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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Ludoterapia

 

Artigo

 

SEXUALIDADE INFANTIL II

 

Por: Nina Eiras Dias de Oliveira*

O homem é compreendido na filosofia fenomenológica existencial como um ser-no-mundo, todo o tempo influenciado pela sua cultura, por sua genética, por suas possibilidades, seus limites, pelo espaço, pelo tempo e
pelas relações que são construídas. Há um confronto permanente no enlace entre as possibilidades, limites e contingências nessas relações. É no fluxo desta rede que cada homem tece sua singularidade e existência, todo o tempo sendo afetado e afetando o(s) outro(s). A vida de cada um é um acontecimento que implica o outro. A existência do outro faz parte da estrutura existencial de cada homem e não apenas da sua vida.

Heidegger, filósofo existencialista, compreende o homem como ser plural, coexistente. Define coexistência como condição ontológica do homem.

Em seu livro Analítica do Sentido, Dulce Mara Criteli diz que: "O eu é esta pluralidade nos modos de ser, que se realizam através dos outros e que habitam no eu (o andar do pai, o gênio da mãe, o mesmo medo de altura da
tia, a mesma tendência familiar...). Cada eu, portanto, é um feixe de modos de ser, de possibilidades de ser no mundo que ele herda de outros e que através dele têm que se exercer, na sua medida".

Desde pequena, a criança já vai sendo informada e formada por aqueles que lhe são significativos. Isto acontece a partir do momento em que, através das sensações de calor, frio, aconchego, acolhimento, bem estar, desconforto, ela começa a ter as primeiras impressões sobre seu corpo através do toque e da relação com o outro. Neste contato com o outro, a criança vai construindo os primórdios de sua identidade. O jeito como pai e
mãe relacionam-se enquanto homem, mulher, enquanto casal e enquanto pais transmitem informações que farão parte da formação desta identidade. Neste caminho, ela descobre sua genitália e o prazer de manipulá-la, diferenciado do toque de outra parte do seu corpo. Neste momento, a criança pode encontrar dificuldades do adulto em lidar com este comportamento. Fingir que não vê, castigar, ameaçar, ocupar e distrair a criança estão entre algumas manifestações que o adulto, com dificuldade, pode revelar nesta hora.

Vivemos numa cultura marcada por uma herança educacional com fortes elementos de autoritarismo, opressão, repressão, dificuldades de lidar com prazer e felicidade. Atravessamos um momento do imediatismo, do perecível,
do hedonismo desconectado da responsabilidade, do consumo e do descartável.

Há pouco investimento no saber, no conhecer-se, no ampliar sua consciência a respeito de si, do seu contexto, do outro, das relações que se estabelecem.

"Tudo passa a ser vivido sem profundidade, como se o tempo, sendo curto, não permitisse o aprofundamento das posições e o amadurecimento das idéias. O ritmo da vida do homem moderno não é mais regido pela calma, mas ditado pela pressa, o que nos leva cada vez mais a não sentir a vida, mas a passar por ela." (*Giovanetti) . É a era da superficialidade, da falta de encontro verdadeiro e íntimo das pessoas na sua singularidade. A tecnologia borbulha na informática e encontra na Internet a impessoalidade dos encontros. Poucas são as relações onde as dificuldades são enfrentadas e não descartadas.

Aprendemos a nos comportar como homem e como mulher no caldo dos conceitos, estereótipos, preconceitos, indagações e questionamentos.

Falar de sexualidade é falar de cuidar-se, é falar de como se lida com o íntimo, o privativo e com o que é social e de todo mundo. Por isso, no momento da descoberta e manipulação da genitália é importante, que a criança
tenha assegurado que seu ato não causa nenhum dano que mereça castigo ou punição; também é importante que receba orientação nos cuidados higiênicos e aprenda a cuidar-se para não machucar-se, por tratar-se de uma região sensível. É importante, também, que a criança seja contextualizada com relação aos limites do espaço de ocorrência do ato. Como ato íntimo, privativo e pessoal, a manipulação deve ser reservada a um espaço íntimo da criança: banheiro, quarto pessoal e não na sala de estar, cozinha ou colégio. Da mesma forma, é importante que os pais preservem, também, a criança daquilo que é íntimo dos pais: a relação sexual destes. Fechar a porta e não deixar a criança dormir no mesmo quarto, excluindo a criança daquilo que não é pertinente a ela, garante não só a privacidade dos pais, mas também, evita tumultos emocionais na criança.
Quando se pensa em educação sexual na infância, automaticamente tem que se pensar, também, em desenvolvimento emocional, isto é, tem que se levar em conta o nível de maturidade e as necessidades
emocionais da criança.

É importante que as questões da criança tenham espaço para serem colocadas e respondidas com clareza e simplicidade, na medida em que esta curiosidade vai aparecendo. Às vezes, alguns pais querem se livrar logo do assunto e, com ansiedade disparam a falar além da necessidade da criança, na tentativa muitas vezes frustrada de que nunca mais vão precisar falar sobre o assunto.

Outros querem logo mostrar a criança e a si mesmos o quanto estão preparados para falar do assunto com "naturalidade" e angustiam-se com a ausência de perguntas infantis. Existem muitas formas da criança manifestar seus interesses e curiosidades sobre a sexualidade. Isto pode ocorrer através de piadinhas, comentários, palavrões e brincadeiras. No lúdico, a criança compreende, elabora, vivencia a realidade. Compreende papéis (mãe, pai, filho, homem, mulher) e, embora muitas vezes já se perceba menino ou menina e já conheça seus órgãos genitais, experimenta na brincadeira, indiferentemente, ambos os sexos. Numa sala de aula, por exemplo, algumas crianças podem querer ver a genitália uns dos outros. O professor, atento, pode aproveitar este momento, para falar sobre o corpo do homem e da mulher, das necessidades e curiosidades das crianças (formato, tamanho, pêlos...), desenhar as genitálias e conversarem sobre suas diferenças e questionamentos. Culturalmente, a diferença dos sexos é tratada hierarquicamente, com estabelecimento de privilégios e vantagens, com limitações de atividades e determinações de comportamentos. Olha-se esquisito para o menino que chora, que é sensível, que tem manifestações de carinho com o outro, que brinca com boneca e que se veste de rosa. Pede-se as meninas que sejam frágeis, amigas da mãe, que não briguem e que brinquem
de casinha. O homem e a mulher são seres diferentes. Às vezes reclamam uns dos outros com dificuldade de lidar com estas diferenças. Uma mulher excita-se diferente do homem, por exemplo. Muitos se acusam de "tarados" ou
de "frígidas" por conta, também, do desconhecimento dessas diferenças.

Muitas mulheres, acostumadas à resignação, entram no ritmo do homem para satisfazê-lo, sem terem coragem para parar este movimento a fim de aprenderem a ter prazer juntos, a se darem prazer um ao outro também.

Com oportunidade, o desejo do saber é impulsionado. Quando uma criança pergunta, por exemplo, como o bebê foi parar na barriga da mãe não quer dizer que ela queira ou aguente saber de detalhes com relação ao
ato sexual dos pais. Responder a criança de maneira simples, clara e objetiva satisfaz sua curiosidade. Ao longo da vida, as questões são retomadas, fechadas, reabertas e enriquecidas. Às vezes, basta saber que os
bebês nascem do namoro entre um homem e uma mulher. Outras vezes, que o homem coloca o pênis na vulva da mulher quando namoram, caracterizando a relação sexual adulta. Às vezes se quer ir mais adiante e saber que a partir desta penetração é liberado o sêmem na vagina. No sêmem, os espermatozóides encontram o óvulo e ocorre a fecundação, dando início a uma nova vida. Com abertura, disponibilidade, acolhimento e verdade a criança sente-se segura.

Perdeu-se hoje, de uma forma geral, a noção do que é pertinente a criança. Vejo com freqüência adultos se dirigirem a criança como se estivessem referindo-se a adultos em miniatura. Não sabem como se aproximar
delas, sobre o que falar e de que maneira.

Ao ouvirem uma criança se referir a outro como sendo seu namorado entendem isto dentro do parâmetro de adulto, às vezes desesperando-se, às vezes estimulando, poucos lidam com este dado na dimensão do contexto e por quem ele é apresentado. Às vezes, o namorar serve para atender um apelo e insistência do outro que acredita que se tenha que ter um namorado. Às vezes, o namorar é porque andam de mãos dadas ou têm uma grande afinidade e estão sempre juntos. Às vezes, o namorado desconhece que está namorando.
Namorar pode ser um jeito de elaborar, compreender, imitar e estar inserido no mundo que lhe é apresentado nas novelas, filmes e contexto social.

Muitas crianças têm sua infância atropelada por um ingresso pré-maturo no mundo adulto. Recebem uma superestimulação do vestuário, exigências de decisões descontextualizadas de sua maturidade emocional até
solicitações de comportamento exaltando a sensualidade. Apresentam, muitas vezes, uma maturidade forjada num jogo que lhe compete ter atitudes pertinentes ao adulto.

A sexualidade é construída ao longo da vida e encontra-se necessariamente marcada pela história, cultura, afetos e sentimentos, expressando-se com singularidade, em cada pessoa.

* Psicóloga infantil membro do GPFE (Grupo Petropolitano de Psicologia
Fenomenológica Existencial). Especialista em Psicologia Clínica pelo
Conselho Regional do RJ. CRP 05/09409
E-MAIL : nina_oliveira@petronline. com.br

 

 

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