EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Temas Existencias

 

ARTIGO

 

Notas Sobre a Influência da Fenomenologia
na Psicologia Existencial Contemporânea
Psicólogo e Sociólogo Maurício Castanheira 

Onde quer que o homem ponha o pé, pisa sempre cem caminhos.  Provérbio indiano

Entendemos adequada a distinção de três caminhos na evolução do pensamento psicológico contemporâneo:

O primeiro caminho, centralizado na investigação da consciência como realidade interior e inacessível,  metodologicamente fundamentada na percepção interna com Rene Descartes e Franz Brentano.   Mais tarde,  tal concepção foi substituída pela análise introspectiva,  definida como forma de reflexão concentrada no exame dos fatos isolados.   Influenciada por David Hume e pelo Empirismo Inglês.

O segundo caminho é a negação do anterior.   Voltado para o mundo exterior e aplicado à investigação daquilo que aí se mostra:  "a conduta como realidade plena,  sem vínculo ou subordinação a qualquer outra de natureza subjetiva".   Influenciado por Kant (na Crítica da Razão Prática,  do incondicionado,  da moral e da lei pela lei),  contrário à introspecção e a possibilidade de conhecimento psicológico científico.   Revigorado pelo positivismo,  expressa-se principalmente no Behaviorismo de Watson.  Persistindo em uma nomenclatura dita 'comportamental'.

Interessante observar que estes dois primeiros caminhos devem ser considerados filosoficamente 'cartesianos'.

O terceiro caminho é a reação ao cartesianismo.   Influenciado por Brentano (ainda cartesiano),  toma como ponto de partida o abandono do conceito de consciência como realidade fechada sobre si mesma e oposta ao corpo. Rejeita a oposição entre interior e exterior,  corrigindo afirmações decorrentes desta posição.  Através de afirmações do tipo:

"Investigar,  não fatos isolados (destituídos de sentido),  mas sim,  a apreensão da própria 'consciência' da consciência e dos seus modos de organização através dos quais ela se mostra."

É o pré-teórico e o essencialmente descritivo do método fenomenológico. Devemos desenvolver mais este terceiro caminho, argumentando que a Psicologia Existencial, influenciada pela Fenomenologia,  a partir de Edmund Husserl,  mantém a atitude inicial cartesiana,  rejeitando,  todavia,  o conteúdo doutrinário edificado anteriormente.

A Fenomenologia apresenta-se então,  situada em pelo menos dois pólos de preocupações:

Esta polarização torna-se inquietante quando o debate envolve a prática da psicoterapia.   Temos encontrado nos dias de hoje 'sartreanos',  'heideggerianos' e 'rogerianos', para ficar apenas com alguns.

Entretanto o desafio, salvo melhor juízo,  permanece em torno do conceito de 'realização', da construção do 'real' em cada ser humano.   Antes, no mundo mineral, vegetal, animal, nada nos preocupava.  É a tranquilidade que sentimos no campo.  Porém, já não vivemos em abandono, mas em guarda e com cautela.

Nós, os Psicólogos, falamos de seres,  - os homens, que se caracterizam porque sabemos que têm uma opinião sobre nós.  Nas palavras de Nietzsche:  "Sentimo-nos tão tranquilos e tão à vontade na pura natureza, porque  esta não tem opinião sobre nós".

O surpreendente misterioso é este comportamento do 'outro' que, sendo-nos presente apenas como uma figura e alguns movimentos corporais, permite-nos 'enxergar' nisso, ou através disso, algo por essência invisível, algo que é pura intimidade, algo que cada um somente por si mesmo conhece diretamente: o seu pensar, o seu sentir, o seu querer, operações que, por si mesmas, não podem ser presenças para outros; que são não-externas, nem diretamente se podem exteriorizar, porque não ocupam espaço, nem têm qualidades sensíveis.

Guardando para outra ocasião mais argumentos a favor (e contra) a influência do método fenomenológico na Psicologia e,  sua utilização por parte do Psicólogo, encerro esta aparção com um argumento de Ortega y Gasset: "O outro diante de nós, quieto ou em movimento, é um abundantíssimo semáforo, que nos envia constantemente os mais variados sinais, indicações daquilo que se passa no 'dentro' que é este outro homem.

Psicólogo e Sociólogo Maurício Castanheira 
Professor do Mestrado da UGF e do CEFET  


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