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| Psicóloga
Maria Emilia Barcellos |
Ao ser convidada a
falar sobre o tema, me pus a pensar na época em que fui
diretora de uma penitenciara, há 15 anos atrás e todo o
tempo em que trabalhei no Sistema Penitenciário.
O que é estar dentro do Sistema Penitenciário? Quer
preso ou funcionário? O máximo a se cumprir de uma pena
é 30 anos, o mesmo tempo que um funcionário tem que
trabalhar para se aposentar. Coincidência?
Crime e Castigo; Aquele que Castiga; Aquele que é
Castigado; Quem castiga? Quem é Castigado? Questões
tão próximas.
Quando se prende alguém para puni-lo porque transgrediu
regras, parte-se do princípio que quem prendeu vai
ensinar que os limites existem para serem respeitados e
com isso, podermos conviver. Será que se pensou quantos
são presos sem nunca terem experimentado que regras são
estas? Mas, sabe-se que eles têm uma vivência de regras
próprias as quais sabemos somente de algumas delas.
Porém, fica claro de que o homem precisa saber o que
fazer e que não fazer para poder manter-se dentro de um
nível de "Saúde" esteja onde estiver.
Lembrando o artigo do Dr. Zuzman, a "Subversão nas
Penitenciárias", em todos os níveis, dos
legisladores, políticos, presos e aqueles que cuidam
deles por exemplo, fazem-se e burlam-se regras para
manterem um "status-quo" na Sociedade e alguém
está sempre tentando livrar-se da culpa e dos fantasmas
internos que são gerados quando quebramos as regras,
sejam elas quais forem.
Se os presos hoje, tem simplesmente a privação da
liberdade como punição seja qual tipo de crime for
cometido, é óbvio que os próprios presos precisarão
criar suas regras e punições. Isto é concreto. Eles
criam seus lideres, os quais como bons super-egos
funcionam rigidamente e acalmam as Penitenciárias ou as
manipulam para rebeliões. Na verdade, os "fantasmas
internos" são quem mantém os presos dentro das
Penitenciárias, e não, os guardas penitenciários ou os
altos muros. Numa Penitenciária de 300 homens, onde às
vezes trabalham 5 ou 6 guardas espalhados num imenso
espaço físico, quem está guardando quem?
Além da privação da liberdade pura e simplesmente,
perguntamo-nos: por que será que os presos não
trabalham? Por que as poucas oficinas que existiam foram
desativadas? Por que as hortas foram destruídas? Por que
as poucas escolas não têm professores? Por que a saúde
no país regrediu e hoje temos medo de doenças já
erradicadas? Por que vamos ter apagões?
Quem castiga e quem será castigado? Quem cometeu crime e
não conseguiu burlar bem os códigos ou quem não
cometeu nenhum crime? Será que quem castiga será
também castigado?
Quando a Lei 7.210 de 11/07/84 de Execução Penal foi
instituída, em sua exposição de motivos nº 26 e 27
afirmava que o preso ao entrar para o Sistema Penal,
passaria por uma avaliação de personalidade, como fator
determinante do tipo de tratamento penal. Isso se
processaria de forma que o preso, passaria por um
processo de triagem, numa Penitenciária dita "de
entrada", onde seria avaliado e colocado numa outra
Penitenciária onde pudesse desenvolver melhor o seu
potencial. Esta avaliação seria para orientar a
individualização da pena. Por que será que isto nunca
aconteceu? Parece que os juristas que elaboraram todo o
projeto já se preocupavam com isto.
Será que existe interesse em termos presos (povo),
instruindo-se, educando-se, criando algum tipo de
expectativa de mudança de vida? Será que para o
traficante ou assaltante que nunca trabalhou, nunca teve
compromisso em acordar, em cumprir horário, ganhar um
salário, ser preso e não fazer nada, não ter nenhum
tipo de compromisso, não é a repetição de sua vida?
Ou melhor, a continuidade da mesma e às vezes até com
maior tranqüilidade e segurança?
Acho que trago mais questionamentos do que afirmativas.
Quando dirigi uma Penitenciária há 15 anos atrás, por
3 anos, o panorama externo e interno era um pouco
diferente. A deterioração do respeito pelo outro e dos
valores éticos do ser humano e da sociedade através dos
anos em nosso país, não poupou o Sistema
Penitenciário. Impressionou-me a última rebelião em
São Paulo, onde os familiares participaram da mesma, ou
melhor, não foram poupados. Eu nunca havia visto isto
acontecer antes. Passou-me um sentimento estranho. Será
que até o código deles não é mais respeitado?
Quem pune (condena) o cidadão é o Juiz, através do
Código Penal, o Sistema Penitenciário acompanha o
cumprimento da pena. A função do Sistema não é a de
julgar e sim de acompanhar e adequar a execução da
pena. Como nosso Sistema indiscrimina o tipo de crime
cometido pelo transgressor, vemos que eles acabam sendo
discriminados entre si. Discriminados das mais variadas
formas, não são verdadeiramente penalizados pela
gravidade e brutalidade de seus atos, como também podem
ser enaltecidos pelas conquistas financeiras e poder
indireto que elas trazem.
Embora participante desta mesa como a pessoa que traz uma
vivência de dentro do Sistema, "Crime e
Castigo", tem muitas facetas a serem analisadas e o
que tentei mostrar é que não importa o tipo de
criminoso, a pura privação de liberdade nunca irá
trazer qualquer tipo de mudança. O Sistema continua
perverso.
Psicóloga
Maria Emilia Barcellos
Ex-dir.de Penit.do DESIPE
barcellosemilia@hotmail.com
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