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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Arte e Literatura

 

  CANTINHO DA POESIA

 

Luís de Camões
 

Ai o bem fugindo,
crece o mel cos anos,
vão se descobrindo
co tempo os enganos.

Amor e alegria
menos tempo dura.
Triste de quem fia
nos bens da ventura!

Bem sem fundamento
tem certa mudança,
certo sentimento
na dor da lembrança.

Quem vive contente,
viva receoso: mal
que se não sente,
é mais perigoso.

Quem males sentiu,
saiba já temer;
e pelo que viu
julgue o que há de ser.

Alegre vivia,
triste vivo agora;
chora a alma de dia,
e de noite chora.

Confesso os enganos
do meu pensamento:
bem de tantos anos
foi se num momento.

Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
Chorai, olhos tristes,
o bem que perdestes.

A luz do sol pura
só a vós se negue;
seja a noite escura
nunca a manhã chegue.

O campo floreça,
murmurem as águas,
tudo me entristeça,
creçam minhas mágoas.

Quisera mostrar
o mal que padeço;
não lhe dá lugar
quem lhe deu começo.

Em tristes cuidados
passo a triste vida;
cuidados cansados,
vida aborrecida!

Nunca pude crer
o que agora creio:
cegou me o prazer
do mal que me veio.

Ah, ventura minha,
como me negaste!
Um só bem que tinha
porque mo roubaste?

Triste fantasia,
quanta cousa guarda!
Quem já visse o dia
que tanto lhe tarda!

Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
Chorai, olhos tristes,
o bem que perdestes.

A luz do sol pura
só a vós se negue;
seja a noite escura
nunca a manhã chegue.

O campo floreça,
murmurem as águas,
tudo me entristeça,
creçam minhas mágoas.

Quisera mostrar
o mal que padeço;
não lhe dá lugar
quem lhe deu começo.

Em tristes cuidados
passo a triste vida;
cuidados cansados,
vida aborrecida!

Nunca pude crer
o que agora creio:
cegou me o prazer
do mel que me veio.

Ah, ventura minha,
como me negaste!
Um só bem que tinha
porque mo roubaste?

Triste fantasia,
quanta cousa guarda!
Quem já visse o dia
que tanto lhe tarda!

Nesta idade cega
nada permanece;
o que ainda não chega
já desaparece.

Qualquer esperança
foge como o vento:
tudo faz mudança,
salvo meu tormento

Amor cego e triste,
quem o tem, padece:
mal quem lhe resiste!
Mal quem lhe obedece!

No meu mal esquivo
sei como Amor trata:
e, pois nele vivo,
nenhum amor mata.

Luís de Camões


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