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Sentado
no restaurante do costume, o burburinho de fundo cinge-nos, o café,
o pastel de nata, e os jornais, os do costume também, lêem-se alguns
artigos dos opinion makers.
As eleições legislativas em Portugal estavam na sua
ressaca, todos tinham algo a acrescentar, a apontar, aos políticos,
aos partidos, à comunicação social, ao cantor que dançou no palco
errado. Faltava qualquer coisa, alguém, mas quem, o quê? De súbito
uma questão: onde estão as pessoas, onde estiveram todos, para além
de terem ido colocar o seu boletim de voto no último domingo? A pouco
e pouco desencadearam-se algumas idéias, o ruído de fundo tornou-se
ainda mais tênue.
Passam os anos, sucedem-se as várias eleições e os
cidadãos avançam melancolicamente para um contributo, ainda que pontual,
ao país, à sociedade e a si próprios. Contudo, é sobretudo este último
aspecto, ou seja, o respeito por si mesmo, que passa necessariamente
pela maneira como nos vemos, reflectimos e exprimimos que parece estar
arredado de todos nós, ou pelos menos de alguns de nós, se assim preferirem,
diria, de forma preocupante. E no entanto, tudo aponta para que o
problema esteja sempre no Outro. Senão repare-se.
Sempre que há eleições constata-se uma série de factos:
a abstenção aumenta cada vez mais; as forças políticas estão cada
vez mais alheadas da vida e dos desejos do cidadão comum; os políticos
vivem as campanhas eleitorais num frenesi televisivo, sem qualquer
tipo de pudor pelos papéis desempenhados; não foram debatidos em profundidade
os problemas do país real; e nem sequer vale a pena pegar nas propostas
apresentadas pelos partidos, visto que a maior parte delas, não serão
para cumprir.
Entramos nos cafés e ouvimos frequentemente: "Para
quê? Anda aqui uma pessoa a lutar uma vida inteira para isto; para
estes tipos terem uma reforma antecipada, não quero saber".
Passadas as evidências, acrescentam-se análises mais
profundas, em jeito de rescaldo.
O comentador, previne-nos para o déficit existente
na comunicação entre o político e o eleitorado, que o primeiro não
encontrou a fórmula adequada para se fazer chegar correctamente ao
segundo. O jornalista, constata como o povo está cansado dos malabarismos
de rua, das feiras políticas, quais cabarés deambulantes de segundo
escalão. Os políticos mais rigorosos e consistentes no pensamento,
avisam para a necessidade de, definitivamente, haver uma reflexão
conjunta para se compreender esse papão chamado abstenção. Outros
políticos, talvez mais experientes, definem já novas estratégias.
De mapa na mão, asseguram da importância de virar mais à esquerda
ou mais à direita, consoante os interesses dos seus itinerários.
Bendito seja o respeito pelo pensamento do eleitorado!
Portanto, qual é a responsabilidade das pessoas?
Nenhuma. Estamos todos ocupados a gritar gol pelos remates dos jogadores
da selecção nacional e no intervalo choramos pelo Fado.
Que temos nós haver com a deficiente campanha eleitoral?
Nada. Qual a nossa quota parte de responsabilidade da abstenção atingir
graus tão elevados e preocupantes? Zero, era só o que faltava. Na
realidade, donde surgiram tamanhos disparates, como surgem estas hipóteses,
sem qualquer nexo nem achado, quando se sabe de todas as dificuldades,
dos desesperos, das injustiças por que todos passam.
Pronto, está bem, o melhor é voltar a página do jornal...
mas esperem só mais um pouco, só mais uma linha.
Rui Neto Pereira escreve no Diário Econômico: "A
verdade é esta cultura de centro comercial, de um consumismo desenfreado,
que torna as pessoas egoístas, vítimas de uma obesidade mental constrangedora.
A verdade é uma sociedade desinformada e anestesiada por overdoses
de televisão".
Então, é o consumismo que nos torna egoístas, na verdade não existe
nada de pernicioso na população em si mesma, aliás, somos mesmo vítimas
de um processo premeditado que nos insensibiliza, que nos esvazia
de idéias. Se vejo o "Big Show Sic" é porque sou obrigado.
Se um Presidente de Câmara qualquer, resolve fazer
campanha eleitoral, distribuindo fogões e microondas e ganha as eleições,
é dele a responsabilidade de tão indecorosa actividade. Mas quem os
aceitou foram os eleitores.
Afinal, por que razão havemos nós de gritar, de clamar,
se existe esse monstro de alienação social chamado Estado. É dele
a culpa de todo o nosso purgatório.
Retorno ao ponto de início. Onde está o respeito
das pessoas por si próprias? Perdoe-se-me a presunção, o lirismo.
Questionamo-nos sobre um excesso de desculpabilização, de distanciamento,
perante a responsabilidade que a todos cabe, quando falamos de estar
em sociedade, de construir e fazer evoluir um país, independentemente,
de não estarmos todos de acordo de como fazê-lo. Ao menos isso, vá
lá, discordamos.
Talvez exista, nas análises feitas diariamente pelo
conjunto de uma pequena minoria que partilha conosco as suas idéias,
um esquecimento fácil e politicamente correcto, de não olhar e reflectir
nas actividades da chamada sociedade civil. Um admirável esquecimento
de todos, afinal, não nos lembramos do que esquecemos todos os dias!
Vivemos em comunidade há muito tempo, mas é o indivíduo
- não confundir com individualismo - que pode criar a sua realidade,
de dar passos em frente, em suma, de ter a iniciativa e não esperar
pelas entidades diluídas nas mil e uma figuras da nação.
Sartre, já nos prevenira que o essencial não é o
que se fez do homem, mas o que ele faz com o que dele foi feito. Haverá
coragem?
Daniel Sousa
Psicólogo Clínico formado pelo ISPA - Instituto Superior de Psicologia
Aplicada (Lisboa)
Co-responsável do Espaço Sócrates Café
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