O FILHO ÚNICO
Por: Nina Eiras Dias de Oliveira
Constituir famílias numerosas já foi uma necessidade. No caso das antigas comunidades agrícolas, isto era particularmente importante, porque as tarefas de rotina – lavrar, triturar, tecer – exigiam braços capazes de manter uma certa estabilidade econômica. Naquelas circunstâncias, uma família pequena ou com ausência de filhos poderia ser um desastre.
Na metade do século XX, o problema do controle familiar adquiriu âmbito internacional. Os progressos da medicina, a redução da mortalidade infantil (presente nos séculos anteriores) e o número crescente de pessoas idosas estão entre os principais fatores que contribuíram com uma maior preocupação com os problemas da superpopulação e escassez do alimento. Não só fatores econômicos ajudaram a limitar o tamanho das famílias mas, também, maior preocupação na educação, escolha de melhores oportunidades na qualidade do que é oferecido na formação das crianças, escolha de priorização na estabilidade profissional dos pais, solicitações atuais de outros interesses fora do âmbito doméstico.
O filho único ainda recebe hoje o estigma de egoísta, detestável, mimado e superprotegido. Mas será que é assim mesmo? Será que o fato de ser filho único determina sua personalidade e comportamento? Penso que não. Assim como o fato de crianças terem irmãos não seja garantia de uma melhor aprendizagem de convívio. Somos seres abertos em possibilidades. O tipo de relação construída no cotidiano com a criança constituirá o pilar central de sua personalidade. Alguns filhos recebem pouca oportunidade de relacionamento com outras crianças ou crianças da mesma faixa etária. Estes filhos tendem a adquirir um comportamento mais associado ao mundo de adultos e às vezes, rejeitam as brincadeiras com os iguais considerando-as “infantis”. Uma casa com mais crianças, não necessariamente irmãos, tende a enriquecer as relações infantis, com “lições” de intimidade, fratenidade, solidariedade, convívio das diferenças, oportunidade de amar e odiar, lidar com ciúmes e com o confronto no encontro com o outro. Crianças privadas deste convívio podem adquirir comportamento mais retraído, dificuldade no relacionamento e convívio social. Por outro lado existe, também, oportunidade de serem verdadeiros ditadores caso tenham uma convivência onde todas as vontades são satisfeitas; dificuldade dos pais de ocuparem o lugar de autoridade pertinente ao papel que devem desempenhar como representantes da criança; recebam mimo excessivo, fragilizando e despreparando a criança para lidar com situações de privação, lidar com sacrifícios e mudanças impostos pela vida, etc. Incentivar o relacionamento social e amparar a criança neste convívio é sempre positivo. A atitude dos pais com seus filhos será sempre fundamental no caminho da vida emocional que se traça junto a ela.
* *Psicóloga existencial
infantil, especialista
clínica pelo CRP/RJ