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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 08 de agosto de 2000

 

ARTIGO

 

"Aprende Depressa a Chamar-te de Realidade..."
 
Psicóloga Nina Eiras Dias de Oliveira


Estamos vivendo um momento muito confuso, de muita instabilidade e insegurança. Mesmo aqueles que outrora só ouviam falar de crise estão sendo pelo menos tocados por esta agora. Neste momento de muita dúvida com relação também a valores, quem tem filho se inquieta com relação a formação e educação deles. Nas classes menos favorecidas o que mais preocupa os pais é a possibilidade dos filhos virem a se tornar marginais. Na ainda chamada classe média o medo diz respeito a drogas, promiscuidade sexual e principalmente a preparar os filhos para a competição profissional no futuro. Em contrapartida vêm os planos, as expectativas de sucesso.
Em função delas a criança, às vezes, não tem nem tempo para brincar, para ficar a toa, para tomar sol. Passa o dia entre a escola, aula de natação, judô, inglês, informática, etc.

A tarefa de educadores dos pais é dificultada pelo consumismo cada vez mais exigente. Dá para ser feliz num momento como este? O termo felicidade foi ficando muito desgastado e consumista. Para alguns um assunto meio bobo de se falar. Para outros, a felicidade aparece como algo muito idealizado, pronto. Como se fosse um porto a se chegar e quando estiver lá é só aproveitar. É em termos dessa visão rígida de felicidade que se dispõem a encaminhar o filho estabelecendo metas para ele.

A felicidade não é vista como uma conquista pessoal, cotidiana. Penso que ser feliz é criar condições para lidar bem com a realidade. Estamos no momento de crise onde muitas vezes nos vemos sem alternativas para driblá-la, resta-nos portanto olharmos direto para ela e nesse confronto aprendermos a lidar com ela. O que mais nos torna infelizes é a incapacidade de aceitar a realidade como é. Há pessoas que são vistas como otimistas e vivem num estado eufórico sobrevoando a realidade, fantasiando, vivem de ilusões e depositam na vida, nas pessoas, suas expectativas irrealistas. Sua felicidade depende da concretização dessas ilusões. Suas vidas são entregues na mão de outro, do governo, da loto, da megasena. E desta maneira depositam no outro a responsabilidade pela sua felicidade. Sua única fonte de felicidade fica depositada no : "se meu marido mudar...'se minha mulher agisse assim... 'se meus pais..., se o outro fizer, se o outro mudar,..."eu poderei ser feliz. O otimista assim como o pessimista esconde um profundo medo de olhar a verdade, a encarar a vida de frente. Quem tem fé, tem esperança, pode lidar com a vida do jeito que ela é. Não precisa forçar melhoras. "O pessimista vive no fundo do poço, onde tudo é sombrio e ruim. Entre as nuvens e o poço está o chão onde é possível ser feliz. Felicidade é algo que se constrói com os pés no chão".

Há crianças que chegam no consultório, com um nível de expectativa alto dos pais com ênfase na inteligência, beleza, sucesso. O fato de crescerem com idéias fixas de serem o melhor, o mais inteligente, mais bonito, tira deles a naturalidade, a espontaneidade, a vida dos sentimentos e das emoções, aprisionando-os. Muitas vezes os pais esquecem que a inteligência acadêmica avaliada por notas não é o mesmo que a criatividade, a qual não se desenvolve em esquemas rígidos. Pelo contrário tolhem as inclinações mais espontâneas da crianças. É importante que os pais tenham claro seu papel de orientadores, aprendam a sintonizar o momento em que a criança está pronta para decidir, saber o que cabe e o que não cabe a ela decidir sem temer os conflitos com os filhos.

É necessário estar atento para as mensagens do filho e junto com ele encontrar o caminho da felicidade dele. Ser feliz para o filho pode não corresponder ao modelo dos pais. Sem esquecer, no entanto, que ser feliz não é o eximir-se de responsabilidade, nem entregar-se somente ao que dá prazer. A criança deve crescer aprendendo que suas decisões acarretam consequências pelas quais lhe cabe responder, como um brinquedo que se jogar no chão vai quebrar e ela ficará sem ele. Todas as nossas atitudes implicam num preço. Uma criança que tenha condições de aprender a conhecer e lidar com suas possibilidades e limitações tem mais condições de poder contar consigo mesma e não precisará ficar contando com fatores externos como sorte, amor, um salvador qualquer. Passa a ter uma visão mais ativa da vida, para buscar o que deseja com mais coragem e possibilidade para correr riscos. Suas expectativas são realistas e se não derem certo ela pode contar mais com ela para lidar com as dificuldades. Quem está mais fraco tem a tendência a viver mais na fantasia. Não arrisca no possível, distancia-se de si mesmo e fica sujeito a constantes decepções.

Num processo ludoterápico (como chamamos a terapia com crianças na abordagem existencialista) a criança, através de uma relação de confiança e de aceitação com o terapeuta, pode expor seus temores, medos, dificuldades, limites, através de suas expressões, da maneira como lida com sua realidade e se responsabilizando por ela.

"Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come". Resta-nos aprender a lidar com ela, porque ela está aí, presente, atuante. Não adianta fingir-nos de mortos na expectativa de que ela não nos veja. A realidade está aí nas nossas vidas. Aprender a lidar com ela, a encará-la é o único caminho para nos tornarmos fortes e vivermos a felicidade.

Psicóloga Nina Eiras Dias de OliveiranadaPsicoterapeuta Infantil com formação na Abordagem Centrada na Pessoa e Membro do GPFE - Grupo Petropolitano de Psicologia Fenomenológica Existencial


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