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Compartilhamos
aqui, experiência e reflexão a partir do evento Psicodrama
Público: Cidadania e Ética, realizado simultaneamente
na cidade de São Paulo em 21/03/2001 e que mobilizou a comunidade
psicodramática, em resposta ao convite da prefeita Marta Suplicy.
Neste evento inédito, participamos dirigindo os trabalhos no
CEMES (Centro Municipal de Ensino Supletivo) - Cambuci.*
Meados de abril de 2001...
O coração batia célere, face às imagens
fortes que a alma vertia ao digitar as palavras: "...devir bandido-traficante
ou ético-cidadão... para todos nós...",
no contexto de que horizonte nos aguarda como habitantes da pólis,
conforme elejamos ou não: cuidar de nossa infância e
juventude, cuidar de quem está investido da responsabilidade
social de educá-los, cuidar da cidade que acontece em nossas
tramas relacionais, no espaço - tempo de um mundo cicundante
e que também educa ou exclui.
Vir- a - ser bandido-traficante ou cidadão que se pauta pela
ética em suas condutas, são perspectivas que marcam
o impacto de uma reflexão que advém da encenação
de uma tragédia do nosso quotidiano, tratada à luz da
abordagem sócio-psicodramática. Fazem parte do presente
texto que ainda estava em preparação, para ser encaminhado
à Comissão Organizadora do evento - um marco na historia
da cidade e na historia do Movimento Psicodramático nacional
e internacional. Articulados por nossa companheira Mariza Greeb, contamos
com o apoio de nossos órgãos institucionais: Federação
Brasileira de Psicodrama (FEBRAP) e Federadas, para juntos somarmos
esforços no "cuidar" da cidade.
Toca o telefone e chega o convite para que integremos o presente livro,
com um capítulo que aborde psicodrama e ética na educação.
Dado o escasso tempo concedido para sua elaboração e
no calor da experiência realizada dizemos que o que podemos
disponibilizar é o nosso relato. No entanto, como tivemos oportunidade
de coordenar um núcleo que agrupou outros diretores sociopsicodramatistas
e suas respectivas equipes, em outros locais e com outros públicos
(trabalhos em praças públicas, trabalhos com funcionários
municipais, trabalhos com moradores de rua, etc.) tínhamos
notícia da riqueza de textos que estavam sendo preparados.
O relato de nosso trabalho, por certo não seria nem o mais
elaborado e nem o mais surpreendente... além de que nessa experiência,
educadores em sentido amplo e psicoterapêutas (Socionomistas
- trabalhando à luz do Projeto Socionômico de Moreno)
assumíamo-nos todos, como investigadores e educadores sociais.
O que justificaria então, que nosso trabalho fosse privilegiado
com a publicação? Concordamos enfim, considerando que
pode possibilitar:
. Acompanhar o desdobramento de um trabalho sociodramático
acontecendo passo a passo sobre Ética e Cidadania - tema privilegiado
em todos os Projetos Educacionais de diferentes Organizações
Educativas que ao considerá-lo em seus objetivos educacionais,
remetem educadores e educandos ao cuidado de si, do outro e do espaço
coletivo em suas relações com a cultura..
. Almejar que a Escola se faça locus e matrix, agregadora da
comunidade onde saberes, projetos, recursos e intenções
são trocados e podem ser articulados para que cumpra sua função
político-social de favorecer a apropriação criativa
da herança sócio-cultural (conserva cultural) na qual
nos construímos em nossa humanidade e como herdeiros que também
deixarão um legado, somos chamados a transformar e a nos transformar
.
. Apropriarmo-nos do contexto ético em que se dá a ação
do educador psicodramatista, construída na relação
concreta de um trabalho de co-criação, tendo como suporte
reflexivo os valores que embasam a visão de homem e de mundo
Morenianos: o resgate da espontaneidade-sensibilidade-criatividade
de cada um e de todos nós "socii" (companheiros),
tramados em nossas redes relacionais, nos vínculos, grupos
e organizações em que tomamos parte, jogando papéis,
com a responsabilidade de sermos abertura compromissada ao mundo.
No texto que se segue, apresentamos: I. Relato - o protocolo extraído
das anotações realizadas no local e complementadas com
os subsídios fornecidos pelo vídeo. II. Processamento
- a primeira elaboração realizada, evidenciando o(s)
sentido(s) do trabalho, alguns movimentos teórico-metodológicos
e éticos que norteiam a ação do coordenador de
grupos sócio-psicodramatista. III. Reflexão: Ética
e Cidadania na Educação - uma aproximação
ao tema.
I. RELATO
AQUECIMENTO DA EQUIPE - (Desde a chegada)
A
equipe chega com antecedência e constata que a Escola está
vestida de festa para o evento: muros recém pintados (os pintores
ainda estão no local), pedriscos no chão do estacionamento,
onde vai acontecer o Ato, mato retirado, árvores podadas...
Há um vai e vem por conta da instalação do som.
Percebe-se o esforço e o envolvimento da comunidade escolar
para atender à solicitação da direção
do psicodrama que visitara a escola na semana anterior , solicitando
microfones e aparelho de som.
Somos recebidos pela Coordenadora do CEMES que esbanja simpatia, mas
aflita, pede para atrasarmos um pouco o início do trabalho,
pois há um problema com a caixa de som obtida. Informa-nos
que outra está sendo providenciada.
Conversamos com os dois membros da Ecola que vão operar a filmagem
, passando as instruções e mãos à obra,
vamos junto com alunos e professores, trazendo cadeiras do interior
do prédio, para acomodar a população que começa
a chegar . Nâo há faixa na rua indicando o trabalho,
mas a Coordenadora nos conta que todos da Escola ajudaram na divulgação,
com folhetos, cartazes, mensagem no jornal da DREM (Delegacia Regional
do Ensino Municipal), agora NAE (Núcleo de Ação
educativa).
O sol está forte e decidimos juntos que o melhor lugar para
as cadeiras é ao redor da frondosa árvore, logo na entrada,
próximo ao portão. Estas vão sendo arrumadas
em cinco meios círculos sucessivos. Platéia e Palco
se desenham então.
À direita da platéia, a equipe instala o cavalete do
flip-shart e a direção escreve em letras grandes: Psicodrama
Público. E abaixo: Cidadania e Ética - O que você
pode fazer para ter uma Felizcidade?
As pessoas já sentadas, olham atentas.
Ainda antes de iniciar o trabalho, uma senhora na platéia ri
bastante e a Direção rindo também, pede para
que ela compartilhe o seu riso com as demais pessoas. Ela responde
que a colega ao lado está ajudando a falar aquele "palavrão":
Psicodrama. A Direção entra na brincadeira de conseguir
pronunciar corretamente a palavra e explica que o sentido do "palavrão"
é muito mais próximo das pessoas do que podemos imaginar.
Já vamos entender. Há um clima de descontração
no ar.
São 11:30 hs. Com a questão do som resolvida, a Direção
chama os membros da equipe para iniciar o trabalho. Dos quatro cantos
eles respondem (estavam recebendo e ajudando as pessoas a se acomodarem;
são aproximadamente 80). Postados em frente à platéia,
vão se apresentando. Marília (diretora), Alaíde,
Alexandre, Marcinha (fotógrafa, da equipe explicita que não
é da imprensa), Márcia (vai anotar) e Márcio.
Falam seus nomes, funções ali e da emoção
de estar somando forças para construirmos uma Felizcidade.
A Direção agradece a recepção e as providências
da Coordenadora da Escola CEMES e pede para que esta também
se apresente. Cida, mostra-se feliz pelo fato da Escola ter sido escolhida
para a realização deste evento. Reforça a idéia
do resgate da auto-estima do cidadão e a importância
de tornar o CEMES mais conhecido na comunidade, como um local para
o adulto que possibilita a retomada dos estudos, leva em conta os
horários de trabalho de seus alunos, a maioria já profissional,
funcionando como ensino à distância e de orientação.
Aplaudimos.
A Direção chama a atenção para a frase
que norteia o trabalho proposto: "O que você pode fazer
para ter uma Felizcidade?" Começa com cada um de nós!
Considera que estamos acostumados a esperar tudo do poder público,
mas ele também tem limitações, por isso estamos
neste espaço, a convite da Prefeita Marta Suplicy. Como nós,
outros 700 profissionais psicodramatistas, estão espalhados
por toda a cidade de São Paulo, hoje, no mesmo horário.
Aproximamo-nos da população para juntos, cada um de
nós poder entrar em contato consigo mesmo e com o outro, descobrindo
nossa força. Refletir e juntar nossa potência, nas relações
que estabelecemos a serviço de uma vida melhor. Temos aqui,
professores, alunos (16 a 40 anos), representantes do trabalho da
3ª idade, donas de casa..., vamos então construir uma
São Paulo melhor! Já é uma ponte para falarmos
do Psicodrama.
A Direção pede então palavras da platéia
que lembrem a primeira parte da palavra Psicodrama: Psico - As palavras
da platéia: psicologia, mente, psicotécnico. A Direção
solicita que lembrem uma palavra mais antiga que usamos para "mente".
Aparece: "alma". A Direção explica que "psiquê"
significa alma (sopro de vida) e que é nela que encontramos
o significado para as coisas, que as nossas experiências ganham
sentido. Ressaltou que trabalharemos com as experiências da
nossa mente, entendida como alma, como nosso mundo interno.
E com Drama? O que associamos? A platéia participativa, ensaia:
tragédia, pesadelo, teatro, dramatizar. A Direção
comenta rindo que na nossa vida quotidiana, usamos a palavra drama
nas situações: " Ah! Não faça drama!
Isto não é um drama!" No entanto a palavra drama,
na sua raiz, mais antiga quer dizer ação, acontecimento
e finaliza as considerações dizendo que neste trabalho
colocaremos o nosso mundo interno em ação. Lembra o
criador do Psicodrama, Jacob Levy Moreno, que "já está
do outro lado" e nos deixou uma herança bonita, uma forma
de trabalhar em que nos vemos sempre relacionados. Propunha a importância
de, através da ação dramática, podermos
refletir sobre nossas experiências internas significativas.
É uma proposta de trabalho que está pautada na visão
de homem sempre relacionado uns com os outros, construindo-se juntos.
Menciona que embora o enfoque da imprensa na divulgação
do evento, tenha ocorrido numa perspectiva de trabalho psicoterapêutico,
esta abordagem é também, uma forma de trabalho sócio-educacional
que cultiva a transformação em nosso aprender a viver.
Por que "Público"? É porque estamos juntos
num espaço aberto, público, pensando sobre a sociedade
em que queremos viver, sobre sermos melhores cidadãos e como
sermos mais éticos uns com os outros. Se pensamos a sociedade
como uma rede de companheiros (a palavra socius significa companheiro)
, mudamos o modo como nos relacionamos. A platéia ouve com
atenção. A Direção continua: Cidadania
e ética é o eixo que queremos alcançar, aprimorar
nossas atitudes uns com os outros, viver uma vida com mais valor!
O para quê estamos aqui, então está claro? Há
assentimentos com a cabeça e nenhuma pergunta diante da oportunidade
de maior esclarecimento, aberta pela Direção.
AQUECIMENTO
DO GRUPO
A
Direção diz que falando, está se aquecendo, e
considera que é importante que o grupo se aqueça também,
não só com a mente, com a cabeça, mas também
com o corpo, afinal a alma nos atravessa por inteiro. Convida a platéia
para brincar de dançar juntos, porque dançar, cantar,
representar, são situações que nos ajudam a fazermos
aliança com a vida, resgatando nosso bem querer próprio
e da nossa cidade. Pede para ligar o som e a música do Milton
Nascimento: "Louva-a-Deus", começa a ser ouvida.
Propõem a brincadeira de "Siga o Mestre" - em que
alguém faz um movimento e é seguido por todos. O grupo
brinca ao som dos tambores da música forte, fazendo gestos
diferentes, batendo palmas, mexendo o corpo. Após a dança,
a Direção pede para sentirem o corpo e dizerem uma palavra.
Palavras da platéia: calor, vida, revitalização.
Há risos, as pessoas se abanam com as mãos, o clima
é de surpresa e alegria.
A Direção anuncia que continuaríamos a nos aquecer,
cantando, para aproximar o nosso coração ao tema proposto.
O nome da música é "Coração Civil".
A letra da música é distribuída entre os participantes
pela equipe, com a ajuda do próprio grupo. A Direção
explica que primeiro estaríamos ouvindo para depois cantarmos.
A folha também traz um trecho de uma poesia do fundador do
Psicodrama, para ser lida e meditada em casa. Segue a folha distribuída.
Psicodrama Público: Cidadania e Ética - 21/03/2001
CORAÇÃO
CIVIL
De: Milton Nascimento/ Fernando Brandt
Quero
a utopia, quero tudo e mais
Quero a felicidade nos olhos de um pai
Quero a alegria muita gente feliz
Quero que a justiça reine em meu país
Quero a liberdade, quero o vinho e o pão
Quero ser amizade, quero amor, prazer
Quero nossa cidade sempre ensolarada
Os meninos e o povo no poder, eu quero ver
São José da Costa Rica, coração civil
Me inspire no meu sonho de amor Brasil
Se o poeta é o que sonha o que vai ser real
Bom sonhar coisas boas que o homem faz
E esperar pelos frutos no quintal
Sem polícia, nem milícia, nem feitiço, cadê
o poder?
Viva a preguiça viva a malícia que só a gente
é que sabe ter
Assim dizendo a minha utopia eu vou levando a vida
Eu viver bem melhor
Doido prá ver meu sonho teimoso um dia se realizar
ENCONTRO
De: Jacob Levy Moreno (1889 - 1974)
"Um
encontro entre dois: olho no olho, cara a cara.
E quando estiveres próximo, tomarei teus olhos
e os colocarei no lugar dos meus,
e tu tomarás meus olhos
e os colocarás no lugar dos teus, então te olharei com
teus olhos
e tu me olharás com os meus.
Assim nosso silêncio se serve até
das coisas mais comuns e nosso encontro é meta livre:
O lugar indeterminado, em um momento indefinido,
A palavra ilimitada para o homem não cerceado..."
Um
grande abraço da equipe: Alaíde, Alexandre, Marcia,
Marcinha e Marcio
Diretora: Marília Marino
Todos participam cantando
A partir do verso: "... Se o poeta é o que sonha o que
vai ser real", a Direção diz que todos nós
podemos brincar de ser poetas e que todos precisamos sonhar para as
coisas poderem acontecer. Pede para que cada um entre em contato com
o que a letra da música foi provocando em suas mentes e corações...
O silêncio é total... Aí vem a questão:
O que cada um sonha para esta cidade? O que eu gostaria que acontecesse?
Dá um minuto para que cada um entre em contato consigo mesmo.
Pede para que cada um anuncie o seu sonho em uma frase. As frases
vão surgindo, anunciadas em voz forte pelos participantes e
são anotadas em letras grandes no flip-shart, cada uma em uma
folha:
Que a cidade não seja tão violenta. (Vida)
Que haja solidariedade entre as pessoas. (Solidariedade)
Que as pessoas se tornem mais humanas. (Humanidade)
Que haja amor e paz. (Amor e Paz)
Cuidar das crianças que estão na rua. (Cuidado com o
futuro)
Dignidade para cada cidadão. (Dignidade)
Que as pessoas tenham mais crença em Deus.(Divino)
Mais segurança nas escolas. (Segurança)
Cidade limpa. (Limpeza e Higiene)
Menos buraco. (Zelo, Conservação)
Mais oferta de emprego. (Trabalho)
Educação como base. (Educação)
Menos preconceito na sociedade. (Igualdade)
Cuidar da saúde da população. (Vida)
Mais áreas de lazer. (Lazer)
Compromissos de todos e de cada um.(Compromisso)
Que o político não se afaste da população
e tenha coerência entre o pensar e o agir. (Coerência
entre falar e agir)
Cuidado com a juventude e com o perigo das drogas. (Vida)
A
Direção passa a levantar os valores humanos intrínsecos
nos sonhos, necessidades e preocupações apontados pelo
grupo, em cada frase. As folhas são viradas e dois egos auxiliares,
vão sublinhando ou escrevendo ao lado , os valores levantados.
Situa que falar sobre ética é refletir sobre os valores
mais profundos que orientam o viver. (Veja-se acima). O grupo acompanha
atentamente e vai ajudando a reconhecer os valores.
A Direção pede então que cada membro da platéia
escolha a frase e o valor correspondente que mais toca no momento.
Solicita que quem já escolheu, venha para o palco e segure
a folha à sua frente. Quem escolhe a mesma frase, vai se colocando
atrás. As folhas são destacadas do flip-shart e distribuídas
conforme as pessoas vão se apresentando. Formam-se filas.
Há muitas frases e algumas, são pouco escolhidas, assim,
as filas vão se fundindo, tendo como referência focos
comuns. Por exemplo: igualdade com humanidade, saúde com vida,
etc. A Direção e os egos auxiliares vão ajudando
na fusão, pedindo para que a folha com a frase não escolhida,
seja dobrada. A Direção afirma que as idéias
não morrerão e serão trabalhadas junto com o
foco a que se fundiu. A frase "O compromisso de todos e de cada
um" fica como referência para todo o trabalho, permanecendo
no filp-shart até o final do encontro. As frases que permanecem
são:
Mais áreas de lazer. (Lazer) - 8 pessoas
Cuidar das crianças que estão na rua. (Cuidado com o
futuro) - 7 pessoas
Dignidade para cada cidadão. (Dignidade) - 14pessoas
Cuidado com a juventude e com o perigo das drogas. (Vida) - 15 pessoas
Crença em Deus. (Divino) - 10 pessoas
Menos preconceito na sociedade. (Igualdade ) - 7 pessoas
Ficam 16 pessoas na platéia. São 77 pessoas no total
nesse momento.
A seguir a Direção solicita que as pessoas de cada fila
formem grupos. Escolham um lugar para sentar e compartilhar cenas
significativas da vida de cada um em relação aos temas
escolhidos. Pede para cada um contar: a história é ...
minha preocupação é com ... Os grupos se formam
rapidamente, ocupando diferentes espaços do pátio. As
folhas de flip-shart são presas nas árvores, colocadas
na extensão do muro... sob iniciativa de cada grupo. Algum
tempo depois da consigna, o grupo do "Cuidar das crianças
que estão na rua" (Cuidado com o futuro) junta-se com
o "Cuidado com a juventude e com o perigo das drogas" (Vida).
É dado um tempo de aproximadamente 30 minutos para a troca
das histórias em grupo. A equipe circula entre eles, orientando
para que todos tenham a palavra e pelos fragmentos ouvidos das histórias,
vamos detectando a preocupação com a segurança,
com o uso das drogas. Ao mesmo tempo percebe-se que em cada grupo
emerge uma liderança, centrando na tarefa, administrando o
tempo, expressando o cuidado para que todos falem...
Após a troca nos grupos, a Direção pede para
que voltemos à formação do grupão. Há
prontidão em atender e voltamos aos semicírculos iniciais,
com uma nova disposição espacial das pessoas. Diz que
espera que as pessoas tenham se reconhecido uns nas histórias
dos outros e pergunta se alguém gostaria de contar sua história
para o grupão, para dramatizarmos, vindo até o palco.
O pequeno grupo pode incentivar o companheiro. Pede três pessoas.
Há "burburinhos" e rapidamente estas se apresentam
(aqui seus nomes são fictícios). As três Histórias:
- Maria Rita (aproximadamente 30 anos - professora) conta uma história
sobre o tema do lazer. Crianças que não têm onde
brincar e não têm dinheiro da condução
para ir a um parque. Ficam expostas aos perigos da rua, entre eles
o trânsito. Seu tom é de preocupação.
- Consuelo (aproximadamente 50 anos - dona de casa) conta que há
uns dias atrás, ouviu tiros, à noite e de manhã,
quando abriram a porta, tinha um rapaz morto na calçada. Sabe
que o motivo é a droga. Não é a primeira vez.
No espaço de um mês, outro já tinha acontecido.
Imprime grande aflição em seu relato.
- Edna (estudante) foi discriminada, quando foi procurar emprego,
por causa da idade (16 anos) e da falta de experiência. Fala
emocionada sobre como pode se encaminhar na vida se o mercado de trabalho
não lhe dá uma chance? Há revolta e amargura
em suas palavras e gestos.
A platéia segue cada história com muita atenção.
A Direção coloca então, que vamos escolher uma
das histórias para dramatizar, investigando melhor o que acontece
e procurando o que podemos fazer diante da situação.
Faz-se uma votação, através de palmas. Fica a
impressão de empate. A Direção pede para que
as pessoas, então votem através do levantar a mão.
Ganha a cena do rapaz assassinado por motivo de drogas. Temos a história
protagônica, testemunhada por Consuelo. São 13:00 hs.
AÇÃO
DRAMÁTICA
A
Direção se aproxima de Consuelo, anda com ela pelo palco,
pede para que ela conte novamente a história e vai investigando,
personagens e espaços-cenários em que esta se desdobra.
Para montar a cena é preciso escolher as pessoas que farão
as personagens. Consuelo chama os egos-auxiliares Alexandre e Márcio
para encenarem os adolescentes envolvidos. Escolhe outras pessoas
da platéia para fazerem os papéis do marido e das duas
filhas que estavam dentro de casa com ela. Delimita a rua de sua casa,
o terreno baldio onde os adolescentes compram e consomem drogas e
sua casa. Retoma que o rapaz assassinado de madrugada é conhecido,
já o tinha visto antes, com outros adolescentes que estudam
numa escola próxima. Mostra-se aflita, pois são filhos
de pessoas amigas. Ouviu os tiros de dentro de sua casa. Ficou com
medo e não abriu a porta. Às seis horas da manhã,
abriu a porta e se defrontou com o rapaz morto.
A cena se desenrola com três rapazes, que estariam comprando
drogas no terreno baldio. Um deles compra a droga fiado e, ao ser
cobrado da quantia devida, por não poder pagar é perseguido,
sai correndo pela rua e é assassinado. Havia, além do
traficante que assassinou o rapaz (Edna), o chefe do tráfico
de drogas, mandante do crime, e o vigia que nada via. Quando o rapaz
foi assassinado e caiu no chão, a Direção pergunta
à platéia os sentimentos que surgiam através
da cena. Os sentimentos: medo, angústia, dor, tristeza. Ao
amanhecer o dia, a família encontra o rapaz morto.
A Direção paralisa a cena, retrocede no tempo e investiga
dramáticamente o que aconteceu com a família desde que
os tiros são ouvidos. A parece a aflição das
filhas (13 e 22 anos) que acordam e procuram os pais. O temor de todos
em abrir a janela. A insônia que se seguiu...o susto ao abrir
a porta de manhã e ver o rapaz morto na calçada e ainda,
que se tratava de pessoa conhecida. Consuelo para à frente
do cadáver.
A Direção diz que agora, somos todos testemunhas como
Consuelo. Vamos sair de "casa" - de nós mesmos -
e tentar compreender a situação. No mundo imaginário,
nós podemos ouvir os mortos. Volta o foco para o espaço
em que o rapaz está caído e cuida para que Consuelo
retorne à próximidade da família. Pede então,
para este dizer o que tinha acontecido. Alexandre responde que não
tinha dinheiro para pagar a droga, gostaria de ter caído fora
faz tempo, mas não deu e o pegaram.
A Direção pergunta à platéia se alguém
gostaria de entrar no papel do rapaz morto para saber como é
este lugar.
Vem um adolescente que se deita no mesmo espaço e a Direção
o entrevista. "D: Quem é você? Resposta: Leonardo.
D: O que aconteceu com você? R: Eu tava curtindo um barato lá
e a mina atirou em mim. D: O que aconteceu que te levou a este fim
tão doído? R: A tristeza, o dia a dia, o desemprego.
D: Mas, você estava freqüentando a escola, serve para alguma
coisa a escola que você está indo? R: A escola é
o lugar que eu mais gosto, mas quando eu saio da escola, não
tem aonde ir". A Direção pergunta, se ele pudesse,
se ele gostaria de conversar com alguém que poderia tê-lo
ajudado naquela situação. Leonardo responde que gostaria
de conversar com seus pais.
A Direção coloca que vamos nos preparar para Leandro
viver esta experiência e chama duas pessoas da platéia,
que gostariam de ser os pais do garoto. A platéia intervém,
dizendo que geralmente só há o pai, mas quando Leonardo
é consultado, quer a presença de ambos. Apresentam-se
o pai e a mãe (pessoas do polo da 3ª idade, da comunidade).
A Direção ajuda Leonardo a se levantar e antes deste
se dirigir aos pais, pontua que agora temos duas famílias em
cena com situações bem diferentes. O diálogo
que se segue é cheio de emoção: "Leonardo:
Mãe, por que a senhora não conversou comigo mãe?.
Mãe: Muitas vezes eu quis conversar com você e você
fugiu. Leonardo: Mas, a senhora está sempre tão nervosa!
Mãe: Ficava nervosa porque você fazia coisas que eu não
gostava. Bom filho você é, mas você não
ouviu todos os conselhos que eu dei à você. Leonardo:
É mãe eu errei. Eu devia ter escutado mais a senhora".
Leonardo fala ao pai: "O senhor sempre foi um bom pai. Me deu
de tudo. Fui eu que errei. Mas, a vida é assim mesmo, agora
não posso voltar atrás." A Direção
lembra a Leonardo que ele tem irmãos e pede para que ele converse
com o pai sobre o que é importante que eles façam para
os irmãos não terminarem como ele. "Leonardo: Pai,
cuide bem dos meus irmãos, não deixe eles se envolverem
com as drogas, procurem conhecer os seus amigos, incentivem sempre
para freqüentar a escola"... O pai responde:" Eu não
fui um pai muito zeloso porque permiti que você, meu filho,
praticasse esta coisa horrível que são as drogas. Eu,
trabalhando, não me ocupei muito desse problema, mas tenho
certeza que, daqui para frente, vou orientar melhor seus irmãos
e eles não vão cair neste caminho."
A Direção pede para que o ego-auxiliar Alexandre (que
desempenhou o papel de morto) faça um duplo do rapaz. Alexandre
coloca-se atrás de Leonardo e como voz que sintoniza a emoção
presente, diz: " Eu era terrível mesmo, só pensava
em curtir e em balada. Ah... mas se eu pudesse voltar no tempo, voltaria!
Sinto muita falta de vocês... eu amo muito vocês".
Leonardo balança a cabeça, concordando...
A Direção pergunta a Leonardo se ele quer dizer alguma
coisa para a escola. Este fala que gostaria de conversar com sua professora.
A Direção chama alguém da platéia que
gostaria de se apresentar como professora. Maria Rita se oferece para
o papel. Leonardo diz: "Professora a senhora foi muito importante
para o meu aprendizado e eu gostaria de agradecer à senhora".
Olham-se ternamente.
A Direção investiga com a professora, como era ser professor
de um aluno naquelas condições. Maria Rita chora dizendo
que aquele aluno já foi, mas que ela tem outros alunos que
estão no mesmo caminho e é muito difícil ouvir
suas histórias: "Professora, lá em casa ninguém
trabalha". "Não quero um empreguinho de salário
mínimo... para que eu vou me matar de trabalhar?" Várias
pessoas choram na platéia.
A Direção diz que há outro aluno vivo, escapou
daquela situação e indaga o que ela diria a ele. Chama
Márcio (ego-auxiliar) que fez o papel do amigo na cena do terreno
baldio. Maria Rita diz ao aluno que tenta ajudar, comunicando seu
afeto, passando algo de sua espiritualidade. Que ele se valorize,
saia dessa vida. O amigo responde à professora:" Meus
pais não estão nem aí comigo...não sei
como sair dessa , acabo me envolvendo com colegas que..."
Edna que fez o papel de traficante e assassina, pede para falar também.
A Direção lhe dá voz que sai emocionada e condoída,
dirigida ao amigo: "Ele tava me devendo e eu fiquei nervosa.
Eu também preciso ganhar dinheiro porque eu também uso
droga. O meu chefe me disse, que se eu chegar lá sem dinheiro,
ele me mata também. É um círculo vicioso, se
não mata, morre. Eu sei que isso não se faz, mas você
sabe que no mundo das drogas a gente não sabe o que tá
fazendo". A Direção pergunta à Edna o que
ela diria para a sua escola. Ela se dirige à professora. Pede
para não ser discriminada e que ela lhe dê apoio para
sair das drogas, com palavras de coragem, que se disponha a conversar
também com os pais.... muitos bebem e roubam, a Escola precisa
orientar. Falar coisas boas, porque ela precisa disso.
A Direção pergunta se ela pediria ajuda para outras
pessoas, além da família e da escola. Responde que pediria
ajuda para Deus e para os amigos que já tiveram esta experiência.
A Direção aponta para o amigo ali presente, lembrando
que ele também quer mudar. A adolescente se aproxima do ego
auxiliar e lhe dá um abraço.
Como foi mencionada a dimensão do "Divino", a Direção
pergunta se alguém gostaria de viver o papel de representante
de igreja naquela cena. Entra uma senhora. A Direção
investiga o que esta está fazendo para ajudar a juventude.
Esta dirige-se à platéia respondendo que daria conselhos,
falaria de sua fé e da importância de ter Deus no coração.
Outra pessoa pede para entrar no lugar da Igreja e diz que uma forma
de ajudar é não só propor rezas, mas conversar
com os jovens.
Outra pessoa pede para entrar em cena para reforçar o lugar
da Escola. Dirige-se à "Igreja", dizendo que esta
não tem propostas para o jovem. Os professores sabem seus conteúdos
mas não como lidar com a questão das drogas... Precisam
de ajuda!
Entra em cena uma senhora como Associação de Moradores.
Pede à Escola para comparecer às reuniões da
Associação para eles conhecerem os trabalhos realizados
com as crianças junto com a Associação e com
as igrejas São Judas e Reino de Deus.
Edna dá um passo à frente e pergunta que tipo de trabalho
a Associação de Moradores faz com a juventude. A representante
responde que oferecem jogos de futebol aos domingos, catequese, ballet
aos sábados à tarde. A adolescente diz que queria alguém
para conversar...
Consuelo que contara a história disparadora e continuava no
espaço delimitado como sua casa, pede para responder à
adolescente. Fala da importância dela acreditar nela mesma...
Deus não está fora, mas dentro de si... O silêncio
é denso. Os olhares se encontram... Mais que nas palavras,
no tom de voz, no gesto de aproximação, dessa vez Consuelo
"sai de casa" de outro modo...
A Direção lembra dos órgãos de saúde,
ainda não representados no espaço dramático como
força da comunidade, onde profissionais como psicólogos,
assistentes sociais e educadoras sociais também podem desenvolver
projetos com a comunidade, conversar com o jovem...
A ego auxiliar Alaíde, pede para entrar em cena e dialogar
com a adolescente. Apresenta-se como mãe de uma amiga e diz
que quer ouvi-la. A adolescente dispara a dizer tudo o que parecia
estar sufocado: "Eu ando muito triste. Todo mundo me critica,
na escola, no serviço. A minha mãe diz que eu só
penso em sair, que eu não cuido da casa, que eu não
cuido da minha roupa. Mas o que eu mais preciso é de amor e
atenção. Que os pais conversem com os jovens!"
Há muita emoção no ar!
Entra em cena um senhor, marcando o lugar dos órgãos
da saúde. Fala que gostaria de estar mais aparelhado para atender
as necessidades... Quer dar apoio.
A Direção pergunta se mais alguém quer entrar
no diálogo...
Apresenta-se a jovem , "filha" da família de Consuelo.
Dirige-se aos professores que marcam o lugar da Escola e pede mais
diálogo, que o aluno seja visto como um todo...
A Direção pontua as forças da Comunidade que
estão presentes: Família, Escola, Igreja, Associação
de Moradores, Órgão da Saúde e diz que vai colocar
em cena a Prefeita.
Solicita à ego-auxiliar Marcia que entra no papel da Prefeita.
Usa um xale de franjas como adereço.
A Direção diz que a Prefeita da cidade estava chegando
naquele espaço e pergunta se alguém gostaria de dizer
algo a ela ou para as demais pessoas presentes.
Alexandre (ego-auxiliar) que vivera o papel do jovem morto, pede à
Prefeita para ela cuidar bem dos professores que cuidam dos filhos,
para ela dar a infra-estrutura possível para eles trabalharem
e se sentirem mais humanos e valorizados. A área da saúde
solicita à Marta o oferecimento de mais psicólogas e
assistentes sociais nas instituições para cuidar da
parte educativa e psicológica da população. Márcio
(ego auxiliar) no papel do jovem que quer se livrar das drogas, diz
ao coletivo, que ouçam mais os jovens porque estes têm
muito a dizer. Para que não falem por nós, mas que saibam
escutar para saber o que temos para falar e o que a gente quer. Edna
(adolescente traficante) que acabara de se expressar para a mãe
da amiga, dirige-se ao professor para dizer que o professor é
como se fosse um segundo pai "dá educação
ótima para a gente, fica no coração". A
fala é emocionada. A adolescente está na frente da professora,
muito próxima. A direção pede que realizem o
encontro que está no ar. O encontro da escola com a adolescente
acontece com um abraço.
A professora marcando o lugar da Escola, diz à Prefeita que
a questão da orientação psicológica é
muito séria. Pede mais psicólogos, assistentes sociais
e a presença de conselheiros tutelares na Escola... A Direção
pontua a preocupação com a saúde social. Uma
pessoa vem da platéia e também quer falar desse lugar.
Diz que vai mandar um recado para o secretário da educação
fazer parceria com o SESC, balneários, para articular campeonatos
entre as Escolas e valorizar o lazer.
A representante da Associação de Moradores, que ficou
em cena marcando esse lugar, dirige-se à Prefeita falando da
necessidade de mais investimentos para o lazer das crianças,
nos centros comunitários. O pai do rapaz assassinado pede para
que a prefeita cuide da Escola, da Saúde e da Segurança,
pois se estas questões fossem solucionadas resolveria boa parte
dos problemas da população. Uma pessoa da platéia
entra como cidadã e vem pedir à Prefeita que não
decepcione a cidade pois o exemplo de ética e humanidade vem
de cima e que exerça o seu mandato através destes princípios.
(A cidadã é muito aplaudida).
A Direção dá voz à Prefeita (ego-auxiliar
Márcia). Em tom de voz emocionado, diz: "Estou aqui com
vocês, ouvindo as solicitações. Não posso
deixar de dizer que sinto um grande peso sobre os ombros pois muito
se tem a fazer e há ainda os problemas deixados pelas administrações
passadas. Estou aqui, neste local, justamente para discutir os problemas
da população. Também sou mãe e entendo
as preocupações de vocês. Tenho um profundo respeito
pelas as pessoas que estão aqui participando da discussão.
Vou precisar da ajuda de todos, porque sozinha não conseguirei
fazer nada. Percebo o verdadeiro interesse das instituições
presentes: a família, a escola, o posto de saúde, a
associação de moradores, igreja. Apesar da situação
deixada pelas últimas gestões, tive coragem de me candidatar
mas, conto com a ajuda de todos para a realização do
trabalho". (Aplausos)
Edna pede a palavra, dirige-se à Prefeita pedindo mais vagas
para as crianças nas escolas e creches e dirigindo-se à
Escola e à Família, pede maior comunicação
entre elas. É a voz final. O clima é de grande cumplicidade
entre todos.
COMPARTILHAR
- DESPEDIDA
São
14:30 hs. A Direção coloca que vamos terminar o trabalho,
dado o adiantado da hora, formando duas rodas: uma menor (dentro)
com as pessoas que fizeram parte da ação dramática
e outra maior com a platéia. É colocada a música
do Gonzaguinha: "O que é o que é". As rodas
se movem em direções contrárias e todos cantam:
"Eu fico com a pureza da resposta das crianças: É
a vida, é bonita e é bonita!... Viver e não ter
a vergonha de ser feliz, cantar, e cantar e cantar , a alegria de
ser um eterno aprendiz...."
Para encerrar, a Direção agradece a presença
de todos e pede uma palavra de como estamos saindo. Palavras: meta,
objetivo, orar, amor, confraternização, conscientização,
união, paz, solidariedade, respeito, flexibilidade, fraternidade,
conhecimento, vida, que o amor seja para sempre, louva Deus, humildade,
valor, sonhos, caridade, saúde, vitória, harmonia, dignidade,
união e força, esperança... Várias palavras
são repetidas, mas se destaca Vida. Os corpos estão
vitalizados, os rostos sorridentes... Uma pessoa pede para rezar o
Pai - Nosso. A Direção olha ao redor e constata reação
de estranhamento em várias pessoas. Considera que como não
estávamos na Igreja, poderíamos agradecer aquele momento,
onde palavras do coração estavam sendo ditas, e quando
cada um estivesse em sua Igreja (ficou patente a presença de
diferentes orientações religiosas na dramatização)
poderia lembrar do que vivemos e orar cada um de sua maneira. Propõe
que a palavra "Vida" que apareceu vária vezes, poderia
ser dita por todo o grupo. Em voz forte, todo o grupo diz junto: VIDA!
VIDA! VIDA!
Terminado o trabalho, o grupo demora a se dispersar... Muitos se aproximam
da equipe para agradecer e se despedir. Ecoam ainda suas falas sobre
o trabalho:
. "É, temos que ouvir o jovem..."
. " Nossa, como o trabalho mexeu com o emocional!"
. "Pôxa, minha história estava lá..."
Trocamos abraços, e nos arrancam a promessa de voltar.
Ficam pedidos de um trabalho com a 3ª Idade, com a EMEI próxima,
com a Associação de Moradores e aqui na CEMES.
II. PROCESSAMENTO:
Investigando os bastidores... Explicitando as entrelinhas...
"...A
tragédia é a reflexão que a pólis realiza
para compreeender a gênese e o sentido da justiça que
ela própria procura instaurar. Pode o teatro psicodramático
e sociodramático alcançar essa dimensão reflexiva?
Pode resgatar para cada um e para todos a origem de nossa loucura,
nosso desejo de justiça e nossa aspiração à
liberdade?"
Marilena Chauí
DO(S)
SENTIDO(S) DO TRABALHO
Abrimos
nosso processamento, retomando a interrogação da pensadora,
presente no Posfácio à obra de Alfredo Naffah Neto,
Psicodrama: Descolonizando o Imaginário(1979:265), numa tentativa
de nos aproximarmos do âmbito para onde ela aponta: o alcance
e o(s) sentido(s) do trabalho realizado, o teatro socio-psicodramático
acontecendo simultaneamente na cidade.
São desafiadoras as palavras da filósofa. Como traçar
paralelo entre o significado da tragédia para o grego do séc.
V (A.C.) e o que significou e ainda pode significar a nossa ação
coletiva realizada no dia 21/03/2001, para o paulistano do séc.
XXI (D.C.) que encontramos nas praças, escolas, bibliotecas,
regionais e outros espaços públicos?
Distância no tempo... distância no espaço... cenários
sócio-político-econômico-histórico, tão
diferentes! Estamos diante do caos da megalópole, diante de
um homem fragmentado, estressado, marcado pelas contingências
da sociedade urbana complexa... Considerando a paidéia (a formação
do homem grego, da qual a sociedade como um todo se encarrega), não
podemos deixar de sorrir, reduzidos à nossa insignificância,
diante das contradições e estilhaçamentos a que
nós homens da contemporaneidade estamos submetidos, ao tentarmos
dar conta da provocação da Filósofa. E no entanto,
a utopia Moreniana, nos leva a encará-la. Como profissionais
das mais diferentes procedências, atuando nos mais diferentes
contextos (escola, clínica, empresa, comunidade), de alguma
forma vamos respondendo à ela, fazendo micro-política
ao nos voltarmos para a processualidade das relações
em nosso quotidiano.
Caminhamos na direção de "resgatar a origem da
nossa loucura, nosso desejo de justiça e nossa aspiração
à liberdade" ? Como tentativa, sim. É nesse sentido
que entendemos o sonho de Moreno de um trabalho terapêutico
(transformador) que alcance a humanidade inteira. Claro que numa escala
de abrangência circunscrita às pessoas concretas, grupos
e organizações que encontramos e com quem lidamos em
locus determinados. Toda caminhada começa com um passo.
Mas o que dizer do(s) significado(s) do Psicodrama Público:
Cidadania e Ética do dia 21/03/2001, realizado na cidade de
São Paulo, para o cidadão, para o Psicodrama de modo
geral, para cada um de nós, profissionais-psicodramatistas-cidadãos?
Reunir 700 psicodramatistas da cidade, de outras cidades, e até
de outros paises, abrangendo 180 lugares diferentes... Marco histórico
sem dúvida. O Psicodrama, não mais onda marginal, nem
apenas movimento que se institui na FEBRAP e FEDERADAS, mas mobilizador
de profissionais psicodramatistas organizados e apoiados pelos órgãos
nos quais se agregam, que se disponibilizam à uma ação
de cidadania, respondendo com um estar à serviço da
população, atendendo ao apêlo de um poder político
central instituído, (embora de esfera municipal), fazendo-se
de ponte entre governo e povo. E ainda assim, não um ato partidário,
mas político!
Não demos só um passo, mas uma passada coletiva... às
questões colocadas acima só poderemos responder juntos
e tomando distância. Aguardemos, então. Está em
questão, não só refletir para compreender a cidade,
a origem da nossa loucura, do nosso desejo de justiça e nossa
aspiração à liberdade como cidadãos mas,
refletir sobre quem somos e para onde vamos, enquanto cidadãos
diferenciados vistos pelo governante como possibilitadores de implementar
esse caminho para a pólis. Nós estamos em questão.
Dispusemo-nos à uma parceria com um novo modo de governar que
busca aliança com o povo e potencializa sua força, na
construção de uma felizcidade. A utopia está
posta. À esta meta dissemos, sim! Retornemos ao nosso relato,
explorando o que está em jogo nos bastidores, clareando as
entrelinhas, do que conosco aconteceu.
DA
ESCOLHA DO LOCAL
Solicitamos
dirigir numa Escola, não só porque temos uma bagagem
maior de trabalhos sóciopsicodramáticos realizados neste
locus, mas porque entendemos que trabalhar a questão norteadora:"
O que você pode fazer para ter uma felizcidade", trazia
as implicações de um ato de educação social.
A Escola como agência reprodutora e produtora das relações
sociais, é local aglutinador das forças de uma comunidade.
Quando nos foi escalado uma Escola diferenciada como o CEMES, vimos
a oportunidade de trabalhar com uma população que busca
no resgate de sua escolarização formal, movimentar-se
socialmente.
O relato traz a informação que "a Escola estava
vestida de festa" no dia do Ato. É revelador do quanto
o trabalho foi aguardado, valorizado, mobilizando os órgãos
do sistema e os recursos da própria comunidade intra e extra
escolar, nas providências tomadas por iniciativa própria
e às solicitadas por nós. Cabe ainda uma explicitação
de seu papel mobilizador, diante da decisão tomada junto (Direção
do Psicodrama e Coordenadora) quanto ao lugar da realização
do Ato. No mesmo quadrilátero, alocam-se dois outros equipamentos
municipais: um polo de trabalho da 3ª idade, e uma gráfica.
Na semana anterior, percorremos juntas os espaços, levantando
o melhor local, o que implicou em contatos com os responsáveis
pelos dois outros equipamentos, uma aproximação entre
forças. Decidido que faríamos o trabalho no pátio
de estacionamento do CEMES, contamos com a presença então
além da população da Escola, alunos, professores,
representantes do NAE, muitos frequentadores do trabalho da 3ª
idade, e trabalhadores da gráfica. 80 Pessoas! A oportunidade
de trabalhar junto, é posta então, desde a preparação
para o dia 21. Fomos informados que o pessoal da 3ª idade, não
disponibiliza facilmente o seu salão (excelente por sinal),
pelo temor de se verem desalojados. Mas a coordenadora conseguiu arrancar
a promessa de que se chovesse, faríamos o trabalho lá!
Contribuímos então, para a interlocução
entre instâncias institucionais no contexto social.
DO
CAMINHO PERCORRIDO - EXPLICITAÇÃO
Com
a perspectiva de trabalhar em lugar fechado, embora a céu aberto
e próximo à rua, desde o início pensamos na possibilidade
de eleger o método sociodramático, justificando a dimensão
do trabalho "público" em que o que se investiga são
ideologias coletivas, tratando de conflitos intergrupais. Mesmo trabalhando
com a referência explícita acerca dos valores, o que
no discurso Moreniano caracterizaria um axiodrama, vemos esta modalidade
temática como uma variação do método sociodramático.
O foco está nos socii , em sua trama de relações
e nos sentidos que atribuimos à nossa experiência, sempre
permeado de valores.. Chegar à uma cena escolhida sociométricamente,
possibilitaria um aprofundamento na investigação e um
abrir espaço para a transformação: subjetivar
o discurso impessoal, caminhando na direção de um encontrar-se
com a experiência própria e do outro.
Vamos retomar os nossos passos.
AQUECIMENTO
DA EQUIPE - O PARA QUÊ ESTAMOS AQUI
Como
já foi dito, preparar o espaço com as pessoas da comunidade,
marca o lugar da importância do trabalhar junto. Embora com
papéis diferenciados - enquanto responsáveis pelo trabalho
- investimos como equipe num agir horizontalizado. O poder tratado
como âmbito de responsabilidade e não como comando hierárquico.
Proceder com uma exposição dialogada na explicitação
do que viemos fazer, após nossa apresentação,
respondia primeiramente à uma necessidade do coletivo, tanto
que vinha da platéia a tentativa de "aprender a falar"
Psicodrama. No mesmo momento, recebíamos a informação
de um dos egos auxiliares, que por sua vez ouvira o comentário
de um participante, acerca de um programa de radio, em que ouvintes
perguntavam sobre o que é Psicodrama. Começar pela frase
disparadora: O que você pode fazer para ter uma felizcidade,
aproximava o horizonte do trabalho solicitado pela prefeita: resgatar
nossa força, nossa potência enquanto cidadãos,
vivendo uma vida com mais valor. Não isoladamente, mas em conjunto,
ponte para se ver como homem em relação : pressuposto
fundamental do Psicodrama. Resgatamos a etmologia da palavra para
chegar ao " refletir sobre nossas experiências internas
significativas"..." na rede de companheiros em relação"...
no que se constitui a sociedade para Moreno. "Modo de trabalho
terapêutico -educacional que cultiva a transformação
em nosso aprender a viver..., via ação dramática..."
Foi um momento significativo em que nos reconhecíamos, na construção
do contexto grupal, passo importante tanto num trabalho processual,
quanto num único ato, como foi nossa condição.
Desencadear a construção de um referencial comum, fala
da relevância de retomar e explicitar o contrato. A busca da
afinação do coletivo num objetivo compartilhado. Caminho
da co-criação.
AQUECIMENTO DO GRUPO - SINTONIZANDO CORAÇÕES
"...
a alma nos atravessa por inteiro..." , modo de falar que encontramos
para superar a dicotomia corporeidade / mundo de experiência,
era o fio da meada para favorecer grupalização, resgatando
a presença da arte popular, fazendo-nos obra de arte. Dançar
, ao som de tambores, fazendo a brincadeira de Seguir o Mestre, onde
o Mestre não era só a equipe que desencadeava um movimento,
mas também pessoas da platéia, trazia o subtexto do
poder compartilhado, da experiência de poder propor (liderar),
do poder potência. Primeiro timidamente, depois com segurança,
a ousadia foi se instalando na platéia. Assim que alguém
começava um movimento, por ocupar um lugar mais visível,
a direção verbalizava para o coletivo e juntos o realizávamos.
Revitalização de todos.
Chega o momento de cantarmos juntos. A música, criteriosamente
escolhida "Coração Civil" de Milton Nascimento,
foi o modo que encontramos para aproximar a todos do horizonte da
proposta, mobilizando espontaneidade-criatividade. "Se o poeta
é o que sonha o que vai ser real...", façamo-nos
poetas, apropriando-nos de nossos desejos-sonhos.
Nas frases assertivas, vão surgindo: preocupações,
necessidades, desejos , sonhos.
O que não queremos: violência (fala do desejo de vida),
buracos (fala da necessidade de zelo e conservação),
preconceitos (fala da preocupação com cada pessoa).
O que queremos: solidariedade, humanidade, amor e paz, cuidar das
crianças que estão na rua (o cuidado com o futuro),
dignidade, crença em Deus, segurança, limpeza e higiene,
oportunidade de trabalho, educação, saúde, lazer,
compromisso, coerência do político, cuidado com a juventude
e com o perigo das drogas (Vida).
Escrever as frases conforme eram ditas, no flip-shart, voltar para
cada uma delas refletindo com o grupo acerca do valor fundamental
para onde apontava - situando-nos então no campo da ética
- contava da importância de levar em conta a palavra do outro.
Uma aprendizagem acerca da consideração do que nos move
como valores e o valor "respeito pela voz que vem do povo",
mobilizador de uma postura democrática. Foi outro momento de
grande participação. Conseguíramos envolvimento
e disponibilização para se trazer e ouvir o outro.
Formar grupos mobilizados pelas frases escolhidas, contar histórias
vividas (cenas) evocadas pelas mesmas, ocorreu num clima de compartilhamento,
embora precisássemos lidar com uma certa frustração
na fusão das filas que originaram os seis grupos iniciais.
A fala da Direção de que as frases pouco escolhidas
retornariam de outro modo, foi providencial, tranquilizando os mais
entusiastas. Oportunidade de aprender a lidar com a perda... com o
ceder agora e retomar depois... Serenidade que o sócio-psicodramatista
aprende a cultivar, face ao fenômeno da protagonização
e da trama, não visível de imediato, que nos enreda
a todos no co-inconsciente. Uma disposição emocional
que nos mantém na espontaneidade - criatividade.
No recorte sociométrico, pudemos reconhecer que os grupos estavam
bem matizados, quanto à idade, sexo, condição
alí. Havia uma concentração maior de pessoas
da 3ª idade no grupo "Crença em Deus" (10 pessoas).
Nos demais, até onde pudemos observar, havia uma grande mistura.
Os outros temas mobilizadores: Menos preconceito (7), Cuidado com
as crianças (7), Lazer (8), Dignidade para o cidadão
(14) Cuidado com a juventude e com o perigo das drogas (15). Por iniciativa
própria, o grupo das crianças se funde com o da juventude,
passando a ser o maior (22 pessoas). A equipe registrou fragmentos
das histórias contadas e como foi dito, o tema do perigo das
drogas, estava atravessando diferentes grupos. De algum modo caminhávamos
para o que se tornou a história trabalhada.
Os grupos foram ágeis no retorno ao grupão. Tinham sido
informados que a próxima etapa de trabalho envolveria a ação
dramática...
A preocupação com o tempo foi o desencadeante para não
seguirmos os passos clássicos de solicitar que cada grupo escolhesse
uma das histórias para relatar enviando um representante à
frente. Solicitamos três pessoas, pedindo aos grupos que incentivassem
algum de seus membros a se apresentar. Foi uma ousadia que neste trabalho
deu certo. Uma aposta no fenômeno apontado por Moreno como co-inconsciente,
mencionado acima.
As pessoas que se apresentaram trazendo os temas: Lazer, Drogas, Preconceito,
receberam toda atenção da platéia em seu relato.
Comoveram. Tanto que na primeira escolha por palmas houve uma indefinição.
Na escolha levantando a mão, percebeu-se mais critério
e a história do testemunho de Conceição, acerca
do assassinato do jovem pela questão do envolvimento com drogas,
ganhou disparado. Enredaria as outras histórias, contadas na
intimidade do pequeno grupo, ou relatadas no grupão?
AÇÃO
DRAMÁTICA - NA MAGIA DO "COMO SE", UM REFLETIR DA
POLIS, SOBRE SI
A
história apresentada antes num flash: jovens que se envolvem
com drogas, tiros à noite, gerando medo, a descoberta do rapaz
caído no chão, assassinado, ganha outra densidade ao
ser recontada com mais detalhes. O jovem é estudante da Escola
próxima, como outros, terminadas as aulas, não tem para
onde ir, pode ser filho de uma conhecida, o terreno baldio é
um problema. Não se trata do testemunho distante e que cai
na indiferença de tantas outras tragédias veiculadas
pela mídia. É o testemunho de Consuelo. Acontece na
soleira de sua porta, numa rua tranqüila. Trazer a história
para o contexto dramático vai possibilitar um reviver a experiência,
tornamo-nos todos testemunhas envolvidos com a situação.
Caminho de subjetivação.
A protagonista dá a direção para a montagem do
cenário: vemos surgir o terreno baldio no fim da avenida...
a rua tranqüila, onde está a casa de Consuelo, a casa
que abriga a família, o ponto onde há vigilância
e mais distante o espaço do mandante do crime.
Vamos trazendo as personagens: Inicialmente os egos auxiliares são
escalados para fazerem o papel de adolescentes, põem-se a postos,
pegam bonés para se diferenciarem . Surge a família
de Consuelo: as duas filhas, o marido. A platéia é pronta
em responder e assumir os papéis. Cadeiras são trazidas
e a família está dentro de casa. Construímos
a cena do terreno baldio. Mais pessoas da platéia entram como
personagens: colegas, o traficante, o vigia, o mandante. Edna que
contara a história da discriminação, do não
poder trabalhar, é a traficante. Também coloca um boné.
O clima alegre dos adolescentes se encontrando, conversando , vai
ficando tenso: o medo da polícia, a cobrança do traficante...
a ordem do assassinato, a impotência do rapaz que não
pode pagar e tenta negociar com o traficante. A perseguição,
a correria, o tiro fatal, o cambalear e finalmente a morte. Há
silêncio absoluto na platéia. Solicitar os sentimentos
presentes em forma de palavras, faz da platéia testemunha comprometida.
Evidencia o cuidado em manter o aquecimento dos participantes.
Continuamos o trabalho, retrocedendo no tempo, para que Consuelo possa
se retomar junto à família na noite fatídica..
Entrevistamos cada membro da família e a platéia está
com eles, no medo, na insônia , no susto ao abrir a porta de
manhã. A linha de investigação que se segue colocando
o foco no adolescente morto que ganha vida e voz, marca o não
perder de vista que o contrato é de um sociodrama e não
de um psicodrama clássico. Somos todos testemunhas, como Consuelo.
Sua impotência é nossa impotência diante da tragédia.
Sua experiência é a passagem para a investigação
da dimensão coletiva. A "casa" onde sua família
está e para onde retorna, permanece no cenário, mas
não é o centro do palco. No centro, jaz o jovem morto-
anônimo. A questão é coletiva. Vamos caminhar
no sentido de mergulhar no mundo de experiências do adolescente.
Aquecidos pelo ego-auxiliar que se fez de morto, a platéia
entra através de Leonardo (aluno do CEMES), na pele da vítima
que vai ganhando uma história de vida. Falar com os pais (casal
da 3a idade), com os professores, é tocante. Os duplos solicitados
ao ego-auxiliar que fizera o papel também são enriquecedores.
O foco é deslocado para a professora. Neste momento Leonardo
se despede, precisava ir trabalhar, voltar ao contexto social... o
drama agora é dos vivos, marcados por ele. A fala da professora
pontua a dor de não poder e não saber ajudar, frente
à miséria econômica, social e emocional que leva
às drogas. Falam o amigo, fala a adolescente traficante (matar
ou morrer) e o pedido é um só: diálogo. Espaço
para que se dê a entrada das pessoas que marcam as outras forças
sociais além da Família e da Escola: Comunidade religiosa,
Associação de moradores, Amigos, Órgãos
da saúde. Consideramos fundamental pontuar que através
das várias pessoas que entraram em cena falando de cada um
desses lugares, há um apelo para que trabalhem juntas, saiam
de suas "casas - refúgio". A Escola é sempre
solicitada para que se envolva nos projetos da comunidade...Não
pode ser uma ilha se quiser cumprir sua função sócio-política
- é instância articuladora das relações
sociais.
Espontaneamente, vemos Consuelo que nos trouxe a historia disparadora,
fazer um movimento de resgate de sua potência: dentro do universo
de discurso que lhe é significativo - o religioso - "sai
de casa" trazendo a referência da auto-estima e do Deus
em cada um, (idéia tão cara a Moreno) mesmo que ainda
fale mais para si mesma, faz um gesto concreto de aproximação
em relação ao outro.
Quando a ego-auxiliar Alaíde, pede para entra em cena, como
adulto, amiga da mãe, no diálogo com Edna (traficante)
que pedira alguém para conversar, um momento especial acontece:
coloca-se como quem se disponibiliza a ouvir verdadeiramente a adolescente,
sai do clichê de dar conselhos... posição assumida
principalmente pelas pessoas que deram voz às diferentes comunidades
religiosas que se apresentaram: católica, evangélica,
kardecista... Tivemos um momento catártico da adolescente que
pôde expressar o que afasta o adulto: as críticas e cobranças
e o que precisa: "amor e atenção".
A importância do trabalho realizado em equipe, egos auxiliares
e direção, mostra-se com clareza aí. Como direção,
percebia um incômodo presente em mim e em parte da platéia,
por estarmos diante de "pregações" - o anunciar
de princípios de ordem moral - religiosa. Esta constatação,
nos faz apontar para outra agência social - os órgãos
de saúde - ainda não presentificada no contexto dramático,
com a esperança de que deste lugar viesse uma voz, jogando
o papel complementar, em disponibilidade para ouvir a adolescente.
Traria outra possibilidade para o relacionar-se, que não, o
professar crenças somente. A Ego-auxiliar em sintonia capta
o que está no ar e entra em cena. Vemos ocorrer o fenômeno
da tele - o dar-se a perceber e o perceber o outro em situação,
possibilitando o encontro - entre a adolescente e a ego auxiliar,
no aproximar-se desta, colocando a acolhida, a empatia, à frente
do discurso. Todos constataram que esse gesto simples possibilitou
à adolescente o se trazer intensamente. Foi "ouvida".
Dá-se a tele também entre direção e ego
auxiliar explicitando a importância do trabalho em unidade funcional.
Tele aparece, como espontaneidade-criatividade, vivida na relção
com o outro.
Conseguimos respeitar a cultura presente, como campo de significações
em que pessoas se movem e daí resgatam sua potência e
ao mesmo tempo na ação dramática, trazer outra
possibilidade de relação que aviva o campo da sensibilidade,
sem o quê a postura ética como percepção,
reflexão e tomada de medida que envolve valores - no momento
- se desfaz.
Vamos
caminhando para o desfecho da ação dramática
e a pontuação da direção quanto às
forças da comunidade que estão presentes no cenário,
prepara a entrada da personagem da prefeita, realizada pela ego auxiliar
Marcia. Encontramos todos num outro clima de grande proximidade. Entra
em cena como se viesse da rua, posta-se no lado esquerdo do palco,
pode ser vista por todos. Retomemos o que se solicita:
Ego-auxiliar ( personagem do adolescente morto): Cuidar dos professores.
Representante da saúde: mais profissionais (psicólogos,
assistentes sociais) nas instituições, para cuidar da
parte educacativa e psicológica da população.
Soubemos posteriormente pelo adulto que fez esse papel, que já
fora dependente de drogas e conseguira ajuda através do programa
de um hospital da comunidade.
Ego-auxiliar (personagem do amigo que quer se livrar das drogas),
dirigindo-se ao coletivo e não só à prefeita:
"não falem por nós... saibam escutar para saber
o que temos para falar e o que a gente quer!"
Adolescente (personagem da traficante), dirigindo-se às professores:
pede maternagem / paternagem consumado num abraço.
Adulta (personagem da professora) à prefeita: pede investimentos
em relação à orientação psicológica-educacional,
mais profissionais que atuem na Escola nesse sentido, estabalecendo
parceria com o Conselho Tutelar (foça da comunidade que não
aparecera ainda).
Adulta (quer falar do lugar da Escola), pede ao Secretário
da Educação, parcerias com Entidades, que garantam o
lazer e o esporte para os educandos.
Adulta (lugar da Associação de Bairro), à prefeita:
investimentos para o lazer das crianças nos Centros Comunitários.
Adulto 3a idade (personagem do pai da vítima), à prefeita:
Cudados com a Escola, Saúde e Segurança.
Adulta (cidadã), à prefeita: exercer o mandato com ética
e humanidade.
É interessante observar como dos sonhos iniciais (desejos ,
necessidades, preocupações), vamos encontrando o denominador
comum na questão da garantia da saúde social!
A voz da prefeita que chega através da Ego-auxiliar, resgata
a pessoa humana solidária e a representante do povo "que
ousou ser candidata" e conta com a ajuda de todos... Os aplausos
que se seguem, marcam simbolicamente um objetivo alcançado:
aproximação povo - governo.
Mostra do resgate da potência da população, podemos
encontrar no pedido da adolescente (personagem da traficante) para
ser a última a falar: volta o foco para a importância
da Escola e dirigindo-se à esta e à Família,
pede maior comunicação entre elas. O pedido é
para a própria comunidade!
Considerando que a adolescente tinha 16 anos, e sua personagem 17,
neste momento em que a sociedade civil discute o rebaixamento da idade
para imputação criminal de 18 para 16 anos, o que vivemos
juntos traz uma contribuição para que constatemos os
efeitos da miséria social e emocional e nos perguntemos sobre
onde queremos investir: Repressão ou Educação?
Parece significativo não terem sido presentificadas as forças
policiais. A polícia compareceu indiretamente através
do medo expresso pela personagem "vigia do ponto" de transação
da droga, que desaparece no decorrer da ação dramática.
Os olhos da população e da Direção se
voltam para um resgate que se dá no âmbito da prevenção.
A polícia poderia participar desta perspectiva? Que formação
podemos garantir ao policial para que a população o
veja como aliado, na garantia de um sentido de justiça que
como polis queremos instaurar?
COMPARTILHAR
- DESPEDIDA: A QUÊ VIEMOS?
De
certa forma o compartilhamento foi ocorrendo na cena final, com a
entrada da prefeita. Formar as duas rodas: central com os que estiveram
no contexto dramático, exterior com a platéia, para
cantarmos juntos as palavras do poeta : "Eu fico com a pureza
da resposta das crianças: É a vida..., a alegria de
ser um eterno aprendiz...", sublinhava a última voz, a
da menina-jovem, lugar simbólico entre um devir "bandido-traficante"...
ou "ético-cidadão"... para todos nós.
As palavras finais da platéia, compartilhando o sentido do
trabalho, o como estávamos saindo, falam de resgate da esperança.
Por que não rezar o "Pai Nosso", oração
tão universal, como foi pedido por uma pessoa da platéia?
Confesso que foi um momento difícil. Seria preciso checar se
era uma voz protagônica. Perguntar se todos queriam? Achei constrangedor,
uma vez que constatáramos a presença de diferentes culturas
religiosas. O sinal que vinha de muitos era de espanto! De outros,
o endosso. Ocorreu-me a via de resgatar das palavras ditas a mais
evocada: VIDA. Invocar VIDA marcava o resgate do espaço comum
da condição humana que se abre ao sagrado, numa oração
espontânea.
Os abraços de despedida que toda a equipe recebeu, as falas
acerca de como o trabalho tinha tocado, o reconhecimento de que "sua
história" estava lá e a constatação
da importância de "ouvir o jovem", mostram a relevância
do encontro, para a população que nele se reconheceu
e sobre si pode refletir, e para nós que saímos fortalecidos
no nosso papel de educadores sociais psicodramatistas.
Pudemos experienciar, com a força da simultaneidade do Ato
ocorrendo em toda a cidade, a abordagem teórico - metodológica
de Jacob Levy Moreno, tendo como base o teatro espontâneo, retornando
ao seu lugar de origem - os locais públicos, a serviço
da população. A busca da transformação
do homem e de suas relações, através da reflexão
compreensiva, que o sócio-psicodramatizar, possibilita. Somado
ao que já fazemos em nosso quotidiano como profissionais da
Escola, Clínica, Empresa, Comunidade, fortalecemos os laços
de aliança com a vida, começando conosco mesmos, com
os sujeitos que nos queremos cidadãos compromissados éticamente
com a pólis. A frase de um dos participantes, que fica escrita
no flip-shart: "Compromisso de todos e de cada um", demonstra
uma nova abordagem para lidar com a questão: " O que você
pode fazer para ter uma felizcidade?" . Passa a ser: " O
que eu posso fazer junto com você para ter uma felizcidade...."
Caminhamos na direção de" resgatar para cada um
e para todos a origem de nossa loucura, nosso desejo de justiça
e nossa aspiração à liberdade". Chegar tão
perto do poder político instituído é desafiador.
Resta saber como nos fazemos reconhecer pela mídia, que nos
tratou com ironia. A nós, ou à prefeita que ousa ser
diferente?
É hora de mostrarmos a quê viemos... Nós psicodramatistas,
estamos em questão.
III.
ÉTICA, CIDADANIA e EDUCAÇÃO - uma aproximação
ao tema
" Cidadania é dever de povo.
Só é cidadão
Quem conquista o seu lugar
Na perseverante luta
Do sonho de uma nação.
É também obrigação:
a de ajudar a construir
a claridade na consciência
de quem merece o poder.
Força gloriosa que faz
Um homem ser para outro homem
Caminho do mesmo chão,
Luz solidária e canção." Thiago de Mello
" O que você pode fazer para ter uma felizcidade"?
A frase - tema que ao final do nosso passo anterior formulamos como:
" O que eu posso fazer junto com você para ter uma felizcidade",
aponta para a articulação entre cidadania e ética
na expressão cunhada por Betinho: "felicidadania".
Terezinha Rios (filósofa da educação) com quem
a comunidade psicodramática se encontrou no TUCA - PUCSP, na
etapa preparatória para o Ato Psicodrama: Cidadania e Ética,
desenvolve essa articulação em sua recente obra :Compreender
e Ensinar (2001:112) identifica:
..."cidadania com a participação eficiente e criativa
no contexto social, o exercício concreto de direitos (e deveres,
lembramos...) e a possibilidade de experiência da felicidade...
entendida como concretização da vida, como realização
- sempre buscada - do ser humano, algo que não se experimenta
apenas individualmente, mas que ganha seu sentido mais pleno na coletividade."
A autora caminha no sentido de situar a necessária perspectiva
histórica na abordagem dos conceitos trabalhados. Busca despojar
o conceito de felicidade de um enquadramanento tanto romântico,
"hollywoodiano", quanto "mercadológico".
Este último, tão comum na nossa sociedade científico-tecnológica
globalizada, que trata o cidadão como consumidor e reduz sua
participação sócio-política, ao espaço
formal do exercício do voto. Explora a idéia de que
cidadania e felicidade requerem para sua efetividade, não apenas
uma democracia representativa como a que configura nosso contexto
político, mas democracia participativa. Resgatando democracia
e cidadania como processos, ambas implicam em consciência de
pertença à uma comunidade e de responsabilidade partilhada
tendo em vista a vida em comum, respeito portanto ao princípio
ético da solidariedade.
Felicidadania passa então a ser o novo nome para bem comum
- horizonte da ética e da política - sentido para uma
vida feliz, que só pode se dar de modo compartilhado - trabalho
de todos para se viver plenamente o direito de acesso ao que produzimos
coletivamente, participando na construção de novos bens
e direitos. Felicidadania - como um novo ethos de toda e qualquer
intervenção psico-social, fim último dos Projetos
Educacionais na Comunidade, nas Organizações de diferentes
naturezas e de modo especial nas Organizações Educativas
como a Escola: agência socializadora voltada para a formação
das novas gerações, reprodutora e recriadora de saberes
e relações sociais.
Educação é processo social que se dá nas
relações, a partir do qual a sociedade perdura no tempo
como uma cultura e se faz histórica. Como projeto intencional
- a partir do qual nos fazemos socii (companheiros), membros de uma
sociedade heterogênea em movimento que requer aprendizagens
contínuas acerca de nossos papéis, apropriando-nos da
produção cultural - educação se faz sempre
à luz de um ethos - morada do homem - lugar onde se constrói
e se expressa a humanidade do homem, nossa condição
humana, vista sob determinado prisma.
Marilena Chauí nos esclarece que "embora ta ethé
(do grego) e mores (do latim) signifiquem o mesmo, isto é costumes
e modos de agir, no singular, ethos é o caráter ou temperamento
individual que deve ser educado para os valores da sociedade e ta
éthiké é uma parte da filosofia que se dedica
às coisas referentes ao caráter e à conduta dos
indivíduos e por isso volta-se para a análise dos próprios
valores propostos por uma sociedade e para a compreensão das
condutas humanas individuais e coletivas, indagando sobre seu sentido,
sua origem seus fundamentos e finalidades". (1998:1)
Assim, ta ethé e mores, nos remetem para o que está
estabelecido na cultura, como obra humana, instância das conservas
culturais, no dizer de Moreno, apontando para os padrões de
comportamento, normas e princípios que balizam o agir e circunscrevem
os nossos papéis sociais - o campo da moral.
Já, ta éthiké, a ética, nos remete à
postura reflexiva acerca dos valores em que nos movemos e à
compreensão de nossas condutas, explicitando seu horizonte
de significações.
Ethos, no singular como nos informa a filósofa, abre o campo
da valoração, ao apontar para o caráter ou temperamento
a ser educado e em quê nos educamos. Ethos de um indivíduo
ou de um povo, nos remete então, à visão de homem
e de mundo que está sempre presente, explícita ou implicitamente
como um horizonte, em nossos modos de ser, na vida quotidiana, na
produção dos pensadores e na nossa praxis profissional
que se dá à luz de como compreendemos e experienciamos
a morada do homem.
Heidegger, pensador da existência (ek-sistencia) e do ser (verbo),
traduz ethos como "morada" em sua obra - Sobre o "Humanismo"
- (1973:369) e mais radicalmente ainda, o traduz como "postura"
na obra - Heráclito- (1998:225). Postura, como revelação
de uma visão de homem e de mundo, se explicita em suas palavras:
"o porte em todos os comportamentos desse porto em que se detém
o homem em meio aos entes ". Lembramos do pensador aqui, pela
sua negativa em construir uma ética enquanto um sistema pronto,
mas voltar-se para os riscos que causou ao ocidente, a cisão
entre ethos (postura) e epistheme (ciência). De um modo contundente
afirma: "As tragédias de Sófocles ocultam - permita-se-me
uma tal comparação - em seu dizer, o ethos, de modo
mais originário que as preleções de Aristóteles
sobre a "Ética" ". (Sobre o "Humanismo"
(1973:368). O mesmo vai dizer dos pré-socráticos, de
modo especial Heráclito.
Seus intérpretes reconhecem no entanto, principalmente na obra
- Ser e Tempo (19 ) a proposta de um ética da finitude humana,
em que como ser-no- mundo-com, o homem é abertura ao Ser, se
importa com seu ser.
E nós, socionomistas, dispomos de uma Ética?
Moreno não é filósofo profissional, como "médico
psiquiatra educador", deixa-nos o legado do ethos da espontaneidade
- criatividade e do homem em relação. Cultivo de posturas
que nos remetem ao estarmos sempre abertos ao que acontece, conosco
e com o outro em situação: aqui e agora, no momento,
buscando explicitar o horizonte-mundo em que nos movemos.
Reconhecemos no Projeto Moreniano, um apelo de re-união entre
epistheme (ciência) e ethos (postura) ,na vizinhança
da arte, o cultivo do cosmos em devir. Ouçamos suas palavras:
"Marx via a situação do homem apenas como membro
da sociedade, e considerava a luta dentro dessa sociedade como seu
destino último. Freud via a posição do homem
como a de um viajante entre o nascimento e a morte. O resto do universo
não entrava em consideração. A tarefa de nosso
século é reencontrar uma posição para
o homem no universo.
O homem é um ser cósmico; é mais do que um ser
psicológico, biológico, natural. Pela limitação
da responsabilidade do homem aos domínios psicológicos,
sociais ou biológicos da vida, faz-se dele um banido.
Ou ele é também responsável por todo o unverso,
por todas as formas de ser e por todos os valores, ou sua responsabilidade
não significa absolutamente nada...o cosmos em devir é
a primeira e última existência e o valor supremo"...(1974:21-22).
Gera então uma abordagem em educação que nos
convida a nos relacionarmos com o legado cultural, as conservas culturais,
na sociedade e em cada um de nós socii- como condutas estereotipadas
- reabrindo seu sentido, numa construção - re-construção,
em que nos fazemos homens, co-responsáveis pelo vir a ser.
Abertura compromissada ao mundo, em sintonia com o nosso tempo, construindo
nosso tempo na pólis, responsáveis uns pelos outros.
O horizonte em que nos movemos na realização de nosso
encontro sociodramático, tentou ser coerente com esse ethos
e apesar de ainda não termos suficiente distância crítica,
fomos pontuando no item anterior (processamento), algumas posturas
em que se desdobram.
Para finalizar, deixamos uma fala de Paulo Freire que consideramos,
Moreno assinaria embaixo e nós sócio-psicodramatistas,
podemos realizar:
"A educação será mais plena quanto mais
esteja sendo um ato de conhecimento, um ato político, um compromisso
ético e uma experiência estética."
Bibliografia
.CHAUI, Marilena. Ética e violência. In Colóquio
Interlocuções com Marilena Chaui. Londrina, 1998, mimeo;
apud Terezinha Rios (2001:101)
. HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. Parte I e II. Vozes, Petrópolis,
1988/1989.
.----------------------------. Sobre o "Humanismo"- Carta
a Jean Beaufret, Paris, in Coleção Os pensadores, vol.
XLV, Abril S. A.Cultural, São Paulo,1973.
. --------------------------- . Heráclito. Relume Dumará,
Rio de Janeiro,1998.
. LOPARIC, Zeljho. Ética e Finitude. EDUC, São Paulo,
1995.
. MARINO, Marilia. Acontecimento Educativo Psicodramático.
Tese de Mestrado, apresentada ao Programa de Educação
da PUC- SP, 1992.
. MORENO, Jacob Levy. Quem Sobreviverá? Fundamentos da Sociometria,
Psicoterapia de Grupo e Sociodrama. Vol. I, II e III. Dimensão
Editora, Goiânia, 1992, 1994.
. ------------------------------ . Psicoterapia de Grupo e Psicodrama.
Edit. Mestre Jou, São Paulo, 1974.
. ------------------------------ . As Palavras do Pai. Editorial PSY,
Campinas, S.P.,1992.
RIOS, Terezinha Azerêdo. Ética e Competência. 10.edc.,Cortez
Editora, São Paulo,2001.
-------------------------------- . Compreender e Ensinar- Por uma
docência da melhor qualidade.Cortez Editora, São Paulo,
2001.
. VÁZQUES, Adolfo, S.. Ética. 9ªa edic. Edit. Civilização
Brasileira, São Pulo, s/d.
Marilia J. Marino
Pedagoga, Mestre em Educação. Doutora em Psicologia.
Docente da Faculdade de Educação da PUCSP. Membro da
Coordenação do Curso de Formação em Psicodrama
do Convênio SOPSP- PUCSP. Professora Supervisora do foco sócio-educacional
da FEBRAP.
F. 38649785
e-mail - marilia_marino@uol.com
____________________________////////////_________________________
Obs. Texto publicado no livro A Ética nos grupos. Editora
Agora, SP. 2002.
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