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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Ludoterapia

 

ARTIGO

 

Alimentação Infantil: Moeda de Negociação?
 
Psicóloga Nina Eiras Dias de Oliveira

O alimento é o combustível que nosso corpo precisa para poder funcionar. Na infância tem o papel adicional de promover o crescimento e desenvolvimento da criança. Mas, no ato de se alimentar, o alimento pode adquirir outros significados: ser motivo de chantagem, poder, culpa, ansiedade, compensação, depende do contexto relacional em que estiver inserido. Uma mãe ansiosa em ver seu filho bem alimentado pode sentir-se insatisfeita com relação à quantidade ingerida pela criança e pode lançar mão de recursos que distraiam a criança, como os famosos trenzinhos, aviõezinhos, em busca de uma garagem ávida a abocanhá-los, ou recorrer a ameaças, prêmios, histórias, etc. A criança, percebendo o desespero materno, pode também passar a utilizar esta relação comandando a mãe ou evita este momento que passa a ser tão doloroso.

O primeiro contato que temos com o alimento é na amamentação. Através dela, não só nossas necessidades físicas estão sendo satisfeitas, mas, também, outras informações nos estão sendo passadas: calor, frio, ser acariciado, acariciar, ser amado ou não, sensações de: ansiedade, frustração, raiva, prazer, etc. Tudo isto poderá ser associado ao ato de se alimentar tornando esse momento agradável ou não.

O ato de amamentar é para algumas mães sua única fonte de satisfação e, assim sendo, pode tornar-se difícil auxiliar a criança no processo de desmame, quando ela começa a se desgrudar da mãe. Até bem pouco tempo o próprio inistério da Saúde erroneamente incentivava como prática saudável a amamentação até os 2 anos de idade da criança. Algumas mães orgulham-se muitas vezes de terem amamentando seus filhos até os 2, 3, 4 anos, como se isto fosse garantia de saúde para a criança ou certificado de boas e zelosas mães. Na verdade, aos 6 meses a criança necessita que esse processo inicie.

A esta altura, ela inicia sua dentição, seu organismo tem necessidade de outros tipos de alimento e já começa a estar apto a recebê-los de maneira gradativa e com orientação pediátrica. Às vezes este processo começa aos 3 meses normalmente por necessidade da mãe de retornar ao trabalho. Em torno dos 8-9 meses, no máximo 1 ano não há mais necessidade da criança continuar no peito. Se isto continua, normalmente deve-se a dificuldades e/ou necessidades emocionais nesta relação.

Culturalmente, o alimento também está presente em encontros pessoais ("Precisamos colocar o papo em dia, vamos tomar um chope, comer uma pizza?"), festas, datas comemorativas, normalmente realizam-se com um cunho prazeroso associado à abundância ("Não vou nem almoçar hoje para poder comer bastante na festa à noite", "Passei mal, vomitei, mas bebi todas"). Há ainda uma associação da gordura com ser saudável na infância. Nos consultórios pediátricos a procura devido à inapetência alimentar é maior do que pelos excessos de gordura. Normalmente, os regimes ou mudanças de hábitos alimentares infantis são adiados.

Alarmados por uma população cada vez mais gorda a exemplo de países de primeiro mundo como os Estados Unidos, a mídia vem ocupando cada vez mais espaço, dedicando-se a alertar as conseqüências em uma população que cada vez mais jovem, acaba lidando com problemas de diabetes, doenças cardiovasculares, colesterol alto, etc.

Psicóloga Nina Eiras Dias de Oliveira
Psicoterapeuta Infantil
Especialista em Psicologia Clínica pelo Conselho Regional de Psicologia do RJ
Membro do GPFE - Grupo Petropolitano de Psicologia Fenomenológica Existencial


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