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EDIÇÃO ESPECIAL  

 

Caderno de Arte e Literatura

 

Poesias sobre o Amor:
 
Álvaro de Campos

'Todas as cartas de amor são Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas

Também escrevi, em meu tempo, cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera, no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas)"

Adélia Prado: 

"Um minuto de estrondo a idade reencontrada. As taças para o brinde, porque hoje sou de novo uma mulher com sutiã grená, polindo os dentes sem pressa e desenhando a boca em coração. Basta, nem só eu respondo pela fome do mundo, e vou certificar-me, se ainda me olham duas vezes, se ainda, intimido, se pelo que amo ainda faço a face dos homens abrandada e ansiosa.
Enquanto dura a trégua, vou guerrear".

Poesia de Maria José Maldonado: 

Tudo mudou

" Não és o mesmo que eu beijei outrora,
não são os mesmos os teus olhos belos,
não é o mesmo o teu olhar de agora,
nem é a mesma a cor dos meus cabelos.

Vai mudando em velhice a mocidade
e eu sinto o teu amor em despedida.
E só existe uma fatal verdade ,
tudo mudou, tudo tem fim na vida!

Se o tempo tudo esquece e mata a esmo,
se transforma colunas de granito,
tu não tens culpa de não seres o mesmo.

Se até eu própria já nem sei quem sou...
Só este amor que vibra como um grito,
em vez de terminar, mais aumentou ".

Cassiano Ricardo 

Você e o seu retrato

" Porque tenho saudade de você no retrato, ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato, mais que você , me comove, se você mesma está presente?
Talvez porque o retrato (exato, embora malicioso) revele algo de criança. (Como, no fundo da água,um coral em repouso).
Talvez pela idéia de ausência que o seu retrato faz surgir colocado entre nós dois. (Como um ramo de hortência).
Talvez porque o seu retrato, embora se torne oblíquo, me olha sempre de frente. (amorosamente)
Talvez porque o seu retrato mais se parece com você do que você mesma.(ingrato).
Talvez porque no retrato você está imóvel. (sem respiração)
Talvez porque todo retrato é uma retratação...

Poesia de Lya Luft: 

"O meu amado tinha a fadiga de muitos séculos.
Deitava-se no sofá, cabeça no meu colo.
"Com você encontrei a paz".
Mas estava cansado. Tinha saudade de mais paz
do que poderia dar todo amor sem limites.
Dizia, "hoje estou triste como o diabo, sem motivo"
O motivo era ser esta vida um exílio e sua alma chama
que só aplacaria em Deus.
Para isso foi preciso que partisse"

"O meu amado morreu, preciso viver sua morte até o fim.
Morreu sem que se instalasse entre nós cansaço e banalidade.
Talvez tenha morrido na medida certa,
para nada se desgastar.
Dele me vem a dor, mas também a ternura,
a claridade que me permite ver em todos os rostos
o seu rosto, em todos os vultos o seu vulto,
e ouvir em todos os silêncios
o seu inesperado riso de criança."

Ad Leoconoe

Horácio, poeta latino (64 - 08)
Da obra Epodos
"Tu ne quaeritis, irasci nefas,
Quem mihi, quem tibi fineo te dedicans, Leoconoe,
Nec babylonius numeros.
Ut melhor quidam frilis pateo.
Se plures hiemo, se tributem Jupiter ultimi,
Quae nunc oppositus debilitatio pumicens mare Tyrrheno,
Sapiens, vine liqueo et spatium brevis fugans invitus.
CARPE DIEM, minimum credula posterus".

"Nâo procures saber, os deuses nâo permitem,
O fim que será dado a mim ou a ti, Leoconoe,
Nem busques saber a sorte dos números nos templos babilônicos.
O quanto é melhor dedicar-se aos afazeres domésticos.
Sejam, ainda, numerosos os anos que nos restam,
Ou seja este o último que devemos dar tributo a Júpiter,
Sem nunca mais ver as fracas águas baterem nas duras rochas do mar Tirreno.
Sê sábia, filtra teus vinhos e o tempo passará célere.
COLHE O DIA DE HOJE, não te importes com o amanhã ".

 


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