá relacionar-se com outras pessoas.Poderá,assim,inverter o quadro, assumindo o papel de quem,um dia,a alimentou,carregou no colo ou com ela passeou.Dessa maneira,a experiência da realidade irá permitir que,a partir da adoção de papéis,iniciada com os psicossomáticos,surjam várias possibilidades de interação dos sociais e psicodramáticos. Pela análise da gênese e desenvolvimento na história do indivíduo fica claro que "o papel é uma experiência interpessoal",na qual vários atores encontram-se implicados,constituindo-se,ao mesmo tempo,numa interação de estímulos e respostas.Interação que tanto sinalisa fatores previsíveis da resposta em função dos papéis sociais e da percepção dos mesmos,quanto elementos imprevisíveis resultantes da espontaneidade dos atores/participantes da interação.Necessário se faz,portanto, analisar um outro aspecto ,o conceito de complementariedade,o contra-papel. O papel,originàriamente,nasceu da
interação mãe-filho e baseado na complementariedade
dos dois.Somente existe em função de seu complementar:
o contra-papel.A interrelação de ambos,polarizada em
papel e contra-papel,constitui os vínculos.A forma do
indivíduo atuar e interagir é através dos
papéis.Estes correspondem ao conjunto de respostas que
ele dá a situações onde outros indivíduos interagem
desempenhando papéis complementares.Esse aprendizado
implica em conseguir viver os vários pólos de uma
cadeia interativa,podendo jogar tanto o seu papel quanto
o complementar.Papel e contra-papel são cons-titutivos
um do outro.Não há pai sem filho...O modo de ser de uma
pes-soa decorre dos papéis que ela vai complementando ao
longo de sua existência,com as respostas obtidas na
interação social, por outros papéis que complementam
os seus. Como para Moreno o eu "é revelado pelo desempenho de papéis",ele vai previligiar,sobremaneira a técnica do role-playing com todo seu desdobramento pedagógico(aprendizagem e treinamento de papéis) e terapêutico.A finalidade do role-playing como jogo psicodramático de papéis "é proporcionar ao ator uma visão do ponto de vista de outras pessoas,ao atuar no papel dos outros,seja em cena ,seja na vida real". O desenvolvimento de um novo papel
passa por três fases distintas: a) a tomada do papel
(role-taking) ou adoção do papel já pronto e
inteiramente estabelecido,podendo o indivíduo apenas
imitá-lo a partir dos modelos disponíveis.Não permite
variação e nenhum grau de liberdade.Cabe apenas
aceitá-lo,desempenhando-o da maneira já con-vencionada.
Para Moreno, constitui-se produto acabado,conserva de pa-
Não há como pensar o Psicodrama,seus instrumentos, a estrutura de uma sessão, desvinculado de papéis e atores que os vivenciam.Toda dramatização,jogo ou qualquer técnica psicodramática somente pode acontecer quando papéis são colocados em ação e,através destes, personagens interatuam se vinculando como interlocutores. No Psicodrama,encontrando-se com seu eu em papéis imaginários ou correspondentes a funções assumidas dentro da realidade social,o indivíduo recupera a capacidade de realizar transformações autênticas em sua vida,nas suas relações e no meio onde vive. A realização da verdadeira ação
espontânea equivale à criação e desempenho de papéis
que correspondem a modelos próprios de existência.A
dimensão do homem criativo/espontâneo se contrapõe
contìnuamente com a conserva da estrutura social,com os
papéis que o aprisionam a modelos e
padrões,normas,status,rótulos pré-determinados. O
Psicodrama possibilita ao indivíduo utilizar seu
potencial imagi-nativo/criativo para transformar a
realidade,retomar papéis sociais
instituídos,cristalizados e conservados, para
recriá-los modificando-os e invertê-los,
reinventando-os na vivência das relações em que se
encontra envolvido e implicado.Uma vez que a proposta
psicodramática é resgatar o homem espontâneo-criativo
preso nas amarras da conserva cultural,pode-se dizer que
a criatividade é aquilo que o indivíduo faz para
recriar o seu eu com espontaneidade através do conjunto
de papéis que desempenha no jogo da vida. J.G.ROJAS BERMUDEZ (l966), em seu livro"Que es el Sicodrama?",desenvolve uma teoria neurofisiológica de desenvol-vimento, personalidade e psicopatologia - "a teoria do Núcleo do Eu". Denomina Núcleo do Eu à estrutura resultante da confluência dos papéis psicossomáticos de ingeridor,urinador e defecador com as áreas mente, corpo e ambiente. Bermudez considera o ser humano uma condensação dos fatores ambiente,corpo e mente com destaque para os papéis psicossomáticos de ingeridor,defecador e urinador oriundos das funções fisiológicas correspondentes. A importância fundamental da estruturação dos papéis psicossomáticos é a progressiva delimitação de áreas que eles vão produzindo.Assim,o papel de ingeridor delimita as áreas corpo-ambiente,o de defecador as de ambiente-mente e o de urinador mente-corpo.Evolutivamente,para Bermudez,o papel de ingeridor estrutura-se nos primeiros dias de vida,o de defecador entre o terceiro e oitavo mês e o de urinador entre o oitavo e vigésimo quarto.O "Núcleo do Eu"é a estrutura resultante da integração das três áreas com os três papéis psicossomáticos a partir da "estrutura genética programada interna" e da "externa". Como um dos pioneiros na história do
movimento psicodramático brasileiro, Bermudez tem feito
escola e sua teoria do Núleo do Eu possui inúmeros
seguidores. Para Bustos, os papéis estruturam o ego em suas trocas com o meio ambiente.A zona de interação entre o ego e o mundo exterior está estruturada em forma de papéis.Cada papel se relaciona com comple-mentares de outras pessoas através de vínculos.Pela falta de diferenciação entre o eu e os outros,entre mundo interno e externo, o universo das relações fica povoado de confusões,sem limite entre o eu e não eu.Não há consciência dos vínculos.O eu e o outro significativo ficariam unidos em suplementariedade,onde um é parte do outro,sem possibilidade de vínculo.A fantasia da inexistência do vínculo caracteriza a suplementariedade onde cada um dos termos de uma relação se comporta como se fosse parte de um todo,sem solução de continuidade.Passa-se de um estar com o outro à fantasia de ser parte do outro.É o funcionamento unitário,base das relações simbióticas. O mesmo autor explica,ainda,que todo conflito é incorporado através de um papel,geralmente o de filho com seu complementar: mãe ou pai.A situação de conflito faz com que este papel fique fixado em seu modus operandi ao papel complementar primário,denominado complementar interno patológico.Quanto mais forte o conflito,mais incapacitante o resultado e maior número de papéis são afetados.Isso porque,todo estímulo externo que desencadeie esta dinâmica originará condutas que correspondem à relação com este complementar interno patológico.Como, por exemplo, um filho hipersensível diante de um pai supercrítico poderá apresentar condutas afins em suas relações com outras figuras de autoridade.Isso ocorre,porque,para se despreender dos complementares primários,a criança necessita de apoio indispensavel para superar a angústia da separação e retomar a espontaneidade.Na falta desse apoio, ela tenderá reter o que é garantido ou conhecido,aferrando-se ao complementar primário, parcial ou totalmente, configurando-se, assim, o papel complementar interno patológico.Este irá bloquear ou afetar em diferentes graus as relações com os outros,revelando-se parte constituitva permanente dos vínculos,provocando respostas ou atitudes de acordo com as experiências primitivas do indivíduo,e não com os estímulos externos e atuais.Diminui a capacidade de reações espontâneas,aumentando a ansiedade.Constitui a base das relações transferenciais.(5,p.18-23) (6,p.24). Segundo Bustos, os papéis se agrupam conforme sua dinâ-mica,configurando clusters ou agrupamentos.(7,p.76).O primeiro depende do complementar materno,responsável por funções de dependência e incorporação . O segundo do complementar paterno,gerando a matriz dos papéis ativos.Ambos possuem um primeiro complementar único:mãe e pai ou os adultos que desempenham esses papéis.Estes dois papéis primários são assimétricos por natureza.A simetria aparece mais tarde,quando a paridade se apresenta na forma de irmãos ou companheiros de brincadeira.Esta interação diferenciada das outras duas determina o surgimento de um terceiro cluster,que representa as relações de paridade. Configura-se,assim,o esquema básico de papéis:passivo,ativo e interativo.O primeiro esquema,de funções passivas,incorporativas,dependentes,está vinculado ao papel gerador de mãe e a aspectos femininos.O segundo,gerador de capacidade ativa,penetrante,autônoma, liga-se ao papel de pai e a aspectos masculinos .E o terceiro vínculo gerador é o papel de irmão,substituível pelo de amigos,responsável pelas experiências de intercâmbio no mesmo nível,de competição,rivalidade,etc..Essas três dinâmicas constituem possibilidades alternativas de todos os papéis. Outro conceito desenvolvido por Bustos
é o de papel gerador de
identidade,(5,p,22)(7,p.77-78),caracterizado como aquele
que,dentro de um repertório de papéis de um
adulto,predomina como um ponteiro positivo indicador do
indivíduo.Afirma que todas as pessoas têm um papel
central e predominante que impregna os demais, auxilia a
cimentar a identidade,construindo
auto-confiança,especialmente se tal papel fôr passível
de mudanças em diferentes momentos de suas
vidas.Constitui-se em eixo predominante que funciona como
defensivo nas situações de conflito,bem como possui
função ordenadora (ordenamento interno). Já os papéis imaginários são os resultantes da fantasia e imaginação do indivíduo(sonho,fantasia) mas não transformados em ação efetiva, não atuados e desempenhados.E para Naffah,o papel psicodramático ao ser vivido e desempenhado no palco resgata os papéis imaginários não-atuados,concretizando-os na ação espontânea do ator-autor-criador. Por outro lado,ao discutir o conceito
de papel social chega ao caráter histórico do mesmo
ou,conforme o denomina,a um tipo de papel:o histórico
que,enquanto modelo,circunscreve e delimita os papéis
sociais.Moreno não o descreve,segundo Naffah,por não
considerar a função estruturante da
história.Entretanto,concorda com Moreno quando este
afirma que os "os papéis são os fatos mais
significativos dentro de qualquer cultura
específica", mas desde que não se esqueça que
estas formas relacionais estão circunscritas a um
processo histórico e à uma estrutura social,política e
econômica,de que são manifestações
necessárias,consolidação do instiuído.Conclui que os
papéis sociais,sua estrutura e dinâmica próprias,nada
mais fazem que repetir e concretizar num âmbito
micro-sociológico,a estrutura de contradição e
oposição básicas que se realiza entre papéis
históricos,constituida pela relação
dominador-dominado,uma vez que o conceito de papel social
pressupõe o de classe social e vice-versa. Fonseca propõe,pela técnica de inversão de papéis,uma espécie de medida da capacidade de "inverter ou experienciar o outro",avaliando-se,assim,o grau de saúde ou doença que atinge as pessoas.Um desempenho e inversão de papéis perfeitos significa ausência total de "elementos psicóticos".Afirma que a técnica de inversão de papéis "pode realmente,guardadas as devidas ressalvas,constituir-se um dispositivo para "medir"o grau de "saúde-doença"de uma pessoa".(8,p.102). A partir de sua formação psiquiátrica e toda sua experiência clínica,Fonseca apresenta um enfoque de papel bastante operativo,oferecendo uma instrumentalização prática para o trabalho do psicoterapeuta. Com o propósito de inovação,procurando novos modelos de atuação terapêutica,Fonseca tem desenvolvido um método de psicoterapia individual, a "Psicoterapia da Relação"(10),técnica psicoterápica derivada do psicodrama,fundamentada principalmente no jogo de papéis (além de outros recursos técnicos) entre terapeuta e paciente,onde o primeiro toma e joga papéis dos personagens do mundo interno e relacional do paciente,interagindo e sendo interlocutor deste.O terapeuta da relação assume o papel internalizado do paciente,prèviamente desempenhado por ele ou diretamente,de acordo com a interação. Fonseca considera que o jogo e
inversão de papéis facilitam a comunicação
co-inconsciente e é revigorante para os participantes.
Jogar o papel de outra pessoa,abrindo mão, parcialmente,
da identidade para receber a do outro,retornando em
seguida à sua própria,produz sutís alterações de
estados de consciência e liberação de
energia,provocando bem-estar e euforia. ANIBAL MEZHER(1980) (14) questiona a
validade do conceito de papel psicossomático a partir do
próprio sistema teórico de Moreno.Assinalando e
sintetizando elementos das conceituações de diferentes
autores,define papel como "um específico conjunto
de atos,segundo o modelo prescrito por uma determinada
sociedade,na interação entre seres
humanos".Destaca três elementos
básicos:interação entre humanos,conjunto de atos e
subordinação a modelo prescrito pela sociedade. Questiona a propriedade da noção de papel psicossomático de Moreno a partir dos conceitos de zona corporal e papéis familiares.Propõe a substituição parcial do conceito de papel psicossomático pelo de "zona corporal em ação".E, para não entrar em choque com o postulado moreniano de que os papéis são os aspectos tangíveis do eu,que se desenvolve a partir deles,completa: "as zonas corpóreas como áreas corporais funcionando em relação ao mundo,num crescente processo vivencial de um corpo em relação ao mundo e de suas partes entre si,processo concomitante e integrado com sua experiência social,são fatores na consolidação da identidade corporal,substrato suficiente para as fundações do "ego"".(14,p.223) Ressalta, assim, que os papéis psicossomáticos podem ser vistos como zonas corporais em ação,incluidas na relação mãe-filho e em outros papéis familiares,sem prejuízo da identidade corporal da criança. MOYSÉS AGUIAR (l990)(1), a partir do conceito de papel, apresenta um estudo da sociometria dos vínculos.Como os vínculos acontecem através de papéis,toda a complexidade destes aplica-se também aos vínculos.Em sua análise diferencia três tipos de vinculos: a) vínculos atuais são os que se verificam nas relações concretas e onde os parceiros das mesmas caracterizam-se pela sua concretude(em contraposição à fantasia).Nesse sentido,os papéis são definidos como "sistemas pluri-uni-vocos de expectativas...em função de um objetivo comum."(1,p.51).b) Vínculos residuais são aqueles que no passado foram vínculos atuais e que se encontram desativados.São decorrentes de mortes,ruptura de relações ou afastamento entre parceiros.Esses vínculos têm uma história de realidade,mas sua existência atual está no plano da fantasia,como memória.c) Vinculos virtuais são os do âmbito da fantasia e não são encontrados nas relações concretas,tais como os estabelecidos com objetos/personagens imaginários ou míticos,ou muito distantes da realidade concreta do indivíduo,embora reais. A configuração sociométrica dos
vínculos virtuais é mais estável que a dos residuais(e
estes,muito mais que os atuais) já que não estão
sujeitos à confrontação com a realidade,quer presente
ou passada. Por outro lado,examinando a dinâmica dos papéis e a questão do contra-papel,não a entende como uma estrutura bi-polar simples.Para ele, a complexidade das relações indica ocorrência frequente de complementariedades múltiplas,como triangulação e circularização de papéis.Nesse sentido,destaca duas vertentes que tornam o desempenho de papéis mais e mais complexo: a primeira é a composição do papel,cujas inúmeras funções podem ser consideradas,de per si,como "sub-papéis". Exemplifica com o papel de mãe que inclui missões tão díspares como amamentar, limpar o bum-bum do bebê,aconselhar filha adoles-cente,etc..Tarefas estas que envolvem projetos distintos e operações peculiares,especialmente quanto à complementariedade que implicam.Surgem os sub-papéis de amamentador-amamentado,limpador-limpado,conselheiro-aconselhado,etc.,compondo o conjunto maior que é o papel mãe-filho.A segunda vertente é a que se refere a papéis paralelos.Estes surgem quando,numa determinada relação,a consecução do projeto comum permite ou mesmo exige o uso de modelos relacionais próprios de outras relações.Apresenta, como exemplo, a complementariedade professor-aluno incluindo práticas "paternais"que caracterizam outro papel do mesmo cacho,a relação pai-filho.Ou, ainda, o papel homem-mulher revelando conteúdo "paternal",próprio do papel pai-filho.Esclarece que os comportamentos que ocorrem entre os parceiros,cuja natureza tem a ver mais com o segundo papel do que com o primeiro,constituem o papel paralelo.Funciona como "condimentos"do papel principal. SÉRGIO PERAZZO (1994), em "Ainda
e Sempre Psicodrama",dis-cute a conceituação de
papel imaginário.Levanta a questão da existência de
"papel imaginário transferencial"e "papel
imaginário não-transferencial",diferenciando
papéis imaginários (Naffah) e papéis de fantasia. Para
ele,o caráter de não-atuação do papel imaginário
abre uma brecha para explicar a facilidade com que muitos
papéis,nunca jogados anteriormente,podem ser
desempenhados através de jogos dramáticos no cenário
do psicodrama.Denomina-os de papéis de fantasia,que são
facilmente atuados a partir de um pequeno esforço
espontâneo e criativo.Isso porque,segundo Perazzo,o
papel psicodramático tendo seu locus exclusivo no
cenário psicodramático,possui uma delimitação clara
de contexto,deixando um espaço vago de definição em
que transita a imaginação criativa.Nesse espaço é que
a imaginação pode ser atuada com mais facilidade,sem
intermediação de papéis psicodramáticos. Os papéis
de fantasia,portanto,poderiam ser jogados fora do
cenário do psicodrama,onde cumpririam uma "função
psicodramática"espontânea e não intermediada pela
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