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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Ludoterapia

 

Artigo

 

O corpo que a gente é e o corpo que a gente tem

Por Nina Eiras Dias de Oliveira

Van Den Berg, em seu livro Paciente Psiquiátrico, nos fala do modo de ver fenomenológico na patologia, através de um paciente por ele idealizado. Este paciente apresenta queixas físicas centralizadas no coração. Sente palpitações intensas em crises esporádicas. Estas
palpitações, a princípio, eram suportáveis mas, com o decorrer do tempo, tornaram-se mais fortes e incômodas a ponto de ter a sensação de desmaio iminente. No intervalo entre as crises sente o coração bater tão depressa que parece que vai arrebentar. Após consultas a diversos médicos e exames realizados nenhuma anomalia foi constatada. Mas, isto não convence o paciente. Médicos do mundo inteiro não seriam capazes de convencê-lo que a dor que ele sente não é real e que, portanto, seu coração estaria saudável.

Esta não é a realidade do paciente. Ele sente que seu coração está doente. "Será que o paciente está errado? " Indaga Van Den Berg. "Quem poderia duvidar de exames sofisticados, modernos e científicos? Será que conseguimos isolar o nosso corpo daquilo que sentimos com este corpo?" Nós somos o nosso corpo e nós temos um corpo. Vivemos numa cultura onde o corpo pertence ao mundo material proporcionando enormes avanços na medicina científica. Pois um corpo que é material pode ser dissecado e assim entendido e explicado. Porém o corpo que somos não pode ser dissecado. O paciente do livro fala de um coração que poderá quebrar frente a um gesto ou olhar, o médico não encontra fraturas. Médico e paciente falam de órgãos distintos. O corpo que somos possui órgãos distintos do corpo que temos. Um estudante de medicina cometerá um erro se ao acariciar a mão de sua namorada estiver vendo nesta mão: veias, músculos e nervos. Pois a mão da namorada não se encontra em nenhum livro de anatomia ou de fisiologia, exemplifica
Berg.

E quantas vezes, não nos deparamos em nosso dia-a-dia sem nos darmos conta disso? Ouvimos pessoas que se queixam por sentirem-se gordas embora não consigamos perceber nenhuma gordura visível... A mulher que reclama do marido por sentir que este só quer saber do corpo que ela tem e não do corpo que ela é... Do desapontamento em, muitas vezes, não nos sentirmos compreendidos numa dor sentida mas não identificada
fisicamente...Quantas vezes não menosprezamos e desvalorizamos essa dor sentida e fisicamente não visível? Um mal estar físico pode, portanto, referir-se ao corpo que somos e não ao que temos.

A fenomenologia é um método do de conhecimento que nos convida a uma nova forma de compreender. Falar do seu próprio corpo significa falar de si mesmo. E o corpo que somos está intimamente ligado ao nosso mundo. O corpo que somos afeta nosso mundo numa relação de reciprocidade: o nosso mundo também é afetado pelo nosso corpo. Uma pessoa que sofra uma depressão endógena, por exemplo, tem uma fala mais devagar, quase não há mudanças em seu mundo que se apresenta cinzento, murcho e sem vida. Sente-se,
normalmente, cansada e inativa. Seu mundo e seu corpo, assim como o nosso, estão intimamente relacionados e para compreender as dores dos nossos clientes precisamos compreendê-lo nessa relação com o corpo que ele é e com o mundo que o cerca.

Psicóloga clínica infantil, especialista em psicologia clínica pelo CRP- 05
e Membro do GPFE - GRUPO PETROPOLITANO DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICA
EXISTENCIAL. E-mail: nina_oliveira@petronline.com.br


 

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