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EDIÇÃO ESPECIAL Página atualizada em 08 de agosto de 2000

 

ARTIGO

 

LIMITES
 
Psicóloga Nina Eiras Dias de Oliveira


Em termos de cultura, todos nós recebemos como herança educacional elementos de autoritarismo, opressão e repressão. Em algumas famílias não se podia conversar, falar, olhar, dizer não, perguntar, referir-se a pai e mãe, que seria considerado falta de respeito. Na tentativa de não repassar este tipo de educação para outras gerações, busca-se criar uma educação mais libertadora. Mas o que seria essa educação mais libertadora?

Uma educação onde o aprender a conversar seja buscado, onde o ouvir o outro marque sua presença, onde o sentimento seja legitimado e lidado, onde haja liberdade de ser e o respeito, responsabilidade, autoridade sejam bem definidos e ocupados de acordo com os limites e contingências de cada papel. Há algum tempo atrás, a questão dos limites ficou associada à: punição, castigo e, neste sentido deveria ser evitado ou até mesmo banido. A psicologia ajudou a repensar esta questão, ressaltando a importância de que os limites sejam dados, que pai e mãe ocupem seu papel de orientadores, de comando na educação dos filhos. Existe uma certa informação popular que paira e envaidesse alguns, de serem “mais” do que pai e mãe dos filhos: são amigos destes. Claro que o respeito, consideração, solidariedade presentes na amizade, são importantes na relação pais e filhos. Mas essa relação deve ser, principalmente, caracterizada como: pai, mãe e filho. Não é uma relação de troca, no sentido de igualdade de papéis, como é a amizade. Acredito até que quando adultos essa relação pode vir a ser de amizade; se na infância e adolescência, o filho recebeu aquilo que precisa receber dos pais: sentir-se: amado, cuidado, considerado, valorizado, orientado e muitas vezes comandado.

Quando uma criança sabe onde está pisando e até onde pode ir, sente-se mais segura. Aprende a lidar com seus impulsos e emoções. E pode decidir aquilo que tem maturidade para avaliar. Sentindo-se cuidado, tende a ter maior estrutura em termos de segurança afetiva. Os limites também dão noção do outro, de que ele existe e também deve ser considerado. Atravessamos um período marcado pelo individualismo, hedonismo, culto ao prazer desconectado da responsabilidade; do imediatismo. “Eu estou com vontade eu faço, isto me dá prazer danem-se os outros”.

Os limites marcam a realidade de cada relação e estrutura social, ajudando a criança a compreender e introjetar valores.

São atitudes que revelam dificuldades em se dar limite:

1- insistência – “Filho vai tomar banho, filho vai tomar banho, filho vai tomar banho...”.

2- perder a paciência e agredir - Dando assim um modelo de autoritarismo, de desigualdade de condições, de covardia, de violência;

3- nada fazer, ignorar – continuar lendo seu jornal enquanto a criança sobe em cima do sofá, da mesa... Fornecendo assim um modelo de abandono.

4- explicações exageradas – “Mãe, porque eu preciso escovar os dentes? Você precisa escová-los porque senão virão umas bactérias comerão o resíduo alimentar, formarão uma placa chamada placa bacteriana, fazendo um buraco que é a cárie, você sentirá dor e teremos que ir a um dentista que irá obturar o dente”.As explicações são importantes, mas devem ser dadas com simplicidade, objetividade na medida da curiosidade do outro.

5- zanga prolongada – A pessoa que é autoridade zanga com a criança por fazer algo que não deveria. Periodicamente, volta ao assunto mesmo que ele não esteja no contexto, fazendo assim uso da situação para que a criança se sinta culpada pelo feito, vitimando a autoridade.

6- nomear entidades utilizando-se de situações que provoquem medo para “frear” a criança ou passar a responsabilidade para o outro – “O homem do saco vai te pegar”; “Quando seu pai chegar você vai ver”; “Resolve isto com sua mãe e me deixa ver televisão”, etc; O conflito de cada relação deve ser resolvido no âmbito desta.

7- chantagear – “Se você tomar injeção eu te dou um sorvete”. Fortalecendo a insegurança da criança, reconhecendo que aquilo que ela se submeterá é tão insuportável, que ela não tem estrutura para lidar e precisa ser aliviada. Quem ocupa o papel de comando não consegue segurar a “rédea” da situação. Desta forma, a criança não tem a dimensão real da dor, nem se fortalece conhecendo suas possibilidades e potencialidades para lidar com a situação e, sente que a autoridade não ocupa seu espaço, portanto o “trono” está vazio e pode ser ocupado. Abre caminho também para que a criança utilize a chantagem para obter aquilo que deseja. A criança pode ser confortada, sentir que o outro está junto com ela na dor, não negando-a, nem subestimando ou super valorizando. Assim sendo, sente-se cuidada.

8- ameaçar o filho com a perda do amor ou abandono – “Vou embora e vou deixar você aí, vai ficar sozinho”.Nada mais cruel e danoso para a criança que faz de tudo para obter o amor dos pais e sentir-se valorizado.

9- comparações ou comentários negativos na presença de outros – “O filho do fulano não está chorando...” Reforça a menosvalia e insegurança da criança, uma vez que além da pessoa não ser clara no comentário (“Eu gostaria que você fosse ou estivesse quieta como o filho do fulano”), faz com que, a criança sinta-se não aceita, desconsiderada na sua percepção e muitas vezes sem condições de defender-se. O ser claro no comentário faz com que a responsabilidade da situação volte para a relação de conflito.

A criança pode lidar com os limites de diversas formas. Ela utilizará as armas que terá em cada relação: através de choro, raiva, pirraças, dengo; comportamentos infantilizados; comparações ou tentará negociar. Muitas vezes nesta situação fazendo com que os pais ou outras figuras de autoridade, reconsiderem, reavaliem uma determinada regra. À medida que irá crescendo é importante que também vá conquistando mais este espaço, de poder decidir sobre sua vida. Os pais também vão aprendendo a fazer esta passagem de: fazer pela criança, serem supervisores, orientadores e amigos. Educar é um processo difícil, de aprendizagem, de avaliação constante, de reconstrução de valores, de acertos e erros, a ser vivido e construído junto com o outro.

Psicóloga Nina Eiras Dias de Oliveira
Psicoterapeuta Infantil
Especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Regional de Psicologia do RJ
Membro do GPFE - Grupo Petropolitano de Psicologia Fenomenológica Existencial


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