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| Da
identificação Imaginária à Identificação
Simbólica no Caso do Sr. Z |
| JOHN
P. MULLER |
In:
DOUGLAS W. DETRICK & SUSAN P. DETRICK (Ed.) -
Self Psychology: Comparisons And Contrasts. The
Analytic Press, Hillsdale, NJ, 1989
TRADUÇÃO: Pedro Henrique Bernardes Rondon |
Ao comparar a obra de Kohut com a
teoria e a prática de seus contemporâneos, terminamos
esbarrando com a obra do psicanalista francês Jacques
Lacan. Não apenas as vidas dos dois se sobrepõem -
ambos tendo falecido no mesmo ano - mas também suas
obras mostram notáveis correspondências, ao menos à
primeira vista. Os dois eram analistas praticantes que se
basearam em sua experiência para oferecer uma crítica
reformista da corrente principal da psicanálise,
especialmente da psicologia do ego. Ambos criticaram a
idéia de fazer do ego o critério de verdade e de
realidade - Kohut ao focalizar a noção de
"self", e Lacan ao aperfeiçoar uma estrutura
menos acessível de "sujeito do inconsciente".
Os dois homens enfatizaram a angústia de desintegração
e colocaram os fenômenos especulares na primeira linha
dos processos de identificação que moldam a
experiência subjetiva. Ambos desafiaram a noção aceita
da "resistência" do paciente e, no lugar dela
insistiram na importância clínica do reconhecimento. Os
dois criticaram o tipo de formação proporcionado pelos
institutos psicanalíticos e igualmente criticavam a
"moralidade terapêutica de maturidade ou de
realidade" reforçada por essa formação (Kohut e
Wolf 1978, p. 423) . Na caracterização geral que
fizeram da existência contemporânea, Kohut e Lacan
empregaram a figura do "homem trágico" (Kohut
1984, pp. 45, 208-209; Lacan 1953, p. 16; 1959-60, p.
361). Finalmente, embora ambos agissem a partir de uma
postura reformista, cada qual insistia em sua própria
ortodoxia. Conquanto Kohut (1984) ofereça "uma nova
definição da essência do self e uma nova
conceituação de seu desenvolvimento estrutural"
(p. 8), ele sustenta que seu ponto de vista está
"firmemente assentado no centro da tradição
analítica, que está na corrente principal do
desenvolvimento do pensamento psicanalítico" (p.
95). Lacan (1977), crítico dos néo-freudianos, repete
que seu esforço consiste de um "retorno a
Freud" e aos fundamentos da psicanálise (p. 117).
Lacan nunca abandonou essa afirmação, mesmo que tenha
sido considerado renegado pela maioria dos analistas
depois que ele foi excluído da IPA, em 1953 (Turkle
1978).
O inconsciente freudiano, segundo Lacan
(1977) é "estruturado da maneira mais radical como
uma linguagem" (p. 234): o inconsciente, como o
outro da consciência, como intruso no discurso racional,
é uma articulação governada não por instintos
biológicos, mas por modalidades lingüísticas gerais.
Freud (1900 a) descreveu como o trabalho do sonho segue
os dois princípios reguladores de condensação e
deslocamento; Lacan (1977, p. 160, 258), aplicando a
lingüística estrutural de Saussure (1916) e Jakobson
(1956), reinterpreta os dados de Freud em termos de
substituição metafórica e combinação metonímica
(ver também Muller e Richardson 1982). Mas a
articulação inconsciente, preservada no recalcamento e
insistentemente repetida em sintomas e parapraxias,
inscreve-se de uma maneira que é estrangeira ao ego
consciente. Portanto, o inconsciente é o "discurso
do Outro" (Lacan 1977, p. 172) e o desejo humano é
"o desejo do Outro" (pp. 264, 312).
O OUTRO
O Outro, com O maiúsculo, não é uma pessoa individual
(embora o Outro freqüentemente seja projetado em
indivíduos), nem é uma espécie de universal, como
"O outro generalizado" de Mead (1925, p. 193).
Para Lacan (1956) o Outro é um campo, "o próprio
fundamento da intersubjetividade" (p. 35), marcando
o lugar no qual estrutura e significado se tornam
possíveis. Lacan ilustra isso com uma anedota contada
por Freud: "Por que você está mentindo para
mim?", pergunta aflito um dos personagens.
"Sim, por que você está mentindo para mim, dizendo
que vai para a Cracóvia, de modo que eu pense que você
vai para Lemberg, quando na realidade você está indo
para a Cracóvia? (p. 36; Freud 1905, p. 115). Para que
essa anedota tenha sentido, o ouvinte tem que ir além
das próprias palavras, além de seu significado literal,
e também além dos próprios personagens que falam,
passando a uma outra dimensão ou posição além das
palavras e dos personagens que falam, a um campo que
estrutura de maneira significativa as palavras e os
personagens que falam. Compreendendo essa anedota
afirmamos o estatuto do Outro não como uma outra pessoa
numa relação Eu-Tu, mas o Outro como o terceiro
estrutural que dá perspectiva a qualquer relação
Eu-Tu, o Outro como lugar potencial para situar-se e
julgar a verdade de qualquer contrato de duas partes.
Lacan lembra-nos de que o próprio fato de que é
possível mentir é uma afirmação dessa terceira
posição, porquanto mentir exige que aquele que fala
leve em conta a perspectiva da verdade, a perspectiva
proporcionada pelo Outro. Por essa razão Lacan (1977)
refere-se ao Outro como "fiador da Boa-Fé" (p.
173) e "testemunha da Verdade" (p. 305).
Essa referência ao Outro ressoa com o
emprego que Freud fez da expressão de Fechner, ein
anderer Schauplatz (uma outra cena), para descrever onde
os sonhos ocorrem e como referência geral ao
inconsciente (Freud 1900a, p. 48; 1900b, p. 50-51). Como
"discurso do Outro" que o transcende, o
inconsciente articula aquilo que é recebido de outro
lugar e aquilo que é recebido primariamente é o
"desejo do Outro". O desejo, como veremos,
surge num contexto intersubjetivo estruturado pelo Outro,
pelo campo da linguagem e do inconsciente. Lacan (1977)
escreve que ë "como desejo do Outro que o desejo do
homem encontra uma forma" (p. 311), isto é,
"é qua [enquanto] outro que ele deseja" (p.
312). Na matriz da relação mãe-bebê, o desejo do
indivíduo encontra sua forma, torna-se inconscientemente
estruturado pelo - e como - desejo de um outro, e essa
identificação do desejo do indivíduo com o de um outro
nunca poderá ser completamente dissolvida, é o
dinamismo expressado em repetição, e persiste conforme
é estruturado pelos significantes.
Lacan ilustra a descoberta freudiana
por meio de círculos excêntricos, círculos cujos
centros não coincidem e que não podem ser englobados e
unificados por um círculo maior com um único centro.
Ele adverte que "se ignorarmos a radical
excentricidade do self em relação a si mesmo com a qual
o homem é confrontado, em outras palavras, a verdade
descoberta por Freud, estaremos falsificando tanto a
ordem quanto os métodos da mediação
psicanalítica" (p. 171). Não podemos mediar essa
divisão como analistas se acreditamos que o paciente
pode tornar-se uma "pessoa total" ou um
"self completo". Lacan se opõe "a
qualquer referência a totalidade no indivíduo" (p.
80), porque o in-divíduo não pode ser concebido dada a
divisão introduzida pelo "sujeito do
inconsciente" (pp. 128, 299). Assim Lacan insiste em
que a "radical heteronomia que a descoberta de Freud
mostra formando uma lacuna dentro do homem nunca mais
poderá ser coberta sem que o que quer que seja empregado
para esconder isso seja profundamente desonesto" (p.
172).
FRAGMENTAÇÃO E ESPELHAMENTO
Como é, então, que a consciência vivencia a si mesma
como uma unidade, como coesiva, em vez de fragmentada?
Lacan (1977) afirma que a fonte de uma tal experiência
está na formação do ego naquilo que ele chama de
"estágio do espelho" do desenvolvimento da
criança. Foi o psicólogo francês Henri Wallon (1934)
que chamou a atenção de Lacan para os fenômenos
especulares. A ênfase dada desde o início por Wallon
(1921, 1931; ver também Voyat 1984) à precocidade
visual e à sociabilidade do infante deixou bem claro que
não existe narcisismo primário inicial ou período
autista da infância (Lacan 1938). O infante humano nasce
num ambiente social lingüísticamente estruturado no
qual sua consciência de "eu" é moldada por
aquilo que ele toma a si mesmo como sendo como objeto do
desejo da mãe. Começando in utero como objeto das
fantasias da mãe (Ver Eecke 1984, p. 76; ver também
Kohut e Wolf 1978, p. 416), o recém-nascido visualmente
precoce avança em direção à diferenciação
psicológica através do processo de identificação com
a imagem do corpo humano total como uma Gestalt. Lacan
(1953) afirmava que entre oito e dezoito meses de idade o
infante se torna capaz de reconhecer seu reflexo num
espelho (para dados experimentais, ver Muller 1982) e que
o efeito decisivo desse reconhecimento e dessa
identificação é a constelação de uma estrutura
formal que ele chama de ego.
Na apresentação visual da forma humana (seja num
espelho de verdade ou no olhar especular da mãe) , o
infante capta a visão de uma coerência, unidade e
domínio que contrasta com sua própria falta de
coordenação motora e com o desamparo ocasionado por seu
nascimento necessariamente prematuro . A forma humana
como uma Gestalt unificada cativa o interesse do infante
e fica associada àquilo que ele percebe como agradável
à mãe. Inaugura-se uma dialética social na qual aquilo
que é desejável torna-se desejável precisamente porque
é desejado por um outro e serve para reforçar o
estatuto do indivíduo como desejável para um outro. Em
outras palavras, os processos de espelhamento conduzem ao
assentamento de identificações, não apenas entre o ego
e sua própria imagem, mas também entre o ego e os
objetos do mundo. O ego toma sobre si mesmo, a partir do
espelho, os atributos de coerência, substancialidade e
permanência e, por sua vez, projeta esses atributos de
si mesmo nos objetos do mundo. O ego lacaniano é
precisamente aquilo que Freud (1923) descreve como sendo,
a saber, "primeiro e antes de tudo um ego
corporal" e "a projeção de uma
superfície" (p. 26). Isto é, o ego surge com a
imagem do corpo para formar um plano projetado, a grade
fundadora da consciência. Esta grade estabelece a
consciência de self como um palco no qual um
"eu" coordena a seqüência narrativa da
experiência, um palco no qual esse "eu" cria
representações que distorcem a experiência porém
intensificam o sentido que o indivíduo tem de domínio e
de eficácia ao exagerar sua própria importância e,
conforme é repetidamente verificado pelo trabalho
experimental dos psicólogos sociais, minimizando as
contribuições positivas de outros (ver Muller 1986).
Lacan (1961-1962) enfatiza determinadas
conseqüências desse processo de identificação
especular. Uma vez que esquerda e direita estão
invertidas, o reflexo é distorcido (p. 471). Uma vez que
tem lugar antes que o infante tenha papel ativo no ato de
criar significação através do discurso, o processo é
compulsório: o infante é capturado por sua imagem que
atrai seu investimento narcísico. Porém, uma vez que
essa imagem vem a ele provindo de um outro, e é
percebida como estando "lá fora" como um
outro, persiste alguma confusão acerca de identidades.
Lacan (1977) escreve que até cerca de dois anos e meio
de idade as crianças exibem aquilo que, seguindo
Charlotte Bühler e a "Escola de Chicago",
chama de comportamento transitivista (1977, p. 17). Neste
período confuso o bebê, identificando-se com a imagem
do corpo de um outro, vai chorar ao ver uma outra
criança caindo ou sendo espancada, como se ele próprio
estivesse sofrendo o choque.
Neste estágio do desenvolvimento do
ego a criança está aprendendo a manejar a agressão
competitiva e a manter a auto-estima. Para Lacan o ego
representa um papel dinâmico na estruturação de um
sentido de identidade imaginária com unidade e
coerência, exatamente porque sem sua armadura defensiva
a criança vai vivenciar fragmentação corporal, uma
experiência de corps morcelé [corpo despedaçado], o
corpo em pedaços. Para evitar essa perda de coerência o
ego vai lutar para fortificar sua posição de domínio
contra ameaças provenientes tanto de dentro quanto dos
outros. Ao identificar-se com os desejos parentais e os
de outros adultos, o ego utiliza a negação, o
recalcamento e a projeção para evadir-se de seu
próprio desejo. Contrariamente à afirmação de Coen
(1981) (que critica Kohut) de que manter a coesão
"não é uma motivação predominante para o
comportamento" (p. 404), quando vivencia um ataque a
sua própria coesão ou a sua proeminência, o ego
mobiliza em seu contra-ataque fantasias de corpo
fragmentado do outro. Para Kohut (1984) a agressão
"sempre é mobilizada por um ataque ao self"
(p. 116). Semelhantemente, para Lacan (1938) a agressão
é "secundária à identificação" (p. 39) e
é um correlato estrutural do ego; ele (Lacan 1977) a
define como "a tendência correspondente a um modo
de identificação que chamamos de narcísico" (p.
16). Quando o investimento narcísico na imagem coesiva
do próprio indivíduo é ameaçado pelo outro,
transforma-se num esforço para fragmentar o outro. A
agressividade, portanto, não pode ser controlada pelo
fortalecimento do ego, pelo reforço do ego ideal, mas
sim, de preferência a isso, pelo desvio do foco para
"a função pacificadora do ideal do ego" (p.
22), através da "identificação edipiana" que
é "aquela pela qual o sujeito transcende a
agressividade que é constitutiva da individuação
subjetiva primária" (p. 23).
IDENTIFICAÇÃO E IDEAL DO EGO
Antes de avançarmos com o pensamento de Lacan acerca a
"identificação edipiana", temos que admitir
que a noção de identificação propriamente dita
propõe imensas dificuldades. Conforme Widlocher (1985)
observa, "Em psicanálise identificação é um
conceito confuso; e isso provavelmente vai continuar
sendo assim por muito tempo ainda" (p. 31). Essa
confusão é especialmente notável a propósito do
conceito de "identificação primária", que
"de fato é tudo menos clara" (Etchegoyen 1985,
p. 5). Neste caso, a confusão psicanalítica parece
apoiar-se na complexidade da história da própria
palavra. Na Compact Edition of the Oxford English
Dictionary (1971) lemos que identificação é "a
ação de identificar ou o fato de ser identificado"
(p. 1368). Seguem-se duas definições: 1) o ato de
fazer, considerar, ou tratar uma coisa como idêntica a
... outra, ou de duas ou mais coisas como idênticas
entre si...; 2) a determinação de identidade; a ação
ou o processo de determinar o que uma coisa é; o
reconhecimento de uma coisa como sendo aquilo que ela é.
Assim, identificação significa
igualmente estar numa relação de identidade com ou de
semelhança com outra, e ser determinado ou reconhecido
como sendo separado, como sendo aquilo que se é. A
palavra "identidade" deriva de uma palavra do
baixo latim identitas , que é "peculiarmente
formada a partir de ident (i)-, por meio de [termo
latino] idem, isto é, 'o mesmo' + -tas, -tatem".
Seu significado é dado como a "qualidade ou
condição de ser o mesmo ... essencialmente o mesmo;
unidade ... a condição ou fato de que uma pessoa ou
coisa é ela mesma e não outra coisa". É-nos dada
uma nota explicativa a propósito da origem da palavra
"identidade" a partir do latim idem:
"Diversas sugestões têm sido dadas quanto a essa
formação. Evidentemente foi sentida a necessidade de um
nome para a condição ou a qualidade de idem para
expressar a noção de 'mesmidade', lado a lado com as
noções de 'semelhança' e de 'unidade' expressadas por
similitas e unitas: daí a forma do sufixo". Toda a
confusão psicológica de unidade, de mesmidade e de
semelhança está embrulhada na história da própria
palavra, e Lacan, portanto, começa aqui a tentar fazer
sentido do conceito de identificação.
Ele inicia com a raiz latina idem e então considera a
raiz indo-européia em, encontrada, por exemplo, na
palavra francesa que significa "mesmo", même.
Considera então identificação do ponto de vista de
reconhecer alguém, de dizer que ele é o
"mesmo", a própria pessoa que o tomamos como
sendo. Postula que uma tal "identidade" do
sujeito se baseia num significante, um nome, não numa
aparência ou numa consciência de continuidade. A
"identificação primária" é alcançada
através da nominação, através do uso de um
significante. Esta forma de identificação é a
identificação simbólica, é o processo por meio do
qual o indivíduo é identificado por um símbolo e de
fato é designado como "um" apenas através do
emprego de um significante (logo voltaremos a isto). Essa
identificação simbólica também é operativa quando a
identidade do indivíduo é constelada por outros
significantes, atribuídos pelos pais de maneiras
especificamente designadas. Todos somos assujeitados a
essas palavras na infância, e elas estruturam uma
espécie de mapa simbólico inconsciente do desejo, que
Lacan denomina ideal do ego. É o ideal do ego que dá ao
indivíduo a capacidade de canalizar o desejo, e Lacan
contrasta-o com o ego ideal que, lutando pelo domínio
competitivo, resiste quanto a assumir o desejo do
indivíduo. O ego ideal é resultado de uma
identificação imaginária, uma identificação com a
imagem sustentada pela consciência como reflexo do
espelho ou do olhar especular de um outro. Na
identificação imaginária, estabelece-se uma relação
dual, baseada numa semelhança na qual um dos pólos, ou
ambos, são idealizados, inflando o ego. Essa
identificação imaginária não pode ser primária uma
vez que ocorre somente no início do estágio do espelho
e em geral segue-se às decisivas conseqüências da
nominação e da especificação de parentesco.
Na visão de Lacan (1977), a
edipificação do sujeito não estimula o conflito, mas
sim, de preferência a isso, gera estrutura. Se o papel
da mãe na gênese do sujeito é envolver o desejo,
então o papel do pai é estruturar o desejo e
individuá-lo simbolicamente por meio da ação daquilo
que Lacan chama de "metáfora paterna" (p.
199). Na metáfora um significante substitui outro que
continua operativo num estado de recalcamento. Na
"metáfora paterna" o nome do pai é o
significante da ordem simbólica, cujas conseqüências
são a proibição do incesto, o fim da relação dual e
a introdução do terceiro. Esta estrutura de
simbolização propriamente dita substitui a fusão de
desejos associada com aquilo que Lacan chama de
"falo". O falo, imagem daquilo que é imaginado
como faltando na mãe, é aquilo que o infante se torna
para a mãe na identificação imaginária. Com a
estrutura da metáfora paterna, o infante
"desiste" de ser o falo, e este fica então
recalcado como significante geral do desejo do outro.
Recalcado, ele continua a funcionar, porém agora
precisamente como significante em redes associativas
inconscientes de significantes que seguem as leis de
deslocamento e condensação. Em conseqüência, a
criança se torna sujeito, não simplesmente da
linguagem, mas do desejo, e não é mais apenas objeto do
desejo da mãe ou do pai, identificado de maneira
imaginária com o desejo deles. Agora a criança pode
simbolizar e vivenciar a ausência do genitor como
sujeito desejante. Mas a própria possibilidade de
identificação imaginária, de vivenciar a si mesmo como
completo e como objeto completo do desejo do outro,
baseia-se na identificação mais fundamental de si mesmo
como um. Ser identificado com um nome como este é ser
colocado numa rede simbólica que destaca o indivíduo
precisamente como não sendo alguém mais. Relações de
parentesco, papéis sexuais, status social, obrigações
prescritas e oportunidades, tudo isso se baseia naquilo
que Lacan (1954-1955), seguindo Lévi-Strauss, chama de
"ordem simbólica" (pp. 29, 326).
A ORDEM SIMBÓLICA E O SIGNIFICANTE
O significado de "ordem simbólica"
emerge mais claramente quando é compreendido em
relação àquilo que Lacan oferece (e muitos afirmam que
esta é sua principal contribuição teórica) como os
três "registros", ou dimensões, da
experiência: o imaginário, o real e o simbólico. Até
este ponto focalizamos primariamente o registro
imaginário, ou aquele aspecto da experiência
estruturado por meio da semelhança dual, das
correspondências ponto a ponto, dos reflexos
especulares. Aqui o foco está na atração da
semelhança, no gostar ou ser gostado por causa de uma
semelhança, no embelezamento narcísico, na exibição
ostentatória, na competição e na comparação. O
registro imaginário inclui aquilo que é próprio à
imagem, o jogo prazeroso de luz e som que atrai nosso
interesse e que constitui muito daquilo que chamamos de
"realidade'" e que é preciso distinguir
daquilo que Lacan chama de "real".
O registro do real é aquilo que vez
por outra encontramos horrorizados, como sendo aquilo que
não tem nome. Surge no colapso da tecnologia, como
intrusão da perda de sentido, a catástrofe repentina, a
morte, assim como no momento em que a nave espacial
Challenger explodiu diante dos olhos de milhões de
pessoas, ou quando centenas de milhares de pessoas foram
atingidas pelo gás venenoso em Bopal . O real é aquilo
que resta quando as imagens e os símbolos recortam os
objetos da experiência, uma margem não apenas daquilo
que "não pode ser decidido", mas daquilo que
não pode ser simbolizado ou imaginado. Somos levados a
essa borda ou margem na obra do pintor alemão Anselm
Kiefer quando ele utiliza processos de negação para
articular os horrores indizíveis do nazismo. Em geral as
imagens e as palavras proporcionadas pela nossa cultura
protegem-nos do contato com o real, mas nos estados
psicóticos os pacientes freqüentemente chegam à borda
do real; e a experiência de ser ligeiramente
enlouquecido por pacientes psicóticos é uma resposta à
tentativa que eles fazem no sentido de levar o tratamento
até essa borda, de modo que possam traçar alguma
espécie de limite aí, de modo que possam colocar algum
marco naquela fronteira (Muller 1987).
O marco que destaca o real, que
"introduz a diferença propriamente dita no
real" (Lacan 1961-1962, p. 78) é o significante,
termo semiótico que Lacan toma de Ferdinand de Saussure,
o suíço fundador da moderna lingüística estrutural.
Saussure (1916) fez uma distinção básica entre
discurso e linguagem, insistindo em que o discurso é um
ato psicomotor individual, enquanto linguagem é um
sistema de signos que possibilita o discurso. O signo
lingüístico é composto pela junção de um
significante e um significado, sendo o significante uma
imagem-som fonética, e o significado, um conceito.
Saussure chamava atenção para o fato de que
significante e significado só estão relacionados por
uma convenção, isto é, arbitrariamente, sem conexão
intrínseca. Insistia também em que cada um deles, por
si mesmo, é desprovido de substância positiva mas, mais
do que isso, funda-se exclusivamente na sua diferença
quanto às outras unidades do sistema lingüístico:
Tudo o que foi dito até este ponto
reduz-se a isto: em linguagem só há diferenças. Mais
importante ainda: uma diferença em geral implica termos
positivos entre os quais a diferença é estabelecida; em
linguagem, porém, só há diferenças sem termos
positivos. Quer tomemos o significado ou o significante,
a linguagem não tem nem idéias nem sons que existissem
antes do sistema lingüístico, mas apenas diferenças
conceituais e fônicas que manaram do sistema. A idéia
ou substância fônica que um signo contém tem menos
importância do que os outros signos que o rodeiam [p.
120].
Dizendo de outro modo, a linguagem é uma forma e não
uma substância... É preciso insistir muito nesta
verdade, pois todos os erros da nossa terminologia, todas
as nossas maneiras incorretas de nomear coisas que fazem
parte da linguagem, provêm da suposição involuntária
de que o fenômeno lingüístico deve ter substância [p.
122].
Este "aspecto distintivo" do significante, o
fato de que é estabelecido dentro do sistema não como
identidade mas como diferença, é que distingue o
registro simbólico do registro imaginário, por um lado
- dominado como é pelas identidades especulares - e, por
outro lado, do registro do real, onde não há
diferenciação. Essa noção de significante sem
substância como identidade-na-diferença encontra na
música sua expressão primordial: uma nota isolada não
tem "significação" em si mesma, ela deriva
seu valor exclusivamente da diferença que há entre ela
e as demais notas da escala. Certa vez ouvi um
psicanalista japonês descrever isso ainda mais
sucintamente quando disse que a música fica em silêncio
entre as notas.
O SUJEITO DO INCONSCIENTE
Os americanos (e outros) encontram grande dificuldade
nessa noção de pura diferença empregada para definir o
sujeito. Como vimos, Lacan distingue nitidamente ego de
sujeito e situa o Kern unseres wesens de Freud, aquilo
que Kohut (1984) semelhantemente chama de "o núcleo
do nosso ser" (p. 140), não na consciência, mas no
nível do sujeito. Isto, porém, significa que não
estamos lidando apenas com aquilo que Lacan (1954-1955)
chama de "sujeito sem cabeça" (p. 167; ver
também Richardson 1983), mas um sujeito sem substância
positiva. O sujeito do inconsciente, o sujeito da
psicanálise, não é constituído de atributos
positivos. De preferência a isso, ele recebe sua
identidade através de um processo de identificação
simbólica por meio do qual é designado como um. Essa
identificação simbólica é alcançada através da
diferenciação significante, concretizada pela
atribuição de um nome próprio. Lacan (1961-1962)
afirma que "nomear é, primeiro do que tudo, algo
que tem a ver com a leitura da marca unária que designa
a diferença absoluta" (p.148). Essa
identificação, esse "traço unário", não é
baseada em diferenças qualitativas ou em conteúdos que
possam ser representados. As representações de self e
de objeto (como as que são utilizadas, por exemplo, na
teoria de relações objetais) são secundárias a esta
identificação mais fundamental baseada na diferença
significante "a identificação inaugural do sujeito
com o significante radical [ou raiz]" (p. 38).O que
parece estar em jogo aqui é a afirmação de uma base
estrutural para a singularidade, e Lacan encontra-a no
significante: "É como pura diferença que a
unidade, em sua função significante, é estruturada, é
constituída" (p. 58). Esta unidade marca o sujeito
como um, e esta marca, dada com o seu nome, é quase nada
determinada por qualquer característica qualitativa. Ser
simbolicamente marcado dessa maneira como "um",
é condição necessária de possibilidade para o sujeito
se diferenciar dos outros, e especificamente para se
distinguir do campo do desejo da mãe.
Lacan liga essa visão da
identificação simbólica ao segundo tipo de
identificação de Freud (1921a). Freud escreve que com
este segundo tipo "a identificação apareceu no
lugar da escolha de objeto, e que a escolha de objeto
regrediu para a identificação" (p. 106-107). Em
outras palavras, a identificação ocorre no lugar do
objeto perdido, e essa identificação é "a forma
mais antiga e original de ligação emocional" (p.
107). Pode ocorrer em relação a alguém que é amado ou
a alguém que não é amado, mas "nos dois casos a
identificação é parcial e extremamente limitada e
somente toma emprestado um único traço [einen einzigen
Zug] da pessoa que é seu objeto" (Freud 1921a, p.
107; 1921b, p. 117). Lacan toma como ponto de partida a
expressão de Freud einen einzigen Zug como sendo
sugestiva de um único traço - em francês un trait
unaire - basicamente apenas uma linha ou uma marca. Ele
busca a origem dessa marca seguindo a pesquisa
lingüística de Leroi-Gourhan (1964, pp. 262-264), nos
cortes ou entalhes feitos em ossos há mais de 35.000
anos, talvez para indicar um numa série de uns, servindo
para contar matança de animais ou fenômenos
astrológicos (ver também Harris 1986). O emprego desse
traço ou marca, Lacan especula, deu origem à
experiência da temporalidade segmentada, da
seqüencialidade narrativa, e a limites objetais firmes.
Esse traço ou marca é um significante e, como tal, tem
seu estatuto no Outro, "o lugar do
significante" (Lacan 1977, p. 310), o campo
semiótico; e porque essa marca deu a primeira, radical
estrutura ao sujeito, ela é "a fundação, o
núcleo do ideal do ego" (Lacan 1964, p. 256). Ao
ser designado um, o indivíduo é afirmado como não
sendo algo ou alguém mais. À estrutura psicótica
parece faltar essa marca, e portanto encontramos limites
borrados e fusão com um Outro cósmico na psicose. Por
fim, a designação ou marca de "um" apoia-se
num ato de escrita, diz Lacan, mas isso nos levaria muito
longe da tarefa a que nos propusemos, embora seja muito
interessante ver Lacan atracando-se com a relação entre
discurso e escrita, como mais tarde viria a fazer Derrida
(1967).
O CAMPO ANALÍTICO
O efeito dessa marca "unária" não é
unificar, mas antes tornar único. A unificação
permanece como uma ilusão do ego. Por insistir em que a
divisão sujeito-ego não pode nunca ser curada, Lacan
(1977) rejeita um modelo de análise de duas pessoas,
"o campo que nossa experiência polariza numa
relação que é apenas aparentemente de mão dupla, pois
qualquer postulação de sua estrutura em termos
meramente duais é tão inadequada a ela na teoria quanto
é ruinosa para sua técnica" (p. 56). Em vez disso
Lacan oferece uma estrutura de quatro cantos (pp.
139,193), como se segue: Posição 1, o canto do sujeito,
localiza o paciente como barrado ou dividido dentro de si
mesmo, isto é, como irremediavelmente cindido pelo
recalque e portanto incapaz de pleno conhecimento quanto
a quem ele é, quanto ao que está dizendo realmente,
quanto a por que há esse sintoma. Posição 2, o canto
do Ego, é o lugar do ego do sujeito como refletindo o
chamado mundo objetivo, mas especialmente refletindo
outros egos. A Posição 3 marca o lugar dos outros egos,
e especificamente do ego do analista que o ego do
paciente tenta seduzir e manter num reflexo especular
consigo mesmo. Na Posição 4, Lacan situa aquilo que
chama de "Outro" e de onde "o discurso do
Outro" pode ser articulado. Aqui o analista como
sujeito ressoa com os aspectos sonoros e gestuais, assim
como temáticos, do discurso do paciente dos quais

este não se dá conta. O discurso do
Outro é a maneira pela qual Lacan chama atenção para o
modo pelo qual a linguagem, como diferente de, como mais
largo do que, como irredutível à, consciência
individual de qualquer um que fale, já estruturou a
experiência humana e, portanto, já canalizou o desejo
humano. Como vimos anteriormente, o discurso do Outro é
aquela estruturação semiótica do desejo que Freud
descobriu em sua análise de sonhos e de sintomas como
sendo o inconsciente. Lacan sustenta que porque o
inconsciente é estruturado como uma linguagem, os
efeitos do inconsciente podem ser compreendidos e
interpretados. A Posição 4 portanto proporciona uma
perspectiva sobre o que está acontecendo ao desejo do
sujeito em seus sintomas, bem como o que está
acontecendo entre os dois indivíduos quando eles se
relacionam como egos, quando o chamado relacionamento
real entre paciente e analista se desenvolve.
Este "relacionamento real" Lacan chama de
"relação imaginária", marcada de ambos os
lados pelo narcisismo e pela ilusão, um efeito de
espelhos. Neste eixo que liga o ego do sujeito e o ego do
analista podemos observar todas as variações emocionais
daquilo que Lacan denomina haine-amouration, um
enamoramento, isto é, um relacionamento amor-ódio.
Competição, coerção, luta pelo poder, sedução e
identificação imaginária são buscadas neste eixo de
relações objetais. Segundo Lacan a ênfase americana no
fortalecimento do ego, no encorajamento do ego do
paciente a amoldar-se ao ego do analista e a
identificar-se com este, marca uma traição fundamental
a Freud e ao lugar do Outro, levando à perda de
perspectiva a propósito do sujeito do inconsciente, o
sujeito como distinto do ego. Esta ênfase americana em
conseguir que o paciente se identifique com o analista,
com o analista como modelo para o paciente, tem longa
tradição aqui e ainda está sendo mantida como objetivo
do tratamento na corrente principal dos trabalhos
escritos psicanalíticos americanos (ver exemplos em
Muller 1985).
Kohut (1984) parece pouco à vontade com a noção de
identificação, referindo-se a "identificação
grosseira" quando a questão é levantada (pp.
101,169; ver também pp. 100, 160). Pode ser proveitoso
introduzir no arcabouço kohutiano a distinção feita
por Lacan entre identificação simbólica pelo Outro e
identificação imaginária com um Outro, com uma imago
do Outro ou com uma imagem sustentada pelo Outro. A
identificação imaginária reforça a similitude e
restringe o campo do desejo numa relação especular,
enquanto a identificação simbólica estrutura a
diferença e abre o desejo para dentro do campo da
substituição e do deslocamento. Kohut parece fazer uma
distinção como essa, mas somente separando
"identificação grosseira" de
"internalização transmutadora". Assim, por
exemplo, ele descreve um paciente que "no fim de uma
longa análise durante a qual houve períodos de
identificação grosseira comigo, ... dizia: 'Agora só
sou semelhante a você em um aspecto: sou uma pessoa
independente exatamente como você'" (p. 169).O
paciente deixara de modelar-se como um reflexo ou uma
imagem do analista numa identificação imaginária para
assumir o estatuto de alguém que está simbolicamente
identificado pelo Outro e reconhecido dessa maneira pelo
analista.
O DESEJO DO OUTRO
Quando o reconhecimento é efetivo, é porque o desejo do
Outro foi reconhecido. O aspecto predominante da
estrutura psíquica não é a satisfação nem a
frustração de necessidades, mas o fenômeno do desejo;
portanto o desejo é o aspecto predominante da
transferência-contratransferência, como veremos no
tratamento do Sr. Z.
Como surge o desejo? Ao distinguir os três registros do
real, do imaginário e do simbólico, podemos seguir
Lacan e argumentar que pode haver uma distinção
paralela entre necessidade, demanda e desejo. As
necessidades são condições fisiológicas, enraizadas
nos tecidos e órgãos do organismo, e são imperativas:
alimentação, água, calor, ar, são essenciais para a
vida e não pode haver substitutos para elas - não
podemos viver de suas metáforas. Essas necessidades na
infância são atendidas por alguém que cuida do bebê
(habitualmente a mãe), que alimenta num sistema
cultural, familiar e intersubjetivo de trocas no qual
ambos, o bebê e a mãe, aprendem a associar as
expressões das necessidades do bebê com estados
orgânicos e psíquicos. Ritmo, toque, afeto e
responsividade mútua rapidamente se estabelecem, de
maneiras que são específicas à dada cultura, um
arcabouço semiótico de comunicação no qual a
linguagem está presente desde o início como
estruturante do mundo da mãe. Os gritos da criança logo
se tornam significantes, com o resultado de que as
necessidades da criança bem cedo são canalizadas
através "dos desfiladeiros da estrutura do
significante" (Lacan 1977, pp. 255, 309). Uma das
alunas de Lacan diz isso da maneira seguinte:
Quando a mãe responde aos gritos do infante, ela os
reconhece como constituindo uma demanda, mas o que é
mais momentoso é que ela os interpreta no nível do
desejo: desejo do infante de ter a mãe próxima a ele,
desejo de que ela lhe traga alguma coisa, desejo de
atacá-la, ou o que seja. O que é certo é que por meio
de sua resposta o Outro vai dar a dimensão do desejo
para o grito de necessidade, e que este desejo com que o
infante é investido é sempre inicialmente resultado de
uma interpretação subjetiva, uma função exatamente do
desejo da mãe, de sua própria fantasia (Aulagnier 1962,
p. 401).
Este desenvolvimento significa que se torna impossível
expressar diretamente necessidades ou responder
diretamente a elas. O estado de necessidade torna-se
parcialmente articulado quando é dirigido a um outro e
nessa forma significativa funciona como uma demanda. O
outro não pode mais responder ao estado apenas como
necessidade, mas deve responder a ele como uma demanda
articulada. Nesta resposta o outro vai necessariamente
apontar exatamente como está reconhecendo aquele que
está fazendo a demanda (como tendo direito a isso, como
adequada, como prazerosa, como detestável). Por sua vez,
a criança que faz a demanda vai obter, a partir da
resposta do outro, provas de amor e cuidados, evidências
de que o relacionamento afirma a criança como desejável
ou indesejável, e provas em contrário.
Com a constelação do ego, como foi discutido
anteriormente, a criança busca maximizar sua posição
como objeto que satisfaz tudo para o desejo da mãe. Isto
vai intrincar de tal maneira o desejo da criança com o
desejo da mãe que poderemos então falar de uma
identificação do desejo da criança com o desejo da
mãe. Esta identificação necessariamente tem lugar no
nível do inconsciente, de fato como parte do processo
por meio do qual o inconsciente é estruturado: "É
pelo viés do inconsciente do Outro que o sujeito faz sua
entrada no mundo do desejo, e ele vai ter que
inicialmente constituir seu próprio desejo como uma
resposta, como aceitação ou recusa de tomar o lugar que
o inconsciente do outro designa para ele" (Aulagnier
1962, p. 401). Uma identificação total como essa pode
ser sustentada pelas palavras e pelo comportamento da
mãe e, se for assim, vai absorver o desejo da criança,
consciente e inconscientemente, na ausência de alguma
efetiva intervenção de um terceiro. Este
"terceiro", para Lacan, é a presença, na vida
da mãe, de arcabouços socioculturais que contextualizam
e delimitam o papel da criança na vida dela e é
habitualmente realçado pela presença do pai que
idealmente lança os limites para a totalização
grandiosa do desejo.
Especificamente, é o "pai simbólico", ou
função do nome do pai, que lança os fundamentos para a
diferenciação, ao nomear a criança como ocupando um
lugar particular num sistema de parentesco. Como vimos,
essa nominação marca a criança como outro dentre todos
os outros, e sendo identificada dessa maneira a criança
tem a possibilidade estrutural de finalmente assumir seu
próprio desejo, de preferência a estar fundida no
desejo da mãe ou do pai. Esta identificação simbólica
então dá à criança a capacidade de mobilizar seu
ideal de ego como "mapeamento significante"
(Lacan 1964, p. 272) que então arrebata do ego ideal a
tarefa de limitar e canalizar o desejo do indivíduo
conforme as restrições da existência finita. É assim
que Lacan concebe a resolução edipiana, cujo resultado
é a "castração simbólica", estruturando o
sujeito como pluralisticamente relacionado (não mais
numa relação dual com a mãe), como sexuado (não mais
sendo o falo, mas em vez disso como tendo ou não tendo
um pênis), e como capaz de encontrar e combinar objetos
substitutos de desejo (em vez de reclamar a completitude
do desejo totalizado e não desejando de modo nenhum).
AS DUAS ANÁLISES DO SR. Z
Na minha leitura de "The Two Analyses of Mr. Z"
(Kohut 1979; a menos que seja diferentemente indicado,
todas as citações subseqüentes são deste texto), uma
leitura informada por minha leitura de Lacan, penso que o
desejo ocupou o lugar central tanto na história do Sr. Z
quanto no relacionamento de
transferência-contratransferência com Kohut.
Enfatizando dessa maneira a importância crucial do
desejo, estou-me baseando na teoria lacaniana do desejo,
dentro do espírito de Goldberg (1980), quando cita
Popper ao afirmar que "os fatos são interpretados
à luz das teorias; eles estão embebidos em teoria, por
assim dizer" (p. 91). Na primeira análise do Sr. Z,
apesar de sua resistência inicial, Kohut promove uma
identificação entre si mesmo e o Sr. Z, de modo que o
Sr. Z desvia seu desejo do desejo de sua mãe para o
desejo de Kohut. Ao identificar-se com Kohut em sua
primeira análise (designada daqui por diante como K1), o
Sr. Z reforça a posição de Kohut como aquele que é
suposto saber, tornando-o assim desejável e, por sua
vez, identificando-se com o desejo dele, o Sr. Z também
se torna mais desejável aos seus olhos. Esta
identificação de desejos constitui uma identificação
imaginária: baseia-se em que o Sr. Z se torne como o
modelo K1 dele. Kohut admite na segunda análise que o
comportamento modificado do Sr. Z é chamado corretamente
de "sucesso transferencial" (p. 16). Exatamente
como fizera quando seu desejo estava fundido com o desejo
de sua mãe, o Sr. Z mostra "uma atitude de
complacência e aceitação que ele agora restabelecera
em relação a mim e às convicções aparentemente
inabaláveis que eu sustentava" (p. 16). Kohut
escreve:
A melhora que resultou da primeira análise deve,
portanto, ser considerada essencialmente como um sucesso
transferencial. Dentro do setting analítico o paciente
se sujeitava às minhas convicções, apresentando-me
questões edipianas. Fora do setting analítico ele
correspondia às minhas expectativas suprimindo os
sintomas (as fantasias masoquistas) e modificando seu
comportamento que agora adotava uma aparência de
normalidade, conforme é definida pela moralidade de
maturidade com a qual eu concordava então (ele passou do
narcisismo para o amor objetal, isto é, passou a ter
encontros com moças). [p. 16].
Mas na segunda análise, Kohut (K2) não promove mais
essa complacência: ele se desvia de tentar ser
reconhecido para reconhecer o Sr. Z. Depois que o Sr. Z
desembaraça o seu desejo de K1 e de sua mãe, K2 promove
o processo de identificação simbólica no qual o ideal
de ego do Sr. Z pode ser afirmado e pode empenhar-se em
definir seu desejo como seu próprio.
Kohut enfatiza como inicialmente vira "o material
analítico inteiramente do ponto de vista da análise
clássica" (p.3), enquanto a segunda análise
ocorreu após seu desvio para "um novo ponto de
vista que, para dizer rapidamente, permitiu-me perceber
significados, ou a importância de significados, que
anteriormente eu não percebera conscientemente" (p.
3). Mas o que está em jogo nessa mudança não é apenas
uma questão de percepção, mas um desvio mais profundo
naquilo que Lacan designa como fulcro ético da
psicanálise, a saber, um desvio no desejo de Kohut, um
desvio não tanto em como ele pensa, mas em onde ele
deseja, e este desvio no desejo tem profundo impacto
sobre o paciente.
A identificação do Sr. Z com o desejo de sua mãe está
indicado por suas fantasias de ser escravo de uma mulher,
escravo sem nenhuma vontade própria, reforçadas na
infância por sua mãe que lia para ele em voz alta A
cabana do Pai Tomás - que começa com a ameaça de que
uma criança-escrava vai ser separada de sua mãe. De
fato a mãe do Sr. Z passou muito tempo "lendo para
ele, brincando com ele, conversando com ele, e tecendo
com ele fantasias acerca de como seu futuro seria" e
"na imaginação dela acerca dele como homem adulto,
ela sempre tinha tomado como certo que, por maior que
fosse seu sucesso na vida, o relacionamento deles nunca
se modificaria e ele nunca se afastaria dela" (p.
14).
À medida que a primeira análise se aproximou de final,
o Sr. Z pareceu relutantemente complacente com o desejo
do analista. A relutância ficou significada num sonho
que ocorreu cerca de meio ano antes do término da
primeira análise, sonho que Kohut viu como "o mais
significativo sinal de seu progresso": "... ele
estava numa casa, do lado de dentro de uma porta que
estava aberta apenas por uma fresta. Do lado de fora
estava o pai, carregado de embrulhos de presentes,
querendo entrar. O paciente estava intensamente assustado
e tentava fechar a porta para manter o pai do lado de
fora" (p. 8).
As associações do paciente apontaram para a época em
que o pai ausente voltou para a família, e teve também
"muitas associações referentes a experiências
presentes (incluída a transferência) e ao passado.
Nossa conclusão foi de que o sonho se referia a sua
atitude ambivalente em relação ao pai" (pp. 8-9)
e, portanto foi tomada como confirmação do tema de
angústia de castração proposto por K1. Mas de que é
que a ambivalência trata? Ouço o "embrulho de
presente" [giftwrapped] do sonho como "apanhado
numa armadilha de presente" [gift-trapped]: O Sr. Z
teme ser subornado e apanhado na armadilha do desejo do
pai/analista, assim como o fora no desejo de sua mãe.
Não é, como Ostow (1979) sugere, que "o paciente
veja o analista (assim como o pai) como um intruso em seu
apego à mãe" (p. 532), mas antes que ele sente que
o desejo K1 o está coagindo à submissão, como podemos
ler por nós mesmos:
E, tendo em vista a imagem global que eu formara sobre a
construção de sua personalidade e de sua
psicopatologia, eu salientei em minhas interpretações e
reconstruções especialmente sua hostilidade em
relação ao pai que voltava, o medo da castração
diante do homem forte, adulto; e, além disso, indiquei
sua tendência a retirar-se da competitividade e da
determinação masculina, fosse diante do antigo apego
pré-edipiano a sua mãe, fosse diante de uma atitude
homossexual passiva e submissa defensivamente adotada em
relação ao pai.
A coesividade lógica dessas reconstruções parecia
impecável e ... de acordo com ... preceitos que então
estavam firmemente estabelecidos em mim como linhas
mestras internas quase inquestionáveis quanto à
condução do meu trabalho terapêutico ... [Kohut 1979,
p. 9]
Aqui o desejo K1 é conseguir que o Sr. Z o reconheça
como aquele que sabe, que conhece não apenas a estrutura
de caráter do Sr. Z, mas também o que constitui
realidade e maturidade, e o Sr. Z finalmente se submete
agindo de acordo com o desejo de K1 . Inicialmente o Sr.
Z lutou para conseguir que o analista refletisse como um
espelho seus estados, mas no final, à medida que seu
desejo se desenredou do de sua mãe, ele se identificou
com o desejo de K1, mas correu o risco de sentir-se
apanhado numa armadilha novamente. Kohut sente que algo
está "errado" com o término porque este foi
"emocionalmente superficial e sem entusiasmo"
(p. 9). Mas esse estado seria congruente se, de fato, o
Sr. Z não tivesse vivenciado o término. Isto é, não
houve um corte entre eles, uma vez que o desejo do Sr. Z
continuou identificado, agora com o desejo de K1. Como
Lacan (1964) diz, "essa identificação imaginária
é meramente uma pausa, um falso término da análise que
muito freqüentemente é confundido com o término
normal" (p. 145). Isso também contribuiria para a
falta de entusiasmo e de "profundidade
emocional", visto que o Sr. Z não experimentou o
processo como sendo dele próprio, como a realização de
seu próprio desejo (Thompson 1985). Em suma, o Sr. Z
como sujeito não foi reconhecido na relação dual,
imaginária, entre as posições 2 e 3 do Esquema L de
Lacan.
A SEGUNDA ANÁLISE
Quatro anos e meio mais tarde O Sr. Z entrou em
contato com Kohut para retomar a análise. Nessa época
ele continuava a viver sozinho em seu próprio
apartamento, não tinha prazer em seu trabalho e tinha
uma série de casos com mulheres, mas sentia que suas
relações sexuais com elas eram insatisfatórias e
superficiais. Podemos ver que ele ainda não tinha
proclamado seu desejo como seu próprio e estava
começando a regredir a uma identificação com o desejo
de sua mãe: ele se sentia cada vez mais isolado
socialmente, exatamente como sua mãe ficara, um dos
sinais da grave alteração de personalidade que ela
sofrera, e que incluía um conjunto de delírios
paranóides circunscritos. Kohut (1979) ficou pensando se
o Sr. Z "estava se defrontando com a perda de um
objeto amoroso da infância que ainda não tinha sido
abandonado, ou com sentimentos de culpa por tê-la
abandonado" (p. 10), como se ela fosse o objeto de
seu desejo. De fato, conforme foi determinado mais tarde,
o Sr. Z sentiu alívio diante da crescente incapacidade
de sua mãe, uma vez que isso lhe permitia desenredar-se
do desejo dela ainda mais livremente.
O material da segunda análise pode ser dividido em duas
fases, "a preocupação quase exclusiva com a
mãe" e "pensamentos acerca de seu pai"
(p. 12; ver também p. 20, 21: "O Sr. Z afastando-se
de sua mãe e voltando-se para seu pai"). Como
vimos, o material acerca de sua mãe fora também
abundante na primeira análise; e na tentativa de
articular aquilo que era diferente a propósito de sua
emergência na segunda análise, Kohut enfatiza "que
entre a primeira e a segunda análises do Sr. Z a minha
visão teórica tinha-se modificado" (p. 12). Em que
consistia essa mudança? "Na primeira análise eu
tinha visto o paciente essencialmente como um centro de
iniciativa independente e, portanto, tinha esperado que,
com a ajuda dos insights analíticos que o tornariam
capaz de enxergar claramente o seu caminho, ele
abandonasse suas exigências narcísicas e
crescesse" (p. 12).
Com essa atitude Kohut acha que o Sr. Z pode optar por
orientar o seu desejo; ele vê "o persistente apego
do paciente a sua mãe como a ligação libidinal que ele
não queria romper" (p. 12). Ele supõe que o desejo
do Sr. Z é seu próprio, presumindo daí a própria
condição que o Sr. Z veio ao tratamento para alcançar.
Portanto, o desvio de K1 para K2 (que para mim marca uma
diferença decisiva, contrariamente aos esforços de
Wallerstein [1981] no sentido de harmonizar as duas
fases) exigiu duas mudanças: primeiramente no desejo do
próprio Kohut: "consegui agora, de maneira mais
genuína do que anteriormente, deixar de lado quaisquer
ambições terapêuticas dirigidas a objetivos. Dito em
outros termos, abandonei a
moralidade-de-saúde-e-maturidade que me motivava
anteriormente" (p. 12). A segunda mudança foi em
sua visão do paciente. Ele não vê mais o self do
paciente como "resistindo à mudança ou como
opondo-se ao amadurecimento porque não quisesse abrir
mão de suas gratificações infantis, mas sim como, pelo
contrário, desesperadamente - e muitas vezes sem
esperanças - lutando para desenredar-se do selfobjeto
nocivo, para delimitar a si mesmo, para crescer e
tornar-se independente" (p. 12). O desvio no
próprio desejo de Kohut dá a ele a capacidade de ver o
desejo do paciente diferentemente: "Ali onde
anteriormente tínhamos visto ganho de prazer e
seqüência de exigência pulsional e gratificação
pulsional, agora reconhecíamos a depressão de um self
que, querendo delimitar-se e afirmar-se, descobria-se
desesperadamente preso dentro da organização psíquica
do selfobjeto" (p. 17) - em outras palavras,
aprisionado no desejo da mãe.
O esforço para dar conta desse desvio prende a atenção
de Kohut à medida que mais história de infância é
relatada, tendo a ver com o intenso exame que a mãe
fazia das fezes do Sr. Z até a idade de seis anos e
depois procurando cravos em seu rosto:
Estamo-nos defrontando, uma vez mais, com a
desconcertante questão de saber por que esse material
crucial não apareceu durante a primeira análise do Sr.
Z. É claro que, de fato, aparecera, porém - o que é
ainda mais incompreensível - não chamara a nossa
atenção. Creio que chegamos mais perto da solução
deste enigma quando dizemos que um aspecto crucial da
transferência tinha passado despercebido na primeira
análise [p. 15].
O que não fora reconhecido na primeira análise? Kohut
afirma que foi o modo como suas próprias convicções
"tinham-se tornado, para o paciente, uma réplica da
psicose oculta de sua mãe" (p. 16), à qual o
paciente se submetia complacentemente. Porém, dentro de
um arcabouço lacaniano a questão transferencial crucial
que ficara sem reconhecimento era como o enredamento do
Sr. Z no desejo de K1 reproduzia a mistura dele com o
desejo de sua mãe.
O que é que esta perspectiva acrescenta à formulação
de Kohut? Ela esclarece alguns dos sintomas do Sr. Z. Já
vimos como o "masoquismo sexual" é a atuação
na fantasia da posição do Sr. Z como objeto do desejo
da mãe sem nenhum desejo seu próprio. Kohut
acertadamente observa que uma abordagem de relações
objetais "não consegue fazer justiça" a este
sintoma, nem ao "desespero crônico que com
freqüência podia ser percebido lado a lado com a
arrogância de sua atitude exigente" (p.12). Sugiro
que a atitude exigente do Sr. Z era a atitude exigente de
sua mãe, com a qual ele estava identificado (é dito à
p. 13 que ela "escravizava emocionalmente aqueles
que viviam à sua volta e sufocava sua existência
independente") e o desespero dele é precisamente
acerca desse estado de seu desejo. Ele não pode senão
agir de conformidade com a estrutura inconsciente de seu
desejo, formado pelo desejo de sua mãe. Assim, quando
ele relata com "a mais intensa vergonha" que
quando era bem pequeno "ele cheirara e mesmo chegara
a provar suas fezes" (p. 17), ele está indicando
simplesmente o quanto seu desejo estava identificado com
o desejo de sua mãe ao manifestar tamanho interesse
pelas fezes dele. Quando Kohut racionaliza que "ele
viera a compreender pela primeira vez em consonância
empática com outro ser humano que essas atividades da
infância não eram pecaminosas nem nojentas, mas sim que
tinham sido débeis tentativas de proporcionar a si mesmo
um sentimento de vitalidade" (p. 17), ele não
reconhece (como Myerson [1981] também não o faz) que a
vergonha do Sr. Z é pelo fato de que ele era como ela,
ele desejava o que ela desejava.
Conquanto a estrutura do desejo do Sr. Z não seja
explicitamente proposta, Kohut capta sua importância
óbvia em relação à mãe: "Sua realização
psicológica mais importante na análise foi romper as
profundas ligações de fusão com sua mãe" (p.
25). E ainda mais: "O self independente não tinha
se formado gradativamente; qualquer existência
psicológica que ele tivesse conseguido construir estava
enraizada em seu apego à mãe (p. 23). Seu próprio
estatuto como self - em termos lacanianos, como sujeito
do desejo - baseava-se na identificação imaginária de
desejos. O desejo de sua mãe proporcionava o palanque no
qual ele construiu um sentido de si mesmo infeliz e
frágil. Porque sua vivência de coesão repousava sobre
essa estrutura especular, ele vivenciou "a mais
profunda angústia que jamais experimentara" num
sonho com uma imagem da mãe com contornos rígidos, de
pé, de costas para ele" (p. 19). Este sonho ocorreu
à medida que o Sr. Z focalizava explicitamente a
análise em seu pai. Um sentido imediato do sonho ocorreu
ao Sr. Z: à medida que ele se movia mais para perto de
seu pai, sua mãe virava as costas para ele, exatamente
como ela fazia para tratá-lo com "distanciamento
gelado" cada vez que "ele tentava avançar em
direção à masculinidade independente" e sua
tática, seu "olhar gelado de desaprovação"
(p. 15) sempre o trazia de volta emocionalmente.
Porém, o "significado mais profundo do sonho"
referia-se "à visão frontal da mãe, nunca vista e
impossível de ver" e que, quando o paciente tentou
imaginar, trouxe-lhe angústia intensa, inominável.
Quando K2 (talvez agindo nesse momento uma vez mais como
K1, como veremos, em resposta ao colapso da estrutura do
desejo, que é o que o sonho mostra) sugere "o
horror da castração, da visão da falta do genital
externo, de fantasias de sangue e mutilação", em
resposta "o paciente afastou essas sugestões";
conquanto admitisse que "as imagens de mutilação,
castração e sangue estivessem relacionadas ao horror
sem nome, ele tinha certeza de que não era essa a fonte
essencial do pavor" (p. 20). Outra formulação foi
oferecida por K2: "Quando sugeri que a mãe podia
não ter perdido seu pênis, mas sim seu rosto, ele não
se opôs, mas respondeu com prolongado silêncio do qual
emergiu numa disposição de ânimo notavelmente mais
descansada" (p. 20).
Vou tentar uma compreensão lacaniana da abordagem de K2:
As imagens de mutilação referem-se à experiência de
fragmentação corporal e de desintegração do ego e
são, como o paciente insiste, conseqüências
secundárias de um colapso mais primário. Esta queda
primária é a perda do estatuto de sujeito desejante,
por não ser mais envolvido pelo olhar da mãe nem
alcançado por sua voz. O trauma do sonho consiste não
naquilo que não pode ser visto, mas no fato de que a
mãe não estava vendo, não estava mais amparando seu
filho em seu olhar desejante e não estava mais colocando
o rosto dele diante dela como reflexo dela - tudo isso
implicando, é claro, que ela nunca de fato o viu, uma
vez que ele não era mais do que a imagem dela. A
própria estrutura da coerência psíquica do Sr. Z é
declarada aqui como estando desfeita, e K2 indica isso
(ao mencionar a perda do rosto dela) e permite que o
prolongado silêncio registre o desvio. Conquanto
duvidemos de que "o lado não-visto da mãe neste
sonho representasse sua personalidade distorcida e sua
visão patológica", uma vez que o reconhecimento
consciente - e não o recalcamento - da patologia dela é
que tinha trazido alívio recentemente (p. 16), podemos
concordar quanto a que o sonho "expressava sua
angústia diante da compreensão de que sua convicção
acerca da força e do poder [do desejo] da mãe - uma
convicção na qual ele apoiara um setor de sua própria
personalidade [como sujeito] entremesclado com ela [com o
desejo dela] - era em si mesma um delírio [como o são
todas as identificações imaginárias desse tipo]"
(p. 20). O que ele é, se não é mais aquilo que era no
desejo de sua mãe?
O desenredamento do desejo do Sr. Z em relação ao
desejo de sua mãe agora avança diferentemente daquilo
que aconteceu na primeira análise: K2 não seduz à
complacência com seu próprio desejo, mas em vez disso,
ao manter seu desejo no lugar analítico do Outro, ele
dá ao Sr. Z a capacidade de empenhar-se num processo de
recuperação do núcleo de seu ideal de ego, focalizando
a figura de seu pai. A questão do pai foi proposta no
início da segunda análise. Na noite que precedeu o
início da segunda análise o Sr. Z teve o seguinte sonho
sem ação nem palavras:
Era a imagem de um homem de cabelos escuros num panorama
rural com morros, montanhas e lagos. Embora o homem
estivesse de pé ali numa atitude de tranqüilidade, ele
parecia ser forte e inspirava confiança. Estava vestido
com roupas formais, de maneira complexa porém harmoniosa
- o paciente via que ele usava um anel, que um lenço
aparecia no bolso de cima de seu paletó e que segurava
alguma coisa em cada mão - talvez um guarda-chuva numa
delas e possivelmente um par de luvas, na outra. A figura
do homem era visualmente muito plástica e destacada -
como em algumas fotografias nas quais o objeto está
nitidamente em foco enquanto o fundo está pouco distinto
[p.11].
As associações do Sr. Z mostraram que a figura era uma
composição de um amigo de infância, um conselheiro de
acampamento (baseado em aspectos do panorama relacionados
ao acampamento de verão), o pai (o cabelo dele), e o
analista (guarda-chuva, luvas, o lenço, o anel). O Sr. Z
também recordou o sonho de seu pai "carregado de
pacotes", e isto "estabeleceu uma ligação com
a fase terminal da primeira análise - anunciando, por
assim dizer, que a segunda análise era uma continuação
da primeira" e que "ele retomou do ponto exato
em que a primeira tinha fracassado mais
significativamente" (p. 11).
Se a segunda análise partiu deste ponto, então devemos
considerar o sonho como tendo ocorrido quando o paciente,
sentindo que ainda é o objeto do desejo de K1, vai uma
vez mais se defrontar com a amorfia de seu próprio
desejo. Se pudermos compreender o primeiro sonho do pai
"carregado de embrulhos de presentes" em termos
do Sr. Z fazendo a pergunta - "o que o outro quer de
mim?" - então este sonho apresenta o outro
desejando nada do sujeito, uma vez que está segurando
nas mãos suas luvas e seu guarda-chuva e não presentes.
Talvez ainda haja espaço para permitir que o desejo do
próprio sujeito possa emergir.
IDEALIZAÇÃO E IDEAL DO EGO
Como se dá a "segunda fase da segunda
análise" (p. 18)? Tendo desistido do ego ideal
moldado na resposta especular e na identificação com o
desejo de sua mãe, agora o Sr. Z tenta recuperar e
articular as fontes de seu ideal de ego, ou, mais
especificamente, aquilo que Lacan (1977) chama de
"identificação paterna do ideal do ego" (p.
197). Por algum tempo a disposição de ânimo do Sr. Z
permanece desesperançada e desesperada, especificamente
porque "seu pai era fraco, ... A mãe o dominava e
subjugava" (Kohut 1979, p.18). Ele então focaliza
rapidamente seu amigo conselheiro, e então começa
"a expressar intensa curiosidade a meu
respeito", acerca do passado do analista, do início
de sua vida, seus interesses, sua família, seu
relacionamento com sua esposa e seus filhos (p. 18). Eu
ouço isto como tentativa do Sr. Z de descobrir algo
acerca do desejo de K2, onde estava, o que o mantinha, se
o Sr. Z uma vez mais viria a ser seduzido à
complacência - todas tentativas de ancorar com
segurança seu ideal de ego. Porém, K2 inicialmente
respondeu a isso como K1 fizera anteriormente: "Cada
vez que eu considerava suas perguntas como revivescência
da curiosidade infantil e apontava as conexões
associativas com a vida sexual dos pais, ele ficava
deprimido e dizia que eu o compreendia mal" (p. 18).
Gradativamente Kohut mudou seu ponto de vista e
"finalmente aventurei-me a adivinhar que era sua
necessidade de um pai forte que estava por trás de suas
perguntas, que ele queria saber se eu também era fraco -
subjugado por minha esposa no coito, incapaz de ser o
apoio emocional idealizável para um filho" (p. 18).
Na minha leitura, as perguntas que o Sr. Z dirige a Kohut
tratam do seguinte: 1) Eu ainda sou o objeto do seu
desejo? 2) Você é um sujeito de desejo, e tem outros
objetos de desejo? 3) Você tem algo a que eu possa
prender meu ideal de ego e mobilizar meu desejo seguindo
linhas significativas? Em outras palavras, o Sr. Z queria
fazer contato com a função paterna: se Kohut soubesse
usar seu pênis, seria capaz de colocar limites. Kohut
colocou limites com "firmeza amigável" negando
as solicitações de informações do Sr. Z. Em resposta
à mudança na abordagem de Kohut, o Sr. Z abandonou suas
exigências e tornou-se dramaticamente menos deprimido e
desesperançado. Ele também "se contentou com
determinadas informações que obtivera fosse
acidentalmente fosse por inferência - meu interesse por
arte e literatura, por exemplo" (p. 18). "Arte
e literatura" servem como ponte verbal entre sua
mãe (p. 4), seu amigo conselheiro (p. 7) e Kohut e,
podemos especular, formam um núcleo de seu ideal de ego.
Neste ponto "a análise deu uma nova virada" e
focalizou diretamente o pai do Sr. Z, que até então
tinha permanecido uma figura indistinta. Agora o Sr. Z
começou a falar dos "aspectos positivos da
personalidade de seu pai" e o fez "com um
brilho de felicidade, de satisfação" (p. 19). Para
Kohut este foi, "como é possível avaliar
retrospectivamente, o momento crucial do tratamento - o
ponto no qual podia-se dizer que ele entrou no caminho da
saúde emocional" (p. 19). Mas neste caminho o Sr. Z
teve "experiências quase psicóticas, nas quais ele
sentia a si mesmo como se desintegrando e foi acometido
de intensas preocupações hipocondríacas. Nessas
ocasiões ele sonhava com paisagens desoladas, cidades
incendiadas e, as mais profundamente perturbadoras, com
pilhas de corpos humanos ... ele não tinha certeza se os
corpos eram de pessoas mortas ou de pessoas ainda
vivas" (p. 19).
Esta descrição traz à mente os exemplos de Lacan
(1953) de fantasias de fragmentação corporal acerca das
quais ele escreve:
O que me chocou em primeiro lugar foi a fase da análise
em que essas imagens vinham à luz: estavam sempre
ligadas com a elucidação dos problemas mais antigos do
ego do paciente ... Seu aparecimento prenuncia uma fase
especial e muito arcaica da transferência, e o valor que
atribuímos a elas na identificação dessa fase sempre
foi confirmada pela acentuada diminuição, que a
acompanha, das resistências mais profundas [p. 13].
Na visão de Kohut "o Sr. Z estava agora abandonando
o self arcaico (conectado ao selfobjeto mãe) que ele
sempre considerara como sendo o único de que dispunha,
na preparação para a reativação de um self nuclear
independente, desconhecido até aqui (cristalizado à
volta de um relacionamento desconhecido até agora, com o
selfobjeto pai)" (p.19). Chegara o momento em que o
Sr. Z teria que renunciar àquilo que o estruturara como
sujeito desejante - seu lugar nos olhos de sua mãe.
Precisamente neste ponto ocorre o sonho do Sr. Z com sua
mãe, no qual ela estava com "contornos
rígidos", como o sonho do homem de pé. Na
seqüência deste terceiro sonho, que finalmente liberta
o desejo do Sr. Z do de sua mãe, e a subseqüente
disposição de ânimo mais descansada, o Sr. Z recupera
lembranças positivas de seu pai, "precedidas e
acompanhadas por sua idealização" de K2, incluindo
um desejo de curta duração de tornar-se analista. Esta
"idealização" não é nada parecida com a
idealização construtora de grandiosidade de sua mãe (a
que voltaremos em seguida), mas é mais adequadamente um
modo de trazer para o foco o campo de seu ideal de ego.
A principal lembrança de seu pai que emergiu neste ponto
foi a de uma viagem ao Colorado que fizera com ele quando
tinha 9 anos de idade. Ele falou "com um crescente
brilho de alegria" dos traços de seu pai; como um
"homem do mundo", ele era capaz de divertir os
outros com histórias, era um bom esquiador, mostrava
"resolução, perceptividade e habilidade" ao
lidar com negócios e, acima de tudo, o Sr. Z recuperou
"a compreensão intensamente vivenciada de que seu
pai era um homem independente que tinha uma vida
independente da vida da mãe" (p. 21) - isto é, que
o pai tinha seu próprio desejo independente do da mãe
dele. Então o Sr. Z queixou-se de como sabia pouco
acerca de seu pai e, após "um breve período de
fantasias transferenciais", repentinamente
manifestou a suspeita de que "seu pai tinha uma
amiga" que tinha estado presente durante a viagem ao
Colorado e que eles se encontraram num bar na noite que
antecedeu a partida. O Sr. Z nunca mencionou esse
episódio a sua mãe quando voltou para casa. Embora seu
pai explicitamente não tivesse solicitado isso,
"ele sentira que havia uma compreensão secreta
entre eles e que ele devia calar sobre isso" (p.
21). Esta experiência sugere a presença de uma
quantidade de fatores-chave na estrutura psíquica do Sr.
Z naquela ocasião: 1) ele sabia que seu pai tinha um
pênis e sabia como usá-lo, e portanto era um sujeito de
desejo, não somente um objeto; 2) a visão de seu pai
com essa outra mulher demonstrou para o Sr. Z sua
inferioridade diante desse pai, isto é, que seu pai
possuía conhecimento sexual anterior; 3) ele pôde
identificar-se com uma proibição paterna mantendo um
segredo, mas precisamente porque era um segredo, ele se
prestou para o recalcamento; 4) mantendo o segredo ele
conquistou o reconhecimento de seu pai como sendo seu
aliado. É claro que essa identificação secreta e
identificação através do segredo, se deve ter baseado
em algum fundamento anterior de identificação
simbólica (tal como compartilhar seu nome com seu pai),
mas podemos concordar quanto a que por causa de seu
estatuto de segredo "este material representa, em
termos da estrutura de personalidade do Sr. Z, a camada
mais profunda do recalcado" e que "não existia
ainda oculto nenhum conflito edipiano patogênico "
(p. 22). Os mencionados ingredientes da estrutura
psíquica sugerem que a viagem ao Colorado realizou a
castração simbólica do Sr. Z.
Eu questiono, portanto, a conceituação de Kohut do
resultado desse processo como efeito de uma
idealização. Há algo fora de propósito na
formulação do "brilho de alegria e um estimulante
sentimento de finalmente ter encontrado uma imagem de
força masculina - com a qual fundir-se temporariamente
como recurso para confirmar a estrutura de seu self, para
tornar-se ele próprio um centro independente de força e
iniciativa" (p. 22). O "brilho de alegria"
indica a mobilização de seu próprio desejo, não por
causa de alguma fusão adicional (com alívio, ele mal
acabava de terminar a fusão de desejos com sua mãe) mas
sim porque ele constelou um ideal de ego que delimita e
ancora seu desejo e, portanto, facilita que ele se torne
um sujeito de "força e iniciativa". Parece
provável que este reconhecimento e afirmação de
função paterna estivesse recalcado ou expelido [split
off], mas este recalcamento parece ser produto de seu ego
grandioso, alimentado pela mãe idealizada com quem ele
estava "misturado", "submetido ao papel de
ser o falo dela" (escreve Kohut) e exibindo
"uma grandiosidade que lhe foi atribuída pela mãe
à medida que ele não se separava dela" (p. 24).
Seria incoerente que seu ego ideal recalcasse outra
idealização (uma vez que outra idealização apenas
inflaria ainda mais seu ego) ou que no setor expelido ele
tivesse "preservado as idealizações que mantinham
a ligação com seu pai" (p. 24).
Kohut compreensivelmente quer ir além de uma
formulação de relações objetais que se baseia nos
investimentos pulsionais de objetos representáveis, mas
no lugar disso parece fazer a idealização servir a
função de estabelecer ligações, não entre uma
pulsão e um objeto, mas entre um self necessitado e um
selfobjeto. Parece-me, entretanto, que a recuperação do
recalcado do Sr. Z não é a recuperação de uma
idealização, mas de uma identificação. Ademais, essa
identificação não se baseia numa "imagem de
força masculina" para ele copiar, mas numa
marcação por símbolos, incluindo o pênis como
símbolo de masculinidade versus o falo como símbolo do
desejo do outro (ver Julien 1987; Lacan 1938, p. 59).
Conquanto eu concorde que o sonho de tentar fechar a
porta para o pai carregado de presentes "não foi
motivado pela angústia de castração" (Kohut 1984,
p. 86), a reformulação que o Sr. Z fez de seu sonho
(com que Ornstein 1981 concorda), na qual o perigo da
volta do pai é afirmado como consistindo do estado
traumático de repentinamente receber o oferecimento de
"todos os dons psicológicos, pelos quais ele
secretamente ansiara" (Kohut 1979, p. 23), parece
ser um argumento capenga. Com a volta do pai não há
razão por que "a substância psicológica
masculina" não pudesse ser gradativamente manejada,
desde que o pai pudesse colocar limites. Esta
explicação ad hoc de "coisa demais, rápido
demais" parece menos convincente do que uma que
enfatize os efeitos estruturais de ser identificado com o
desejo da mãe, um efeito sendo a espécie de
idealização grandiosa mútua que expeliria [split off]
qualquer terceiro delimitador e que deixaria o jovem Sr.
Z sem um ideal de ego operativo.
O TÉRMINO
O término da segunda análise foi diferente do
da primeira. A idealização do analista teve curta
duração e foi elaborada, com o analista caindo de ser
identificado com o Outro, e a lacuna que resultou daí
proporcionou um lugar para o desejo do sujeito. Não
houve o retorno dos sintomas iniciais (a estrutura
subjacente de desejo que sustentava as fantasias sexuais
masoquistas tinha-se dissolvido); não houve angústia
grave diante da perda da presença do analista. Durante
diversas semanas o paciente ficou triste por perder o
analista e lamentou que, estando seu pai morto, não
teria oportunidade de desenvolver um relacionamento
amigável com ele. Significativamente "durante
algumas sessões ele também expressou considerável
raiva contra mim por ter-lhe falhado originalmente, como
seu pai na infância" (p. 24) - uma falha quanto a
desenredar seu desejo do de sua mãe no caso do pai, uma
falha por tê-lo forçado a submeter-se ao desejo dele no
caso de K1. Alguns meses se passaram revendo o passado e
antecipando o futuro. Durante as últimas semanas, Kohut
"estava muito impressionado por sua empatia
expandida em relação a seus pais e por sua atitude
tolerante para com as deficiências deles" (p. 24.
Essa contextualização numa matriz simbólica
estendia-se especialmente a sua mãe, com sua patologia
mas também com seus aspectos positivos, que ele podia
ver "sem vestígio das idealizações com que ele
começara sua primeira análise" (p. 25). O
conteúdo de suas ambições e de seus ideais que
tivessem surgido na matriz do relacionamento de fusão
com a mãe, ora abandonado, persistiu; porém a
elaboração de seu relacionamento transferencial comigo
[isto é, fazendo a transição de K1 para K2]
permitiu-lhe restabelecer uma ligação com a
masculinidade e a independência de seu pai, e com isso o
núcleo emocional de suas ambições, de seus ideais e
habilidades e seus talentos básicos, foi alterado
decisivamente, ainda que seu conteúdo permanecesse
intacto. Porém agora ele vivenciava essas riquezas de
sua personalidade como sendo suas próprias [p. 25].
Ele fizera seu desejo seu próprio e conseguiu buscar sua
realização de acordo com sua própria modalidade
significativa.
Voltando ao Esquema L de Lacan, podemos mapear nele as
posições de K1 e K2 conforme viemos a compreendê-las:
na primeira análise Kohut abandonou sua postura
analítica e coagiu o desejo do paciente a identificar-se
com o dele próprio; na segunda análise ele foi
bem-sucedido quanto a alcançar um reconhecimento
simbólico do Sr. Z como sujeito, não permitindo a si
mesmo deixar-se seduzir pelo ego grandioso do Sr. Z a
entrar num conluio imaginário com o "fortalecimento
do ego". Como resultado, o Sr. Z proclamou seu
desejo como seu próprio em seus esforços para realizar
seu desejo com outros; isto foi tornado estruturalmente
possível pela constelação de um ideal de ego que
delimitou seu desejo, dando-lhe objetivo e direção. Os
ingredientes do ideal do ego tinham sua fonte na matriz
simbólica do pai/analista - não que ele possa preencher
o lugar do Outro; pelo contrário, suas próprias
limitações, conforme Kohut enfatiza, são o fulcro para
o desvio produzido por "internalizações
transmutadoras". No final o analista torna-se um
outro, um dentre muitos outros cuja importância para o
paciente, como a importância de seus pais, é agora
contextualizada na ordem simbólica, não mais o
aprisionando como elementos isolados no registro
imaginário. Aqui vemos que os aspectos positivos da
edipificação e as metas da análise se sobrepõem:
mover-se da dualidade para a pluralidade, do foco no ego
ideal para o ideal do ego, da identificação imaginária
que recalca o desejo a fim de imaginar-se como semelhante
a outro para a identificação simbólica como sendo
diferente no seu próprio desejo.
É claro que em muitas minúcias Kohut e Lacan revelam
uma similaridade de propósitos, e em sua avaliação da
psicanálise eles dizem coisas semelhantes, apesar das
diferenças óbvias observadas pelos lacanianos (ver, por
exemplo, Laurent e Schneiderman 1977; Harari 1984; Cottet
1985; Peraldi 1987). Apesar dessas diferenças, Kohut
forneceu-nos inestimável documentação daquilo que para
Lacan é a responsabilidade analítica essencial:
discernir os efeitos do nosso próprio desejo. Todos
somos pressionados, em determinados momentos de cada
tratamento, a tomar a posição K1: este é um efeito da
transferência, um efeito do desejo do paciente que
constela em nós o sujeito suposto saber e envolve nosso
próprio narcisismo na contratransferência. Nosso único
recurso (e do paciente também) é observar como estamos
(ou estávamos) sendo seduzidos a sair da posição K2.
Nesses momentos aprendemos muito acerca de nossos
pacientes, acerca de nós mesmos - e acerca da descoberta
freudiana.

1- O leitor é remetido aos seguintes textos para seguir
as similaridades entre Kohut e Lacan:
a) em sua crítica à psicologia do ego: Kohut (1984, p.
59, 65, 148), Lacan (1977, pp. 1-29, 128-129, 132, 306);
b) em sua crítica das noções ingênuas de
"realidade": Kohut (1984, p. 36, 173), Lacan
(1977, p. 135, 230);
c) sobre a angústia de desintegração: Kohut (1984, p.
16), Lacan (1977, p. 11, 137);
d) sobre resistência: Kohut (1984, p. 144, 148); Lacan
(1977, p. 78, 101, 143, 169, 235);
e) sobre formação e reforma: Kohut (1984, p. 40, 164),
Lacan (1977, p. 35-37, 76, 144);
f) sobre "moralidade de realidade": Kohut
(1984, p. 208), Lacan (1959-60, p. 349; 1966, p. 677).
2- Podemos especular quanto a como a própria forma do
infante é refletida nas pupilas dos olhos da mãe. Brown
e Witkowski (1981) descobriram que "pouco mais do
que um terço das línguas do mundo igualam a pupila do
olho a um objeto humano ou semelhante a humano" (p.
600), incluindo "expressões figurativas
estabelecidas traduzidas literalmente como 'o bebê do
olho', 'a menina do olho', ou 'a boneca do olho'"
(p. 597).
3- Gould (1976) argumenta que o infante humano tem que
nascer cerca de nove meses antes da hora para que seu
crânio, apenas um quarto de seu tamanho final, possa
passar através da cavidade pélvica materna.
4- Comentando o caso do Sr. Z, Gedo (1986) sugere que
Kohut foi prejudicado por "um excesso de
certeza"; no seu modo de ver a autocrítica de Kohut
acerca da primeira análise lança luz "sobre o fato
de que atitudes de onisciência estão fora de lugar no
trabalho psicanalítico" e, ademais, que "Kohut
não estava sozinho quanto a trazer essas atitudes
autoritárias para o trabalho analítico - elas são
praticamente ubíquas numa profissão que provém das
tradições da medicina clínica" (pp. 120-121).
Gedo prossegue afirmando que na segunda análise "a
transferência logo emergiu sob a forma de fantasias de
fusão com o analista, porém uma fusão da qual o Sr. Z
lutava para desenredar-se (p. 13)! Foi neste contexto,
reproduzindo a escravização da infância do paciente
por sua mãe, que a angústia acerca da possibilidade de
desintegração foi vivenciada novamente" (p. 124).
Esta formulação é coerente com a leitura que estou
propondo, exceto quanto à questão da angústia, à qual
vou-me dirigir em seguida não como um momento de
repetição, mas como um momento de reestruturação.
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