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EDIÇÃO ESPECIAL  

 

  TEXTOS

 

Só o Impossível Cria
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Rose Marie Muraro

Nasci quase cega. Aos cinco anos, o médico me proibiu de continuar na escola. Na infância, estive várias vezes em perigo de morte. Até hoje tenho uma espada sobre minha cabeça que pode cair a qualquer momento. Meu pai, todos os meus tios e meu avô haviam morrido de infarto, e meu colesterol é duas vezes e meia mais alto que o permitido. Fiz o exame das artérias há três semanas e elas eram transparentes. E meu médico :
_ A senhora é zero quilometro.
_ Mas eu já não devia ter morrido?
_ Devia, mas a senhora é uma mulher feliz. Como diz o Dr. Adib Jatene, é a raiva que mata.

A vida é muito estranha. Nunca fui, não serei e não quero ser feliz. Isto escrevi no meu livro Os seis meses em que fui homem e mantenho agora. Troquei a felicidade pelo impossível.

Mas sempre fiz coisas impossíveis porque o fato de ter nascido com deficiência visual não me permitia chegar perto das pessoas normais. O que para as pessoas normais é fácil, como, por exemplo, descer uma escada, para mim é muito difícil, e o que para as pessoas normais é muito difícil, como por exemplo enfrentar o papa, para mim é fácil. Por isso a visão da vida que tenho é completamente diferente da das outras pessoas. Ou faço o impossível, ou morro! Então acho o possível chato. Essa foi a razão de toda a minha vida, ter sido diferente é a raiz da minha solidão também, porque eu só chegava até uma certa distância com as pessoas. Homens e mulheres, depois de certo ponto, não me agüentavam mais. Ficavam com medo. Mas para mim era fácil fazer coisas difíceis sem medo. Por isso até hoje não entendo o medo.

Tive uma amiga chamada Cristina Martinelli que teve poliomielite quando criança. Ela tinha uma perna menor do que a outra, e apesar disso se tornou uma das grandes bailarinas do mundo. Com ela aprendi uma coisa. Uma vez ela me disse: "Eu precisava lutar com o meu defeito porque era ele ou eu." Foi aí que vi que também eu fiz a mesma escolha.

Nos anos 80, um amigo também deficiente me disse: "Olha gente como nós ou fica a vida inteira num quarto ou acaba vivendo fora do padrão. É impossível ser medíocre." E sempre me ficou a pergunta: por que as pessoas normais que têm muito mais que nós não fazem mais? Para mim, mistério insolúvel. Não sei.

Acho que foi esse o motivo que me levou a nunca querer ser feliz. Em vez da felicidade, eu queria fazer o que tinha que ser feito.

A palavra que mais me marcou na vida foi uma palavra do Evangelho: "Procura primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e o resto será dado por acréscimo." Mesmo depois que perdi qualquer tipo de fé, o desejo de justiça continuou me consumindo. Para mim, o Reino de Deus sempre foi justiça. E a justiça é radical, desconhecida.

Todas as pessoas que amam o impossível procuram, instintivamente, fazer isso: apostam no desconhecido para ver no que dá.

Esse desejo de fazer o que tinha que ser feito praticamente nasceu comigo. Ao contrário do que diz Freud, a felicidade não é a realização dos desejos infantis. E quem teve uma infância frustrada como eu?

A felicidade é muito mais: é a procura de uma totalidade, de um absoluto. Acho que isso só acontece com as pessoas que não foram felizes. Elas têm, mais que os felizes, o instinto da totalidade. Dos abismos. Do êxtase. Por exemplo, se eu quisesse ser só feliz não teria essa vida tão estranha que tive. Teria me acomodado na felicidade. Por isso concordo com Toni Morrison, a escritora americana que ganhou o Prêmio Nobel, quando ela diz que ser feliz é muito chato. É de fato muito pouco. Fecha-nos para a totalidade que é ordem desordem, felicidade e infelicidade.

Minha inquietação começou a partir da minha abertura para o futuro com o desejo de entender a realidade. Para o desejo de criar. E posso dizer que esta criação foi para mim sempre mais satisfatória do que qualquer felicidade pessoal. O orgasmo da criação é mais intenso que o orgasmo sexual, mas só entende isso quem cria. Por isso a vida inteira fui atraída pelo impossível. Só o impossível abre o novo... Só o impossível cria.

BIBLIOGRAFIA:

MURARO, Rose Marie. Memórias de uma Mulher Impossível. Rio de Janeiro. Editora Rosa dos Ventos,1999.

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