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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Psicanálise

 

ARTIGO

 

Namoro na Internet: Observações de um Psicanalista Internauta
Psicanalista Ricardo Fabião Gomes

EVOLUÇÃO DO ENCONTRO HUMANO?

A primeira resposta é otimista! É um “point” de encontro através da intimidade do lar e da telinha do P.C. (para os privilegiados) versus o exterior arriscado, mesmo nos: democráticos barzinhos com seus “torpedos” de abordagens diretas e fins imediatos; nos salões de danças organizados bem como nas festas encomendadas... para onde vai a espontaneidade?!

A segunda resposta é no estilo “Advogado do Diabo”. Poder-se-ia pensar no aumento de esquizoidia pelo isolamento provocado pela troca de mensagens solitárias. Mais o predomínio de imagem pictórica e virtual sobre o psiquismo humano (1). A minha amiga Inaura e experiente psicanalista nos diz: “Parece-nos que as conquistas tecnológicas realizadas, especialmente as mais recentes – o computador é o mundo virtual criado pela Internet, em vez de serem usados para o bem-estar social, estão contribuindo para a desorganização mental do ser humano. Sublinhando a afirmação da psicanalista Ana Maria Rizzuto, em seu trabalho “Amor en tiempo de computadora” concorda com a idéia de que “o terceiro milênio nos oferece o amor em tempo de computador, com pessoas virtuais, sem o calor de um corpo respirando ao nosso lado”. Concluí que “o vínculo que se estabelece através da Internet é um vinculo narcísico”. Trata-se, de uma relação selfobjetal – o tipo de vinculo mais primitivo que se pode estabelecer, em que o objeto só existe para satisfazer as necessidades do self. Não há espaço para o amor”.

Uma terceira resposta mais arrojada: maior liberdade ! Como assim? A dupla envolvida fica mais a vontade para prosseguir ou desistir do contacto virtual iniciado, buscando uma verdadeira liberdade de pensar democrático combatendo a falsidade, a escola do crime, desestimulando a violência e o sadismo... ajudando a desmontar “Os pequenos assassinatos” de que nos avisava Bretchet! A banalização do pior de nós, seres ainda humanos! Lançando mão de dois recursos: anonimato da telinha e o recurso do deletar. Sei que poderão contra-argumentar dizendo ser o anonimato a busca de uma companhia que não exige a revelação da nossa identidade, exagerando é um mundo em que a confiança e o amor não têm lugar. Até posso concordar! Porém, o anonimato é a parte inicial do processo, depois descontando. Entendo que tanto o anonimato inicial quanto o deletar são menos frustrantes do que as negativas face a face!

Uma quarta, uma quinta respostas estarão na discussão iniciada agora!

DESCRIÇÃO DA METODOLOGIA USADA

Metodologia etimologicamente significa procurar um caminho. Encontrei-o na captação do material como aparecia, ou seja, com - baixo nível de abstração. Juntei os dados do trabalho desta maneira, para depois buscar teorizar sobre eles - alto nível de abstração. De posse, de uma teoria voltar à realidade para testar, por acerto e erro. Isto constitui o método empírico, circularista proposto por Heinz Kohut (2) para a Psicanálise.

RITUAL DE ENTRADA

As principais páginas especializadas são: Almas Gêmeas; Perso Net; Par Perfeito; Amigos Virtuais; Cupido Net; Amor@AOL; Namoros; Ponto de Encontro; Cara Metade e CyberLove.

Um primeiro ponto é constituído pela importante escolha do “nick name” e a descrição das suas características. Numa primeira abordagem. Classifiquei assim:

· Imagem do que queria ser: Atena; Afrodite.

· Imagem do que é: Cibele; Gilda.

· Imagem condensada de si: Imaginativo

· Imagem diminutiva de si: Nome abreviado.

Um segundo ponto é a pessoa se inscrever ou não, no ICQ (“I seek you”). É um número, mais um ícone na tela do P.C., que penso dar um “status” na Internet brasileira. Suponho que seria algo como se fosse a de ser uma pessoa respeitável.

Um terceiro ponto é a escolha das fotos. Reveladora da pessoa. Uma saída do anonimato. Um dado a vir a confirmar sua personalidade.

Um quarto ponto, suas proposições. Delimitam o seu campo de interesses e trocas. Outro demonstrativo a compor o “puzzle” da sua personalidade, se formando para o Outro.

HIPÓTESES SOBRE A DINÂMICA INTERNA DA DUPLA DE INTERNAUTAS

Juntando destes dados, o internauta vai iniciando uma montagem da imagem do Outro em si. É a primeira etapa de um processo de interioridade. Processo ativo.

Parece-nos que é inevitável, quem sabe necessário, um processo de idealização do Outro, via e-mail.

Se, um outro passo é dado, como o contacto telefônico, mais um ELO que entra na configuração do Outro – a VOZ com suas naturais modulações.

Dentro da minha experiência, acho proveitosa a mesclagem de e-mails com contactos telefônicos, pois parece diminuir o processo de idealização, podendo sentir mais do Outro. Assim, se processando a inversão do processo de conhecimento!

PASSAGEM DO VIRTUAL PARA O REAL – O ENCONTRO !

Adrenalina pura! Explosão das libidos: narcísica e objetal com seus aspectos regredidos e evoluídos! Esperar para ver no que dá!

INEVITÁVEIS CONCLUSÕES

· Resgate do HUMANISMO, com busca de relações mais íntimas, mais verdadeiras com limites definidos;

· Incremento do romantismo;

· Aumento das ligações narcísicas e objetais dependendo da constituição da dupla;

· Companheirismo fortalecido.

RESUMO

O autor desenvolve seu trabalho calçado em seis pontos básicos: Evolução do Encontro Humano; Descrição da Metodologia; Ritual de Entrada; Hipóteses sobre a dinâmica interna da dupla de internautas; Passagem do Virtual para o Real – O Encontro!

Desenvolve as “Inevitáveis Conclusões”, apoiado na metodologia Kohutiana.

Finalmente, apresenta suas referências bibliográficas como é de praxe.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CARNEIRO LEÃO, Inaura (1999) – Reflexões psicanalíticas sobre a influência das imagens pictóricas e virtuais no final deste milênio. Apresentando no Núcleo Psicanalítico de Fortaleza, em 19 de Fevereiro de 1999.

2. KOHUT, Heinz (1978) – “Introspection, Empathy and Psychoanalysis : An Examination of the Relationship Between Mode of Observation and Theory” in The Search for the Self. Vol I: 205-232. Int. Univ. Press, Inc. New York. (1978).

Psicanalista Ricardo Fabião Gomes
Médico psiquiatra, psicogeriatra e fundador do Centro de Estudos Avançados em Relações Humanas – CEARH


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