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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 08 de agosto de 2000

 

ARTIGO

 

Morte - um Assunto Adiado
 
Psicóloga Nina Eiras Dias de Oliveira


O ser humano nasce apenas com uma única certeza: a de que vai morrer um dia. Mas em nossa cultura ocidental, a morte é temida e vista como um tabu, algo que não se deve nem comentar. Não se fala dela ou fala-se dela como um sono, uma viagem, um renascimento, doença, acidente, malefício ou de tudo isto ao mesmo tempo.

Rochefoucauld dizia que nem o sol nem a morte podem ser olhados de frente.

A morte faz parte da vida, é algo que acontece ao ser que vive.
Heidegger, filósofo existencialista, dizia que: "uma existência autêntica, só se torna disponível quando os homens interiorizam o pensamento da morte, quando compreendem não apenas que todos os homens são mortais, mas que têm de morrer suas próprias mortes e que ninguém o pode fazer por eles; então eles podem ser livres para viver suas próprias vidas, não como um qualquer, mas como eles próprios".

O homem é responsável pelo que lhe ocorre e este sentido da responsabilidade é ao mesmo tempo assustador e sublime.

É assustador na medida que, estando aberto para infinitas possibilidades, o homem é livre para escolher seu modo de agir.
Também o é sublime pois caracteriza a aproximação com esta liberdade, pois somente o homem, somente ele, é responsável pelos seus atos.

O homem faz o seu caminho e pode decidir cada situação através de sua verdadeira intenção.

O homem, existencialmente falando, de acordo com suas escolhas e contingências da vida escolhe como quer estar no mundo.

Mas como reagem as crianças diante da morte?
As reações de uma criança frente à morte dependem muito do tipo de relação que tem com o adulto. Quando uma pessoa significativa para ela morre, a criança sente uma profunda falta do falecido. Há desejo de que o morto volte e, muitas vezes, esperança de que isso ocorra, seguida de tristeza e raiva quando percebe que isso não vai acontecer.

Quando a criança recebe apoio e permissão gosta de conversar sobre a pessoa morta, sobre episódios que passaram juntas, com o objetivo de afirmar e ampliar a figura guardada na memória. Alguns gostam de ver fotos ou objetos que pertenceram ao morto. No início, algumas podem chorar muito ou não ter nenhuma reação, outras adquirem comportamento pouco sociáveis. Pode ficar temerosa com relação ao afastamento de outras pessoas que lhe são significativas, com medo que este afastamento também signifique um desaparecimento. Pode se sentir culpada achando que foi responsável pela morte do falecido ou pelo que não fez por ele ou com ele.

É muito comum que o adulto, na dificuldade de lidar com a situação, crie histórias que acredita serem amenizadoras e ajude a criança a lidar com ela, histórias como: "Papai do céu chamou a titia para ajudá-lo na arrumação da casa dele, e daí ela foi até lá para ajudá-lo, ou vovô foi fazer uma longa viagem, ou está dormindo..."

Por ter menos conhecimento a respeito da vida e da morte, a criança passa a ter esperanças de que o morto possa retornar, fica aguardando o avô que não volta nunca, a tia que nunca acaba a arrumação, ou o outro que não acorda, além de poder fazer outras associações, como viajar é ruim, ir arrumar a casa e dormir também, pois fazem com que as pessoas desapareçam e não voltem mais.

O trabalho em consultório com as crianças têm demonstrado que, quando uma criança tem uma relação afetiva segura e estável com as pessoas que lhe são significativas, a probabilidade de que sejam criadas situações patológicas com relação a perda do ente querido é menor. Embora a morte seja um golpe terrível, esta criança já pode trazer dentro dela uma profunda crença na possibilidade de amar e de ser amada, de ser capaz de fazer laços afetivos com outras pessoas.

Todos nós temos nossas crenças. Acredito que a melhor maneira de lidar com a criança com relação a este assunto seria informando-a com clareza que a pessoa está morta, não vai mais voltar e o corpo dela foi enterrado. Dependendo das necessidades da criança, podemos acrescentar ainda que não sabemos se ocorre algo com a gente depois que se morre, cada pessoa acredita numa coisa e que você acredita em ... Neste sentido você a ajuda a se situar mais um pouco, esclarecendo seu ponto de vista e sua crença, não fechando oportunidades para a criança vir a conhecer outros pensamentos para um dia poder decidir qual será, de fato, o dela.

É importante nesse caminho, para lidar com a dor que a criança encontre abertura e disponibilidade para conversar sobre o morto, falar e expor sua tristeza, dividir sua dor com relação à saudade, pois normalmente ela encontra um adulto que, com dificuldade de lidar com sua própria dor, esconde-a, muda de assunto, dificultando ou impossibilitando a expressão da criança.

Nesse caso, num processo ludoterápico de filosofia existencialista, ela encontra, através da relação de confiança e segurança com o terapeuta, oportunidade para se expressar, relatar, partilhar sua dor, raiva, culpa, etc, e com isto superar e elaborar este momento tão doloroso.

Psicóloga Nina Eiras Dias de Oliveira
Psicoterapeuta Infantil
Especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Regional de Psicologia do RJ
Membro do GPFE - Grupo Petropolitano de Psicologia Fenomenológica Existencial


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