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| Psicóloga
Ana Maria Otoni Mesquita |
Participar do evento psicodramático
sobre Ética e Cidadania que aconteceu no dia 21 de
Março último, na cidade de São Paulo foi uma
experiência inesquecível.
Pelo fato histórico de estar realizando o sonho de J.L.
Moreno, de que a humanidade seria melhor, mais
harmônica, mais pacífica, se pudesse ampliar o trabalho
de pequenos grupos a todos os espaços do mundo. Naquela
quarta-feira, por iniciativa da prefeita Marta Suplicy,
sob a coordenação da psicodramatista Marisa Greeb, o
apoio estrutural e profissional da FEBRAP e também do
CRP-SP, o utópico, ou seja, o sem lugar, ocupou o seu
espaço e o sonho passou a realidade.
Mas afinal, porque psicodrama?
Nada mais atual do que a proposta filosófica e
metodológica do psicodrama aplicada a resolução de
problemas. Isso porque, dar visibilidade aos conflitos
através da ação, mais precisamente, da cena
psico-sociodramática, trabalhar no aqui e agora partindo
do contexto existencial dos sujeitos, acolher, incluir,
compartilhar, intensificar conflitos, dar novas formas,
novas respostas, criar, são os propósitos da abordagem
psicodramática. Seu autor, o médico vienense Jacob Levy
Moreno, baseou seus princípios na paixão pelo teatro e
na inquietação de criar uma abordagem
psico-socioterapica, que tirasse o foco da expressão
verbal. Assim, a cena psicodramática pode ser comparada
a um jogo, um quebra-cabeças que ajuda a dar forma, voz
e palavra a sentimentos, idéias, crenças e
comportamentos. Ajuda a colocar a mente no seu lugar
primordial: entre eu e você, entre nós. É uma
construção no "como se", uma realidade
suplementar, propiciada pela encenação, que se
desenvolve no espaço entre a imaginação e os fatos.
Como se define e como se faz psicodrama?
A palavra psicodrama é o nome genérico dado às suas
três modalidades básicas:
· o psicodrama (do grego psique = alma e drama =
ação),
· o sociodrama (do grego socius = companheiro, grupo e
drama) e
· o axiodrama (do grego axioma = proposição aceita
universalmente, valor e drama).
Ação, para Moreno, tem o sentido de busca da verdade,
através dos procedimentos que compõem a cena.
Essas modalidades podem ser aplicadas à clínica, à
educação, às organizações e ao social; nas versões
de psicoterapias individuais (o psicodrama bipessoal), de
grupo, casal e família; em atividades escolares de
caráter psico-pedagógico, em seleção e treinamento de
pessoal nas empresas; como sociodramas, axiodramas e
psicodramas públicos, no universo social.
As sessões de psicodrama obedecem a um procedimento
metodológico.
A primeira etapa, denominada Aquecimento Inespecífico,
é marcada por conversas aleatórias e jogos.
A segunda, do Aquecimento Específico, desenvolve
atividades selecionadas para trabalhar uma temática
escolhida antecipadamente ou que resultou do aquecimento
inespecífico.
A terceira, denominada Dramatização é, propriamente, a
elaboração de uma cena com princípio, meio e fim,
criada ou construída pelo protagonista (indivíduo ou
grupo), diretor, egos-auxiliares que podem ser
pré-determinados ou escolhidos no momento.
A quarta etapa caracteriza-se pelo Compartilhar. É o
momento da elaboração do que se passou na cena
dramática. Não se trata de interpretar o que se passou,
mas sim compreender, dialogar, dar sentido à ação,
processar.
Uma quinta etapa denominada Processamento, pode ser
acrescentada quando há uma relação de
ensino-aprendizagem. Diretores, egos-auxiliares e
platéia, discutem o que se passou na cena e as escolhas
técnicas realizadas durante a sessão.
Por fim, os cinco elementos do psicodrama: protagonista,
diretor, ego-auxiliar, palco e platéia.
A experiência da cidade de São Paulo.
No evento de São Paulo, a experiência psicodramática
foi caracterizada pela utilização de técnicas
sociodramáticas, cujo protagonista era o grupo, o grande
grupo, com uma temática axiomática subjacente: Ética e
Cidadania.
O público alvo, calculado em cerca de 8000 pessoas, era,
especificamente, o funcionário público e, amplamente, a
população em geral. Foram mais de 700 psicodramatistas,
diretores e egos-auxiliares, espalhados em 160 pontos da
cidade, entre escolas, praças, estações de metrô,
estacionamentos e teatros.
Cada grupo tinha por objetivo, explorar o tema a partir
de três questões:
- Quais os problemas que você identifica na sua cidade?
- O que fazer para resolvê-los?
- Como você poderia contribuir para isso?
E foi com esse espírito de curiosidade profissional, de
estar participando de um grande e acolhedor encontro que
viajei a São Paulo naquela manhã ensolarada de
quarta-feira.
Ao chegar à Escola Chiquinha Rodrigues, em Campo Belo,
fui recebida com entusiasmo, pelo grupo coordenado por
Madalena Rehder, diretora de Ensino e Ciência da FEBRAP.
Esse mesmo entusiasmo foi dispensado a cada participante
que adentrava a sala, no principio um pouco tímido,
querendo saber se era ali mesmo que o psicodrama ia
acontecer. Aos poucos um grupo de 20 participantes (fora
a equipe de diretores e egos-auxiliares), entre
professores, conhecedores do psicodrama e moradores do
bairro foi se sentindo a vontade para falar de suas
angustias e preocupações. Se a violência foi uma
tônica de quase todas as falas, não faltou quem falasse
do trânsito, do desamparo dos mais velhos, do pedir
socorro dos alunos e professores. Espaços para o
compartilhar e criar novas alternativas de convivência.
Uma imagem construída pelo grupo, com fitas coloridas,
fez jus a sua multiplicidade de cores e formas que
implica essa construção. O laço, para alguns,
representou a união para realizar; para outros, o verde
era a esperança; os nós pareceram as flores sobre um
túmulo, contudo, sobre a morte, a necessidade de
construir juntos algo novo e bonito. Também o temor era
que isso tudo terminasse quando a cena chegasse ao fim.
Entretanto, a partir das imagens, dúvidas e do trabalho
realizado através da ação dramática, o grupo chegou a
conclusão bem concreta, de que esse era apenas um
primeiro passo para construir uma feliz-cidade. Era
preciso reavivar o sentido do coletivo e não apenas
sermos responsáveis por nossas ações enquanto
indivíduos isolados, mas co-responsáveis, co-criadores,
co-colaboradores e co-participantes. Sugeriu-se que a
própria Escola poderia ser um espaço privilegiado para
o debate, a troca, o existir um para o outro, o
solidarizar-se.
À noite, na confraternização no bar Tipuana, na Vila
Olímpia, os psicodramatistas estavam eufóricos. Todo
mundo querendo contar sua experiência, querendo
compartilhar. Marisa Greeb, que dirigiu o psicodrama na
praça da Freguesia do Ó, fez duas observações que me
chamaram a atenção: primeiro, a capacidade do
psicodrama de acolher independente de raça, religião,
idade e sexo; e segundo, a capacidade de tornar forças
ressentidas em energias positivas. Na sua experiência
com esses moradores de rua, ela observou a emoção de um
morador, que afirmou ser a primeira vez que lhe dirigiam
a palavra. Observou também, a reação primeira desses
moradores, apesar de se sentirem excluídos, sugerirem a
exclusão do movimento 'punk', por bagunçarem o espaço
da praça. Depois veio a sugestão de que era preciso
reunir-se mensalmente, aplicando o psicodrama para
solucionar os problemas da praça. Maria Rita Seixas,
psicóloga e psicodramatista, que dirigiu um grupo de 30
pessoas numa escola, pontua que as pessoas levantam a
questão da nucleação, do individualismo como uma
dificuldade a ser superada na solução dos problemas da
cidade e, de novo, o grupo propõe encontros que
desenvolvam o sentido de coletividade. É como nos faz
notar Madalena Rehder: no psicodrama trabalhamos
transversalmente o individual, o grupal e o social. Nada
acontece isoladamente.
Mas voltando ao clima de entusiasmo e euforia dos
psicodramatistas, justapondo a cena sobre o cenário da
cidade, não era para menos, pois não é todo dia que um
sonho se realiza com tanta intensidade. E se, as minhas
24 horas em São Paulo estavam se esgotando, minha
crença no potencial do psicodrama, esse potencial de
acolher, desenvolver as forças de transformação
individual, grupal e social através dos recursos da
cena, da espontaneidade e criatividade, ficou, sem
dúvida, ainda mais forte.
Psicóloga
Ana Maria Otoni Mesquita
Psicodramatista, psicoterapeuta breve
Mestrado em Psicologia Clínica - PUC-Rio
e-mail: anotoni@gbl.com.br
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