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| Fisioterapeuta
Paula Godoy |
Spinoza
foi um filósofo moderno do séc XVII que propôs uma
ética bastante interessante e com visões bem diferentes
do que se costumava ter e pensar na sua época. Ele não
separa em momento algum pensamento de ação, ou
especulação de prática, e com isso mostra a idéia de
que o modo como nós pensamos, como conhecemos expressa o
modo como nós vivemos, ou seja, para ele qualquer forma
de conhecimento irá refletir uma maneira de viver.
A partir desse pensamento, uma importante contribuição
de Spinoza para a história da filosofia fica registrada
quando ele introduz uma tese que se chamou de Paralelismo
Psicofísico, aonde ele vai contra o dualismo entre corpo
e alma, e se opõe aos filósofos da transcendência como
Descartes e Platão.
Em sua tese Spinoza apresenta o corpo de forma bem
diferente de como o viam até então; ele afirma que não
há diferença de natureza entre o corpo e a alma e sim,
que esses dois corpos constituem juntos um único ser.
Com essa afirmação ele vai contra todo um pensamento
antigo que valorizava essa dualidade, onde normalmente
havia presente a intenção de desvalorização do corpo
e o enobrecimento da alma. Como exemplo podemos citar
Descartes, que dizia: "O que é ação para alma,
tem que ser padecimento para o corpo". Para Spinoza
se o corpo sofre, a alma é miserável, também sofre.
Em um primeiro momento, quando Spinoza fala sobre
paralelismo psicofísico ele quer valorizar o corpo
dizendo que não existe alma sem corpo. Mas ele também
diz num segundo momento que não existe corpo sem alma;
ou seja, para ele a alma é o espírito do corpo. Assim
sendo, o que for ação para um determinado corpo é
igualmente ação ou paixão para o espírito daquele
corpo. Com isso ele consegue dar fim à dualidade.
Spinoza pensa o corpo e a alma na imanência e não na
transcendência, onde a tendência é a divinização do
espírito. Ele mostra com isso, como todo ser humano
reluta em aceitar o que existe de fato, o que é, e por
isso tenta usar a transcendência para fugir dessa
realidade, e acaba sempre procurando um ideal que não
existe, que é fantasiado.
O filósofo nos mostra um caminho ético e mais digno de
vivermos sendo o que somos, nos assumindo com nossos
próprios problemas, e prendendo a fazer assim um estilo
de vida mais saudável e produtivo. Como diz um cantor
brasileiro: "cada um sabe a dor e delícia de ser o
que é", ou ao meu ver, deveríamos ao menos tentar
saber. É isso que Spinoza nos estimula a fazer, sejamos
o que somos e aprendamos a sermos felizes assim! Não que
a vida seja só alegria, muito pelo contrário, os
problemas continuam e continuarão sempre existindo
enquanto houver vida. Para Spinoza, um verdadeiro
problema é aquele cuja solução é sempre uma
invenção. Assim, viver é problematizar, vida passa a
ser posição de problemas. Ou seja, sonhar com uma vida
sem problemas é o mesmo que sonhar com a morte. É
acabar com a vida que se tem. O mais importante e
difícil nisso tudo é: saber discernir os problemas
reais e vitais, dos falsos problemas.
Já sabemos então que para Spinoza corpo e alma são a
mesma coisa, juntos formam um único ser com a mesma
natureza. A partir daí ele conclui que o espírito nada
mais é que a idéia do corpo. Para ele, idéia é um
modo do pensamento, e todo corpo é representado por uma
idéia, que é também um modo da expressão. E, como
expressão do pensamento, todas as idéias são maneiras
de pensar, ou seja, modo do pensamento. Ele cria assim a
noção de corpo-idéia como sendo tudo que existe,
porque na sua visão tudo que imaginamos, sonhamos,
pensamos, sentimos, são idéias (modo do pensamento), e
tudo que percebemos como estando fora de nós, tem uma
extensão que é corpo (modo da extensão). Spinoza diz
também que o pensamento e a extensão nada mais são que
atributos da natureza, que para ele significa Deus.
Resumindo isso, Spinoza vê o homem como sendo modos de
dois atributos de Deus: modo do pensamento e da
extensão. Assim, para ele nós estamos em Deus e Deus é
espírito, que para ele nada mais é que a expressão da
matéria, que é o que ele chama de idéia.
Para entendermos
potência segundo Spinoza, podemos partir de sua
definição de Deus como sendo um ente absolutamente
infinito, isto é, uma substância com infinitos
atributos onde cada atributo expressa uma essência
eterna e infinita. Essa essência eterna e infinita que
os atributos de Deus expressam é a potência de Deus, ou
seja, essência e potência são sinônimas.
Temos que pensar a essência como potência,
singularizando a essência de cada coisa, assim tornamos
a potência como sendo única e, conseqüentemente nos
tornamos também diferente e única cada coisa existente
na natureza. Com isso podemos dizer que a potência de
cada coisa, de cada ser é única, e assim sendo nossa
essência enquanto potência não pode ter uma forma,
pois assim não haveria identidade de cada ser. Spinoza
diz então, que nossa essência enquanto potência é uma
força, uma intensidade.
Pensando dessa maneira mudamos toda uma maneira de pensar
no indivíduo humano. Agora o que vai ser importante é
conhecer a potência de cada ser, a essência de cada
ser. E Spinoza diz: "tudo que digo que sou é fruto
do exercício da minha potência, mas não sou tudo que
digo que sou porque sou em essência uma potência".
Podemos dizer então que cada ser pode se expressar de
mil e uma formas, e que essa expressão vai variar de
acordo com a potência de cada ser, ou seja, o modo de
ser de alguma coisa não é sua forma e sim sua
potência. E a potência dessa coisa, ou desse ser, só
é conhecida no exercício dessa coisa ou desse ser.
Como vimos, a potência de Deus é infinita e a nossa
potência finita, passa a ter um limite no momento em que
somos finitos. Porém esse limite não é algo
pré-fixado pela forma, e sim um limite do exercício da
nossa potência. Assim, a idéia de limite é
extremamente flexível e variável. Não podemos então
saber tudo o que podemos, temos que exercitar essa
potência que somos, e ir conhecendo aos poucos o que
pode nossa essência, nosso ser. Viver passa a ser um
grande aprendizado de nos conhecermos e nos
experimentarmos através da vida e das relações que
dentro dela compusermos.
Tudo na vida passa a ter uma potência, e tentando juntar
isso com o conceito de liberdade dado por Spinoza, onde
ele diz que: liberdade seria exercitar nossa potência
até o limite, nos deparamos com um enorme problema
dentro da nossa sociedade moralista. Assim podemos ver
que liberdade se opõe a constrangimento, e que se
queremos ser livres e éticos perante a vida, devemos
agir nos agenciando com outras potências, numa relação
produtiva que faça expandir nossa potência, e também
evitando aquelas potências que constrangem, que diminuem
a nossa potência, e com isso, nossa liberdade de
expressão.
Spinoza também mostra uma coisa inteiramente nova para
época em que vivia que é a idéia de inconsciente. Ele
já havia mostrado e deixado bem claro que nós não
temos conhecimento do que pode um corpo partindo do
princípio de potência que somos, que desconhecemos
nossa potência de agir. E com isso, o mesmo raciocínio
pode existir sobre o espírito, e concluir que, assim
como a potência de agir de um corpo é desconhecida por
nós, a potência de pensar do espírito é inconsciente
para nós. O inconsciente que Spinoza fala é potência
de pensar, ele diz que pensar é um exercício, uma
força, e que é inconsciente. A consciência apenas
percebe essa força, e a partir daí, ela é expressa e
se torna consciente.
Spinoza diz que exercer a potência do corpo é exercer
igualmente a potência de pensar. Com isso para ele não
há diferença entre agir e pensar, agir e pensar andam
sempre juntos, podemos exemplificar isso com a seguinte
frase: "Diga-me como tu pensas que lhe direi quem
és". A maneira de ser de alguém é a alma ou o
espírito desse alguém.
Quando Spinoza fala das relações e experimentações
dos corpos, ele diz que é assim que nos diferenciamos no
mundo. Ou seja, é na maneira de se dar nos encontros e
de fazer as relações, como nos comportamos diante
desses corpos e encontros que vamos criamos nossa
identidade.
Ele diz que o indivíduo idéia-corpo é constituído por
outros corpos que entram na sua composição e, que esses
corpos nada mais são que partículas infinitamente
pequenas que só se distinguem umas das outras através
de relações. Assim sendo Spinoza pensa num plano de
composição de corpos existentes, ou seja, ele pensa em
uma física, num mundo quântico em pleno século XVII. A
distinção das coisas vem a partir das relações, e
não da matéria em si.
A distinção está na composição da matéria. Os
corpos então se compõe e se distinguem nas relações,
relações estas que são eternas assim como as
partículas que as constitui, onde o que é durável e
precário são os compostos, as composições entre
corpos. Esses corpos, compostos de partículas
infinitamente pequenas podem, a partir do tipo de
encontro e de relação, compor ou decompor algo.
Então ele acrescenta que a potência de qualquer coisa
possui um poder de ser preenchido, que ele chama de:
poder de ser afetado, que se dá nas relações.
Relações estas de movimento-repouso,
velocidade-lentidão.
Esse poder de ser afetado é sempre preenchido por
relações que são: afecções e afetos. Quando um corpo
X age sobre outro corpo Z, o corpo X produz uma marca, um
traço no corpo Z, diz-se então que Z foi afetado por X,
essa marca no corpo Z é uma afecção.
Com isso, Spinoza passa a acrescentar uma nova
definição do corpo onde ele diz que, um corpo se define
pela capacidade de ser afetado. Essa capacidade é
altamente variável, de acordo com a forma como agimos
diante desse afeto, e com isso é capaz de alterar o grau
de nossas potências de agir e de pensar.
Para nos relacionarmos precisamos de encontros, e Spinoza
diz que a ética consiste em nos esforçar na
organização desses encontros para que eles sejam
positivos. O índice em nós para sabermos se o encontro
foi bom ou ruim é o que ele define como sendo afeto.
Afeto é então definido como uma variação intensiva,
uma quantidade intensiva, que está diretamente
relacionada com o aumento ou diminuição das nossas
potências.
Spinoza nos fala de dois afetos, ou paixões primárias
da alma, que são: a alegria e a tristeza. A alegria é o
afeto que aumenta nossa potência de agir, seria uma
variação intensiva positiva, para mais. Já a tristeza
é o afeto que faz com que aconteça uma diminuição da
nossa potência de agir. Podemos dizer então que a
alegria está ligada à expansão, e a tristeza ao
constrangimento. Os outros afetos variam desses dois.
A nossa resposta a esses afetos é o que vai diferenciar
se estamos agindo passivamente, apenas reagindo à
afecção que o outro nos causou, ou ativamente,
levando-nos a refletir dentro da relação, tentando
entendê-la, e fazer desse encontro algo produtivo que
faça a expansão de todos os corpos dentro dessa
relação, compondo verdadeiramente uma relação. Isso
é o que Spinoza chamaria de um bom encontro.
O que realmente distingue uma afecção de ser passiva ou
ativa será sua causa, ou seja, quando a afecção que
preenche o poder de ser afetado de uma potência for
produzida pelo próprio agente, podemos chamar a
afecção de ativa, podemos dizer que aí se deu a
verdadeira expressividade, é quando conseguimos no
auto-afetar; e, quando for produzida por um outro, ela
será uma afecção passiva.
Por isso tudo, a grande conclusão que chego com esse
belo aprendizado e conhecimento adquirido com a filosofia
de Spinoza é que seus pensamentos são extremamente
coerentes com a natureza humana e bastante simples na sua
essência de pensar, mas na prática ainda fica muito
difícil de se aplicar todo esse conhecimento em nossa
vida. Estamos hoje diante de um mundo onde há uma
inversão enorme de valores em quase todos os campos que
conhecemos. Porém, acredito que se insistirmos no
exercício dessa filosofia, se cada ser alcançar esse
pensamento em sua essência, quem sabe assim, ainda haja
tempo para repararmos o que tem sido decomposto por nós
mesmos.
Que nós sejamos capaz
de cuidar mais dos encontros e de sua organização para
tentar mudar o rumo para o qual temos levado nosso
planeta, e tentar fazer com que nossa natureza não se
extinga de vez.
Fisioterapeuta
Paula Godoy
Coordenadora do
Caderno de Fisioterapia do Jornal Existencial On Line
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