| Psicóloga
Norma Silvia Trindade de Lima |
Resumo
O artigo apresenta uma reflexão a respeito do teatro espontâneo e do movimento inclusivo à luz do pensamento de Michel Foucault e sua crítica à modernidade.
Abstract
The article presents a reflection about spontaneous theater and inclusive moviment in the light of Michel Foucault's thought and his critique to modernity.
Unitermos: verdade, poder, teatro espontâneo, inclusão.
Uniterms: truth, power, spontaneous theater, inclusion.
Verdade! Verdade? Verdades...
A hegemonia da verdade universal/essencial e a prescrição de sua prática, parece ser a inquietação central das análises históricas na obra de Michel Foucault.
Se pensássemos na obra de Foucault como dramaturgia, diríamos trata-se de " uma história que vovó não contava".
Segundo a abordagem dramatúrgica ou psicodramática, Foucault é autor e ator de um tempo, de uma trama e um drama.
Enquanto autor, ele pensa, questiona, pesquisa e constrói um enredo - uma crítica à modernidade e ao regime de verdade e poder hegemônico que apoiando-se em universais, prescreve e homogeneiza o homem. Diferente da versão tradicional e dominante, que narra uma história como se fosse a verdade original, universal, natural, evolutiva e ordenada por uma cronologia linear, ele nos apresenta uma nova versão.
Sua nova versão, buscou metodologicamente os descaminhos, as rupturas que, excluídas da metodologia tradicional de análise histórica, sinalizam uma modificação de enunciados e práticas sociais.
Como ele mesmo comentou, sua questão foi:
...como é possível que se tenha em certos momentos e em certas ordens de saber, [...], transformações que não correspondem à imagem tranquila e continuista que normalmente se faz? [...] Em suma, problema de regime, de política do enunciado científico (Foucault, 1998, pag.4).
Sendo assim, sua versão ou seu enredo, não é uma teoria, são fragmentos locais, baseiam-se nas descontinuidades históricas, nos acontecimentos e se pretente instrumento de luta política, uma "caixa de ferramentas" para a resistência.
Seu enredo destaca a tecitura de uma trama, onde os personagens são constituídos e o enredo é prescritivo.
O palco é a modernidade, lugar espacial onde se desenrola este enredo.
O cenário, sendo a ambientação temporal, histórica e cênica onde o espetáculo acontece, caracteriza a sociedade disciplinar, sendo sua metáfora, a arquitetura panóptica. Todos são, todo o tempo, vigiados, ocupados e submetidos a um padrão de conduta, desempenho e ética.
No papel de ator, ele é o personagem protagônico. Isto é, ele agoniza e explicita o dano de um tempo, a prescrição de um regime de verdade hegemônico, ou seja, o drama do sujeito moderno normatizado pelas instituições sociais de uma sociedade que caracteriza-se como disciplinar.
O script ou enredo é soberano, estruturado e definido neste espetáculo, sobre o qual Foucault escreve. É, portanto, previsível.
O diretor para esse tipo de espetáculo deve ser sistemático, controlador, onipresente (as autoridades, as instituições e outras instâncias de poder).
Para viabilizar o espetáculo, os personagens complementam o script e o diretor. Devem ser obedientes e submetíveis às normas. Para tanto, devem ter disciplina a fim de desempenharem o padrão idealizado pela harmonia e evolução do espetáculo. Não é recomendável a improvisação.
A platéia é inexistente, pois todos trabalham o tempo todo na produção do espetáculo, o que dificulta a possibilidade de crítica e reflexão.
Essa nova versão que Foucault nos apresenta, a crítica ao espetáculo da modernidade, uma razão centrada no sujeito, revela uma circularidade entre a produção de discurso e saberes e certos exercícios de poder. Analogicamente descrita na composição do espetáculo, por meio da complementaridade e caracterização do enredo, tipo de diretor e construção dos personagens
A opção metodológica pela descontinuidade histórica e pela noção de acontecimento, o caráter local e fragmentário da obra de Foucault, relativizam a concepção e produção de verdade e poder. Trata-se de regime de verdades e exercícios de poder articulados internamente às práticas sociais e aos enunciados de saberes. Não há exterioridade entre produção de saber, exercícios de poder e prática social. Dessa maneira, não há como ficarmos de fora.
Nesse sentido, o pensamento de Foucault, provoca a reflexão sobre a minha prática acadêmica e profissional.
Afinal, Foucault destacou:
...o papel do intelectual específico deve se tornar cada vez mais importante, na medida em que quer queira, quer não, ele é obrigado a assumir responsabilidades políticas.... (Foucault, 1998, p.12, o grifo é nosso).
Envolvida por tudo exposto até então, apresento assim, a intenção desse estudo: reportar-me à minha inserção na Educação e no Psicodrama , agora revisitados sob os holofotes acesos, genialmente, por Foucault.
Inclusão e Teatro espontâneo: novos regimes de verdades?
O importante, creio, é que a verdade não existe fora do poder ou sem poder[...]. A verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentados de poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua "política geral" de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro.(Foucault,1998,pag.12)
Há algum tempo, a inclusão e o teatro espontâneo vêm sendo meus "regimes de verdades" e minhas "caixas de ferramentas" para pensar, propor e intervir em realidades institucionais. Dito de outro modo, são eles, meus referenciais teóricos e metodológicos de reflexão, investigação e intervenção acadêmico-institucional.
O recente encontro com o pensamento de Michel Foucault apontou-me algumas possibilidades de articulações entre o que venho estudando e alguns aspectos de sua obra.
Por ora, pensamos, que a inclusão escolar e o teatro espontâneo são enunciados que se alinham ao seu projeto genealógico, apresentado como:
...uma insurreição dos saberes antes de tudo contra os efeitos de poder centralizadores que estão ligados à instituição e ao funcionamento de um discurso científico organizado no interior de uma sociedade como a nossa (Foucault, 1998, pag.171).
Este trabalho, como já foi dito, refere-se a uma reflexão de nossa praxis à luz do pensamento de Foucault, no que concerne sua crítica à hegemonia de um regime de verdade e de poder correlatos, pasteurizante e excludente.
Em direção a tal ousadia, utilizamos, principalmente, neste estudo, três textos de Michel Foucault. São eles respectivamente: "Verdade e poder", "Genealogia e Poder", em Microfísica do poder, Rio de Janeiro, ed.Graal, edição de 1998 e "O poder e a norma", em Psicanálise, poder e desejo, editor Chaim S.Katz. col. Ibrapsi, Rio de Janeiro, 1979.
Destacaremos num primeiro momento, três aspectos do movimento inclusivo: a escola como um sistema aberto, a abertura à diferença e a fusão do ensino. Em seguida, quanto ao teatro espontâneo, ressaltaremos os conceitos de criação coletiva, papel e espontaneidade. Posteriormente, apresentaremos nossas considerações.
Inclusão
Um breve histórico do movimento inclusivo condiz com as idéias de Foucault, no que se refere às descontinuidades históricas ou mudanças de enunciados e de práticas que em determinadas condições começam a ocorrer, como que um novo "regime" no discurso e no saber.
Conforme ele comentou,
...o importante de tais mudanças não é se serão rápidas ou de grande amplitude, ou melhor, esta rapidez e esta amplitude são apenas o sinal de outras coisas: uma modificação nas regras de formação dos enunciados que são aceitos como cientificamente verdadeiros (Foucault, 1998, pag.4).
O movimento da educação inclusiva introduz novidades, entre as quais destacaremos a que se refere à concepção de escola e ensino: a abertura incondicional às diferenças dos perfis humanos e a escola concebida como um sistema aberto.
A inclusão escolar é uma concepção educacional aberta à diferença incondicionalmente.
Trata-se da educação concebida como um sistema aberto, onde a heterogeneidade de performances humanas demanda novos parâmetros de abordagem, tratamento, organização e funcionamento institucional. Ou seja, um novo paradigma.
Nesse sentido, a inclusão engendra um movimento radical de re-significações de: valores, atitudes, critérios, enfim uma outra concepção de vida, sociedade, relacionamento humano interpessoal e, evidentemente, de transformações funcionais e organizacionais.
A metáfora da inclusão é o caleidoscópio. Pois, a diversidade de formas e cores compõe uma configuração, que é local, específica, dinâmica e fugaz, conforme a participação de vários elementos, como por exemplo, o desejo, o objetivo, a velocidade e a intensidade de quem realiza o movimento com o caleidoscópio, o momento em que realiza...
Um novo regime de verdade?
Uma escola aberta à diferença e a escola como um sistema aberto.
Uma escola aberta à diferença significa acolhimento incondicional do ser humano. Ou seja, todos e qualquer pessoa têm direito à educação. Independente de sua "performance" particular, o aluno é bem-vindo à escola que tem esse ideário.
Um ambiente educacional aberto à diferença trabalha com o princípio de que a única igualdade entre as pessoas é a diferença entre elas, sendo esta, o que nos afirma como seres particulares e originais. Ou seja, a pluralidade pessoal é o consenso.
Um princípio fundamental, na escola inclusiva, é a igualdade de valor, que se diferencia do princípio liberal que defende a igualdade de oportunidades.
A igualdade de valor apóia-se em resignificações conceituais da deficiência que são fundamentais na proposição de "educação para todos", como pressupõe a educação inclusiva, dada a premissa de que o ser humano não tem que ser valorizado pela sua eficiência, mas pela sua própria condição. Afinal, "de perto, ninguém é normal..." como poeticamente cantou Caetano Veloso.
O movimento da inclusão emergiu em um contexto histórico, social e político de lutas, no bojo da efervescência política e cultural na década de 60 com outros movimentos de minorias. Entretanto, as mudanças conceituais com relação à deficiência, que fortaleceram a inclusão, convergindo para novos impulsos e legitimidade jurídica, ocorreram na década de 90, em várias conferências e eventos. Os respectivos eventos foram: a conferência em Jomtien, na Tailândia, organizada pelas Nações Unidas, em prol da Educação para Todos; as Normas Uniformes para as Pessoas com Incapacidade, promulgadas pela Assembléia Geral das Nações Unidas e adotadas em 1993; e, a Declaração de Salamanca, que em 1994 na Espanha, convocou todos os governos a adotar com urgência, como questão legal ou de política, o princípio da educação inclusiva; e outras a partir de Salamanca. (Mantoan,1999).
De fato,
...o movimento em favor de uma escola aberta à diversidade partiu da exclusão das pessoas com deficiência da sociedade, das escolas, da vida laborial, dos serviços comunitários. [...] A inclusão escolar de pessoas com deficiência é compreendida como parte de um contexto mais amplo de reivindicações sociais, que englobam a exclusão de todas as minorias. (Mantoan, 1999, p.9 )
Os princípios inclusivos, cientificamente, encontraram legitimidade na reformulação da conceituação de deficiência da American Association of Mental Retardation (A.A.M.R.-1992), quando a noção de deficiência, tornou-se uma função da interação entre as características individuais do sujeito e o ambiente. Neste sentido, há correlações a serem consideradas que são: necessidades específicas do sujeito, meio-ambiente e a interação destes aspectos (Mantoan, 1997).
A abordagem da deficiência sob este ângulo interativo, explicita o quanto o meio ambiente media a deficiência favorecendo ou desfavorecendo sua definição e seu "status" social.
A contribuição desta abordagem é relativizar os prognósticos e a evolução da patologia, não apenas a partir das características individuais, intrínsecas ao sujeito, ou seja, da descrição clínico-fenomenológica, mas das condições e possibilidades de interação entre as adversidades individuais e as redes inter-relacionais onde o indivíduo se desenvolve. Trata-se de uma interação que participa ativamente da construção de um status social.
Não havendo categorias ou padrões pré-estabelecidos de desempenho escolar, social e afetivo, a exclusão por "performances" peculiares de conduta e/ou desempenho não procede.
Dito de outro modo, a escola aberta à diferença não é feita para um sujeito constituinte, universal, abstrato, idealizado, padronizado e previsível por uma verdade essencial "o aluno normal".
De fato, a diversidade é da ordem do indeterminado, do imprevisível, do local, do particular. Trata-se de uma escola para um aluno - sujeito constituído em uma trama histórica, de múltiplos elementos e condições que se articulam e se modificam conforme as possibilidades.
Enquanto um sistema aberto, a escola inclusiva busca adaptar-se à diversidade do funcionamento humano, na medida em que valoriza as diferenças entre as pessoas enquanto originalidade.
A construção do conhecimento, nessa concepção de escola, não é um movimento isolado, linear e equilibrado.
Conforme Wickens (mimeo), um sistema de ensino aberto,
engendra um desequilíbrio contínuo, considerado como um estado constante. Este estado é caracterizado por uma reorganização permanente do programa, e pela transformação do meio escolar segundo as necessidades ( p.6).
O desenvolvimento individual é resultante da interação do sujeito com o meio, e não de padrões "a priori".
Sendo assim, a escola inclusiva recusa as técnicas de avaliação global, por conceber o desenvolvimento e a aprendizagem como um processo particular e não produtos.
Estes processos ocorrem por meio de saltos qualitativos, mediante os desequilíbrios e as condições que a riqueza da heterogeneidade promove.
Esta proposta é análoga à noção de descontinuidade histórica e acontecimento que Foucault analisa como anunciantes de um novo regime, novos mecanismos de verdade e exercícios de poder.
Por outro lado, a educação inclusiva converge para a fusão do sistema educacional, atualmente cindido em ensino especial e regular.
A dicotomia do ensino retrata uma concepção epistemológica e filosófica que inspira e rege o sistema educacional e suas escolas, o positivismo cartesiano, ainda hegemônico em nossa sociedade. Calcado em universais, este regime de verdade e poder homogeneiza e exclui. Ou seja, categoriza os alunos por meio de um padrão geral e apriorístico de desempenho educacional e conduta social e exclui os que se desviam da norma.
Os excluídos do ensino regular são incluídos pelo desvio e/ou deficiência no ensino especial ou em instituições especializadas.
O sistema de ensino dual como hoje está estruturado, dicotomizado entre regular e especial, não absorve a nova proposição - a inclusão, pois suas bases políticas e científicas (regime de verdade e exercício de poder) apóiam-se em conceituações universais - o sujeito constituinte, isto é, uma identidade geral de natureza a-histórica, descontextualizada e individualizada. Dito de outro modo, um sujeito aprisionado.
Esse regime de verdade vigente desconsidera a condição humana que é essencialmente local, social e histórica, sensível às trocas que participam da construção de um sujeito. Ele é constituído pelo e em um campo tenso de forças, possibilidades e condições de existência.
Conforme Foucault (1998) a inteligibilidade da determinação e dominação histórica é intrínseca dos confrontos, das relações de poder. "A historicidade que nos domina e determina é belicosa" (pag.5).
A noção de doença, deficiência, incapacidade como intrínsecas à constituição do sujeito, justificam a dicotomia do sistema de ensino, assim como a marginalização de todas as minorias que fogem à norma.
Segregados e/ou incluídos nas instituições ditas especializadas, impossibilita-se o acesso aos direitos básicos da cidadania, assim como todo o convívio social.
Atualmente, nosso sistema de ensino, inspirado no modelo francês, de princípio liberal (igualdade de oportunidades), tem defendido e desenvolvido a integração escolar dos alunos com deficiência a partir de um modelo que se compara a uma cascata.
Nesse "sistema de cascata", a integração escolar depende, exclusivamente, das condições do sujeito em adaptar-se às expectativas quanto a um desempenho padrão. Ou seja, é o sujeito que deverá se enquadrar à média do grupo, normalizando-se.
O sistema como um todo é fechado e não se modifica diante da diversidade. É o diferente que deverá tornar-se "igual". A igualdade de oportunidades refere-se à oportunidade de tornar-se igual, homogeneizado. Como se todos os alunos fossem iguais, afirma-se ou legitima-se, o desempenho padrão - a norma.
Dessa forma, é fundamental diferenciar os conceitos de inclusão e integração, na medida em que ambos implicam em consequências bastante distintas.
A inclusão é radical em suas implicações.
A abertura incondicional à diferença dos alunos, a escola concebida como um sistema aberto e a fusão do ensino modificam o sistema educacional, no que diz respeito às condições e as possibilidades de produção de saber e dos exercícios de poder. Pois, transformam-se: as concepções de ensino e aprendizagem, as técnicas de avaliação, as regras no funcionamento institucional e as relações interpessoais.
Como um sistema, a escola transformando-se, transformam-se diversos papéis e funções inerentes à sua organização. Vários exemplos seriam viáveis, entretanto, não serão explorados nesse estudo em função de seu recorte.
Teatro espontâneo
O teatro espontâneo é uma modalidade de teatro interativo, que resgata as bases teatrais - metodológicas e epistemológicas da sociatria. Isto é, uma das ramificações metodológicas da Socionomia que se propunha ao tratamento e intervenção nos sistemas sociais.
A Socionomia refere-se ao conjunto teórico e técnico desenvolvido por Moreno, no início do século passado. O seu objeto de estudo, diferente da sociologia e da psicologia, é a intersecção entre o individual e o coletivo.
O sentido do projeto socionômico não foi construir uma teoria fechada que digitalizasse o psiquismo humano em termos estruturais. Muito pelo contrário, inspirando-se no teatro e utilizando seus instrumentos, Moreno explorou a pluralidade do homem por meios dramáticos. Uma ciência das relações e sistemas sociais.
A saúde mental nessa ótica refere-se à flexibilidade de trânsito entre dois universos complementares e distintos do ser humano, a fantasia e a realidade.
A obra moreniana não é um sistema fechado. Ela é extensa, não linear e constituída por fragmentos de investigações, experimentos e teorizações.
Sendo uma obra aberta, ela permite contribuições e atualizações (Aguiar, 1998).
Todos os conceitos morenianos são relacionais, situacionais e originários de experimentos. Os principais conceitos referem-se ao teatro da espontaneidade (Aguiar, 1998). Isto é, um teatro criado e realizado por Moreno em oposição ao teatro convencional de Viena, no ínicio do século XX. Neste teatro, não havia um script "apriori", pronto para ser apresentado. O enredo era encenado pelos atores, a partir de histórias contadas pela platéia.
Moreno buscou nas artes cênica e dramatúrgica o modelo metodológico e epistemológico de sua obra.
Transportar o modelo do teatro para as relações sociais é reconhecer o potencial analógico do teatro como modelo de compreensão desse importante aspecto da vida humana (Aguiar, 1998, pag.143).
O teatro espontâneo é um método de investigação e intervenção nos sistemas sociais e portanto, de produção de conhecimentos. Por meio da teatralidade e dramaturgia, visa propiciar condições de uma criação coletiva a partir do relato de histórias e da improvisação cênica. Em outra palavras, o texto/enredo e a apresentação são criados coletivamente pelos participantes e a improvisação busca a multiplicação de sentidos.
Trata-se de uma estratégia metodológica de abordagem analógica. Essa forma de intervenção e reflexão não trabalha com o mapeamento do conflito, individualizando-o, mas com o estímulo à espontaneidade-criatividade dos participantes em direção a uma co-criação. É uma escolha feita pelo diretor do evento, próxima à estratégia sistêmica de desfocalização da queixa/problemática.
Aguiar (1998) destacou a esse respeito:
o que se propõe, no teatro espontâneo, é que as pessoas se unam com o objetivo de criarem, em conjunto, algo novo, o espetáculo. Esse é o método.
Fundamenta-se no pressuposto de que a experiência de co-criar tem o condão de despertar a crença nas possibilidades de busca em comum de soluções para problemas comuns. [...], provocaria algumas mudanças fundamentais de atitude e de clima afetivo, favoráveis à multiplicação dos efeitos da vivência desencadeadora. Criar é dar existência [...] co-criar é fazer isso coletivamente.
O conteúdo que se cria nem sempre é relevante, pelo menos na aparência, não havendo a mínima necessidade de que se caracterize como uma grande sacação ou uma perspectiva reconhecidamente original. No entanto, acredita-se que por ser necessariamente analógico seja suficiente revelador. (pag.41)
Alguns dos conceitos fundamentais na obra moreniana serão apresentados aqui por se relacionarem diretamente com o teatro e merecerem ser conceituados socionomicamente, pelo fato de terem sido absorvidos por outros campos do conhecimento sendo alterados em sua concepção original. São esses: o conceito de papel e o de espontaneidade.
Inspirado no teatro, o conceito de papel apresenta uma constituição relacional inerente à intercomplementação que uma relação concreta desempenha. Ou seja, um papel só ganha sentido na complementaridade de um contra-papel. Ele, o papel, não existe descontextualizado da situação específica. Pois é o jogo tenso, dinâmico e local de uma relação que lhe atribui sentido e significado.
Diverge portanto da conceituação da sociologia e psicologia enquanto: um conjunto de regras internalizadas, parte da personalidade, área de atividade, equivalente de papel social. Essas acepções são individualizantes e descontextualizadas.
A espontaneidade originada do latim, sua "sponte": do interior para o exterior, é clássicamente conceitualizada por Moreno (1993) como "a respostas adequada a uma situação nova ou a nova respostas a uma situação antiga" (pag.52).
A respeito da circunscrição do ato espontâneo:
não é um ato qualquer, por mais criativo que seja, por mais que expresse o desejo de quem o pratica, por mais livre de regras que possa parecer. É preciso que ele seja uma resposta que verdadeiramente responda aos estímulos do momento [...]. (Aguiar, 1998, pag.147)
Como podemos notar o sujeito na obra de Moreno é compreendido numa circunscrição local e coerente com os sistemas e relações sociais vigentes.
Ainda citando Aguiar (1998),
é a imperiosidade da construção coletiva, permitindo-nos constatar, por nossa própria observação, que no tear em que se produz o tecido social não existe trama sem ardidura. Não há individualidade fora da coletividade; ambos devem ser vistos como um todo indissociável.(pag. 146/7)
Considerações finais
Os princípios teóricos, metodológicos e epistemológicos nos quais o movimento inclusivo e o teatro espontâneo estão baseados convergem para o resgate e afirmação de uma liberdade, por viabilizar a expressão e o reconhecimento da pluralidade humana, possível em uma existência social e solidária. Semelhante ao que Foucault (1998) denominou de insurreição de saberes desqualificados .
Nesse sentido, parece que ambos - o teatro espontâneo e o movimento inclusivo - consubstanciam "instrumentos de resistência política" ao propor novos regimes de verdades com novos exercícios de poder.
Em outras palavras, o movimento inclusivo propõe novas formas e regras de produção e legitimidade de conhecimentos, a partir da abertura à diferença e do sistema aberto de ensino.
Os enunciados que sugerem a transformação organizacional da escola, estabelecem novos parâmetros que flexibilizam e modificam os exercícios de poder e o reconhecimento de saberes antes desqualificados.
Capra (1996) comenta de outro modo, a relação inerente e circular entre verdade-poder, quando a destaca a emergência de novos paradigmas diante da ampla crise atual. Ele refere-se à mudança do paradigma cartesiano para o ecológico, implicando na transformação do tipo de poder, de hierarquia passaria à rede.
A escola inclusiva pretende transformar sua missão de "instituição de sequestro", em formadora de cidadãos solidários em um mundo pós-moderno (Mantoan, 1997).
Por outro lado, o teatro espontâneo contribui com uma metodologia artística e analógica que realiza um movimento centrífugo e não centrípeto, no que se refere a construção do conhecimento como uma tarefa coletiva, portanto, privilegiando a multiplicidade (Aguiar, 1998). Assim como, impulsiona o deslocamento de identidades e papéis sociais cristalizados e contraproducentes diante da velocidade e mutabilidade da contemporaneidade de nossos tempos, sujeitos e problemas. A criatividade e espontaneidade é uma questão de sobrevivência na atualidade.
Essa é a contribuição da arte, escapando à intenção hegemônica de digitalizar os fenômenos e o homem a fim de controlá-los numa perspectiva prescritiva, uma racionalidade técnico-instrumental.
Referências Bibliográficas
AGUIAR, Moysés. Teatro espontâneo e psicodrama. São Paulo: Ágora, 1998. 221p.
CAPRA, Fritjof. A teia da vida. São Paulo: Cultrix, 1996. 256p.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. (13ª. edição) Organização e Tradução Roberto Machado. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1998. 295p.
_____ et. al. O poder e a norma. In Psicanálise, poder e desejo. Editor Chaim Samuel Katz, Rio de Janeiro, coleção IBRAPSI, 1975. 46 - 54p.
MANTOAN, Maria Teresa Eglér. Ser ou estar, eis a questão: explicando o déficit intelectual. Rio de Janeiro: WVA, 1997. 174p.
______Por uma escola para todos. (mimeo)
MORENO, Jacob Levi. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. (2a.ed. revisada) Editorial Psy, Campinas, 1993. 377p.
WICHENS, David. A teoria de piaget: modelo de sistema aberto de ensino. Tradução de Orly Zucatto Mantovani de Assis e Carmem Scriptori de Souza.
(mimeo)
Psicóloga Norma Silvia Trindade de Lima
Doutoranda em Educação na Universidade Estadual de Campinas, Membro do Laboratório de Estudos e Pesquisa em Ensino e Diversidade -
LEPED- da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas,
Mestre em Educação pela Universidade Estadual de Campinas, Psicodramatista pelo Instituto de Psicodrama e Psicoterapia de Grupo de
Campinas. Endereço: Rua Joaquim Furio Neto, no.06. Campinas/SP. Cep 13060-784
- Telefone: (19) 3223 88 00
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