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| Prof.
Lucília da Cunha Sotero Caio |
Virtual é em primeiro lugar, um modo
de ser particular; é um modo diferente de estabelecer
relações que foi largamente confundido, na expressão
da linguagem comum, e no uso corrente, com o falso, o
ilusório, o imaginário ou a fantasia.
Esta visão, hoje ultrapassada, se apóia num conceito
muitas vezes negativo do virtual, desembocando numa
concepção do futuro do mundo, dos homens e de suas
relações, nada animadora e às vezes, mesmo assustadora
e dramática.
Nesta direção, o real perde toda a sua realidade em
função das intensas buscas e feitos virtuais.
Poderíamos, então, realmente, temer uma desrealidade
das relações dos homens com o mundo e, sobretudo, das
relações humanas que se estabelecem entre o
"eu-tu" e na formação do "nós".
Longe da realidade, o homem estaria assim se perdendo e
minimizando seu processo humanizante, desalojando-se de
sua característica social.
O virtual levaria a uma fuga do real, instalando uma vida
de relação paralela que poderia ou não, na maioria das
vezes, se tornar, de alguma forma Real.
Enclausuradas no isolamento deste modo diferente e nada
real de se relacionar, as pessoas estariam submetidas ora
ao prazer, ora à decepção, na medida em que, entrando
no virtual, se tornariam alienadas do real, substituindo
a realidade pela fantasia.
Nesta tendência anti-social, estaria se formando um
indivíduo "sem leis", "sem superego"
ou "sem limites", para o qual a liberdade se
constituiria em extravasar todos os seus
"recalques" , tornando caótico o viver em
sociedade.
A não presença física deixaria um espaço livre,
virtual, para o desabrochar da fantasia plena e das
idealizações a respeito de si mesmo ou do interlocutor
que se constitui no outro. Quando esta fantasia sai do
controle de seus usuários, gera uma situação de
envolvência tal que ficaria difícil desvencilhar-se
daquele ser criado. Expressando o que gostariam de ser ou
como gostariam de serem tratados ou vistos, criam um
mundo próprio que os satisfaz plenamente, não
precisando do real, para se tornarem eles mesmos.
Neste contexto, não se espera nunca que o virtual se
converta em real. O virtual jamais será real. A
distância entre o "eu virtual" que criei e o
"eu real" que me faz ser, é tão profunda que
a relação entre os dois não pode acontecer sob pena de
"a imagem" se desfazer e fenecer totalmente.
Assim, se não há intenção de se chegar a uma
relação interpessoal concreta, poder-se-ia duvidar de
uma tal forma de comunicação que nos surpreende,
deixando-nos interrogativos a respeito do futuro social
da humanidade.
Confrontado com o real e dele separado, a criação do eu
virtual, isento da exigência da presença física,
levaria o homem a uma dualidade de ser, "a dois
diferentes e simultâneos modos de ser, um na Internet e
outro fora dela" que, nesta visão, seriam
irreconciliáveis.
Um virtual assim ameaçador destruiria no homem a
capacidade de ser uno e de responder por sua integridade
pessoal.
Haveria um caminho novo que facilitasse o "desmonte
desta oposição fácil e enganosa entre Real e
Virtual?". Em que consiste, então, a realidade do
virtual? É o que tentaremos propor a seguir.
Segundo Gilles Deleuze, "o virtual possui uma plena
realidade, enquanto virtual".
O processo de virtualização no mundo moderno ocupa um
lugar importante e bem mais amplo do que o da mera
comunicação interpessoal.
Podemos encontrá-lo na Informação, na Educação, na
Cultura, na Arte, na Empresa, na Produção, no Consumo,
no Conhecimento, nos Bancos, no Sistema de Trocas, na
Organização de Entidades ou Instituições, no Mercado,
etc. Como tal, a virtualização se apresenta como um
espaço dinâmico que, não exigindo a presença física,
encurta as distâncias, anula o tempo, reforça o aqui e
agora, torna velozes as operações, as informações, a
coleta e troca de dados, sem o desconforto dos
deslocamentos exigentes para se ter o contato pessoal.
O virtual comprime o espaço e anula o tempo, quer dizer,
o tempo e o espaço nós o fazemos. Mas, a
virtualização não é desaparecimento nem
desmaterialização. Há o que Pierre Lévy chama de
"desterritorialização física".
"Virtualizar é arrancar-se ao aqui e agora ou
desterritorializar-se". Não há uma imaterialidade
no virtual, "o conhecimento e a informação não se
tornam imateriais, mas desterritorializados".
É claro que, para se dar ou se constituir o processo de
virtualização devem existir as condições primordiais
como uma Home Page e a Web Internet que são as
mediadoras da constituição desse processo e ele só
eclodirá com a entrada da subjetividade humana. "A
Internet não é simplesmente computadores conectados às
linhas telefônicas comunicando-se livremente".
"São pessoas criando novas personalidades, novas
concepções de lugar, de tempo, de relacionamento, de
realidade, de natureza como um todo".
Com o uso da Internet o homem desenvolve uma "dupla
consciência". É o mesmo "eu" que se
desdobra e enriquece numa unidade mais complexa.
Fala-se virtualmente, lê-se virtualmente, cria-se
virtualmente, medica-se virtualmente, compra-se
virtualmente, negocia-se virtualmente através do
computador. Essa virtualização é eficaz, produz
resultados concretos, palpáveis, reais. Experimenta-se
toda a realidade do virtual. Quer dizer, se as
condições necessárias existirem e forem acionadas
devidamente, esse virtual que se apresenta como um real
em potência, se tornará ato, ação, isto é, se
concretizará.
Estaríamos aqui muito longe de pensar que o virtual,
assim exercido, e entendido, levaria a uma fuga, ou ao
falso, ao imaginário, ao fantasioso em seu dado
operativo.
O virtual é um caminho novo, ao alcance, permitindo
transformar diferentes e dinâmicas possibilidades em
ato, de maneira veloz.
Esta existência em potência do virtual, essa
potencialidade do virtual, é o seu "existir",
é sua existência real em estado de potência dinâmica
a ser virtualizado, nascido, recriado numa infinidade de
possíveis combinações que nunca se esgotam.
O virtual é o potencial, que não se confunde com o
simplesmente latente. Este é estático, permanentemente
o mesmo, predeterminado como um "dado" pronto,
acabado, parado, à espera de ser simplesmente utilizado.
O latente está lá, já previsto, já conhecido, já
antecipado, sem nenhum dinamismo para o seu acontecer.
Espera a hora para se "tornar", para deixar sua
latência ainda informe. É um antes esperando
passivamente o depois, que no momento certo, virá à
tona. O latente permanece nas profundezas de cada ser
inerte no seu "não ser".
O mesmo não acontece com o potencial que realiza o
virtual. Ele é um ser, ser em potência que ainda não
desdobrou todas as suas possibilidades; é um ser em
desenvolvimento, ser dinâmico, um conjunto de forças e
tensões, de "nós de tendências e problemas",
que ao se atualizarem realizam soluções imprevistas.
É assim que o virtual se atualiza. Neste atualizar-se
ele acontece porque existia, tinha existência. A
atualização do virtual é processo que volta a ele sob
a forma de virtualização, pleno de criatividade,
trazendo as soluções à problemática mesma do virtual.
Virtual se opõe assim a Atual e não ao real na ordem
mesma do processo criativo. Esta é a realidade do
virtual. Como diz P. Lévy "o virtual está
assimilado a um problema assim como o atual a uma
solução".
Estamos longe da concepção de um virtual destruidor da
realidade humana que, como um vasto útero
irresponsável, abrigaria todas as ilusões e fugas de um
real doloroso e indesejável.
Quando o virtual está assim concebido, como potência
dinâmica, opondo-se ao atual e não ao real, podemos
admitir, por exemplo, sem maiores objeções, algumas
concepções de especialistas que afirmam serem os
encontros sexuais na internet apenas uma maneira nova de
as pessoas se relacionarem sexualmente, e que não é nem
melhor, nem pior. Só diferente. Ou,
"informaticamente falando, que um vírus de
computador tenha vida, já que se auto-reproduz". Ou
que um "Ser Humano Virtual", atualmente em
formação nos grandes laboratórios de pesquisa
científico-médica, ultrapassando a apresentadora
cibernética de notícias Ananova, "terá um corpo
vivo, que respira, cujas células vão se replicar e
morrer e cujo sangue vai fluir quando for cortado".
"O Humano Virtual vai viver apenas dentro do
computador, mas o corte simulado vai provocar a mesma
enxurrada de reações fisiológicas experimentadas por
uma pessoa real". O "Ser Humano Virtual"
não será uma representação meramente visual de um
corpo humano, mas será um verdadeiro ciber-humano.
Não tenhamos medo desse novo caminho que a nós se
apresenta. O caminho do virtual não nos tira de nossa
"casa", apenas nos faz entender a "nova
morada do gênero humano".
Prof.
Lucília da Cunha Sotero Caio
Prof. Adjunta de Bioética na U. Santa Ursula
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