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Nasci quase cega. Aos cinco anos, o médico me
proibiu de continuar na escola. Na infância,
estive várias vezes em perigo de morte. Até
hoje tenho uma espada sobre minha cabeça que
pode cair a qualquer momento. Meu pai, todos os
meus tios e meu avô haviam morrido de infarto, e
meu colesterol é duas vezes e meia mais alto que
o permitido. Fiz o exame das artérias há três
semanas e elas eram transparentes. E meu médico
:
_ A senhora é zero quilometro.
_ Mas eu já não devia ter morrido?
_ Devia, mas a senhora é uma mulher feliz. Como
diz o Dr. Adib Jatene, é a raiva que mata.
A vida é muito estranha. Nunca fui, não serei e
não quero ser feliz. Isto escrevi no meu livro
Os seis meses em que fui homem e mantenho agora.
Troquei a felicidade pelo impossível.
Mas sempre fiz coisas impossíveis porque o fato
de ter nascido com deficiência visual não me
permitia chegar perto das pessoas normais. O que
para as pessoas normais é fácil, como, por
exemplo, descer uma escada, para mim é muito
difícil, e o que para as pessoas normais é
muito difícil, como por exemplo enfrentar o
papa, para mim é fácil. Por isso a visão da
vida que tenho é completamente diferente da das
outras pessoas. Ou faço o impossível, ou morro!
Então acho o possível chato. Essa foi a razão
de toda a minha vida, ter sido diferente é a
raiz da minha solidão também, porque eu só
chegava até uma certa distância com as pessoas.
Homens e mulheres, depois de certo ponto, não me
agüentavam mais. Ficavam com medo. Mas para mim
era fácil fazer coisas difíceis sem medo. Por
isso até hoje não entendo o medo.
Tive uma amiga chamada Cristina Martinelli que
teve poliomielite quando criança. Ela tinha uma
perna menor do que a outra, e apesar disso se
tornou uma das grandes bailarinas do mundo. Com
ela aprendi uma coisa. Uma vez ela me disse:
"Eu precisava lutar com o meu defeito porque
era ele ou eu." Foi aí que vi que também
eu fiz a mesma escolha.
Nos anos 80, um amigo também deficiente me
disse: "Olha gente como nós ou fica a vida
inteira num quarto ou acaba vivendo fora do
padrão. É impossível ser medíocre." E
sempre me ficou a pergunta: por que as pessoas
normais que têm muito mais que nós não fazem
mais? Para mim, mistério insolúvel. Não sei.
Acho que foi esse o motivo que me levou a nunca
querer ser feliz. Em vez da felicidade, eu queria
fazer o que tinha que ser feito.
A palavra que mais me marcou na vida foi uma
palavra do Evangelho: "Procura primeiro o
Reino de Deus e a sua justiça, e o resto será
dado por acréscimo." Mesmo depois que perdi
qualquer tipo de fé, o desejo de justiça
continuou me consumindo. Para mim, o Reino de
Deus sempre foi justiça. E a justiça é
radical, desconhecida.
Todas as pessoas que amam o impossível procuram,
instintivamente, fazer isso: apostam no
desconhecido para ver no que dá.
Esse desejo de fazer o que tinha que ser feito
praticamente nasceu comigo. Ao contrário do que
diz Freud, a felicidade não é a realização
dos desejos infantis. E quem teve uma infância
frustrada como eu?
A felicidade é muito mais: é a procura de uma
totalidade, de um absoluto. Acho que isso só
acontece com as pessoas que não foram felizes.
Elas têm, mais que os felizes, o instinto da
totalidade. Dos abismos. Do êxtase. Por exemplo,
se eu quisesse ser só feliz não teria essa vida
tão estranha que tive. Teria me acomodado na
felicidade. Por isso concordo com Toni Morrison,
a escritora americana que ganhou o Prêmio Nobel,
quando ela diz que ser feliz é muito chato. É
de fato muito pouco. Fecha-nos para a totalidade
que é ordem desordem, felicidade e infelicidade.
Minha inquietação começou a partir da minha
abertura para o futuro com o desejo de entender a
realidade. Para o desejo de criar. E posso dizer
que esta criação foi para mim sempre mais
satisfatória do que qualquer felicidade pessoal.
O orgasmo da criação é mais intenso que o
orgasmo sexual, mas só entende isso quem cria.
Por isso a vida inteira fui atraída pelo
impossível. Só o impossível abre o novo... Só
o impossível cria.
BIBLIOGRAFIA:
MURARO, Rose Marie. Memórias de uma Mulher
Impossível. Rio de Janeiro. Editora Rosa dos
Ventos,1999. |
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