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Quantos de nós não gostaria de, numa
hora para outra, ter
um aumento de 1.500% em seu salário?
Quantos de nós também não gostaria de ser, aos 18
anos,
convocado para a seleção brasileira de futebol?
Mas, pensando bem, como será que reagiríamos a tudo
isso?
Será que isso nos motivaria ainda
mais, ou será que
ficaríamos meio atordoados, achando que tudo isso não
passava de um grande sonho?
Até que ponto isso poderia ser bom e até que ponto isso
poderia nos atrapalhar?
Quando um atleta exige da musculatura um esforço maior
do que ela está condicionada a suportar, geralmente
ocorre
uma ruptura, uma distensão ou um dano qualquer.
Psicologicamente falando, também temos um limite para
suportar certos desafios.
Também temos uma espécie de "musculatura
emocional"
que não está preparada para determinados esforços.
Não podemos dar um passo mais largo do que estamos
preparados a suportar.
E, nesse sentido, nossa auto-imagem tem uma influência
fundamental.
A auto-imagem de um indivíduo é a medida exata do que
ele
se sente capaz de ser e de fazer.
Quando o indivíduo diz que tudo parece um sonho, é
porque,
provavelmente, sua auto-imagem ainda não comporta tal
situação como real.
Aquele que almeja um aumento de
salário, provavelmente,
não imagina um aumento de 1500% de uma só vez.
Com certeza, imagina algo, pelo menos, um pouco menor.
Aquele que almeja chegar a seleção brasileira, também,
geralmente, não imagina isso tão cedo, aos 18 anos.
A não ser que seja um verdadeiro fenômeno.
É bem provável que, antes de imaginar isso, ele sonhe
em
conquistar a posição de titular em seu próprio clube.
Nossa auto-imagem vai se construindo aos poucos, na
medida
que vamos vivendo novas experiências e superando novos
desafios.
Só que esses desafios não podem estar muito distantes
dessa auto-imagem já construída, senão corremos o
risco
de não nos sentirmos capazes de superá-los.
E é nesse momento que pode ocorrer a "distensão
emocional"
ou, como muitos gostam de dizer, "pode-se queimar o
atleta".
Na semana passada, o novo técnico da seleção
brasileira
de futebol, Leão, convocou o atacante Adriano do
Flamengo,
surpreendendo a todos.
Esse atleta, aos 18 anos, recém-saído
de uma favela,
começando a se integrar à equipe de profissionais
do Flamengo, tem, de repente, seu salário aumentado
de 600 para 10 mil reais e ainda é acordado pela mãe,
gritando
aos seus ouvidos, dizendo que ele acabava de ser
convocado
para a seleção brasileira.
É muita mudança para tão pouco tempo.
Todos nós precisamos de um certo tempo para adequarmos
nossa auto-imagem às novas situações.
Enquanto essa adequação não ocorre há uma tendência
à queda de rendimento. E, quanto maior o desafio, mais
graves poderão ser as conseqüências.
O atleta, nesse caso, ainda não adquiriu a confiança
necessária
que é conseqüência de uma auto-imagem fortalecida e
positiva.
Ainda está formando essa imagem, ainda está se
adaptando
à situação de estar jogando, por exemplo, ao lado de
"feras
consagradas", como Edílson, Denílson e tantos
outros.
Por isso, é necessário um equilíbrio muito grande
nesse
momento. Equilíbrio esse que nem sempre dá para dar
conta sozinho.
Acho que, em alguns casos, talvez valesse a pena uma
consulta ao clube e aos profissionais que trabalham com
o atleta para verificar a viabilidade de uma
convocação, ou pelo
menos, uma comunicação antecipada, para que fosse
iniciado
um trabalho de preparação nesse sentido.
De qualquer maneira, torço para que esse atleta consiga
superar todas essas adversidades e que não hesite em
procurar ajuda caso sinta necessidade.
O Flamengo conta com o trabalho de um
psicólogo e, com
certeza, ele pode ser útil nesse momento.
Psicólogo
Clínico e Esportivo Marcelo Leuzzi
Pós-Graduando em Psicologia Aplicada ao Esporte
Psicólogo da Equipe de Futebol do América /Campeonato
Carioca-2000
Membro-Fundador do Colégio Brasileiro de Psicologia
Esportiva
Membro-Colaborador da Comissão de Psicologia do Esporte
do Conselho Regional de Psicologia/RJ
Home-page: http://orbita.starmedia.com/~leuzzi
E-mail: leuzzi.psi@zipmail.com.br e marceloleuzzi@ig.com.br
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