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| Psicanalista
Ricardo Fabião Gomes |
Os homens e os animais examinam seu
ambiente por meio dos órgãos dos sentidos: ouvem,
cheiram, vêem e tocam; formam impressões coesivas
acerca desse ambiente, recordam essas impressões,
comparam-nas e desenvolvem expectativas à base de
impressões anteriores. As investigações do homem se
tornam cada vez mais consistentes e sistemáticas, o
alcance dos órgãos sensoriais se amplia através dos
instrumentos (telescópio, microscópio), os fatos
observados são integrados em unidades maiores (teorias)
por intermédio de pontes de pensamentos conceitual (as
quais, por sua vez, não podem ser observadas); e
destarte, gradualmente, com passos imperceptíveis,
expande-se à investigação científica do mundo
externo.
O mundo interno não pode ser observado através dos
nossos órgãos sensoriais. Nossos pensamentos, desejos,
sentimentos e fantasias não podem ser vistos, cheirados,
ouvidos, nem tocados. Não têm existência no espaço
físico e, no entanto, são reais e podemos observa-los
à medida que ocorrem no tempo: por meio da
introspecção em nós mesmos e por meio da empatia (isto
é, introspecção vicária), nos outros.
Mas estará correta a diferenciação acima? Será que
realmente os pensamentos, desejos, sentimentos e
fantasias não têm existência física? Não haveria
processos subjacentes que poderiam, por um lado, ser
registrados através de recursos físicos altamente
apurados e ainda, por outro lado, ser experimentados como
pensamentos, sentimentos e fantasias e desejos? O
problema antigo e familiar e não pode ser resolvido
enquanto for apresentado sob a forma de alternativa de
unidade ou dualidade de corpo e mente. A única
definição proveitosa é operacional. Falamos de
fenômenos físicos quando o ingrediente essencial do
nosso método de observação inclui os nossos sentidos;
falamos de fenômenos psicológicos quando os
ingredientes essenciais da nossa observação são a
introspecção e a empatia.
É evidente que as definições precedentes não devem
ser compreendidas no estreito sentido de uma operação
real que esteja ocorrendo num dado momento, mas no mais
amplo sentido da atitude total do observador em direção
ao fenômeno que está sendo pesquisado. Assim como
planetas que ainda não foram vistos influenciam o curso
de outros planetas que estão sob observação direta e
os astrônomos podem, dessa forma, apreciar o curso, o
tamanho, a magnitude (isto é o brilho) de corpos
celestes que ainda não apareceram em seus telescópios;
e esses mesmos astrônomos continuam a pensar nas
propriedades físicas de cometas que só depois de muitos
anos voltarão a aparecer em seu campo de observação,
considerações semelhantes também se aplicam no campo
psicológico. Em psicanálise, por exemplo, consideramos
o Pré-Consciente e o Inconsciente como sendo estruturas
psicológicas não só porque os abordamos com intenção
introspectiva, nem só porque podemos eventualmente
atingi-los por meio da introspecção, mas também porque
consideramos dentro de um enquadramento de experiência
observada por introspecção ou potencialmente observada
por introspecção.
À medida que os dados da nossa observação vão se
organizando e as nossas observações vão se tornando
cientificamente sistemáticas, começamos a lidar com uma
variedade de conceitos que estão cada vez mais distantes
dos fatos observados. Alguns desses conceitos constituem
abstrações ou generalizações e estão, por isso, mais
ou menos ligados aos fenômenos que podem ser observados,
por exemplo, o conceito zoológico "mamífero"
é derivado da observação é concreto de uma variedade
de animais individual destino: mas um mamífero sozinho
não pode ser observado. Mas ou menos o mesmo acontece em
psicologia. O conceito de instinto em psicanálise, por
exemplo, é assim derivado da observação pó
introspecção de inumeráveis experiências, como vai
ser demonstrado mais adiante; mas um instinto sozinho
não pode ser observado. Outros conceitos, como o da
aceleração nas ciências físicas ou o da psicanálise,
não se referem diretamente aos fenômenos observados.
Mas tais conceitos evidentemente pertencem à estrutura
total de suas ciências respectivas porque designam
relações entre os dados observados. Observamos corpos
físicos no espaço, anotamos suas posições físicas ao
longo de um eixo de tempo e assim chegamos ao conceito de
aceleração. Observamos introspectivamente pensamentos e
fantasias, observamos as condições de seu aparecimento
ou desaparecimento e chegamos assim, ao conceito de
repressão.
Mas, será que é sempre verdade que a introspecção e a
empatia são constituintes de toda observação
psicológica? Não haverá fatos psicológicos que
possamos averiguar pela observação não-introspectiva
do mundo externo? Vamos considerar um exemplo simples.
Vemos uma pessoa que é extraordinariamente alta. É
indiscutível que o tamanho incomum dessa pessoa é um
fato importante para nossa avaliação psicológica - ma
sem a introspecção e a empatia o tamanho da pessoa
continua simplesmente um atributo físico. Só quando nos
imaginamos no lugar da pessoa, só quando por
introspecção vicária começamos a reviver
experiências íntimas nas quais tínhamos sido incomuns
ou conspícuos, só então começaremos a apreciar a
significação que a altura incomum possa ter para essa
pessoa e, só então, teremos observado um fato
psicológico. Considerações semelhantes também se
aplicam a propósito do conceito psicológico de ação.
Se observarmos apenas os aspectos físicos sem
introspecção e empatia, estaremos observando não o
fato psicológico de uma ação, mas apenas o fato
físico de movimentos. Podemos medir uma elevação de
sobrancelhas até à mínima fração de um centímetro,
no entanto, só por meio da introspecção e da empatia
poderemos compreender os matizes de significado de
assombro e desaprovação contidos numa elevação de
sobrancelhas. Mas uma ação não poderia ser
compreendida sem recorrer-se à empatia, simplesmente
considerando-se seu curso visível e seus resultados
visíveis? Ainda aqui a resposta é negativa. O fato puro
e simples de vermos um tipo de movimento que conduz a um
fim específico, por si só não define um ato
psicológico. O acontecimento em que uma pedra se solta
de um telhado e mata um homem não é uma ação no
sentido psicológico por da causa da ausência de uma
intenção ou motivo com que possamos empatizar. E não
obstante o fato de reconhecermos que há determinantes
inconscientes a muitos acontecimentos acidentais, podemos
distinguir corretamente as conseqüências acidentais das
nossas atividades, de ações propositais. Um homem deixa
cair uma pedra, a pedra cai e mata outro homem. Se houver
uma intenção consciente ou inconsciente com a qual
possamos empatizar, falaremos de um ato psicológico; se
essa intenção não estiver presente, pensaremos numa
cadeia de causa-e-efeito de eventos físicos. Por outro
lado, se fosse possível descrever, termos de física e
bioquímica, a maneira pela qual a onda sonora de certas
palavras dita por A mobilizaram certos padrões
eletroquímicos no cérebro de B, esta descrição ainda
não conteria o fato psicológico apresentado pela
afirmação de que A enfureceu B. Só um fenômeno que
possamos tentar observar por introspecção ou por
empatia com a introspecção alheia pode ser chamado
psicológico. Um fenômeno é "somático",
"comportamental" ou "social" se
nossos métodos de observação não incluírem
predominantemente a introspecção e a empatia.
Podemos assim repetir a primeira definição sob a forma
de uma afirmação explícita: designamos um fenômeno
como sendo mental, psíquico ou psicológico se o nosso
modo de observação incluir a introspecção e a empatia
como constituintes essenciais. O termo
"essencial", neste contexto, expressa o fato
que a introspecção ou a empatia nunca poderão estar
ausentes da observação psicológica e que podem estar
presentes sozinhas. As considerações apresentadas
anteriormente demonstraram a primeira metade desta
afirmação. Para demonstrar a segunda metade (de que a
introspecção e a empatia podem estar presentes sozinhas
na observação do material psicológico) podemos
voltar-nos para a psicanálise. Aqui temos que
considerar, antes de qualquer coisa, a objeção que pode
ser levantada por alguns de que o principal instrumento
da observação psicanalítica não é a introspecção,
mas o exame pelo analista de um tipo de comportamento do
paciente: a livre associação. No entanto, um grande
corpo de fatos clínico foi descoberto por meio de
auto-análise e um sistema de abstrações teóricas foi
desenvolvido a partir desses fatos, por exemplo em
"A Interpretação dos Sonhos", de Freud. Na
situação analítica habitual, também o analista é
testemunha da auto-observação introspectiva do
analisando. É verdade que os insights psicológicos do
analista freqüentemente vêm adiante da compreensão que
o analisando pode ter de si mesmo. Mas esses insights
psicológicos são resultado da habilidade introspectiva
treinada que o analista emprega na extensão da
introspecção (introspecção vicária) que é chamada
empatia.
É claro que estas considerações não implicam em que a
introspecção e a empatia sejam os únicos ingredientes
da observação psicanalítica. Na psicanálise, como em
todas as outras formas de observação psicológica,
introspecção e empatia, os constituintes essenciais da
observação, estão freqüentemente presas a outros
métodos de observação. Mas o fato final e decisivo da
observação é introspectivo ou empático. E podemos,
além disso, demonstrar que, no caso da auto-análise, a
introspecção está presente.
Poderia ser proveitoso, neste ponto, estudar o emprego da
empatia fora da psicologia cientifica. Na vida diária,
as nossas atitudes não são cientificamente
sistemáticas e tendemos a ver os fenômenos como mais ou
menos psicológicos ou mentais, dependendo da nossa maior
ou menor capacidade de empatizar com o objeto da nossa
observação. A nossa compreensão psicológica é mais
facilmente atingida quando observamos pessoas do nosso
próprio ambiente cultural. Seus movimentos, seu
comportamento verbal, seus desejos e sensibilidades são
semelhantes aos nossos e somos capazes de empatizar com
eles à base de indícios que podem parecer
insignificantes a pessoas de um ambiente cultural
diferente. Mas mesmo quando observamos pessoas de uma
cultura diferente, cuja experiência é diversa da nossa,
habitualmente acreditamos que seremos capazes de
compreende-las psicologicamente através da descoberta de
alguma experiência comum com que possamos empatizar. Mas
ou menos a mesma coisa ocorre em relação aos animais:
quando um cachorro saúda seu dono após uma separação,
sabemos que há um denominador comum entre nossas
experiências e o que o cachorro experimenta no fim de
uma separação de um "tu" amado; e podemos
começar a pensar em termos psicológicos, mesmo que
estejamos inclinados a insistir em que as diferenças
entre experiência humana e experiência animal devem ser
muito grandes. Mas dificilmente alguém falaria numa
psicologia vegetal. É verdade que algum observador
entusiasta de flores pode ver no movimento das plantas
que se voltam na direção ao sol e do calor algo com que
consegue empatizar, um impulso interno, um anseio ou um
desejo - mas isso vai ser mais no sentido de alegoria ou
poesia porque não podemos conceder aos vegetais a
capacidade de autoconsciência rudimentar (como
concedemos a alguns animais). Mas ainda há outras
gradações. Observamos a água correndo morro-abaixo,
procurando o caminho mais curto, evitando obstáculos e
podemos mesmo descrever estes fatos em termos
antropomórficos (correndo, procurando, evitando); mas
ainda assim estamos falando de uma psicologia de corpos
inanimados - muito menos de uma psicologia de vegetais .
Assim, a introspecção e a empatia representam um papel
em toda compreensão psicológica; no entanto, Breuer e
Freud foram pioneiros por excelência no emprego
científico da introspecção e da empatia. A ênfase nos
aperfeiçoamentos específicos da introspecção (isto
é, livre associação e análise de resistências), a
descoberta que marcou época de um tipo de experiência
interna até então desconhecida e que só emerge com o
auxilio dessas técnicas especificas de introspecção
(isto é, a descoberta do inconsciente) e o alcance da
nova compreensão de fenômenos psicológicos normais e
anormais, tenderam a obscurecer o fato de que o primeiro
passo foi a introspecção do emprego consistente da
introspecção e da empatia, como instrumentos de
observação de uma nova ciência. A livre associação e
a análise de resistências, as técnicas fundamentais da
psicanálise liberaram a observação introspectiva de
distorções previamente não-reconhecidas
(racionalizações). Assim, não há dúvidas quanto a
que a introdução da livre associação e da análise de
resistências (com o conseqüente reconhecimento das
influências falseadoras de um inconsciente ativo)
determina especificamente o valor da observação
psicanalítica. Mas o reconhecimento desse valor não
contradiz o reconhecimento de que a livre associação e
a análise das resistências devem ser consideradas
instrumentos auxiliares, empregados a serviço do método
de observação introspectivo e empático.
Com a conclusão dessas observações introdutórias,
estamos prontos agora para nos voltarmos para o corpo
principal do presente estudo. O estudo que se segue não
está primariamente ligado às múltiplas experiências
de analisando e analista, nem tampouco tem por objetivo a
elucidação da introspecção e da empatia dos pontos de
vista dinâmico e genético. De agora em diante,
tomaremos como certo por antecipação que a
introspecção e a empatia são os constituintes
essenciais dos descobrimentos psicanalíticos e vamos
tentar demonstrar como este método de observação
define os conteúdos e limites do campo observado. E
porque os conteúdos e limites do campo, por sua vez,
determinam as teorias de uma ciência empírica, também
será nossa tarefa neste estudo demonstrar a ligação
entre a introspecção e a empatia psicanalítica,
particularmente nas áreas em que a desatenção a essa
conexão levou a inexatidões, omissões ou erros.
RESISTÊNCIAS CONTRA A INSTROPECÇÃO E A EMPATIA
As resistências contra a livre associação são
adequadamente consideradas como conseqüência da
função de defesa da mente. O paciente se opõe à livre
associação por meio dos conteúdos inconscientes e de
seus derivados; e há uma resistência contra o processo
de análise que se ocupa da significação de fantasias
masturbatórias proibidas, agressões, etc. Mas parece
haver uma resistência mais geral contra o método
psicanalítico e que se expressa de modo altamente
racionalizado: uma resistência contra a introspecção.
Talvez tenhamos descuidado do exame do emprego cientifico
da introspecção (e da empatia), talvez tenhamos deixado
de experimenta-las ou aperfeiçoa-las porque ainda
relutamos em reconhecê-la francamente como o nosso
método de observação. Parece que nos envergonhamos da
introspecção e não queremos menciona-lo diretamente; e
, no entanto, com todas as suas falhas, a introspecção
abriu caminho para grandes descobertas. Deixando de lado
as causas sócio-culturamente determinadas da nossa
hesitação a propósito da introspecção
(exemplificadas em chavões como mística, ioga,
oriental, não-ocidental), ainda não conseguimos
identificar a razão subjacente para o preconceito contra
o reconhecimento do método de observação que deu tais
resultados. Talvez o medo do desamparo através do
aumento da tensão seja o terror que provoca a omissão
defensiva do fato de que a introspecção é um elemento
tão importante nas descobertas psicanalíticas. Estamos
habituados a um contínuo escoamento de tensão através
da ação e nos dispomos a aceitar o pensamento somente
como um intermediário para a atividade, como uma ação
postergada, ou como um planejamento ou um ato tentativo.
A introspecção parece opor-se à direção da corrente
por meio da qual alcançamos o alívio da tensão e pode,
portanto, acrescentar o pavor geral da passividade e do
aumento da tensão aos medos mais específicos que se
criam quando os conteúdos reprimidos estão prestes a
revelar-se. É verdade que a livre associação em
psicanálise não corresponde, nesse sentido, aos nossos
processos habituais de pensamento. De uma maneira geral,
pensar é um "tipo de atuação experimental,
acompanhada pelo deslocamento de uma quantidade
relativamente pequena de catexias" (Freud, 1911a. p.
221). Pode-se dizer que a terapia psicanalítica no todo
prepara para a (liberdade de) ação; mas a livre
associação em si não é preparatória para a ação, o
que faz é predispor para os rearranjos estruturais
através da maior tolerância à tensão.
Freqüentemente os pacientes expressam, nas fases
iniciais da terapia, preocupações acerca da duração
da análise e do número de sessões, justificando isso
pelo sacrifício de tempo e dinheiro que o tratamento
exige. Entretanto, tem-se a impressão de que, pelo menos
em alguns casos, essas queixas encobrem o medo mais
profundo da inatividade diante da tensão crescente; em
outras palavras, um medo da inversão prolongada do fluxo
de energia por meio da introspecção. E talvez seja um
desconforto similar por parte do analista o que nos tenha
impedido, nas nossas experiências com o método
analítico, de pesquisar os resultados de prolongados
períodos de introspecção, por exemplo, a afetividade
de sessões analíticas mais longas.
É claro que a introspecção pode também constituir uma
fuga à realidade. Em suas formas mais patológicas, como
em alguns devaneios artísticos de esquizofrênicos, a
introspecção sucumbe diante do principio do prazer e
torna-se uma aceitação passiva de fantasias. As formas
racionalizadas de introspecção dos cultos místicos e
da psicologia mística pseudocientifica estão mais sob o
controle da parte do ego que realiza a introspecção,
embora ainda ao sabor das oscilações do princípio do
prazer. Entretanto, o fato de que possa abusar da
introspecção não nos deve enganar quanto ao seu valor
como instrumento cientifico. De mais a mais, a pesquisa
as ciências físicas não-introspectivas pode ver-se
envolvida no serviço de um principio do prazer
não-modificado se o cientista empregar a atividade
cientifica para propósitos patológicos. Em
psicanálise, a introspecção não é uma fuga passiva
à realidade, mas é, na sua melhor forma, ativa,
pesquisadora e empreendedora. É tão animada pelo desejo
de aprofundar e expandir o campo do nosso conhecimento
quanto o é a melhor das ciências físicas.
AS ORGANIZAÇÕES MENTAIS PRIMITIVAS
De fato não há somente resistências irracionais
opostas à introspecção, mas também nos defrontamos
com limitações realísticas. Por exemplo, algumas vezes
ouvimos a afirmação crítica de que as descrições ou
as teorias de determinado autor são antropomórficas, ou
são adultomórficas ou algo do gênero. Dizendo na
linguagem das presentes considerações, esses termos
críticos implicam em que ou os processos empáticos do
observador não foram manejados com discrição ou que o
autor em questão empatizou erradamente. Não pode haver
dúvidas quanto a que a confiabilidade da empatia
decresce à medida que aumenta a diferença entre o
observador e o observado. A psicanálise é geneticamente
orientada e vê a experiência humana como uma
continuidade longitudinal de organizações mentais de
complexidade e maturidade variáveis, etc. Assim, os
estágios mais antigos do desenvolvimento mental
constituem um desafio especial à capacidade de empatizar
conosco mesmos, isto é, com nossas próprias
organizações mentais anteriores. (Estas
considerações, é claro, não se aplicam somente à
abordagem longitudinal, mas também à abordagem de
seção transversal longitudinal, mas também à
abordagem de seção transversal, por exemplo quando
falamos de profundidade psicológica e de regressões
psicológicas durante o sono, a neurose, a fadiga, os
estados tensão, etc.). Que espécie de conceito
deveríamos utilizar ao descrever processos psicológicos
primitivos, precoces ou profundos? Na síndrome freudiana
das neuroses reais, por exemplo foi decisivo, do ponto de
vista operacional que a introspecção e a análise
persistente (mesmo sob a forma livre associação e
análise de resistências) não tivesse conseguido
revelar qualquer conteúdo psicológico além da
ansiedade nas neuroses de ansiedades ou além de fadiga e
dores vagas na neurastenia (Freud, 1898). Freud deve ter
considerado as diversas fantasias que ocasionalmente
encontrava como tendo sido construídas secundariamente a
esses sintomas e como racionalização desses sintomas. A
ausência de achados psicológicos levou Freud à
formulação de que as neuroses reais são expressão
direta de perturbações orgânicas - em outras palavras,
de uma condição cuja pesquisa parece ser mais
proveitosa por métodos não-introspectivos de
observação, por exemplo, por meios bioquímicos.
Considerações semelhantes se aplicam a entidades
psicológicas como a perturbação neurótica , a neurose
vegetativa (Alexander, 1943) e a neurose de órgão
(Fenichel, 1945), bem como ao artifício de diferenciar
uma fase funcional primária do desenvolvimento mental
(Glover, 1950). Analogamente, não deveríamos pretender
atingir uma compreensão exata do conteúdo psicológico
das fases mais precoces do desenvolvimento mental, mas ao
discutir essas fases precoces, deveríamos evitar
expressões que se referem a fenômenos similares da
experiência posterior. Portanto, deveríamos ficar
satisfeitos com aproximações empáticas imprecisas e
deveríamos falar, por exemplo, em tensão em vez de
desejo, em diminuição de tensão em vez de satisfação
de desejo, em condensações e formações de
compromissos em vez de solução de problemas. Os
artifícios operacionais que algumas vezes são
empregados na discussão dos estados psicológicos
precoces não mais difíceis de perceber do que aqueles
equívocos de terminologia. Assim, em vez de tentar-se
estender uma forma rudimentar de introspecção empática
até um estado mental precoce, oferece-se a descrição
de uma situação social - por exemplo, a descrição da
relação entre mãe e filho. É claro que são
indispensáveis a pesquisa e a descrição das
interações precoces entre mãe e filho; mas é preciso
não esquecer que ao fazê-lo, estamos lidando com uma
forma de psicologia social e que, portanto, estamos
movendo-nos dentro de um esquema de referência que deve
ser comparado, mas não igualado aos resultados da
psicologia introspectiva.
Portanto, é preciso tomar cuidado para não confundir e
não misturar teorias baseadas em observações
realizadas por meio do método introspectivo, com teorias
baseadas no método de observação, por exemplo, do
psicológico social ou do biólogo. O riacho corre
morro-abaixo e , evitando as pedras que encontra em seu
caminho, procura o trajeto mais curto até o rio - e
assim se resolve um problema de adaptação entre a água
e seu ambiente. Uma mulher casada está em conflito
acerca da tentação à infidelidade desenvolve uma
cegueira histérica - e mais uma vez pode-se dizer que
foi resolvido um problema de adaptação. Uma outra
mulher, em circunstâncias semelhantes, decide que não
quer mais ser tentada; ela também não quer mais ver o
homem tentador e resolve voltar para casa - e outra vez
fica resolvido o problema de adaptação. O psicológico
social pode tentar diferenciar esses processos de
adaptação comparando as diversas complexidades dos
meios empregados na solução - uma diferenciação nada
fácil á vista dos computadores ("cérebros"
eletrônicos) da nossa era. Qualquer que seja a solução
do psicológico social ou do biólogo, estará
evidentemente em desacordo com a do psicanalista. Este,
ao empregar a introspecção e a empatia, não distingue
os mecanismos por sua eficiência ou ineficiência nem
por sua simplicidade ou complexidade. O psicanalista, por
meio da empatia com as experiências de outra pessoa,
comporá os mecanismos avaliando a distância relativa
que há entre as diversas atividades mentais e o self que
realiza a introspecção. Alguns processos psicológicos
(tensão, alívio de tensão do recém-nascido) estão
quase além do alcance da empatia e pode-se dizer que as
adaptações que ocorrem estão mais próximas do
movimento da água que interage com as pedras e a
gravidade. Outros processos, se bem que um pouco mais
próximos do observador empático do que os precedentes,
estão ainda muito distantes do ego que observa a si
mesmo: as formações de compromisso, as condensações,
os deslocamentos e a superdeterminação a que chamamos
processos primários (por exemplo, na formação do
sistema neurótico); e finalmente, encontramos os
processos psicológicos que estão mais próximos da
nossa introspecção e da nossa empatia: os processos
secundários de pensamento lógico, de solução de
problemas e de ação libertadora - a faculdade de
escolha e decisão.
CONFLITO ENDOPSÍQUICO E CONFLITO INTERPESSOAL
Em seguida vamos examinar a posição dos conceitos do
conflito endopsíquico e de conflito interpessoal dentro
do arcabouço da teoria psicanalítica, especialmente a
propósito da convicção freqüentemente expressada de
que a psicanálise não é "bastante
interpessoal" ou de que emprega uma estrutura de
referência unilateral em vez da matriz social. Estas
opiniões deixam de levar em conta que o constituinte
essencial da observação psicanalítica é a
introspecção. Portanto, é preciso que definamos a
significação psicanalítica do termo
"interpessoal" como indicando uma experiência
interpessoal aberta à auto-observação introspectiva;
assim é diferente da significação dos termos
relacionamento interpessoal, interação, transação,
etc., empregados pelos psicológicos sociais, dentre
outros.
A investigação inicial de Freud estava dirigida para a
pesquisa introspectiva e empática das neuroses. Seus
esforços foram recompensados com duas grandes
descobertas: o inconsciente e o fenômeno da
transferência, isto é, a influência particular
exercida pelo inconsciente sobre a parte do psiquismo
mais acessível à introspecção. A introspecção
persistente, nas neuroses transferenciais, leva ao
reconhecimento de uma luta interna entre impulsos: o
conflito estrutural. O analista, enquanto figura
transferencial, não é experimentado no esquema de um
relacionamento interpessoal mas como o portador das
estruturas endopsíquicas inconscientes do analisando
(recordações inconscientes). ("Conceitos Mentais
Básicos", Glover, 1947) . Por exemplo, um paciente
relata despreocupadamente que deixou de pagar a passagem
do ônibus na vinda para a sessão. Ele "notou"
que o analista estava singularmente de cara feia quando o
comprimentou. O analista, como figura transferencial
(conforme é revelado pela introspecção persistente com
a análise das resistências), é uma expressão de
forças do supergo do analisando (a imago paterna
inconsciente).
Entretanto, o alcance da pesquisa psicanalítica foi
crescendo gradualmente e logo começou a incluir as
psicoses. E assim apresentou-se uma nova dificuldade ao
analista: empatizar com as experiências das
organizações mentais primitivas, com as experiências
do psiquismo pré-estrutural. As duas primeiras grandes
descobertas no reino das psicoses foram (1) a
compreensão de Freud da significação da hipocondria
psicótica ("Introdução ao Narcisismo",
1914b) e Tausk (1919) de que o delírio esquizofrênico
de estar sendo influenciado por uma maquina era a
revivescência de uma forma primitiva de self; uma
regressão às dolorosas e angustiadas experiências que
se seguem à perda do contato com uma experiência de
"tu". Assim, a introspecção persistente nas
perturbações narcísicas e nos estados fronteiriços
levou ao reconhecimento de um psiquismo não-estruturado
que luta para manter o contato comum com um objeto
arcaico ou para conservar-se tenuemente separado desse
objeto . Aqui, o analista não é a tela para a
projeção da estrutura interna (transferência), mas a
continuação direta de uma realidade precoce que foi
distante demais, rejeitadora demais ou infidedigna demais
para ser transformada em estruturas psíquicas sólidas.
Portanto, o analista é vivenciado introspectivamente
dentro do esquema de uma relação interpessoal arcaica.
Ele é o antigo objeto com o qual o analisando tenta
manter contato, do qual o analisando tenta separar sua
própria identidade e do qual o analisando tenta retirar
um pouco de estrutura interna. Por exemplo, um paciente
esquizofrênico chega a sessão analítica num estado de
ânimo frio e distante. Num sonho da noite precedente,
ele estava num campo estéril, coberto de neve; uma
mulher lhe oferece o seio, mas ele descobre que esse seio
é uma borracha. O trabalho que se segue mostra que a
frieza emocional do paciente e seu sonho constituem a
reação a uma rejeição aparentemente mínima do
paciente pelo analista, mas que na realidade foi muito
significativa. É claro que na análise das neuroses
transferenciais também ocorrem reações ás rejeições
realísticas do analista e que o reconhecimento e a
compreensão dessas reações têm importância tática.
Mas, análise das psicoses e dos estados fronteiriços,
os conflitos interpessoais arcaicos ocupam um lugar que
corresponde à importância do conflito estrutural nas
neuroses. As mesmas considerações se aplicam, mutatis
mutandis , aos conflitos estruturais encontradas nas
psicoses.
Não podemos encerrar o tópico sobre conflito
endopsíquico e interpessoal sem fazer mais alguns
comentários rápidos acerca da transferência. A
definição básica de transferência de Freud ("a
Interpretação dos sonhos" - 1900 a) foi resultado
de uma formação inequívoca de conceito: a
transferência é influencia do inconsciente sobre o
pré-consciente através de uma barreira de repressão
existente (ainda que enfraquecida). Os sonhos, os
sintomas e os aspectos da percepção que o analisando
tem do analista são as formas mais importantes de
manifestação da transferência. O emprego
indiscriminado que ora se faz dos termos transferência e
contratransferência (muitas vezes indicando o
relacionamento interpessoal específico no sentido da
psicologia social) se origina na discordância
desapercebida quanto ao método de operação sobre o
qual a estrutura teórica deveria estar baseada.
Poderemos conservar a grande vantagem da coerência de
modo de operação, sem ficar paralisados pelo modelo
mental mais grosseiro com que Freud trabalhava em 1900,
se ajustarmos o conceito primitivo de transferência ao
seu diagrama estrutural de 1923 e se o definirmos além
disso com vistas à autonomia do ego (Hartmann, 1939) A
experiência transferencial do objeto na situação
terapêutica dessa forma reteria sua significação
original de combinação de impulsos objetais infantis
reprimidos com aspectos do analista (insignificantes na
realidade presente). Estaria, assim, claramente
distinguida de duas outras experiências: (a) dos
impulsos em direção a objetos que embora emergindo da
profundidade, não atravessam a barreira da repressão
(cf. o diagrama de Freud em "O ego e o Id": a
barreira de repressão separa apenas uma pequena parte
entre o ego e o id); e (b) dos impulsos objetais do ego
que, embora originalmente transferenciais, mas tarde
romperam as ligações com o reprimido e se tornaram
escolhas de objetos autônomas do ego. É importante
reconhecer que nos dois casos as escolhas de objetos se
originam em parte no passado, isto é, a escolha de
objeto de vida posterior é modelada de acordo com os
moldes da infância. Mas se é verdade que todas as
transferências são repetições, nem todas as
repetições não transferenciais.
Pela abordagem histórica não-introspectiva não é
possível distinguir entre influencias do passado que
afetaram o crescimento do aparelho mental e influências
atuais de um remanescente do passado que ainda está em
sua existência real, isto é, o inconsciente reprimido.
Mas através da introspecção persistente cientifica
seremos capazes de distinguir entre escolhas de objetos
não-transferênciais moldadas conforme os modelos da
infância (isto é, uma parte daquilo que muitas vezes é
chamado erroneamente de "transferência"
positiva) e verdadeiras transferências. Estas últimas
podem ser desfeitas pela introspecção persistente;
aquelas primeiras, no entanto, estão situadas fora da
esfera do conflito estrutural e não são diretamente
afetadas pela introspecção psicanalítica.
DEPENDÊNCIA
Alguns conceitos empregados pela psicanálise não são
abstrações baseadas na observação introspectiva nem
na introspecção empática, mas são derivados de dados
obtidos por outros métodos de observação. É preciso
comparar alguns conceitos com abstrações teóricas
baseadas em observações psicanalíticas; mas esses
conceitos não são idênticos a estas abstrações.
Vamos considerar, por exemplo, que a importância da
sexualidade infantil em geral e do Complexo de Édipo em
particular esteja relacionada com uma dependência
prolongada, biologicamente necessitada do bebê, ou mesmo
que seja parte dessa dependência. Esta é uma hipótese
psicanalítica? Num sentido geral, é claro que a
resposta é sim porque sabemos que a hipótese em
questão não poderia sequer ter sido formulada nem antes
introspectiva da experiência fálica, anal e
erótico-anal nem antes do estabelecimento das paixões
edipianas na transferência. Entretanto, considerações
mais exatas vão demonstrar que nem todos os conceitos
utilizados nessa hipótese podem, sem modificações, ser
tratados como se tivessem sido retirados das
observações introspectivas e empáticas. Os problemas
dos instintos e da sexualidade serão considerados mais
adiante; trataremos aqui do conceito da dependência.
O termo dependência pode ser empregado para exprimir
duas significações distintas que, desordenadamente,
muitas vezes são relacionadas entre si, embora nem
sempre. O primeiro significado se refere a um
relacionamento entre dois organismos (biologia), ou duas
unidades sociais (sociologia). O observador biológico
pode afirmar que diversos mamíferos recém-nascidos são
dependentes (para a sobrevivência) dos cuidados que
recebem dos adultos da espécie que os criam. É
possível fazer juízos semelhantes a propósito da
dependência quanto ao relacionamento entre homens
adultos. Na nossa civilização complexa e altamente
especializada, cada membro da sociedade desenvolve apenas
determinadas habilidades e é, portanto, dependente do
todo da sociedade (do somatório das habilidades dos
outros) para sua existência como ele a conhece e, é
claro, para sua própria sobrevivência biológica.
Aparte das significações biológica e sociológica do
termo dependência encontra um conceito psicológico que
o mesmo nome e que tem sido amplamente utilizado nas
nossas formulações psicodinâmicas. Dizemos que alguns
pacientes ou têm problemas de dependência ou que
desenvolvem problemas de dependência no curso da
psicanálise. Ou falamos de personalidades orais
dependentes e concluímos que sua dependência oral
contribui decisivamente para o desejo que têm de
perpetuar o relacionamento com o analista. Como estamos
lidando aqui com um conceito psicanalítico de
dependência, é preciso supor que o obtivemos por meio
da observação psicanalítica de nossos pacientes e que
o termo constitui alguma generalização ou abstração a
propósito do estado mental do analisando. E de fato este
é o caso, muitas das vezes, em que dizemos que um
paciente está em conflito quanto aos seus impulsos de
dependência ou, numa formulação estrutural, que esse
paciente reprimiu seus impulsos de dependência. Uma
semelhante formulação parece inquestionável, pois
aparentemente estamos apenas aplicando o conceito
demonstrado de regressão. No entanto, fizemos
tacitamente uma suposição que precisamos isolar antes
de podermos examinar a plausibilidade da formulação
precedente. Regressão, como termo psicanalítico, indica
o retorno a um estado psicológico mais antigo. Portanto,
nosso problema não se refere ao fato indiscutível de
que um bebê é dependente de sua mãe (no sentido
biológico e não sociológico) mas antes à
desconcertante questão de saber se o estado mental do
bebê corresponde grosseiramente àquilo que encontramos
quando descobrimos impulsos reprimidos de dependência do
analisando adulto. Para demonstrar que não se pode
confiar em tais esforços, podemos considerar a hipótese
oposta e afirmar que a auto-consciência rudimentar do
bebê saudável no seio deveria antes ser comparada com o
estado emocional de um adulto que esteja totalmente
absorvido por uma atividade que para ele tenha a mais
extrema importância. Assim como, por exemplo, o corredor
no último trecho da corrida de cem metros rasos, o
concertista virtuoso no ponto culminante da cadência ou
o amante no clímax da relação sexual. Portanto, a
suposição de que os estados de dependência no adulto
constituem uma regressão a uma gesthalt psicológica
primitiva que não pode ser mais dissecada pela análise
é contrária à nossa compreensão empática das
crianças saudáveis.
É claro que algumas vezes pode ser útil ao psicológico
empregar descobertas ou princípios biológicos a fim de
orientar suas expectativas quanto ao que deve observar.
Mas o teste final é a observação psicológica em si; e
é errôneo extrapolar de princípios biológicos a
interpretação de um estado mental especifico, ainda
mais se esses princípios contradizem os nossos achados
psicológicos. Desta forma, veremos que o agarrar-se
temeroso ou mesmo teimoso, o segurar-se, a resistência
contra deixar-se andar que encontramos em alguns dos
nossos pacientes adultos não é uma repetição de uma
fase normal do desenvolvimento psicológico, isto é,
não é um regressão ao estado mental da criança
razoavelmente normal, filha de pais razoavelmente
normais. As reações de dependência nos adultos, se
são regressões a situações da infância, não se
referem a um retorno à fase oral normal do
desenvolvimento, mas à patologia da infância e
freqüentemente a fase da infância mais tardia. São,
por exemplo, reação a experiências especifica de
rejeição, isto é, complicadas misturas de raiva e medo
da retaliação. Ou então protegem o paciente (por
exemplo) (contra o aparecimento de culpa ou ansiedade
associada com um conflito estrutural oculto) pelo ato de
agarra-se ao terapeuta que se tornou o portador
onipotentemente benigno das fantasias narcísicas
projetadas.
Portanto, devemos também opor-nos à tendência a
atribuir a dependência psicológica quase que
exclusivamente à oralidade. Não há duvidas quanto a
que essa associação realmente existe em alguns casos.
Mas a observação empática que permanecer
desembaraçada de expectativas biológicas ficará aberta
ao reconhecimento de que uma grande variedade de
instintos pode contribuir para a criação de um estado
de Horigkeit (isto é, servidão) ao terapeuta,
particularmente se forem mantidos num estado de
semi-insatisfação (abstinência psicanalítica
incompleta - e quando, por acaso, é completa?). E em
portanto, o agarrar-se insistentemente que caracteriza o
estado psicológico em questão, não é a associação
com um instinto em particular.
Talvez o principio psicológico mais genérico que se
poderia evocar para explicar alguns desses estados seja a
resistência à mudança ("a adesividade da
libido"), mas esse ato de voltar-se para esta
explicação, que é a mais geral de todas, só deveria
ocorrer depois que todas as outras possibilidades
tivessem sido esgotadas ou então se houvesse evidências
psicológicas diretas desse fator num caso particular. O
episódio seguinte me foi relatado recentemente por um
homem de trinta e cinco anos e talvez possa ser explicado
nesses termos. Ele fora um dos trinta sobreviventes de um
campo de concentração no qual, no curso dos anos em que
estivera preso cerca de cem mil pessoas tenham sido
mortas. Quando o avanço das tropas russas se tornou
ameaçador, os guardas nazistas abandonaram o campo e os
trintas companheiros ficaram livres. Embora estivessem
numa condição física passável, levaram quase quatro
longos dias para se decidirem a sair.
O fenômeno da dependência deve ser visto ainda de
maneira diferente em analisandos com estrutura
psicológica deficiente. Por exemplo, alguns adictos não
conseguiram adquirir a capacidade de tranqüilizar-se ou
de dormir; não foram capazes de transformar em faculdade
endopsíquica (estrutura) a experiência precoce de ser
tranqüilizado ou de ser posto para dormir. Estes
adictos, portanto, têm que se apoiar nas drogas não
como substitutos de relações objetais, como substitutos
de estruturas psicológicas. Se estes pacientes estão em
psicoterapia, pode-se dizer que se tornam adictos ao
psicoterapeuta ou ao procedimento terapêutico. Mas a
adição que mostram não deve ser confundida com
transferência: o terapeuta não é uma tela para a
projeção de estruturas psicológicas existentes; ele é
um substituto dessas estruturas. Uma vez que a estrutura
psicológica é necessária, o paciente agora realmente
precisa de apoio, da tranqüilização do terapeuta. Sua
dependência não pode ser analisada nem desfeita pelo
insight; tem que ser identificada e reconhecida. De faro,
é uma experiência clinica o fato de que a tarefa
psicanalítica mais importante em tais casos é a
análise da negação da necessidade real; o paciente tem
inicialmente que aprender a substituir um conjunto de
fantasias grandiosas inconscientes que são mantidas com
o auxílio do isolamento social por ser tão dolorosa
para ele a aceitação da realidade de ser dependente.
SEXUALIDADE, AGRESSÃO, INSTINTOS
O conceito psicanalítico de sexualidade levou a muita
confusão e discussão. A quantidade sexual de uma
experiência não é adequadamente definida pelo
conteúdo da experiência, nem pela zona corporal (zona
erotogênica). Para um adolescente, olhar as
ilustrações dos livros médicos pode ser uma
experiência sexual. Para o estudante de medicina, não o
é. Nem tampouco podemos definir o conceito psicológico
de sexualidade por referencia a substâncias bioquímicas
específicas (por exemplo, hormônios). Se o bioquímico
pudesse demonstrar, por exemplo, que a superprodução de
certos hormônios sexuais contribui para o crescimento de
certos tumores malignos, isso não implicaria
necessariamente em que esses tumores fossem o resultado
dos desejos sexuais pré-conscientes ou inconscientes do
paciente. Mas o psicólogo pode tirar seus indícios de
tais descobertas bioquímicas. Por exemplo, se os
hormônios que habitualmente estão envolvidos na
gravidez vierem a ser descobertos na etiologia do
câncer, nossa pesquisa psicológica pode voltar-se para
a personalidade pré-consciente para indagar se tais
pessoas têm desejos insatisfeitos crônicos de gravidez.
Mas a prova psicológica final para a existência factual
de semelhantes desejos deverá ser a sua descoberta
empática e introspectiva. E claro que se aplicam
considerações semelhantes, mutatis mutandis, aos
indícios que o bioquímico pode retirar da psicologia
profunda.
Os analistas não têm insistido bastante em que a
qualidade sexual de uma experiência não pode ser mais
definida. E verdade que os analistas compreendem que
quando dizemos "sexuais", queremos dizer algo
que é muito amplo do que a sexualidade genital de que a
experiência sexual pré-genital inclui processos sexuais
do pensamento, a locomoção sexual, etc. Ainda mais, é
instrutivo considerar as observações meio-sérias,
meio-jocosas de Freud (1916-1917) acerca da equação
"sexual e o que é impróprio" (p.303) e a
observação novamente brincalhona de que "de fato,
no todo, quando pensamos nisso, não chegamos a ficar
embaraçados quanto ao que as pessoas chamam de
sexual" (p.304). A experiência sexual pré-genital
da infância e a experiência sexual do adulto (seja nos
jogos prévios, nas perversões ou no coito) têm assim
em comum uma qualidade que não pode ser mais definida e
que sabemos ser sexual, seja pela experiência direta,
seja depois de prolongada e persistente introspecção e
remoção dos obstáculos internos à introspecção
(análise das resistências).
E podemos, portanto, dizer que para o bebê e para a
criança, uma grande quantidade de experiências tem a
qualidade que os adultos conhecem bem em sua vida sexual;
assim, nossa vida sexual nos provê de um remanescente de
uma experiência que era, no início do nosso
desenvolvimento psicológico, muito mais difundido. De
acordo com Freud (1921, p.91), o termo foi escolhido
"a potiori", isto é, da mais bem conhecida,
dessas experiências em outras palavras um nome que vai
da maneira mais indiscutível, evocar em nós a espécie
exata de significação. Não haveria tantos motivos para
insistir no termo "sexual" se sua
significação fosse biológica. A atitude de Freud de
recusar-se a abandona-lo foi a única maneira de
salvaguardar a essência de sua significação
psicológica. Termos como "força vital" e
"energia vital" não conduzem a um
reconhecimento inconfundível de uma modalidade primária
rejeitada de experiência .
De maneira análoga, muita coisa fica esclarecida se
admitimos que o termo psicanalítico "instinto"
é derivado da investigação introspectiva da
experiência interna. As experiências podem ter as
qualidades de instintividade em diversos graus (de
querer, de desejar ou de empenhar-se). Então, um
instinto é uma abstração de inumeráveis experiências
internas; indica uma qualidade psicológica cuja análise
não pode ser levada adiante pela introspecção; é o
denominador comum dos impulsos sexuais e agressivos.
As hipóteses de Freud acerca do narcisismo primário e
do masoquismo primário também estão dentro da
estrutura teórica da psicologia introspectiva. Ele
observou os fatos clínicos do narcisismo e do masoquismo
e postulou que constituíam a revivescência de formas
precoces (teóricas) de experiências (potenciais)
sexuais e agressivas às quais as formas posteriores
(narcisismo clínico, masoquismo clínico) retornaram em
resposta às tensões ambientais. Mas a suposição de um
instinto de vida e de um instinto de morte, paralelamente
à teoria do narcisismo primário e do masoquismo
primário, constitui um tipo inteiramente diferente de
formação de teoria. Os conceitos de Eros e Thanatos
não pertencem à teoria psicológica baseada nos
métodos de observação de introspecção e empatia, mas
a uma teoria biológica que deve estar assentada em
outros métodos de observação. É claro que o biólogo
é livre para tomar quaisquer indícios úteis que possa
encontrar em psicologia; nas suas teorias devem basear-se
na observação biológica e na evidência biológica
(Hartman et al., 1949). Por outro lado, a aplicação dos
métodos da psicologia introspectiva a toda matéria
animada, como por exemplo, em alguns tipos de biologia
teleológica, não é cientifica . Assim, se podemos
admirar a audácia da especulação biológica de Freud,
temos que reconhecer que os conceitos de Eros e Thanatos
estão fora da estrutura da psicologia psicanalítica.
Freud habitualmente evitava deixar-se levar pela
especulação biológica quando não podia confirma-la
pelos achados da observação introspectiva
psicanalítica. Um exemplo deste empirismo está contido
em seus artigos sobre a sexualidade feminina. Muita coisa
tem sido dita acerca de um suposto preconceito
anti-feminino de Freud, conforme evidenciado em sua
insistência na importância dos impulsos fálicos no
desenvolvimento da sexualidade feminina. A verdade
biológica evidente parece ser de que a mulher dever ter
tendências femininas primárias e que não é aceitável
que a feminilidade seja explicada como uma retirada de
uma masculinidade frustrada. Não é provável que a
opinião de Freud fosse devida a uma visão escotomizada
que limitasse seus poderes de observação. É muito mais
provável que eles se recusasse a mudar seus pontos de
vista acerca da sexualidade feminina em função de sua
confiança na evidência clínica que estava então
aberta para ele - através da observação psicanalítica
e assim não quisesse aceitar como fato psicológico uma
especulação biológica plausível. Penetrando além das
atitudes e sentimentos femininos de suas pacientes, ele
regularmente encontrava o conflito sobre os impulsos
fálicos e embora aceitasse a bissexualidade biológica,
recusava o postulado de uma fase psicológica anterior da
feminilidade sem ter evidência psicológica disso.
A atitude de Freud a propósito do desenvolvimento da
sexualidade feminina é um dos muitos exemplos de sua
fiel adesão ao método introspectivo e empático de
observação. No entanto, é preciso admitir que, apesar
de sua habitual lealdade ao método psicanalítico de
observação, Freud preferiu não se manifestar quanto a
alguns de seus conceitos e mantê-los numa terra de
ninguém entre a biologia e a psicologia. Mas uma
semelhante região fronteiriça deixa de existir, uma vez
que se tome a posição operacional. Visto deste ângulo,
considerar o ponto de vista dinâmico com seu conceito de
instinto como sendo hormonal ou bioquímico (isto é,
biológico do ponto de vista operacional) é quase a
mesma coisa que pensar no conceito de superego do ponto
de vista estrutural como sendo anatômico.
O LIVRE ARBÍTRIO E OS LIMITES DA INTROSPECÇÃO
A psicologia, e especialmente a psicanálise, (Knight,
1946; Lipton, 1955) têm sido ultimamente confrontadas
com uma nova edição de um paradoxo que sob diversas
formas empestou durante muito tempo a teologia, a
filosofia e a jurisprudência: como a nossa faculdade de
fazer uma escolha ou de chegar a uma decisão é
compatível com a lei do determinismo psíquico? A
primeira vista, parece que a psicanálise dá peso ao
argumento contrário à existência livre arbítrio ao
mostrar (1º) como somos conduzidos por forças
irracionais que apenas conseguimos racionalizar; e (2º)
que tendemos a fazer uma supervalorização narcísica de
nossas funções psíquicas e, por isso, abrigamos um
sentimento megalomaniacamente iludido de liberdade a
propósito de nossas queridas atividades mentais
superiores. Mas o exame mais detido mostra a atitude
psicanalítica a propósito da existência da escolha e
da decisão não é simples nem isenta de divergências.
A posição contraditória do próprio Freud talvez seja
mais bem descrita pela afirmação de que nas entrelinhas
e como uma opinião pessoa endossou a convicção de que
havia uma área de liberdade, escolha e decisão na
psicologia humana. Mas que, por outro lado, durante muito
tempo ele relutou intensamente quanto a incorporar de
maneira direta esta convicção à estrutura teórica de
sua ciência. É característico desta irresolução que
sua famosa e freqüentemente citada afirmação acerca do
objetivo da psicoterapia psicanalítica esteja relegada a
uma nota de rodapé. Ele diz em "Ego e o Id"
(Freud, 1923) que a psicanálise se dispõe a "dar
ao ego do paciente liberdade para escolher um caminho ou
outro" (p.50; o itálico é de Freud). As
formulações teóricas mais primitivas de Freud estavam
orientadas em direção ao determinismo psíquico
absoluto e parece não haver lugar para uma
"liberdade do ego... para decidir" em seu
sistema teórico mais antigo. Servem como ilustrações
deste ponto de vista: (a) o conceito de Ichitriebe
(impulsos do ego, instintos do ego); (b) a afirmação de
que o ego se desenvolve a partir do id; e (c) a
afirmação de que o principio da realidade é apenas um
principio do prazer modificado. Mas as formulações
teóricas posteriores de Freud começaram a incorporar,
reconhecidamente apenas de maneira implícita na maioria
dos casos, mas um pouco de espírito de suas convicções
iniciais a propósito de alguma liberdade ou
independência do ego. A ênfase sobre o ego como
estrutura psíquica e algumas observações acerca da
gênese independente do ego em "Analise Terminável
e Interminável" (Freud, 1937) em adiantamento à
afirmação contida em "O ego e o Id" são
exemplos desta ligeira modificação em sua visão
teórica. Esta afirmação pode ser vista como
antecipando aquilo que designamos agora de autonomia do
ego, desde Hartmann (1939).
Talvez uma parte da confusão possa ser reduzida se
novamente abordarmos o problema definindo claramente o
método de observação pelo qual obtemos a
matéria-prima para nossas abstrações teóricas. Para
uma ciência que obtém o seu material de observação
através da introspecção e da empatia, a pergunta pode
ser formulada da seguinte maneira: Podemos observar em
nós mesmos a capacidade de escolher e decidir? Será que
a continuação da introspecção (analise das
resistências) conseguiria dissecar essa capacidade até
seus componentes subjacentes? As configurações
psicológicas contrárias, a saber, a experiência de ser
compelido e a experiência da indecisão e da dúvida
(por exemplo obsessiva), habitualmente podem ser
decompostas por meio da introspecção. À medida que
conseguimos reduzir estes fenômenos pelo método
psicanalítico determinando seus motivos, estamos
simultaneamente caminhando na direção do
restabelecimento da escolha e da decisão livres. Será
que podemos fazer o mesmo com a capacidade de escolha
introspectivamente observada? Será que podemos, pela
introspecção, decompor a experiência de fazer uma
escolha em componentes de compulsão e narcisismo? A
resposta a esta pergunta é não, apesar da ênfase que a
psicanálise põe na motivação inconsciente e na
racionalização pois, sob condições favoráveis, o
máximo que se conseguiu através da persistente
recuperação de motivações inconscientes e de
racionalizações foi uma experiência de liberdade cada
vez mais ampla e mais vivida.
Cada ramo da ciência tem seus limites naturais
determinados aproximadamente pelos limites do seu
instrumento básico de observação. O cientista físico
admite que toda a teoria tem que começar com certos
fatos inexplicáveis que estão além da causalidade, por
exemplo, a existência da energia no universo. Estas
variáveis inexplicáveis (os elementos, o calor, a
eletricidade, etc.) podem ser substituídos e seu número
pode ser reduzido à medida que as ciências físicas se
modificam ou progridem. Mas a redução a um único
elemento não parece útil a uma ciência que tem que
levar em conta a variedade dos fenômenos naturais.
Assim, cada ciência chega a um pequeno número ideal de
conceitos básicos. Os limites da psicanálise são
ditados pelos limites da introspecção e da empatia
potenciais. Dentro do campo observado reina a lei do
determinismo psíquico que compreende a suposição de
que a introspecção, sob a forma de livre associação e
análise das resistências, é potencialmente capaz de
revelar motivações para nossos desejos, decisões,
escolhas e atos. Mas a ciência introspectiva tem que
reconhecer os limites além dos quais o seu instrumento
de observação não alcança e tem que aceitar à sua
disposição. Podemos reconhecer desejos e outras forças
impulsionadoras internas e podemos expressar este fato da
observação que não pode ser mais reduzido
introspectivamente, pelo termo "instinto" ou
como instinto sexual agressivo. E podemos observar, por
outro lado, a experiência de um "eu" ativo:
seja dissociado do instinto (na auto-observação) ou
fundindo com o instinto não-descarregado (como a
experiência de um desejo) ou mesclado em modalidades de
descarga motora (como ação). Aquilo que experimentamos
como liberdade de escolha, como liberdade de decisão e
congêneres, é uma expressão do fato de que a
experiência do eu e um núcleo de atividade que emanam e
daí não podem, no momento presente, ser divididos em
componentes pelo método introspectivo. Portanto, estão
além da lei de motivação, isto é, além da lei do
determinismo psíquico.
BASTIDORES
PSICANÁLISE EM CHICAGO: UM POUCO DA SUA HISTÓRIA.
A psicanálise há muito tempo faz parte da rica e muitas
vezes inovadora vida cultural de Chicago. Na cidade que
deu ao mundo a arquitetura moderna, para não mencionar
suas muitas outras contribuições para as ciências
naturais, as ciências sociais e as artes, não são de
admirar que tenha sido o radical jovem presidente da
Universidade de Chicago, Robert Maynard Hutchins quem, em
1930, convidou Franz Alexander, de Berlim, a se tornar o
primeiro professor de psicanálise na nova escola de
medicina daquela Instituição. Com 30 anos de idade,
Hutchins tinha acabado de se tornar chanceler no ano
anterior e a faculdade de medicina começara em 1927, com
a então revolucionária inovação de uma congregação
de tempo integral. Infelizmente, a hostilidade dirigida
contra a escola pela comunidade médica de Chicago - a
Sociedade Médica local colocou numa lista negra todos os
médicos da congregação - foi ainda mais forte na
atitude da própria escola contra Alexander e às idéias
psicanalíticas trazidas por ele. Cada afirmação de
Alexander era desafiada e ele terminou sendo acusado de
inadequação ética. Após um único ano de total
perplexidade, ele abandonou a Universidade e preparou a
formação da Sociedade Psicanalítica de Chicago, em
junho de 1931.
Entre os 12 membros fundadores estavam Leo Bartemeier,
Lionel Blizsten, Thomas French, Helen Mclean e Karl
Menninger.
Nos anos 40 Alexander formulou algumas noções muito
controvertidas. Não gostando da "dependência"
que a análise parecia promover, ele encurtou o prazo do
tratamento e o tornou menos intenso. Atendendo pacientes
3 vezes por semana em vez de 4 ou 5, manipulou suas
atitudes de modo a atuar ao contrário das figuras do
passado do paciente. Chamou essas manipulações de
"experiências emocionais corretivas", dando
assim um mau nome para um bom conceito. Essas
experiências iconoclásticas despertaram a ira do
"establishment" psicanalítico da costa Leste,
mas também encontraram resistências crescentes locais.
Um grupo de analistas que tinha sido analisado por
Blitzsten, liderado por Maxwell Gitelson e Joan Fleming,
ao qual aderiu Heinz Kohut, conduziu a uma espécie de
golpe de estado e, em 1956, Alexander foi para o exílio
em Los Angeles.
QUEM ERAM ESSAS PESSOAS?
LIONEL BLITZSTEN
Buscou fazer análise com Freud em Viena, que o teria
rejeitado porque teria chegado atrasado 15 minutos para a
entrevista, apesar de sua desculpa de que o táxi
enguiçara. Depois, procurou Alexander em Berlim, onde
freqüentou alguns cursos no Instituto. Segundo Orr,
Blitzsten "foi para a Europa no início dos anos 20;
após alguns anos formou-se no Instituto de Berlim e
voltou a Chicago em 1925 como psicanalista". Passou
a dominar a psicanálise em Chicago. Foi o primeiro
presidente da Sociedade Psicanalítica de Chicago e um
ano depois passou a ensinar no Instituto de Psicanálise,
dirigido por Franz Alexander, mas logo divergiu de seu
diretor.
Em 27 de janeiro de 1976, numa reunião da Sociedade
Psicanalítica de Chicago, uma tentativa de definir as
contribuições teóricas de Blitzsten, em particular no
território dos problemas narcísicos, despertou intensas
paixões facciosas, remanescentes dos ácidos combates
que tiveram lugar nos primeiros tempos da Sociedade,
entre os aliados de Blitzsten e os membros do Instituto.
Uma observação útil foi feita por Heinz Kohut que
sentia que Blitzsten não tinha muita capacidade de
conceituação e era essencialmente um "homem de
ação" - impaciente. Ele o contrastou com
Alexander, a quem considerava um conceituador muito
cuidadoso; e no entanto este parecia incapaz de focalizar
questões humanas significativas, algo que aquele fazia
facilmente. Estivesse Kohut certo ou não em sua
avaliação, o psicanalista naturalmente vai desconfiar
de transferência mal resolvida na qual o violento debate
público envolve analista e analisando, como era o caso
de Blitzsten e Alexander. Mais tarde, Maxwell Gitelson
que tinha feito análise com os dois, parece ter tomado o
partido de Blitzsten. Alexander vai-se embora de Chicago
em 1956.
HELEN McLEAN
Possuía interesses diversificados. Estou na China junto
com seu marido. Estava interessada nas diferenças
culturais e nas relações raciais, bem como na análise
psicológica da grande literatura, com ênfase especial
nos gregos antigos. Uma de suas últimas publicações
era sobre educação médica na África.
Teve um papel importante na cena psicanalítica de
Chicago. Era uma das três mulheres a participar do corpo
docente do Instituto, juntamente com Margaret Gerard e
Catherine Bacon. Aposenta-se ao final dos anos 60.
PORQUE MENCIONAR TUDO ISSO?
Para terem uma compreensão da importância do trabalho
"Introspecção, Empatia e Psicanálise. Um Estudo
da Relação entre Método de Observação e
Teoria". Este "paper" foi solicitado a um
Kohut com 44 anos de idade (1913), sete anos após ter
completado sua formação no Instituto de Chicago.
Preparou-se. Fez um breve resumo apresentado no 20º
Congresso da I.P.A. presidido por Hartmann, em Paris na
"Maison de La Chimie". O trabalho passou
desapercebido. Apresenta-o, em novembro de 1957, na
Sociedade de Chicago tendo uma mesa composta por FRANZ
ALEXANDER, MAXWELL GITELSON, LOEWENSTEIN e HELEN McLEAN.
Sabemos que Franz Alexander se notabilizou por buscar
fazer uma ligação entre a psicanálise e a biologia,
através da aplicação do método psicanalítico para
explicar síndromes médicas. Conseqüentemente,
utilizava os conceitos de instintos e pulsões. REAÇÃO:
GROSSEIRA, quase chegando a manifestações físicas de
desaprovação - "quase ofensivo nos seus
comentários".
Maxwell Gitelson. POSIÇÃO MÉDIA.
Loewenstein. Conhecido em New York por fazer parte de um
trio, junto com Hartmann e Kris defensores da
"Psicologia do Ego" - uma teoria da
adaptabilidade do ego. Uma abordagem muito próxima do
cultural e do social. REAÇÃO: CRÍTICA SEVERA, porém
RESPEITUOSA.
Helen McLean. REAÇÂO: "CALOROSA ACEITAÇÃO E
ORGULHO".
PORQUE DESTAS REAÇÕES ?
1. Kohut fez uma crítica ao modelo da psicanálise
praticada, porque entendeu estar entrando pela BIOLOGIA e
o SOCIAL. Portanto, se opondo ao pensamento
psicanalítico da época.
2. Kohut ficou com a impressão que não entenderam a sua
proposta, que era a de "UM ESTUDO DA RELAÇÃO ENTRE
MÉTODO DE OBSERVAÇÃO E TEORIA".
3. A VIRADA PARA A PSICOLOGIA DO SELF
Prenderam-se ao termo EMPATIA, que já era e continuou
sendo hoje um termo muito conotado afetivamente. A
Empatia é, freqüentemente, confundida com SIMPATIA, com
CALOR HUMANO. Isto transposto para o "setting"
psicanalítico, era como se fosse uma ATITUDE ATIVA DE
BENEFICIAMENTO ou de FAVORECIMENTO da presença do
analisando pelo analista. Isto foi considerado na época,
um desvio da técnica, uma PSICOTERAPEUTIZAÇÃO DO
"SETTING" PSICANALÍTICO.
Daí, em diante Kohut passou os 25 anos mais produtivos
da sua vida até 4 dias antes de morrer (diante das
câmeras de TV na Universidade de Berkely) falando
alegremente sobre INTROSPECÇÃO e EMPATIA.
4. IMPORTÂNCIA DO TRABALHO
Explicitação de uma METODOLOGIA que irá acompanhar
Kohut o tempo todo por uma PSICANÁLISE PSICOLÓGICA
separada da Biologia e do Social. Com isto, quero dizer
que separado é separar o que é PSICOLÓGICO do que pode
ser chamado de fenômeno BEHAVORISTA, SOCIAL ou
PSICOSSOMÁTICO.
COMO SE FAZ ENTÃO UMA PSICANÁLISE PSICOLÓGICA ?
1. PELA DELIMITAÇÃO DO CAMPO PSICOLÓGICO
2. O campo psicológico é só aquele que pode ser
observado FUNDAMENTALMENTE pela INTRONSPECÇÃO e EMPATIA
ou INSTROSPECÇÃO VICARIANTE. COLOCAR-SE NO LUGAR DO
OUTRO e procurar decodificar um significado do discurso
do Outro, DESDE O LUGAR DA EXPERIÊNCIA EXISTENCIAL DO
OUTRO.
3. NÃO É UMA LEITURA METAPSICOLÓGICA DO DISCURSO, na
qual se está buscando onde está a resistência, o
mecanismo de defesa, o impulso - procurando o que a
Metapsicologia indica.
4. A proposta kohutiana é da Introspecção em si mesmo
e da Empatia com o Outro, visando recolher dados da
experiência do Outro. Conseqüentemente, é MÉTODO DE
CAPTAÇÃO DE DADOS. Com o passar do tempo, isto veio a
se chamar uma LEITURA HERMENENÊUTICA DO MATERIAL
PSICANALÍTICO (Hermenêutica é uma Ciência que se
ocupa em decodificar textos sagrados, literários ou
interpretação do sentido das palavras ou das leis).
5. INTERPRETAÇÃO DO TEXTO A PARTIR DO PRÓPRIO AUTOR, o
enunciador do discurso.
6. MÉTODO DIFERENTE. Portanto, uma revisão dos
conceitos psicanalíticos como o de IDENTIDADE, porque
não pode ser obtido por introspecção e empatia, o que
seria uma abstração teórica - é um conceito da
Psicologia Social.
7. MÉTODO DE COLETA DADOS, baseado na DIALÉTICA
EXPERIENCIAL DE ACERTO-ERRO. É um método accessível a
qualquer pessoa, que se disponha a se exercitar.
Incluindo sensíveis e intuitivos.
8. É treinar OUVIR. Fazer uma suposta tradução do
discurso do Outro. Apresentar esta tradução e verificar
como ela é recebida. Então, dando VALIDADE À RESPOSTA
neste interjogo e aí dizer: "Eu acho que foi
isso". O enunciador do discurso concorda ou
discorda.
9. NÃO ENVOLVE UM TALENTO ESPECIAL DO PSICANALISTA EM
REVELAR VERDADES AO PACIENTE.
10. É MÃO-DE-OBRA PURA E SIMPLES, SEM INTUIÇÃO
EXTRAORDINÁRIA. Imersão prolongada no discurso do
paciente, imersão prolongada na sua própria
introspecção e tentativa no ensaio de buscar acertos e
erros.
11. O conceito é isento de qualquer conotação moral,
ética, sugestiva, afetiva e emocional. Porque empatia
tanto serve a favor ou contra alguém.
12. MÉTODO. Não é proposta afetiva, mas que pelos
resultados cria um clima integrativo.
Psicanalista
Ricardo Fabião Gomes
Médico psiquiatra, psicogeriatra e fundador do Centro de
Estudos Avançados em Relações Humanas CEARH
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