Autora:
Vera Lúcia Rolim Silva; psicodramatista, professora supervisora
pela FEBRAP - Instituto de Psicodrama J.L.Moreno - São Paulo
, Brasil
Resumo:
No artigo "Clusters na maturidade - novas perspectivas"
a autora discute como que as transformações do narcisismo,
segundo Kohut se articulam com o psicodrama.
Abstrats:
In the paper: "Clusters at the maturity - new points"
the author discusses how the Kohut's "narcissism's changes"
are connected with the psychodrama.
Palavras
chaves: Psicodrama; Transformações do narcisismo;
Clusters;Cósmico; Maturidade.
Key
words: Psychodrama; Narcissism's changes; Clusters; Cosmic; Maturity.
Introdução
Este trabalho surgiu da confluência de várias questões
num pensamento intuitivo, claro e definido, que virou um projeto,
desenvolvido assim:
- O que acontece com os papéis nessa etapa de vida, chamada
maturidade?
- Como são as energias narcísicas nesta época?
- As transformações do narcisismo, tema desenvolvido
por Kohut, podem constituir novas possibilidades, novos papéis?
Ou integrariam os papéis já existentes? Formariam
um novo cluster?
- Às cinco constelações psicológicas,
formuladas por Kohut: criatividade, empatia, capacidade de reconhecer
a finitude, humor e sabedoria; proponho acrescentar duas outras,
que considero integrantes fundamentais: capacidade de estar só
e desenvolvimento religioso-místico.
O tema central do trabalho são as transformações
do narcisismo segundo Kohut, com acréscimo dessa duas outras
transformações que proponho. No desenvolvimento deste
artigo, percorri e busquei integrar idéias de Kohut, Freud,
Moreno, Bustos, Calvente, Winnicott e outros mais com as minhas
próprias, tarefa difícil, mais apaixonante. Escolhi
não trazer os textos sobre Empatia e Humor, por falta de
espaço neste artigo. A Empatia por ser mais conhecida, e
o Humor por fazer parte da Sabedoria, apesar de ser de relance.
Foi o possível.
Somos
todos mortais
Nós não paramos muito para pensar nisto, mas a vida
é esse caminho para a morte. Geralmente a sensação
de que somos eternos nos acompanha pala infância, juventude
e na maturidade esta aparente certeza de infinitude começa
a se desfazer, nos sentimos mais próximos da possibilidade
de morrer, paramos, e damos um balanço na nossa vida vivida.
O que conseguimos ou não conseguimos. É essa vida
mesmo que nós queríamos viver? Desse modo? Com esses
resultados? Há um questionamento dos nossos papéis,
manifestos e latentes. Mil sensações, emoções,
pensamentos, sentimentos nos percorrem.
Na segunda metade da vida há um recrudescimento do narcisismo.
O equilíbrio narcísico, numa visão de Kohut
é conseguido por uma integração das ambições
do indivíduo, seus ideais e o ego que engloba os seus talentos
e habilidades. Empurrado pelas ambições e guiado pelos
ideais o indivíduo pode agir com a sua espontaneidade criadora
no mundo. Kohut faz um enfoque interessante do trabalho especial
do ego de dominar as energias narcísicas e transformá-las
em novas configurações psicológicas, mais altamente
diferenciadas: a criatividade, empatia, reconhecimento da finitude,
senso de humor e sabedoria. Essas constelações psicológicas
me parecem mais possíveis de serem atingidas a partir da
maturidade, mas algumas poderiam ser atingidas também em
outras etapas de vida. A essa classificação acrescento
mais duas configurações: 1.capacidade de ficar só,
como possibilidade de interiorização, sem a qual várias
dessas constelações não seriam possíveis
de serem atingidas. 2. Desenvolvimento da vertente religiosa-mística.
Capacidade
de estar só.
A capacidade que uma pessoa tem de ficar sozinha é um dos
maiores sinais de maturidade, segundo Winnicott. Geralmente o aspecto
positivo da capacidade de ficar só é pouco abordado
e estudado em nosso meio e é distinto do medo ou do desejo
de ficar só. É também diferente do ficar isolado,
que do ponto de vista sociométrico é indicação
de detectar uma dificuldade nas relações. O indivíduo
pode estar isolado mas não estar sozinho e pode estar com
outra pessoa mas estar sozinho, o que é um paradoxo. Esse
segundo aspecto, ou seja estar só junto com o outro não
se refere a retraimento ou dificuldade de contato, mas ao contrário
positivamente, a momentos de silêncio na relação
com o outro (Winnicott se refere a relação terapêutica,
casal, dual) onde os parceiros se sentem bem em campo relaxado,
devaneando ou não, existindo tranqüilamente sem nenhuma
solicitação externa, como se estivessem no limbo,
e podendo apreciar essa solidão compartilhada.
A base sobre a qual se constrói essa capacidade de estar
só é a experiência do bebê ou criança
pequena, de estar só na presença confiante da mãe
ou na sua representação, em momentos, por um berço,
carinho de bebê ou pela atmosfera geral do ambiente mais imediato
ou seja a experiência de estar sozinho na presença
de um outro, na visão de Winnicott.
Winnicott é um psicanalista que tem como aspecto fundante
da sua obra, o papel estruturante do ambiente na organização
do psiquismo infantil, apresentando portanto convergências
importantes com a teoria psicodramática. Para ele, a percepção
da criança da existência contínua de uma mãe
disponível, torna possível à criança
estar só e ter prazer em estar só por tempo limitado.
Portanto a capacidade de ficar só se baseia na experiência
de estar só no presença de alguém e que sem
uma suficiência dessa experiência a capacidade de ficar
só não pode se desenvolver. "O indivíduo
que desenvolveu a capacidade de ficar só está constantemente
capacitado a redescobrir o impulso pessoal e impulso pessoal não
é desperdiçado, porque o estado de estar só
é algo que (embora paradoxalmente) implica sempre que alguém
também está ali."(8,)p.36 Aos poucos vai se estabelecendo
um "meio interno", sem necessidade da figura materna e
a possibilidade de rica experiência subjetiva pessoal. Portanto
com a continência materna, verificamos a necessidade da criança
experimentar vazios, distâncias, que possam ajudá-la
a se distinguir do outro e aos poucos aprender a dar continência
às suas próprias experiências. É importante
não confundir com falta ou carência, pois quando há
segurança e confiança na figura materna, a sua ausência
é suportável e a criança pode se confrontar
com sua própria solidão, dando um novo passo de crescimento.
Naffat explica "experimentar o vazio significa, pois ter acesso
àquela solidão constituinte, inalienável, que
torna cada ser humano um locus de produção de atos
singulares, únicos" (5,)p.52 Ou continuando a falar
psicodramaticamente essa interioridade da pessoa proporcionará
subsídios para os atos espontâneos ou seja vai ser
fonte para os atos espontâneos não se deteriorarem,
não se tornarem "rançosos", pelo fato de
serem espontâneos, uma das primeiras descobertas de Moreno
sobre a espontaneidade.(4,)p. 18 E o que é a espontaneidade,
senão esse livre fluir da subjetividade numa relação
intercambiável e produtiva com o mundo?
Ainda voltando a Winnicott essa capacidade de estar só é
um fenômeno altamente sofisticado ao qual a pessoa pode chegar
depois de conseguir estabelecer relações triádicas.
Portanto se nos referirmos às fases da matriz de identidade
emocional moreniana poderíamos propor uma sexta fase: É
capaz de estar só. E se considerarmos o esquema ampliado
das fases da matriz de identidade emocional moreniana, desenvolvido
por Fonseca poderíamos propor a inclusão da fase:
Capacidade de estar só - após a nona fase - inversão
de papéis (plena capacidade de realizar relação
humana de reciprocidade).
Isso nos conduz ao aprendizado de que na relação terapêutica,
o paciente pode ficar em silêncio com o terapeuta e esse silêncio
não ser resistência mas algo positivo e indício
de maturidade, não precisa falar para se sentir seguro com
o terapeuta. A pessoa madura pode desfrutar da solidão, sem
ter a sensação de perda do outro e mais ainda a solidão
pode ser indispensável para a criatividade.
Criatividade
A atividade criativa em si merece ser considerada entre as transformações
do narcisismo afirma Kohut, no que se refere ao relacionamento do
criador com sua obra. No trabalho criativo utilizam-se energias
narcisistas modificadas para a forma de libido idealizante ou seja,
aquela energia, que em um determinado momento evolutivo poderia
se dirigir ao amor por alguém, vai investir um objeto, que
passa a ser incluído no contexto do self.
É intenso o envolvimento do criador com a sua obra, remete
a climas afetivos da relação mãe-bebê,
mas sobretudo, é relacionado ao narcisismo da primeira infância.
As personalidades criativas são mais infantis que maternais,
continua Kohut, e tem uma relação mais indiferenciada
com o ambiente (pouca discriminação eu-tu interno-externo),
percepções mais intensas pormenorizadas parecidas
com o self do esquizoide ou da criança, estando mais próximas
da relação da criança com suas excreções.
São muito sensíveis à captação
de aspectos da realidade, que tem a ver com o seu trabalho, investindo-os
com a libido idealizante narcísica. Durante sua fase produtiva
as pessoas criativas tendem a alternar fases de grande valorização
e outras fases de desvalorização total de sua obra,
sinal de investimento libidinal narcísico. Podem ligar-se
no seu trabalho com a intensidade de uma adicção ou
um fetiche, procurando controlar ou modelar o trabalho através
de forças e para fins narcísicos. Kohut assinala ainda
que tentam recriar uma perfeição no seu trabalho,
que arcaicamente era seu próprio atributo.
O artista pode ser visto também como um self ampliado que
inclui o mundo ou estar em uma fronteira de atitudes autoplásticas
e aloplásticas para com a realidade. Mas, mesmo assim para
Kohut indicam um investimento libidinal narcísico detectado
nessa relação do criador com sua obra.
Kohut considera que todo o trabalho criativo e produtivo depende
de energias narcísicas, ao mesmo tempo grandiosas idealizantes,
mas que o pensamento verdadeiramente original é energetizado
predominantemente pelo self grandioso, enquanto que a produtividade
científica e artística, mais limitada pela conserva
cultural é desempenhada através de investimentos idealizantes.
Esse entretecer de ambições do indivíduo (self
grandioso), seu ideal do ego (libido idealizante), seus talentos
e habilidades (ego), conjugado com o mundo externo, é que
vai dar ou não o equilíbrio narcísico.
Na visão psicodramática chamamos espontaneidade à
qualidade desse ato de entretecer esses fios energéticos
em um indivíduo e a convertê-los através dos
papéis em ação adequada à realidade.
Essa ação catalisada pela espontaneidade, é
sempre dinâmica e implica em adaptação ativa,
ou seja modificação dos dois pólos (sujeito-ambiente).
E se esse ato ainda contem do ponto de vista do sujeito: sensação
de surpresa; de irrealidade algo novo acontecendo; sentir ser sui
generis em relação a si próprio (estado de
consciência alterado); sentir uma integração
da consciência com diversas sensações corporais
suas, como uma concretização de uma intenção
imperativa, diminuição do ego observador - imersão
na ação; sente que a ação é uma
tradução das suas idéias; estamos frente a
um ato criativo, do ponto de vista moreniano. A espontaneidade é
a qualidade da ação e a criatividade é o ato.
A espontaneidade estimula e dirige o ato criativo. Os atos espontâneos
criativos são impermanentes, Moreno os situa na filosofia
do momento. São as mais afinadas expressões singulares
das profundezas do ser humano, daí o seu caráter de
comunicabilidade com o coletivo no presente, ou às vezes
só no futuro.
Capacidade
de reconhecer a finitude da existência - tanto própria
quanto dos objetos.
O reconhecimento de que a vida é impermanente, de que a morte
é parte intrínseca da nossa vida, pode ser a maior
conquista psicológica, segundo Kohut.
Muitas vezes esta aceitação é só aparente,
estando ligada a mecanismos de negação.
O tema da finitude remete diretamente à separação,
separação do mundo, de pessoas, nossos vínculos.
Vínculos como unidades dinâmicas, cujos pólos
são os papéis, e que se articulam em movimentos de
união e separação. Lidar com os movimentos
de separação, significa um trabalho sobre a aceitação
emocional da transitoriedade. Assim poder-se-á chegar à
uma interiorização do tempo finito da vida própria
, das pessoas, dos objetos, das relações.
Perazzo traz: "Escrever sobre a morte é de alguma forma
confrontá-la, não sei se face a face, mas pelo menos
de viés, embora sua verdadeira fisionomia esteja sempre de
algum modo irremediavelmente encoberta."(6,)
Penso que quando há uma real aceitação da morte,
há possibilidade de plenitude de vida. Mas a morte, apesar
de ser uma certeza, sempre envolve um mistério, pois apesar
de todos os relatos de experiências de proximidade com a morte,
visões transcendentais, sonhos ou vivências aproximadas
(desmaios, estados de coma, etc...) nunca se sabe mesmo como é
ou como será. E esse mistério da própria morte
é um campo propício de depositação de
angústias variadas, já que a angústia existencial
é parte integrante dele, podendo constituir portanto uma
boa defesa. Perazzo, buscando o entendimento da morte: "Se
não posso contemplar meu rosto dormindo no momento em que
ele dorme, não poderia surpreender nele, se em sono profundo,
a expressão dos meus sonhos que o diferencia dos sono inanimado
da morte. Talvez por este motivo, o sono e o desaparecimento se
constituam no primeiro elo que permite compreender o que é
a morte e mais especificamente , minha morte. Não só
eu me reconheço e reconheço o outro, me reconhecendo
nele nas semelhanças humanas, como até passo a me
reconhecer nele quando morto, na possibilidade de um mesmo sono
inanimado, que passo a tomar e imaginar. É como se neste
instante eu pudesse compartilhar com os demais minha própria
mortalidade."
Quando lia o início deste trecho, pensei: me lembra um Koan,
que talvez pudesse ser armado assim: se não posso contemplar
meu rosto dormindo num momento em que ele dorme, sem pensar e sem
imaginar, que rosto terei quando morrer?
Acho que não tem resposta, que é o propósito
de qualquer koan, enigma insolúvel, com o objetivo de impedir
o pensamento racional, e de se entrar em outro vértice de
relação com o mundo. Claro que essa é uma técnica
de um conjunto de ensinamentos orientais que leva a uma mudança
de direção, muitas vezes para o místico e que
facilita a possibilidade de transcendência. Ou seja, lidar
com a aceitação da finitude, transcendendo as próprias
fronteiras individuais. Nesse caso, Kohut fala de uma transformação
dos investimentos narcísicos para um narcisismo cósmico,
possível de ser alcançado por poucas pessoas.Para
a aceitação da morte há que se aproveitar as
experiências da vida. A atitude resignada e conformista é
uma forma de desespero. Outra forma de desespero é o desejo
de imortalidade, negação da mortalidade. Uma alternativa
(para poucos) é a transcendência que segundo o etmólogo,
Flávio Di Giorgio, é uma rebeldia, um inconformismo,
um ultrapassar os limites individuais. Esse mergulho nas questões
da finitude da vida, vai fazendo emergir a constatação
da impermanência também dos objetos, da vida em geral
onde só a mudança é permanente. Já dizia
o filósofo de Éfeso, pré-socrático,
Heráclito:
"Não se pode pisar duas vezes o mesmo rio / Tudo flui
e nada permanece / Tudo cede e nada se fixa..." Ou Buda: "Você
é um fluxo, um rio" Ou Moreno: "O self é
como um rio que flui da espontaneidade, mas possui muitos afluentes
subsidiários que lhe provém seu sustento."(4,)p.21
Freud verificou que a integração desse saber sobre
a impermanência dos objetos, sejam eles pessoas ou valores
queridos não diminui o valor deles, pelo contrário,
faz-nos amá-los e admirá-los ainda mais, pelo próprio
valor do tempo limitado. É uma aceitação de
valores realísticos, um abandono do infantilismo emocional
e da crença na onipotência do desejo. Para Kohut "essa
rara façanha repousa não simplesmente numa vitória
da razão autônoma e da objetividade suprema sobre as
reivindicações do narcisismo, mas na criação
de uma forma mais elevada de narcisismo."..."um novo,
ampliado e transformado narcisismo: um narcisismo cósmico,
que transcende as fronteiras do indivíduo."
Como se origina esse narcisismo cósmico de solenidade quase
religiosa, que é alcançado por poucas pessoas? A percursora
desse self ampliado é a identidade primária da criança
com a mãe, "recordada por muitas pessoas sob a forma
das vagas reverberações, ocasionalmente ocorrentes,
conhecidas sob o nome de sentimento oceânico"(2,)p.119
Este sentimento que é experimentado passivamente em contraste
com atitude ativa e resoluta em direção a uma mudança
genuína dos investimentos narcísicos para o narcisismo
cósmico, que significa uma participação numa
existência supra-individual e atemporal, ao alcançar
o reconhecimento da única certeza comum ao ser humano, a
sua finitude.
Sabedoria
A sabedoria como Kohut a vê nessa etapa "pode ser definida
como uma amalgamação dos processos mais elevados da
cognição (informação - conhecimento)
com a atitude psicológica de renúncia às exigências
narcísicas." Implica, basicamente na aceitação
dos próprios limites, das suas possibilidades físicas,
intelectuais e emocionais.
O sábio na visão de Eckhart, é aquele que sabe
que não sabe. É como se o sábio dissesse: "fui
tão longe quanto podia e não passei dos meus limites."(7,)
Mas de acordo com Kohut, para se constituir como sabedoria têm
de estar ligado à posse de ideais, à capacidade de
humor e à aceitação da finitude, formando uma
nova constelação psicológica que vai além
de tudo isso que a integra. Define-se pois, como uma grande atitude
estável da personalidade para com a vida e o mundo, provavelmente
só se podendo chegar a ela numa etapa de vida avançada.
É a vitória de um trabalho de uma vida inteira para
se chegar a um saber de ampla base e para conseguir transformar
os modos arcaicos de narcisismo em ideais, humor e senso de participação
supra-individual no mundo, numa expansão criativa.
O domínio total do self narcísico nessa etapa da vida
acha-se em condições mais favoráveis, pois
depara com as energias e o corpo em declínio, portanto mais
que um controle das energias narcísicas, esse momento está
mais para uma atitude de aceitação dessa realidade.
A formação e manutenção de um conjunto
de valores acalentados são indispensáveis para nas
condições adversas, se manter o humor e poder encarar
o próprio fim.
O
religioso - místico
Considero que o desenvolvimento religioso ou místico pode
também advir das transformações das energias
narcísicas, configurando papéis de religioso, místico,
guru, santo. Moreno, quando pesquisou a espontaneidade-criatividade,
buscou exemplos de santos e profetas que as encarnavam iluminadamente.
Moreno constata que uma fase espontânea criativa está
presente nos fundamentos de toda religião genuína.
Tinha uma "idéia fixa" que ao longo de sua vida
se tornou fonte constante de produtividade, "proclamava a existência
de uma espécie de natureza primordial, imortal, e que retorna
rejuvenescida, como um primeiro universo, que contém todos
os seres e no qual todos os eventos são sagrados."(4,)p.15
Vai surgindo a idéia de um self que se expande criativamente
que não é só individual, mas que também
se relaciona com um self universal. "Não há dúvidas
de que o homem deva retroceder em seu caminho, partindo do plano
existencial secular até reencontrar o plano sagrado, partindo
do tecnológico e voltando até o plano espiritual,
a fim de que a crescente expansão do self possa recuperar
um equilíbrio interno; é um paradoxo, mas o método
de realização do santo e o método tecnológico
do médico, os dois extremos - no meio dos quais se enquadram
o método de realização do biometrista, do psicometrista,
do sociometrista, etc...- devem encontrar-se e fundir-se."(4,)
É interessante ver como são diferentes essas visões
e abordagens do religioso para Moreno e para Freud.
O sentimento religioso numa perspectiva freudiana é gerado
por determinações infantis. Deus é uma invenção
do homem e sua imagem de Deus emerge exclusivamente da relação
da criança com o pai, dos seus conflitos edípicos
com conseqüentes renuncias instituais e na continuidade do
processo, encontramos no superego a imago do pai substituída
e transformada em imago de Deus.
Essa abordagem é reducionista e dá conta apenas parcialmente
da compreensão do processo da crença, como argumenta
o psicanalista Mello Franco. E ainda esclarece "...a religiosidade
de nossos analisandos necessita ser encarada não apenas à
luz de suas determinações infantis, mas como resultado
de transformações de experiências vitais em
processos abertos para resignificações que são
contínuas e evolutivas."(1,)p.861
Rizzuto, um estudioso do tema afirma que a representação
de Deus depois de formada, não desaparece, pode ser reprimida,
transformada ou usada. Esses processos participam da estruturação
da identidade e podem favorecer ou perturbar a maturação
e o equilíbrio.
Como são as características dessas divindades?
Bomfort na suas investigações sobre tema conclui que
a concepção do inconsciente freudiano é a mesma
do deus dos místicos (deus no teísmo filosófico
cristão). Comparando os atributos dos dois:
INCONSCIENTE
DEUS
Atemporalidade Eternidade
Ausência de limitação espacial Infinitude
Não contradição Inefabilidade
Deslocamento - condensação Indivisibilidade
Equivalência entre realidade interna e externa Ato puro
Infere
que "a matriz de idéia de deus se encontra na própria
estrutura do inconsciente, o que eqüivale a afirmar a existência
de uma "dimensão religiosa" , que é própria
da mente." (1,). Na constituição da nossa identidade,
achamos que somos deuses e só depois de muitas discriminações
em experiências relacionais saudáveis nos humanizamos.
O verdadeiro místico sabe disso, ele é o contrário
de Narciso como afirma Rezende.(7,)
Há diferenças entre religioso e místico. A
religião diz mais respeito às instituições
religiosas e se distinguem por suas falas, enquanto o místico
se encontra no silêncio do seu ser e privilegia a união
silenciosa. O místico está mais preocupado em ser,
do que em dizer e entender.
Uma convergência com o psicodrama: Bion, falando sobre o místico
e o grupo, salienta que o místico é aquele que pensa
e traz a idéia nova, fator de renovação no
grupo. Resistência à mística pode ser também
sinal de resistência à mudança e às transformações
mais profundas, estar preso às conservas culturais.
Outra vertente é relativa as práticas orientais ou
os caminhos de libertação: budismo, vedanta, taoismo
entre outros, que afirmam que a consciência egocêntrica
ordinária é uma consciência limitada, sem fundamento
na realidade.
Os métodos variam de acordo com a escola, mestre e discípulo,
mas todos enfatizam como meta o fim do ego narcísico e sua
transformação em consciência cósmica
ou self auto-realizado. Vou abordar alguns pontos do Advaita Vedanta,
ensinamento hindu do não dualismo ou seja do universo visto
como unidade, por considerar que eles têm similitudes com
o psicodrama. Seu objetivo principal é despertar o ser verdadeiro
de cada um. Descobre-se que o ser verdadeiro é o ser do universo.
Alguns de seus aspectos principais: Aprender com a experiência;
liberdade; vacuidade; espontaneidade; desapego.
Um aspecto do desapego é a meditação no sentido
de deixar a mente livre, não se apegar a nada, suspensão
do pensamento racional para possibilitar à mente entrar em
contato com a sua essência, que é a impermanência
dos objetos e da vida.
A natureza original é vazia, como um céu aberto, vasto,
sem princípio nem fim. Nossos obscurecimentos mentais são
as nuvens. A iluminação ou a realização
do Self é a autoconsciência, total autoconsciência
ou Ser, na fala de Sri Poonjaji . Para ele, Ser é aceitar
ser livre. "Liberdade não requer nenhum esforço."
É parte intrínseca da natureza humana. Portanto se
sentir livre é não fazer esforço. É
interessante que vacuidade e liberdade são intrínsecas
à natureza humana para os vedantas, são equivalentes?
O Self é a natureza, pessoas, mundo, cosmos. Tudo é
uno (a multiplicidade é um divertimento do self), tudo é
Self.
Nada há para ser aceito ou rejeitado. A pessoa é livre
para aceitar ou rejeitar.
Numa visão moreniana há uma identificação
com o universo, com discriminação. Moreno não
dizia que o homem tem fome cósmica de identidade com o universo?
Para os vedantas, o jogo de papéis faz parte da vida, mas
não é para ser tomado muito a sério.
Há experiências chamadas místicas em que acontecem
revelações de essência do humano, do cosmos,
do Absoluto, em que não há nenhuma característica
sensorial, não há conceito de tempo, nem luz, nem
escuridão, nem som, nem palavras, somente consciência.
A palavra que melhor define esse momento é vacuidade. Segundo
Sri Poonjaji essa consciência não pode ser conseguida
por nenhum tipo de imaginação, só pela vacuidade.
Para ele o buscador de verdade procura somente a vacuidade e o resto
se seguirá a isso. "A atividade espontânea não
necessita ser manipulada pelo intelecto, mente ou pelos sentidos,
não necessita esforço e nem deixa impressões
na memória. É conduzida por um poder mais alto, o
Self."
O lugar da experiência é fundamental para o aprender.
O lugar do desejo: todos os desejos acabam em liberdade. Se um desejo
seu é satisfeito, você encontra a vacuidade. A vacuidade
traz a você felicidade, mas isso é inconsciente. Você
atribui a sua felicidade à posse de alguma coisa, não
à vacuidade. É a liberdade em relação
à aquele desejo que dá a você felicidade.
Para repelir o chamado ego, no meu entender o ego narcísico,
os vedantas afirmam que se deve obedecer a um mestre, que é
o seu próprio Self. Se você não tem confiança
ou não tem contato com seu próprio Self, então
deve buscar alguém que o guiará até ele, o
mestre, o guru, que significa "aquele que dispersa a escuridão
que dispersa a ignorância. De acordo com Sri Poonjaji um verdadeiro
mestre não tem o que ensinar, ele simplesmente o coloca a
par de que você não é diferente de si mesmo,
que você já é livre. Ele só remove o
conceito de escravidão. O guru é o próprio
self dentro da pessoa mesma. O mestre é só uma ajuda
para a pessoa entrar em contato com o seu próprio self. Segundo
os vedantas um caminho para chegar aí é ficar em silêncio,
deixar a mente entrar no silêncio. Na quietude, o self aparece
por ele mesmo. "Assim como os pássaros não deixam
pistas quando voam pelos céus, o verdadeiro ensinamento não
deixa sinais na memória.
Conclusões
"Uma resposta provoca uma centena de perguntas"(3,)
1. As duas configurações psicológicas: a) a
capacidade de estar só; b) a vertente religiosa - mística
- podem ser consideradas como transformações do narcisismo,
acrescentadas às cinco estabelecidas por Kohut.
2. A capacidade de estar só - pode fazer parte da matriz
de identidade (moreniana)? Constitui-se numa nova etapa desta matriz?
3. As configurações advindas das transformações
do narcisismo que mais se relacionam com o psicodrama são:
criatividade, humor e vertente mística.
4. As transformações do narcisismo, com o acréscimo
das duas configurações que proponho constituem papéis
com uma qualidade nova, sui generis, na medida em que aponta para
o ser cósmico. Esses papéis podem se movimentar dinâmicamente
pelos três clusters, materno, paterno e fraterno (Bustos).
A característica de alguns desses papéis de transformação
de uma consciência egocêntrica para uma conciência
cósmica, apontam para um novo cluster? Cluster cósmico?
Referências
bibliográficas
1.Franco, O. M.Experiência religiosa e psicanálise:
do homem deus ao homem-com-deus.Revista Brasileira de Psicanálise,29(4),p.1995.
2.Kohut, H.Psicologia do self e a cultura humana.1.Porto Alegre,Artes
Médicas,1988.
3.Moreno, J. L.Psicodrama.São Paulo,Editora Cultrix,1975.
4.Moreno, J. L.O Teatro da Espontaneidade.São Paulo,Summus
Editorial,1984.
5.Naffah Neto, A.O Inconsciente como Potência Subversiva.São
Paulo,Escuta,1991.
6.Perazzo, S.Descansem em Paz os nossos Mortos Dentro de Mim. Sobre
Psicodrama diante e através da Morte.1.Rio de Janeiro,Livraria
Francisco Alves Editora S.A.,1986.
7.Rezende, A. M. d.Bion e o futuro da psicanálise.1.Campinas,Papirus,1993.
8.Winnicott, D. W.O ambiente e os processos de maturação.3.Porto
Alegre,Artes Médicas,1990.
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Obs.
Texto publicado na Revista Brasileira de Psicodrama, 2002;10 (1):67-79
Endereço da autora: R. Antônio Barletta, 83 São
Paulo, Brasil cep 05447-040 Tel/Fax 55 11 36753910/ 3034-6372; e-mail
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