EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Psicodrama

 

ARTIGO

 

Clusters na maturidade - novas perspectivas

Autora: Vera Lúcia Rolim Silva; psicodramatista, professora supervisora pela FEBRAP - Instituto de Psicodrama J.L.Moreno - São Paulo , Brasil

Resumo: No artigo "Clusters na maturidade - novas perspectivas" a autora discute como que as transformações do narcisismo, segundo Kohut se articulam com o psicodrama.

Abstrats: In the paper: "Clusters at the maturity - new points" the author discusses how the Kohut's "narcissism's changes" are connected with the psychodrama.

Palavras chaves: Psicodrama; Transformações do narcisismo; Clusters;Cósmico; Maturidade.

Key words: Psychodrama; Narcissism's changes; Clusters; Cosmic; Maturity.

Introdução
Este trabalho surgiu da confluência de várias questões num pensamento intuitivo, claro e definido, que virou um projeto, desenvolvido assim:
- O que acontece com os papéis nessa etapa de vida, chamada maturidade?
- Como são as energias narcísicas nesta época?
- As transformações do narcisismo, tema desenvolvido por Kohut, podem constituir novas possibilidades, novos papéis? Ou integrariam os papéis já existentes? Formariam um novo cluster?
- Às cinco constelações psicológicas, formuladas por Kohut: criatividade, empatia, capacidade de reconhecer a finitude, humor e sabedoria; proponho acrescentar duas outras, que considero integrantes fundamentais: capacidade de estar só e desenvolvimento religioso-místico.
O tema central do trabalho são as transformações do narcisismo segundo Kohut, com acréscimo dessa duas outras transformações que proponho. No desenvolvimento deste artigo, percorri e busquei integrar idéias de Kohut, Freud, Moreno, Bustos, Calvente, Winnicott e outros mais com as minhas próprias, tarefa difícil, mais apaixonante. Escolhi não trazer os textos sobre Empatia e Humor, por falta de espaço neste artigo. A Empatia por ser mais conhecida, e o Humor por fazer parte da Sabedoria, apesar de ser de relance. Foi o possível.

Somos todos mortais
Nós não paramos muito para pensar nisto, mas a vida é esse caminho para a morte. Geralmente a sensação de que somos eternos nos acompanha pala infância, juventude e na maturidade esta aparente certeza de infinitude começa a se desfazer, nos sentimos mais próximos da possibilidade de morrer, paramos, e damos um balanço na nossa vida vivida. O que conseguimos ou não conseguimos. É essa vida mesmo que nós queríamos viver? Desse modo? Com esses resultados? Há um questionamento dos nossos papéis, manifestos e latentes. Mil sensações, emoções, pensamentos, sentimentos nos percorrem.
Na segunda metade da vida há um recrudescimento do narcisismo. O equilíbrio narcísico, numa visão de Kohut é conseguido por uma integração das ambições do indivíduo, seus ideais e o ego que engloba os seus talentos e habilidades. Empurrado pelas ambições e guiado pelos ideais o indivíduo pode agir com a sua espontaneidade criadora no mundo. Kohut faz um enfoque interessante do trabalho especial do ego de dominar as energias narcísicas e transformá-las em novas configurações psicológicas, mais altamente diferenciadas: a criatividade, empatia, reconhecimento da finitude, senso de humor e sabedoria. Essas constelações psicológicas me parecem mais possíveis de serem atingidas a partir da maturidade, mas algumas poderiam ser atingidas também em outras etapas de vida. A essa classificação acrescento mais duas configurações: 1.capacidade de ficar só, como possibilidade de interiorização, sem a qual várias dessas constelações não seriam possíveis de serem atingidas. 2. Desenvolvimento da vertente religiosa-mística.

Capacidade de estar só.
A capacidade que uma pessoa tem de ficar sozinha é um dos maiores sinais de maturidade, segundo Winnicott. Geralmente o aspecto positivo da capacidade de ficar só é pouco abordado e estudado em nosso meio e é distinto do medo ou do desejo de ficar só. É também diferente do ficar isolado, que do ponto de vista sociométrico é indicação de detectar uma dificuldade nas relações. O indivíduo pode estar isolado mas não estar sozinho e pode estar com outra pessoa mas estar sozinho, o que é um paradoxo. Esse segundo aspecto, ou seja estar só junto com o outro não se refere a retraimento ou dificuldade de contato, mas ao contrário positivamente, a momentos de silêncio na relação com o outro (Winnicott se refere a relação terapêutica, casal, dual) onde os parceiros se sentem bem em campo relaxado, devaneando ou não, existindo tranqüilamente sem nenhuma solicitação externa, como se estivessem no limbo, e podendo apreciar essa solidão compartilhada.
A base sobre a qual se constrói essa capacidade de estar só é a experiência do bebê ou criança pequena, de estar só na presença confiante da mãe ou na sua representação, em momentos, por um berço, carinho de bebê ou pela atmosfera geral do ambiente mais imediato ou seja a experiência de estar sozinho na presença de um outro, na visão de Winnicott.
Winnicott é um psicanalista que tem como aspecto fundante da sua obra, o papel estruturante do ambiente na organização do psiquismo infantil, apresentando portanto convergências importantes com a teoria psicodramática. Para ele, a percepção da criança da existência contínua de uma mãe disponível, torna possível à criança estar só e ter prazer em estar só por tempo limitado. Portanto a capacidade de ficar só se baseia na experiência de estar só no presença de alguém e que sem uma suficiência dessa experiência a capacidade de ficar só não pode se desenvolver. "O indivíduo que desenvolveu a capacidade de ficar só está constantemente capacitado a redescobrir o impulso pessoal e impulso pessoal não é desperdiçado, porque o estado de estar só é algo que (embora paradoxalmente) implica sempre que alguém também está ali."(8,)p.36 Aos poucos vai se estabelecendo um "meio interno", sem necessidade da figura materna e a possibilidade de rica experiência subjetiva pessoal. Portanto com a continência materna, verificamos a necessidade da criança experimentar vazios, distâncias, que possam ajudá-la a se distinguir do outro e aos poucos aprender a dar continência às suas próprias experiências. É importante não confundir com falta ou carência, pois quando há segurança e confiança na figura materna, a sua ausência é suportável e a criança pode se confrontar com sua própria solidão, dando um novo passo de crescimento. Naffat explica "experimentar o vazio significa, pois ter acesso àquela solidão constituinte, inalienável, que torna cada ser humano um locus de produção de atos singulares, únicos" (5,)p.52 Ou continuando a falar psicodramaticamente essa interioridade da pessoa proporcionará subsídios para os atos espontâneos ou seja vai ser fonte para os atos espontâneos não se deteriorarem, não se tornarem "rançosos", pelo fato de serem espontâneos, uma das primeiras descobertas de Moreno sobre a espontaneidade.(4,)p. 18 E o que é a espontaneidade, senão esse livre fluir da subjetividade numa relação intercambiável e produtiva com o mundo?
Ainda voltando a Winnicott essa capacidade de estar só é um fenômeno altamente sofisticado ao qual a pessoa pode chegar depois de conseguir estabelecer relações triádicas. Portanto se nos referirmos às fases da matriz de identidade emocional moreniana poderíamos propor uma sexta fase: É capaz de estar só. E se considerarmos o esquema ampliado das fases da matriz de identidade emocional moreniana, desenvolvido por Fonseca poderíamos propor a inclusão da fase: Capacidade de estar só - após a nona fase - inversão de papéis (plena capacidade de realizar relação humana de reciprocidade).
Isso nos conduz ao aprendizado de que na relação terapêutica, o paciente pode ficar em silêncio com o terapeuta e esse silêncio não ser resistência mas algo positivo e indício de maturidade, não precisa falar para se sentir seguro com o terapeuta. A pessoa madura pode desfrutar da solidão, sem ter a sensação de perda do outro e mais ainda a solidão pode ser indispensável para a criatividade.

Criatividade
A atividade criativa em si merece ser considerada entre as transformações do narcisismo afirma Kohut, no que se refere ao relacionamento do criador com sua obra. No trabalho criativo utilizam-se energias narcisistas modificadas para a forma de libido idealizante ou seja, aquela energia, que em um determinado momento evolutivo poderia se dirigir ao amor por alguém, vai investir um objeto, que passa a ser incluído no contexto do self.
É intenso o envolvimento do criador com a sua obra, remete a climas afetivos da relação mãe-bebê, mas sobretudo, é relacionado ao narcisismo da primeira infância. As personalidades criativas são mais infantis que maternais, continua Kohut, e tem uma relação mais indiferenciada com o ambiente (pouca discriminação eu-tu interno-externo), percepções mais intensas pormenorizadas parecidas com o self do esquizoide ou da criança, estando mais próximas da relação da criança com suas excreções. São muito sensíveis à captação de aspectos da realidade, que tem a ver com o seu trabalho, investindo-os com a libido idealizante narcísica. Durante sua fase produtiva as pessoas criativas tendem a alternar fases de grande valorização e outras fases de desvalorização total de sua obra, sinal de investimento libidinal narcísico. Podem ligar-se no seu trabalho com a intensidade de uma adicção ou um fetiche, procurando controlar ou modelar o trabalho através de forças e para fins narcísicos. Kohut assinala ainda que tentam recriar uma perfeição no seu trabalho, que arcaicamente era seu próprio atributo.
O artista pode ser visto também como um self ampliado que inclui o mundo ou estar em uma fronteira de atitudes autoplásticas e aloplásticas para com a realidade. Mas, mesmo assim para Kohut indicam um investimento libidinal narcísico detectado nessa relação do criador com sua obra.
Kohut considera que todo o trabalho criativo e produtivo depende de energias narcísicas, ao mesmo tempo grandiosas idealizantes, mas que o pensamento verdadeiramente original é energetizado predominantemente pelo self grandioso, enquanto que a produtividade científica e artística, mais limitada pela conserva cultural é desempenhada através de investimentos idealizantes.
Esse entretecer de ambições do indivíduo (self grandioso), seu ideal do ego (libido idealizante), seus talentos e habilidades (ego), conjugado com o mundo externo, é que vai dar ou não o equilíbrio narcísico.
Na visão psicodramática chamamos espontaneidade à qualidade desse ato de entretecer esses fios energéticos em um indivíduo e a convertê-los através dos papéis em ação adequada à realidade. Essa ação catalisada pela espontaneidade, é sempre dinâmica e implica em adaptação ativa, ou seja modificação dos dois pólos (sujeito-ambiente). E se esse ato ainda contem do ponto de vista do sujeito: sensação de surpresa; de irrealidade algo novo acontecendo; sentir ser sui generis em relação a si próprio (estado de consciência alterado); sentir uma integração da consciência com diversas sensações corporais suas, como uma concretização de uma intenção imperativa, diminuição do ego observador - imersão na ação; sente que a ação é uma tradução das suas idéias; estamos frente a um ato criativo, do ponto de vista moreniano. A espontaneidade é a qualidade da ação e a criatividade é o ato. A espontaneidade estimula e dirige o ato criativo. Os atos espontâneos criativos são impermanentes, Moreno os situa na filosofia do momento. São as mais afinadas expressões singulares das profundezas do ser humano, daí o seu caráter de comunicabilidade com o coletivo no presente, ou às vezes só no futuro.

Capacidade de reconhecer a finitude da existência - tanto própria quanto dos objetos.
O reconhecimento de que a vida é impermanente, de que a morte é parte intrínseca da nossa vida, pode ser a maior conquista psicológica, segundo Kohut.
Muitas vezes esta aceitação é só aparente, estando ligada a mecanismos de negação.
O tema da finitude remete diretamente à separação, separação do mundo, de pessoas, nossos vínculos. Vínculos como unidades dinâmicas, cujos pólos são os papéis, e que se articulam em movimentos de união e separação. Lidar com os movimentos de separação, significa um trabalho sobre a aceitação emocional da transitoriedade. Assim poder-se-á chegar à uma interiorização do tempo finito da vida própria , das pessoas, dos objetos, das relações.
Perazzo traz: "Escrever sobre a morte é de alguma forma confrontá-la, não sei se face a face, mas pelo menos de viés, embora sua verdadeira fisionomia esteja sempre de algum modo irremediavelmente encoberta."(6,)
Penso que quando há uma real aceitação da morte, há possibilidade de plenitude de vida. Mas a morte, apesar de ser uma certeza, sempre envolve um mistério, pois apesar de todos os relatos de experiências de proximidade com a morte, visões transcendentais, sonhos ou vivências aproximadas (desmaios, estados de coma, etc...) nunca se sabe mesmo como é ou como será. E esse mistério da própria morte é um campo propício de depositação de angústias variadas, já que a angústia existencial é parte integrante dele, podendo constituir portanto uma boa defesa. Perazzo, buscando o entendimento da morte: "Se não posso contemplar meu rosto dormindo no momento em que ele dorme, não poderia surpreender nele, se em sono profundo, a expressão dos meus sonhos que o diferencia dos sono inanimado da morte. Talvez por este motivo, o sono e o desaparecimento se constituam no primeiro elo que permite compreender o que é a morte e mais especificamente , minha morte. Não só eu me reconheço e reconheço o outro, me reconhecendo nele nas semelhanças humanas, como até passo a me reconhecer nele quando morto, na possibilidade de um mesmo sono inanimado, que passo a tomar e imaginar. É como se neste instante eu pudesse compartilhar com os demais minha própria mortalidade."
Quando lia o início deste trecho, pensei: me lembra um Koan, que talvez pudesse ser armado assim: se não posso contemplar meu rosto dormindo num momento em que ele dorme, sem pensar e sem imaginar, que rosto terei quando morrer?
Acho que não tem resposta, que é o propósito de qualquer koan, enigma insolúvel, com o objetivo de impedir o pensamento racional, e de se entrar em outro vértice de relação com o mundo. Claro que essa é uma técnica de um conjunto de ensinamentos orientais que leva a uma mudança de direção, muitas vezes para o místico e que facilita a possibilidade de transcendência. Ou seja, lidar com a aceitação da finitude, transcendendo as próprias fronteiras individuais. Nesse caso, Kohut fala de uma transformação dos investimentos narcísicos para um narcisismo cósmico, possível de ser alcançado por poucas pessoas.Para a aceitação da morte há que se aproveitar as experiências da vida. A atitude resignada e conformista é uma forma de desespero. Outra forma de desespero é o desejo de imortalidade, negação da mortalidade. Uma alternativa (para poucos) é a transcendência que segundo o etmólogo, Flávio Di Giorgio, é uma rebeldia, um inconformismo, um ultrapassar os limites individuais. Esse mergulho nas questões da finitude da vida, vai fazendo emergir a constatação da impermanência também dos objetos, da vida em geral onde só a mudança é permanente. Já dizia o filósofo de Éfeso, pré-socrático, Heráclito:
"Não se pode pisar duas vezes o mesmo rio / Tudo flui e nada permanece / Tudo cede e nada se fixa..." Ou Buda: "Você é um fluxo, um rio" Ou Moreno: "O self é como um rio que flui da espontaneidade, mas possui muitos afluentes subsidiários que lhe provém seu sustento."(4,)p.21
Freud verificou que a integração desse saber sobre a impermanência dos objetos, sejam eles pessoas ou valores queridos não diminui o valor deles, pelo contrário, faz-nos amá-los e admirá-los ainda mais, pelo próprio valor do tempo limitado. É uma aceitação de valores realísticos, um abandono do infantilismo emocional e da crença na onipotência do desejo. Para Kohut "essa rara façanha repousa não simplesmente numa vitória da razão autônoma e da objetividade suprema sobre as reivindicações do narcisismo, mas na criação de uma forma mais elevada de narcisismo."..."um novo, ampliado e transformado narcisismo: um narcisismo cósmico, que transcende as fronteiras do indivíduo."
Como se origina esse narcisismo cósmico de solenidade quase religiosa, que é alcançado por poucas pessoas? A percursora desse self ampliado é a identidade primária da criança com a mãe, "recordada por muitas pessoas sob a forma das vagas reverberações, ocasionalmente ocorrentes, conhecidas sob o nome de sentimento oceânico"(2,)p.119
Este sentimento que é experimentado passivamente em contraste com atitude ativa e resoluta em direção a uma mudança genuína dos investimentos narcísicos para o narcisismo cósmico, que significa uma participação numa existência supra-individual e atemporal, ao alcançar o reconhecimento da única certeza comum ao ser humano, a sua finitude.

Sabedoria
A sabedoria como Kohut a vê nessa etapa "pode ser definida como uma amalgamação dos processos mais elevados da cognição (informação - conhecimento) com a atitude psicológica de renúncia às exigências narcísicas." Implica, basicamente na aceitação dos próprios limites, das suas possibilidades físicas, intelectuais e emocionais.
O sábio na visão de Eckhart, é aquele que sabe que não sabe. É como se o sábio dissesse: "fui tão longe quanto podia e não passei dos meus limites."(7,)
Mas de acordo com Kohut, para se constituir como sabedoria têm de estar ligado à posse de ideais, à capacidade de humor e à aceitação da finitude, formando uma nova constelação psicológica que vai além de tudo isso que a integra. Define-se pois, como uma grande atitude estável da personalidade para com a vida e o mundo, provavelmente só se podendo chegar a ela numa etapa de vida avançada. É a vitória de um trabalho de uma vida inteira para se chegar a um saber de ampla base e para conseguir transformar os modos arcaicos de narcisismo em ideais, humor e senso de participação supra-individual no mundo, numa expansão criativa.
O domínio total do self narcísico nessa etapa da vida acha-se em condições mais favoráveis, pois depara com as energias e o corpo em declínio, portanto mais que um controle das energias narcísicas, esse momento está mais para uma atitude de aceitação dessa realidade. A formação e manutenção de um conjunto de valores acalentados são indispensáveis para nas condições adversas, se manter o humor e poder encarar o próprio fim.

O religioso - místico
Considero que o desenvolvimento religioso ou místico pode também advir das transformações das energias narcísicas, configurando papéis de religioso, místico, guru, santo. Moreno, quando pesquisou a espontaneidade-criatividade, buscou exemplos de santos e profetas que as encarnavam iluminadamente. Moreno constata que uma fase espontânea criativa está presente nos fundamentos de toda religião genuína. Tinha uma "idéia fixa" que ao longo de sua vida se tornou fonte constante de produtividade, "proclamava a existência de uma espécie de natureza primordial, imortal, e que retorna rejuvenescida, como um primeiro universo, que contém todos os seres e no qual todos os eventos são sagrados."(4,)p.15 Vai surgindo a idéia de um self que se expande criativamente que não é só individual, mas que também se relaciona com um self universal. "Não há dúvidas de que o homem deva retroceder em seu caminho, partindo do plano existencial secular até reencontrar o plano sagrado, partindo do tecnológico e voltando até o plano espiritual, a fim de que a crescente expansão do self possa recuperar um equilíbrio interno; é um paradoxo, mas o método de realização do santo e o método tecnológico do médico, os dois extremos - no meio dos quais se enquadram o método de realização do biometrista, do psicometrista, do sociometrista, etc...- devem encontrar-se e fundir-se."(4,)
É interessante ver como são diferentes essas visões e abordagens do religioso para Moreno e para Freud.
O sentimento religioso numa perspectiva freudiana é gerado por determinações infantis. Deus é uma invenção do homem e sua imagem de Deus emerge exclusivamente da relação da criança com o pai, dos seus conflitos edípicos com conseqüentes renuncias instituais e na continuidade do processo, encontramos no superego a imago do pai substituída e transformada em imago de Deus.
Essa abordagem é reducionista e dá conta apenas parcialmente da compreensão do processo da crença, como argumenta o psicanalista Mello Franco. E ainda esclarece "...a religiosidade de nossos analisandos necessita ser encarada não apenas à luz de suas determinações infantis, mas como resultado de transformações de experiências vitais em processos abertos para resignificações que são contínuas e evolutivas."(1,)p.861
Rizzuto, um estudioso do tema afirma que a representação de Deus depois de formada, não desaparece, pode ser reprimida, transformada ou usada. Esses processos participam da estruturação da identidade e podem favorecer ou perturbar a maturação e o equilíbrio.
Como são as características dessas divindades?
Bomfort na suas investigações sobre tema conclui que a concepção do inconsciente freudiano é a mesma do deus dos místicos (deus no teísmo filosófico cristão). Comparando os atributos dos dois:

INCONSCIENTE DEUS
Atemporalidade Eternidade
Ausência de limitação espacial Infinitude
Não contradição Inefabilidade
Deslocamento - condensação Indivisibilidade
Equivalência entre realidade interna e externa Ato puro

Infere que "a matriz de idéia de deus se encontra na própria estrutura do inconsciente, o que eqüivale a afirmar a existência de uma "dimensão religiosa" , que é própria da mente." (1,). Na constituição da nossa identidade, achamos que somos deuses e só depois de muitas discriminações em experiências relacionais saudáveis nos humanizamos. O verdadeiro místico sabe disso, ele é o contrário de Narciso como afirma Rezende.(7,)
Há diferenças entre religioso e místico. A religião diz mais respeito às instituições religiosas e se distinguem por suas falas, enquanto o místico se encontra no silêncio do seu ser e privilegia a união silenciosa. O místico está mais preocupado em ser, do que em dizer e entender.
Uma convergência com o psicodrama: Bion, falando sobre o místico e o grupo, salienta que o místico é aquele que pensa e traz a idéia nova, fator de renovação no grupo. Resistência à mística pode ser também sinal de resistência à mudança e às transformações mais profundas, estar preso às conservas culturais.
Outra vertente é relativa as práticas orientais ou os caminhos de libertação: budismo, vedanta, taoismo entre outros, que afirmam que a consciência egocêntrica ordinária é uma consciência limitada, sem fundamento na realidade.
Os métodos variam de acordo com a escola, mestre e discípulo, mas todos enfatizam como meta o fim do ego narcísico e sua transformação em consciência cósmica ou self auto-realizado. Vou abordar alguns pontos do Advaita Vedanta, ensinamento hindu do não dualismo ou seja do universo visto como unidade, por considerar que eles têm similitudes com o psicodrama. Seu objetivo principal é despertar o ser verdadeiro de cada um. Descobre-se que o ser verdadeiro é o ser do universo. Alguns de seus aspectos principais: Aprender com a experiência; liberdade; vacuidade; espontaneidade; desapego.
Um aspecto do desapego é a meditação no sentido de deixar a mente livre, não se apegar a nada, suspensão do pensamento racional para possibilitar à mente entrar em contato com a sua essência, que é a impermanência dos objetos e da vida.
A natureza original é vazia, como um céu aberto, vasto, sem princípio nem fim. Nossos obscurecimentos mentais são as nuvens. A iluminação ou a realização do Self é a autoconsciência, total autoconsciência ou Ser, na fala de Sri Poonjaji . Para ele, Ser é aceitar ser livre. "Liberdade não requer nenhum esforço." É parte intrínseca da natureza humana. Portanto se sentir livre é não fazer esforço. É interessante que vacuidade e liberdade são intrínsecas à natureza humana para os vedantas, são equivalentes? O Self é a natureza, pessoas, mundo, cosmos. Tudo é uno (a multiplicidade é um divertimento do self), tudo é Self.
Nada há para ser aceito ou rejeitado. A pessoa é livre para aceitar ou rejeitar.
Numa visão moreniana há uma identificação com o universo, com discriminação. Moreno não dizia que o homem tem fome cósmica de identidade com o universo?
Para os vedantas, o jogo de papéis faz parte da vida, mas não é para ser tomado muito a sério.
Há experiências chamadas místicas em que acontecem revelações de essência do humano, do cosmos, do Absoluto, em que não há nenhuma característica sensorial, não há conceito de tempo, nem luz, nem escuridão, nem som, nem palavras, somente consciência. A palavra que melhor define esse momento é vacuidade. Segundo Sri Poonjaji essa consciência não pode ser conseguida por nenhum tipo de imaginação, só pela vacuidade. Para ele o buscador de verdade procura somente a vacuidade e o resto se seguirá a isso. "A atividade espontânea não necessita ser manipulada pelo intelecto, mente ou pelos sentidos, não necessita esforço e nem deixa impressões na memória. É conduzida por um poder mais alto, o Self."
O lugar da experiência é fundamental para o aprender.
O lugar do desejo: todos os desejos acabam em liberdade. Se um desejo seu é satisfeito, você encontra a vacuidade. A vacuidade traz a você felicidade, mas isso é inconsciente. Você atribui a sua felicidade à posse de alguma coisa, não à vacuidade. É a liberdade em relação à aquele desejo que dá a você felicidade.
Para repelir o chamado ego, no meu entender o ego narcísico, os vedantas afirmam que se deve obedecer a um mestre, que é o seu próprio Self. Se você não tem confiança ou não tem contato com seu próprio Self, então deve buscar alguém que o guiará até ele, o mestre, o guru, que significa "aquele que dispersa a escuridão que dispersa a ignorância. De acordo com Sri Poonjaji um verdadeiro mestre não tem o que ensinar, ele simplesmente o coloca a par de que você não é diferente de si mesmo, que você já é livre. Ele só remove o conceito de escravidão. O guru é o próprio self dentro da pessoa mesma. O mestre é só uma ajuda para a pessoa entrar em contato com o seu próprio self. Segundo os vedantas um caminho para chegar aí é ficar em silêncio, deixar a mente entrar no silêncio. Na quietude, o self aparece por ele mesmo. "Assim como os pássaros não deixam pistas quando voam pelos céus, o verdadeiro ensinamento não deixa sinais na memória.

Conclusões
"Uma resposta provoca uma centena de perguntas"(3,)
1. As duas configurações psicológicas: a) a capacidade de estar só; b) a vertente religiosa - mística - podem ser consideradas como transformações do narcisismo, acrescentadas às cinco estabelecidas por Kohut.
2. A capacidade de estar só - pode fazer parte da matriz de identidade (moreniana)? Constitui-se numa nova etapa desta matriz?
3. As configurações advindas das transformações do narcisismo que mais se relacionam com o psicodrama são: criatividade, humor e vertente mística.
4. As transformações do narcisismo, com o acréscimo das duas configurações que proponho constituem papéis com uma qualidade nova, sui generis, na medida em que aponta para o ser cósmico. Esses papéis podem se movimentar dinâmicamente pelos três clusters, materno, paterno e fraterno (Bustos). A característica de alguns desses papéis de transformação de uma consciência egocêntrica para uma conciência cósmica, apontam para um novo cluster? Cluster cósmico?

Referências bibliográficas
1.Franco, O. M.Experiência religiosa e psicanálise: do homem deus ao homem-com-deus.Revista Brasileira de Psicanálise,29(4),p.1995.
2.Kohut, H.Psicologia do self e a cultura humana.1.Porto Alegre,Artes Médicas,1988.
3.Moreno, J. L.Psicodrama.São Paulo,Editora Cultrix,1975.
4.Moreno, J. L.O Teatro da Espontaneidade.São Paulo,Summus Editorial,1984.
5.Naffah Neto, A.O Inconsciente como Potência Subversiva.São Paulo,Escuta,1991.
6.Perazzo, S.Descansem em Paz os nossos Mortos Dentro de Mim. Sobre Psicodrama diante e através da Morte.1.Rio de Janeiro,Livraria Francisco Alves Editora S.A.,1986.
7.Rezende, A. M. d.Bion e o futuro da psicanálise.1.Campinas,Papirus,1993.
8.Winnicott, D. W.O ambiente e os processos de maturação.3.Porto Alegre,Artes Médicas,1990.
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Obs. Texto publicado na Revista Brasileira de Psicodrama, 2002;10 (1):67-79
Endereço da autora: R. Antônio Barletta, 83 São Paulo, Brasil cep 05447-040 Tel/Fax 55 11 36753910/ 3034-6372; e-mail verarolim@uol.com.br

 

 

 

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