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| Psicanalista
Waldemar Zusman |
Para os que crêem que a Lei do Eterno
Retorno, como queria Nietzsche, serve para explicar todas
as coisas, basta reconhecer num novo acontecimento as
sementes do antigo, e se dar por satisfeito. Acabam-se as
novidades. Afinal, a memória tem muitos usos, e um de
nossos mais constantes recursos é não deixar acordado o
estado mental de não-saber, que alimenta no
ser humano a fonte da perplexidade, do espanto, ante o
número imenso de mistérios de que estamos cercados. O
desconhecido, a novidade, incomoda tanto, que já se
dizia, nos tempos bíblicos, que não há nada de novo
debaixo do sol.
É claro que quem inventou esta historia de que não
existem novidades, não sabia distinguir, em cada fato, o
invariável, daquilo que se transforma, o novo. As coisas
parecem iguais, mas, ao longo do tempo, já não são as
mesmas, por mais que se pareçam. Álvaro Moreyra dizia
que as coisas nunca eram as mesmas, embora os homens
continuassem fazendo as mesmas coisas. Quando temos medo
das novidades, tudo nos parece igual. É uma defesa, dá
para- notar.
Davos e o Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, para
alguns, não foram mais do que um repetido confronto
entre:
a) A turma da direita , que se acredita capaz de resolver
os problemas econômicos e sociais do mundo, ostentando
simultaneamente, poder e medo. E de outro lado:
b) a turma da esquerda, reunida em Porto Alegre, que
também se acredita capaz de resolver os problemas
econômicos e sociais do mundo, ostentando
simultaneamente, satisfação e arrogância.
Houve época em que o liberalismo se defrontava com o
marxismo, ancorados ambos em estruturas estatais
(Países), que se ofereciam ao mundo como um campo de
provas, uma vitrine, para que fosse possível ver, de
maneira concreta, de que lado estaria a verdade das teses
antagônicas por eles defendidas.
Agora mudou. O fôlego do laboratório marxista passou
por um sufoco que desmontou a URSS. De outro lado, em
Davos estavam reunidos os globalisadores assustados, numa
cidade da Suíça, um país que já foi símbolo de uma
neutralidade, hoje totalmente desmascarada.
Pode se ver claramente que a esquerda não necessita de
provas materiais e nem históricas para reivindicar
credibilidade para suas teses. De outro lado, à direita
globalisadora não tem também provas materiais de que
seu sistema seja capaz de produzir um mundo mais justo e
mais bem administrado. Provam-no de um lado, o medo dos
que mandaram erguer as enormes cercas em Davos, e de
outro, a barbárie dos que invadiram propriedades alheias
para, orgulhosos, destruir plantações de vegetais
transgênicos, numa cidade próxima a Porto Alegre.
Ambos se dizem capazes de conduzir o mundo para portos
mais seguros. Quem pode levá-los a sério ?
A verdade, no entanto, esta aí diante dos olhos de quem
queira enxergar. Habitamos um planeta dirigido por
líderes maniqueístas, que se proclamam capazes de
construir uma ordem social justa. Nenhum dos dois pode
provar o que proclama, embora tivessem tido chances, mas
isso não os importa.
A nenhum dos dois faltam adeptos. Fracassos sociais e
econômicos, isto é, dados da realidade, não modificam
suas idéias. Cada vez fica mais claro que as ideologias
de ambos se parecem com delírios. São irredutíveis.
Ninguém convence ninguém.
Se a realidade difere do que proclamam, pior para a
realidade.
A neutralidade da Suíça, escolhida para
sediar o fórum capitalista, e os aplausos a Fidel
Castro, como líder democrático, no Fórum
de Porto Alegre, são símbolos do mesmo anacronismo. Uma
perversa persistência da memória. Mas isso também não
lhes importa.
A mente das facções em disputa está estruturada como
um sistema binário, o mesmo que deu lugar à invenção
dos computadores, já de algum tempo conhecidos e
cognominados de inteligência burra.
Psicanalista
Waldemar Zusman
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