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Devanir
Merengué
Psicólogo,
Psicodramatista, Professor Supervisor pela Febrap. Docente no Instituto
de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas
RDevanir Merengué
Psicólogo, Psicodramatista, Terapeuta Didata, Professor-Supervisor
pela Federação Brasileira de Psicodrama. Docente no
Instituto de
Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de Campinas – SP
O Obsceno: a cena pornográfica na espreita
psicodramática.
“Oh, sejamos pornográficos,
docemente pornográficos”.
Carlos Drummond de Andrade
RESUMO
O autor discute, do ponto de vista psicodramático, a pornografia
na atualidade, tratada aqui como produto e/ou espetáculo a
ser consumido. Para este entendimento, são utilizados os conceitos
de papel e de espontaneidade criadora.
ABSTRACT
The author discuss, under the light of Psychodrama , the pornography
as a product to be consumed or a show to be enjoyed. Also discussed
is how the uses of pornografhy are inserted in the current society.
The author adopts the concepts of the role and creative spontaneity
to achive his aims.
DESCRITORES
Psicodrama – Pornografia - Papel Social – Papel Imaginário
– Papel Virtual – Espontaneidade Criadora
INDEX TERMS
Psychodrama - Pornography -Social Role – Imaginary Role –
Virtual Role – Creative Spontaneity
Introdução
Um objeto de estudo, especialmente nas Ciências
Humanas, não estimula, via de regra, a indiferença:
o pesquisador gosta, desgosta, fica fascinado, enojado, comovido.
A pornografia, assim como outras manifestações associadas
à sexualidade pode provocar o desejo ativando alguma representação
no imaginário. Frente a esse acontecimento, deveria existir
uma atitude científica “adequada”: distância
ou proximidade?
As manifestações pornográficas na nossa sociedade
e no nosso tempo são diversas e facilmente acessíveis.
O que pode ser considerado obsceno, ou uma representação
desse obsceno, está nas bancas de revistas, nos cinemas, nos
filmes das locadoras e, de modo bem caseiro, nos muitos sites da Internet.
Frente ao computador, sem qualquer intermediação de
outras pessoas, a pornografia pode ser acessada a qualquer hora a
um custo baixíssimo. Desse modo, em um primeiro momento, a
proximidade precisa ser exercitada, como pode fazer um psicodramatista
frente a um cliente ou um grupo: uma atitude de imersão. Essa
imersão primeira, necessita, no entanto, um distanciamento
posterior no sentido de organizar a experiência. Proximidade
para humanizar a vivência e distância para estudá-la,
garantindo dessa maneira um método lastreado na atitude psicodramática.
Essa atitude cambiante mereceria uma ampla teorização
no sentido de produzir um método psicodramático de pesquisa
científica.
A questão mais geral aqui pode ser assim
resumida: como o Psicodrama vê o obsceno? O recorte será
a representação obscena seja ela escrita, fotografada
ou filmada, sem preocupação especial para o tipo de
manifestação que está sendo mostrada, mas sim
a relação entre espectador/ leitor – aquele que
vê, escuta – e a cena pornográfica, produzida por
atores, escritores, fotógrafos – aqueles que realizam
essa cena.
Uma primeira aproximação com
o intuito de definir e delimitar
Quando dizemos que pornográfico é
o erotismo dos outros (definição que se transformou
em lugar comum) falamos de uma relação: pressupomos
um sujeito que olha, escuta e outros sujeitos que se exibem para ele.
É a espetacularização do sexual. Como carros,
roupas ou doces em exposição nas vitrines, a sexualidade
alheia ativa em nós reações de prazer, conforto,
náusea, desprezo, enfim aquilo que, no momento, surge como
resposta. Uma atitude de abertura ao obsceno pressupõe o desejo
de, especialmente, ver e, talvez, ouvir. O olhar é o sentido
privilegiado, mas não podemos esquecer os diálogos obscenos
e mesmo a amplitude de sentidos (odores? gostos? tato? tesão?)
que também a pornografia escrita pode desempenhar no nosso
imaginário.
A pornografia, ao que tudo indica, visa a estimulação
dos sentidos provocando sensações que podem levar à
masturbação ou ao aquecimento para a relação
sexual. A atividade masturbatória solitária, entretanto,
parece ser a principal razão pela qual a pornografia é
buscada, embora não possa ser descartada uma atitude, digamos,
apenas contemplativa.
De grande importância nessa relação entre a cena
pornográfica e, digamos, seu usuário é a encenação,
seja ela objetivamente representada ou subjetivamente produzida no
imaginário de quem a vê. Assim, na narrativa mais estruturada
temos uma historieta com começo (os personagens se conhecem
ou travam o primeiro contato), meio (fazem sexo) e fim (orgasmo com
uma finalização sem grandes revelações,
porque não é exatamente a última cena, o ápice),
seja ela um filme, um conto ou uma fotonovela. Mas podemos encontrar
fotos ou registros ocasionais de situações (o banheiro
feminino da escola ou o vestiário masculino, disponíveis
nos sites da Internet) supostamente ou explicitamente erotizados/
erotizáveis. A cena estática pode ser utilizada com
fins eróticos-masturbatórios ou reconstruída
“dramaturgicamente” no imaginário.
A pornografia pode ser encontrada em grafites, inscrições
de banheiros públicos, na propaganda de maneira menos explícita.
Ser “soft” ou “heavy” indica a adjetivação
para níveis de exibição e as manifestações
consideradas mais suaves ou mais pesadas: se o sexo é apenas
insinuado, se existe exibição dos órgãos
genitais, se existe penetração, se essa penetração
é “real” ou simulada, se os atores fazem coisas
para “além do esperado”. Como se existisse um padrão
primeiro e variações “audaciosas” a partir
do modelo básico, que talvez seja uma “casta” relação
entre homem e mulher, da mesma cor, raça e classe social, com
penetração pênis e vagina. A partir disso, variações
aparentemente infinitas podem ser realizadas, “valendo”,
assim, mais na medida em que rompam com o “permitido”.
As manifestações obscenas no nosso tempo são,
antes de mais nada, um produto. O negócio da pornografia rende
muito dinheiro para uma indústria que está à
frente do próprio imaginário do homem comum. Como tantos
outros produtos, a ordem vigente oferece pornografia, de uma intensidade
e uma especificidade absolutas, atendendo a todo suposto desejo. O
imaginário pornográfico, desse modo, invade o imaginário
humano, oferecendo ainda mais do que ele pode querer ou pode supor
existir em termos de experiência sexual humana.
O interesse, nesse texto, foca justamente isso: o usuário e
o ator, o imaginário do receptor e a representação,
as possibilidades diversas dessa relação. E mais especificamente
uma questão conduz toda a discussão: a pornografia faz
manutenção do sabido ou rompe criativamente estes limites?
Estamos lidando com aquilo que para o Psicodrama é essencial:
a espontaneidade criadora.
Uma rápida retomada teórica
O conceito de espontaneidade criadora em Moreno
está na espinha dorsal de seu pensamento. Na tentativa de fugir
de tudo que está determinado e previsto, daquilo que é
interpretável (porque de algum modo já esteve em algum
lugar e de algum modo visível), ele pressupõe um espaço
para o não-conhecido. Concebe seres humanos (os tais “deuses”
criadores) com uma enorme capacidade: sim, diz Moreno, não
precisamos ser fantoches no grande teatro, na grande ordem vigente.
Se recitamos os papéis mecanicamente, se é cômodo
e simples repetir sempre falas e gestos de modo organizado e esperado
e que isso tudo resultou da criação por outros seres
humanos e em outras instâncias ( o que chama de conserva cultural),
existe algo mais.
Esse algo mais diz respeito justamente ao exercício humano
frente ao inusitado: para Moreno o que chama de momento é um
abismo, uma escuridão intensa. O que fazer frente ao nada?
Para ele, os seres humanos são treináveis, que ao contrário
do que possa parecer essa idéia - um mecanicismo escancarado
-, diz respeito a um espaço de libertação muito
pragmático. Prepare-se para o novo, prepare-se para aquilo
que você não sabe. Esqueça todas as saídas
fáceis. Resolva aqui e agora, sem todos aqueles clichês
nos quais você se escora faz tanto tempo. Você entrará
pelo porta do nunca feito, abandone suas esperanças. Este é
o seu inferno e a única possibilidade de paraíso. Por
um instante tudo será um grande nada, todas as suas crenças
cairão por terra. Mas caso possa suportar isso, o grande vácuo,
asas, pés, genitais... serão disponibilizados. E aí,
de seu esforço criativo surgirá a novidade. Do imenso
abandono, a corajosa invenção. Parece ser isso o que
Moreno nos falaria hoje.
O processo moreniano de criação luta, no entanto, para
se desvencilhar do individualismo, ou melhor dizendo, de um gozo criador
individualista tentando estar articulado a uma experiência coletiva.
Por um lado, como dissemos, a espontaneidade criadora pede abandono,
soltura. Por outro, paradoxalmente, a criação não
está dissociada do real. Esse trânsito entre realidade
e imaginário (pessoal, grupal, social) delimita a inventividade
para Moreno (Merengué, 2003).
Moreno estimula a sub-versão? Ou seria a di-versão?
Não parece que ele se preocupe muito com isso, desde que, no
furor criativo, o mundo possa ser transformado. E, para ele, não
parece haver limite para isso: tudo pode ser mudado. O real, no entanto,
é implacável, sendo as conservas de uma cultura algo
opressivo. Não existe abertura do real para mudanças
sem cobrança de um ônus. Nesse sentido, retomamos as
premissas morenianas da criação e relembramos que: o
ato criativo necessita ser espontâneo, ou seja, livre de amarras,
não determinado por coisa alguma; a importância da surpresa,
da novidade do ato; a mudança na realidade existente; e que
este ato criativo seja um estado único, no qual o sujeito esteja
totalmente envolvido (Moreno, 1978).
A criação rompe com o real, mas é imprescindível
que ocorra nele e, em última instância, modificando-o.
Pode-se perguntar, no entanto, como justificar atos altamente criativos
que não são aceitos em um lugar e em um tempo. A resposta
psicodramática seria: se o produto conseguir sobreviver e alcançar
outras gerações capazes de usufruir seu caráter
transformador, terá sido válido a criação
espontânea. O exemplo mais óbvio é a obra de Van
Gogh – uma obra que continua afetando nossas vidas. Um outro,
que ainda está sendo digerido, é o de Lautréamont
, de uma inventividade desconcertante.
A espontaneidade criadora visada por Moreno é, basicamente,
aquela que acontece nas relações interpessoais. Em seus
escritos e na sua prática privilegia humanos em relações
e bastante pouco a relação do artista com sua produção,
a não ser muito rapidamente a título de exemplos, mas
não colocando aí seu foco.
A preocupação central é de humanos em relação,
organizados socialmente e aí, através dos papéis
desempenhados, compreender o quanto espontâneos e criativos
podem ser. Os papéis sociais podem ser uma prisão ou
meio de libertação, porque através deles é
que os seres humanos se exprimem ou se fecham.
Quando os papéis sociais, por uma razão qualquer, não
podem ser vividos no contexto social, ficam enclausurados no imaginário.
E não só no imaginário do indivíduo, mas
no imaginário de um grupo e muito provavelmente de uma sociedade.
Como é mais fácil enxergar quem está longe, podemos
supor que as mulheres iranianas tenham mais desejos do que aqueles
expressos no social, como vemos em “A Maçã”
(Sib), filme da iraniana Samira Makhmalbaf (Irã-França,
1998) ou “Dez” (Ten), filme de Abbas Kiarostami (França-Irã,
2002).
Temos, desse modo, papéis sociais valorizados pela sociedade
em detrimento de outros desvalorizados e mesmo susceptíveis
de clara ou sutil punição pelas normas oficiais ou pelas
regras invisíveis. Tudo isso diz respeito, pois, a uma ordem
ampla que organiza os papéis em determinada sociedade. Podemos,
com isso, pensar que existam papéis imaginários ideais/
idealizados, papeis imaginários temíveis e desejados,
papéis imaginários francamente temíveis e enfim,
toda uma gama de papéis sociais e papéis imaginários
em trânsito entre o social e o imaginário de um indivíduo,
de um grupo, de uma sociedade.
Com o advento da Internet aprendemos a nos relacionar com pessoas
que nunca vimos e, muitas vezes, jamais veremos. Falamos das relações
virtuais: algo que existe como potência, mas não como
realidade. Pode vir a ser, mas ainda não é e talvez
nunca seja. Não podemos dizer que contatamos com seres presentes
na ficção: são reais, mas nem sempre temos certeza
disso. Conversamos em salas ou através de e-mails com pessoas
sem rosto e sem corpo, com uma história real ou ficcionada.
Talvez tenhamos que criar uma nova classe de papeis para dar conta
dessa instância: os papéis virtuais. Podemos defini-los
como aqueles desempenhados em situações entre o imaginário
e o real, nas quais as pessoas envolvidas estão mais ou menos
anônimas e intermediadas pela máquina eletrônica.
Estes papéis, pela sua pouco estruturação, são
passíveis de um alto índice de transferencialidade,
ou seja, papéis que suportam a depositação mútua
de fantasias.
Os papéis virtuais podem sofrer um processo de teleficação
quando transformados em papéis sociais, como por exemplo um
homem e uma mulher que se conhecem pela Internet, resolvem se encontrar
de fato e começam a namorar ou nunca mais se vêem. Podemos
imaginar transferência mútua (homem e mulher ideais,
buscados no imaginário ou no passado, por exemplo) no virtual
que precisa do contexto social: confirmação em diversos
graus ou plena decepção da fantasia. Esse processo que
vai de uma intensa transferência relacional a um processo de
teleficação (mutualidade ou incongruência) em
pouco tempo, dias ou meses, não é incomum nestas situações.
Como estes papéis operam vai depender dos graus de liberdade
possíveis em que circula a espontaneidade criadora das relações.
Essa retomada tem a intenção ampliar a conceituação
de espontaneidade criadora e de papéis, no intento de compreender
o assunto em pauta.
Pornografia e Sociedade
A pornografia como produto representa o desejo
da ordem vigente em materializar o desejo do usuário. Foi preciso,
portanto, instaurar todo um sistema de intermediação
entre o produtor e o consumidor: foi preciso organizar o desejo naquilo
que é mostrado com o desejo de quem vê. Quem consome
pornografia? Por que faz isso? É um solitário, um sonhador,
um promíscuo, um casto? Do mesmo modo que é preciso
conhecer o consumidor da esponja de aço, da cerveja e do carro,
o desejo necessita um controle, uma organização específica:
sexo para heterossexuais, para gays, para sado-masoquistas, com animais,
com parceiros de raças diferentes... Como se vê, o “respeito”
ao desejo do indivíduo é absoluto: todos devem ser contemplados.
Nos perguntamos quem é o sujeito na pornografia: os atores
que supostamente controlam a ação ou o consumidor que,
em última análise, com o uso valida ou não a
cena obscena? A resposta talvez seja: nenhum dos dois, mas justamente
a ordem organizadora e implementadora de papéis. Ela é
a senhora de tudo, mas plenamente sustentada por consumidores ávidos.
O consumidor permite voluntariamente que os personagens interfiram
no seu imaginário. Os personagens, por sua vez, não
fazem qualquer coisa, mas cenas pensadas, planejadas a partir de uma
produção, de uma indústria. O imaginário
da pornografia atual é, desse modo, um imaginário sabido,
instituído. Nele há muita novidade (os universos ainda
não sabidos), mas ao mesmo tempo, nenhuma novidade (todos os
universos sexuais estão cartografados). Se o fim é o
estímulo sexual e atingir este intento a partir do número
de produtos vendidos, digamos que ele pode ser considerado um produto
eficiente. Do contrário, está reprovado no mercado.
Mas sejamos advogados do diabo tentando, de algum modo, fazer uma
“defesa” da pornografia: a pornografia pode oferecer um
itinerário, uma via-crucis do prazer – as palavras, as
imagens revelam nosso desejo. Podemos conhecê-lo - o desejo
- na medida em que mais e mais estamos em contato com o obsceno. As
imagens e as palavras revelariam o usuário: um masoquista,
um sádico, um hetero, um homossexual, um apreciador de pés,
seios ou traseiros... Talvez, quem sabe?, de grande valia para os
adolescentes na busca de auto-conhecimento. Em certo momento, no entanto,
a pornografia já não revela: somos apenas “isso”,
o ser narrado pelas imagens? O ser erotizado que sou pode ser determinado
por um desejo prescrito por um outro? Essa tensão entre a carência
que busca a cena obscena e a carência vazia que não tem
imagens para alimentar o imaginário do indivíduo é
o motor da engrenagem.
A pornografia é o sexo sem desejo que precisa do desejo do
leitor/ espectador: sem essa complementação haveria
um abismo e a transação (do desejo, do produto, econômica...)
não resistiria. A busca desse encaixe é vital para o
sucesso do projeto obsceno. Essa articulação é
ponto nevrálgico nessa atividade comercial.
Estamos muito longe de uma pornografia, digamos,
“inocente”. Assim descreve d’Assunção
(1984) as chamadas “revistas de sacanagem”:
“Durante quase a totalidade das décadas de 50 e 60, um
gênero de subliteratura
cresceu e proliferou, espalhando-se por todo o país e atingindo
no total, milhões
de exemplares de tiragem. Eram as famosas revistinhas de sacanagem,
pequenos
livrinhos em formato ¼ ofício, variando entre 24 e 32
páginas, todas elas feitas
por autores anônimos, que, quando muito assinavam com pseudônimos
e anagramas.
Cada uma dessas revistinhas tinha uma tiragem média de 5 mil
exemplares, mas
alguns títulos eram reeditados. Vendidas clandestinamente nos
mais diversos pontos
- jornaleiros, vendedores de bala, de mão em mão, etc.,
eram a literatura ousada
de uma época de moralismo e repressão em que mesmo os
grandes clássicos do
erotismo eram publicados em edições de tiragem limitada
e de difícil acesso popular.
Com as revistas de sacanagem, entretanto, era o oposto. Eram baratas
e fáceis de
serem encontradas, se bem que tudo por debaixo do pano. Através
desses livretos
mal-impressos e mal-desenhados ocorreu a iniciação sexual
de praticamente tres
gerações. Era um privilégio exclusivo do público
masculino, que devorava suas
páginas dentro de quatro paredes. Circulavam em ambientes de
trabalho, após o
expediente, ou em garagens, oficinas, salões de barbeiros e
em outros locais de
difícil acesso feminino”.
É evidente, também aqui, um controle:
a “revista de sacanagem” era dirigida aos homens em um
clima de repressão e longe das mulheres. Todo esse clima retrata
um tempo, no qual a opressão sexual e sexismo são óbvios.
Não havia, no entanto, o controle econômico do desejo
e nem a mídia disseminando imagens muito mais poderosas e eficientes.
Na sua história a pornografia ganha diversas sentidos, funcionando
notadamente como instrumento de discussão do Poder: a obscenidade
está na origem da Modernidade (1500-1800). Assim, as autoridades
e suas ações são questionadas através
do escracho obsceno seja, por exemplo, no Iluminismo Inglês
ou na Revolução Francesa (Hunt, 1999). Toda a literatura
obscena de Sade, na verdade, discute os poderes do Estado, da Igreja
ou da Família. Desse modo, a pornografia, antes de ser boa
ou má, retrata um tempo e um lugar.
Não é a intenção deste texto discutir
a história da pornografia, mas apenas apontar outros ramos
e possibilidades ao leitor interessado em uma pesquisa nessa área.
O fio deste trabalho é a pornografia no nosso tempo que desvela,
de algum modo, o imaginário de uma sociedade.
Possibilidades espontâneas e criativas?
Como vimos existem papéis sociais altamente
valorizados. Dentre estes, certamente, não se encontra o papel
de pornógrafo ou do usuário da pornografia. A pornografia
não é vista, de modo geral, como algo “elevado”
como supostamente seriam as religiões, as ciências ou
as artes. Por mais rentável que seja a atividade pornográfica,
é vista como algo desprezível. O julgamento moral ou
ético é inevitável, ficando próximo da
prostituição, na medida da similaridade do produto vendido:
vender o corpo ou se deixar filmar ou fotografar praticando atos sexuais
não seriam atitudes lá muito “nobres”.
A sacralização do amor nas sociedades cristãs,
que divide humanos em corpo e alma (sem resíduo de um no outro),
espírito e matéria (do mesmo modo, rigidamente) é
a óbvia razão para durante séculos, todo desejo
corporal ser considerado “baixo” e toda aspiração
do espírito ser considerada “elevada”. Isso é
tão verdade que na morte, “a hora da verdade final”,
segue apenas o espírito.
Desse modo, a pornografia está inevitavelmente associada ao
universo do interdito e, muitas vezes, da culpa. Mitificado, idealizado,
desqualificado, super valorizado o obsceno atravessa nosso tempo como
produto amado e/ou odiado. Verdades tidas como científicas,
ou verdadeiramente científicas, muitas vezes misturadas como
posições sorrateiramente moralistas à respeito
da pornografia, a situam em uma região obscura do desejo e
do repúdio, no território do ambíguo, da complexidade:
o ver e o mostrar, o revelar e o saber coisas supostamente muito íntimas,
tudo aquilo que é tido como privado no nosso mundo: o corpo,
os genitais, as secreções e mais, as reações
emocionais e físicas, a ereção, o gemido, a dor,
o prazer, o orgasmo.
Ver/ ler/ escutar coisas que acontecem “entre quatro paredes”
(mesmo que de um estúdio de filmagem) e que ilusoriamente (ou
não...) o usuário, de modo privilegiado, pode saber.
A pornografia se assenta entre o real e o imaginário, pois
são pessoas, de carne e osso realizando atos bem mais reais
do que no cinema de ficção: a penetração,
o pênis, a vagina não são do campo da ficção.
Mas tudo mais é encenado, tantas vezes de modo inverossímil,
com péssimos atores e atrizes. O usuário da pornografia
não parece estar muito preocupado com isso. O que vale é
a exposição de corpos, do prazer, da dor, do gozo: elementos
cênicos com os quais a imaginação de quem vê
trabalha.
Moreno teoriza, ao meu ver de modo muito pertinente, a absoluta necessidade
do ser humano separar realidade da fantasia. No universo da fantasia,
no que diz respeito ao obsceno os elementos “fundem-se”
com o imaginário do usuário. Posso prever também
que a pornografia funcione como estímulo para casais: nesse
caso, realidade e fantasia ganham transitividade. Seja como for, temos
a imagem, a cena, o texto – para o usuário, o imaginário
– e o que esse imaginário evoca em quem o consome. Assim,
a pornografia é uma fantasia que se organiza a partir de elementos
bem reais – o corpo em convulsão sexual, por exemplo.
O consumidor da pornografia fica entre o seu desejo (físico?
real?) e todas as imagens, palavras, estímulos infiltradas
nesse desejo.
Temos, mais ou menos, um espetáculo no qual tudo, absolutamente
tudo remete a algo do campo da sexualidade. Ao usuário interessa
pouco a “psicologia” do personagem, dados prévios
sobre sua história (para os interessados, no entanto, a pornografia-com-alguma-história
pode ser encontrada nas boas casas do ramos, no que diz respeito ao
vídeo-pornô), sendo assim algo bastante monotemático
e um tanto repetitivo (mas é justamente isso o que parece interessar).
Na tentativa de realizar uma compreensão psicodramática
da cena pornográfica uma questão implicada é:
quais os papéis envolvidos nessa cena?
Cena 1: Um adolescente busca sites eróticos
na Internet quando todos na sua casa estão dormindo. Tem especial
apreço por um site americano com loiras de seios grandes, já
muito visitado por ele. Algumas das moças fotografadas povoam
seu imaginário: já “realizou” diversas peripécias
sexuais com elas. Termina a sessão, inevitavelmente, se masturbando.
Cena 2: Um homem adulto e gay entra em salas
de “bate-papo” na Internet. Conversa virtualmente com
outros homens e os convida para sexo virtual, que consiste em realizar
um ato sexual completo apenas escrevendo o que um faria com o outro.
Ele troca de parceiros diversas vezes em uma noite e se masturba o
tempo todo, evitando sempre chegar ao orgasmo.
Cena 3: Um casal jovem gosta de começar
uma relação sexual estimulado por um vídeo pornográfico.
Para isso escolhem em uma vídeo locadora especializada filmes
que atendam ao gosto de ambos. Dizem que, frequentemente, “esquecem”
o filme nos primeiros 15 minutos. Ela afirma se excitar menos que
ele, mas acha bom. Gostam de vídeos nos quais os atores e atrizes
sejam pessoas jovens e muito bonitas.
Cena 4: Um casal adulto freqüenta uma
casa de swing, mas nunca realizaram nenhuma troca de casal. Se excitam
apenas vendo casais mudando de parceiros através de uma treliça,
de onde podem ver sem se sentirem molestados.
Estes exemplos, extraídos de relatos
de clientes na clínica, ajudam a compreender os papéis
sociais, imaginários e virtuais envolvidos.
Nas duas primeiras cenas os consumidores da pornografia estão
sozinhos em seus quartos, tendo como parceiros, no primeiro caso,
loiras americanas e no segundo, rapazes gays anônimos. Qual
o papel social envolvido? Não havendo um contra papel na cena
devemos acreditar que não existe papel social em jogo? E podemos
ampliar a questão perguntando se leitor, por exemplo, é
um papel social na medida em que realiza uma atividade solitária.
Espectadores, em um cinema, são papéis sociais simétricos,
podendo acontecer uma ação qualquer, por mais efêmera
que possa ser: ficar em fila para entrar no cinema, por exemplo.
A teoria psicodramática não parece contemplar, no que
diz respeito aos papéis sociais, ações solitárias.
Podemos, então, pensar na relação entre o leitor
e o livro, o consumidor da pornografia e o objeto que traz o material
obsceno mais no campo imaginário do que social: pode existir
uma intensa atividade subjetiva que, nos moldes morenianos, não
ultrapassa o indivíduo. Isso, portanto, não é
relacional, não é social. Os indivíduos na fila
do cinema podem não trocar uma só palavra e nem ao menos
olhar para o lado, mas estão em uma atividade social. Isto
é, evidentemente, questionável, mas a base teórica
que montamos até o momento assim determina. Na cena 2, existe
um outro virtual, mas podemos afirmar que se trata de uma relação
social? Não seria mais lógico falar em uma relação
virtual?
Falamos na cena 1 e 2, portando, de papéis imaginários:
em ambas as situações a fantasia dos usuários
precisam entrar em ação. No primeiro caso de modo menos
condicionado pelo outro, pois trata-se de fazer amor com loiras americanas
das fotos: a liberdade da fantasia pode ser imensa. No segundo caso,
existe um outro virtual que libera frases obscenas que pedem respostas
para manter a excitação sexual: sem isso o objetivo
não seria atingido. Na cena 2 falamos, então, de papéis
virtuais Em ambos os casos, toda a tarefa visa uma atividade masturbatória
e não social, supostamente.
Estas cenas, na possibilidade de serem dramatizadas, poderiam explicitar
conflitos entre a loira americana e o adolescente ou desvelar os meandros
da relação mantida pelos rapazes gays na sala da Internet.
É preciso esclarecer que um conflito pode estar subjacente,
mas não necessariamente. Estamos hipotetizando, talvez injustamente,
que o subjetivo nos dois casos seja algo dissipador, uma energia que
se desperdiça já que não inclui afetivamente
o outro.
Nas cenas 3 e 4 os papéis de namorados e marido e esposa estão
evidentes. O social pressuposto por Moreno está lá:
dois casais, aparente e explicitamente, buscam estímulo sexual.
No primeiro caso, nas imagens obscenas. Não se perguntam a
razão disso: eles se relacionam sexualmente apesar, em função
ou para além das imagens obscenas. A pornografia teria um lugar
a ser compreendido. No segundo caso, já não mais a imagem
obscena, mas a exibição de um outro casal confere à
situação um caráter mais realista ou mais próxima
da realidade. Se nas cenas 1, 2 e 3 as imagens e o texto chegam para
alimentar a imaginação, aqui existe a dispensa dessa
intermediação. O que separa o casal que se relaciona
sexualmente do casal que assiste é algo mais tênue e
que se esse homem e essa mulher quisessem poderiam romper à
qualquer momento.
Nas quatro cenas relatadas parece ser preciso para os usuários
assegurar alguma distância, pois o desejável é
ao mesmo tempo controlável. As imagens e os diálogos
obscenos funcionam como alimento para o imaginário, apenas
isso.
Talvez os amantes se tornem mais ricos no confronto com o obsceno.
Ou mais iguais. Ou apenas ajude na manutenção do conhecido.
Ou talvez ainda tenha a função de salvar relações
mortas. Não se tem a certeza de nada. Novamente a psicodramatização
poderia lançar luz sobre o que não é explícito,
mas apenas vivido na penumbra dos vínculos.
Fica, por fim, a questão da possibilidade espontânea
e criativa na relação que envolve o obsceno. Não
é possível uma resposta única e fechada, mas
a necessidade de pesquisar a interioridade do vínculo. Ou seja,
como o espontâneo e o criativo acontecem no vínculo e
se efetivamente acontecem. Sabemos que a espontaneidade criadora não
existe no vazio, mas nas relações. A questão,
pois, não é se pornográfico ou não, se
banal ou virtuoso, se bonito ou feio, mas a qualidade das respostas:
rígidas e conservadas ou criativas espontâneas. A novidade
não está no estímulo e sim na resposta.
Conclusão
A pornografia, ao que tudo indica, sempre esteve
na história dos homens como criação e como conserva
cultural. A relação que se faz com a pornografia, igualmente,
pode indicar modos mais ou menos inventivos.
De qualquer maneira, o obsceno revela uma busca humana pelo prazer,
por algo instintivo que aparece vivo, apesar de todas as regras morais,
comerciais, políticas, econômicas deste e de todos os
tempos. Nem sempre é dado ao ser humano recursos para a intervenção
criativa e resta a luta contra a comodidade da conserva cultural (tantas
vezes, de tão conservada, já lixo cultural).
Algo vibrante, no entanto, está presente: a pulsação,
o toque, o desejo, a beleza. Para além de todos os dólares,
toda indústria e comércio, toda a grosseria, toda a
violência vigente e a insatisfação humana. Ainda
assim, a fragilidade humana sedenta de encontro lá está.
BIBLIOGRAFIA
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Zéfiro. Rio de Janeiro,
Record, 1994.
HUNT, L. (org.) A invenção da Pornografia. São
Paulo. Hedra, 1999.
MERENGUÉ, D. Violência e Criação: observações
psicodramáticas sobre o filme
“Cidade de Deus”. Revista Brasileira de Psicodrama. Vol.
11. Número 1. Ano 2003.MORENO, J. L. Psicodrama. Cultrix. 1978.
Obs. Texto publicado na Revista Brasileira
de Psicodrama, vol.12, n.2. Ano 2004
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Devanir Merengué
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