Psicólogo Emilio
Romero
CRP
CRP06/4701
-
A
tese dialética que o positivo coexiste e supõe o negativo é
uma das idéias mais esclarecedoras e fecundas na história do
conhecimento. É uma tese, aliás, até evidente por si mesma
que se formula no plano do saber comum das mais diversas maneiras,
embora rara vez se tirem todas as conseqüências dela.
Escreve-se e ouvimos dizer: - a luz supõe a escuridão - o grande
só existe em relação ao pequeno, ou menor - só há ricos
onde há pobres - o prazer nada seria sem o
desprazer, ou na sua ausência -o êxito não consegue esconder
o fracasso - a racionalidade e o irracional são inseparáveis
- e muitas expressões mais. Estas são as polaridades que
nós amenizamos levando-as para pontos intermédios, que ora acentuam
um lado, ora outro -mais pobre que rico, mais inteligente que
tolo, nem inteiramente honesto, nem completamente desonesto.
Contudo, existem certas negatividades que parecem igualmente
amenizáveis mas nunca superáveis, pois estamos constantemente
sentindo sua presença ou circulando pelas sendas que elas impõem.
São negatividades que nos afligem num grau variável, segundo
a situação e as circunstanciais, levando a muitas pessoas ao
desespero, à depressão e a uma visão muito pessimista da vida.
Talvez você esteja pensando em alguns fatores que afligem a
tanta gente -a pobreza, a doença, a injustiça, as veleidades
da sorte. Todos estes fatores influem de modo ostensivo, mas
não estou referindo-me a estes males. São negatividades que
entendemos como inerentes à existência humana, que a riqueza,
a saúde e os favores da sorte não erradicam, embora amenizem.
Eu diria que são sete negatividades que nos acompanham sempre,
as vezes roendo-nos a carne, as vezes roçando-nos a pele. Aliás,
nem sempre nos apercebemos de sua companhia. São como fantasmas,
inclusive no sentido implícito de todo fantasma: são como ficções
reais, como realidades fictícias. Estas negatividades, ademais,
não são pura negatividade, pois também carregam uma dose de
positividade -que de alguma maneira favorece o movimento da
vida. São por todos nós muito conhecidas: -a perda
-o fracasso -a solidão -a morte -a incomunicação
-o absurdo -a angústia. São negatividades radicais -radicais
no sentido que estão na raiz mesma de nossa vida. Ninguém escapa
delas, embora nos afetem num grau variável segundo seja a estrutura
da pessoa - segundo seja sua capacidade para assimilar os elementos
tóxicos. Muita gente nem sequer quer pensar nestes fantasmas;
preferem acreditar que são simples miragens da mente, simples
momentos passageiros. Outros sabem que não como escapar inteiramente
deles, que o melhor a ser feito é saber conviver com eles. Eu
diria que estes últimos são as pessoas autênticas: aqueles que
aceitam o que a vida é, sem necessidades de enganos e mistificações.
As aceitam até com bom humor, ou apenas com serenidade; nunca
tentando ignorá-las. Fala-se muito em autenticidade, dizendo
que este tipo de pessoas não apelam para a duplicidade nem se
escondem numa fachada de bela aparência. Acredito que são traços
distintivos de indivíduos autênticos; apenas digo que aceitar
estas negatividades, encarando-as com serenidade, é ainda um
traço mais importante. Vejamos todas elas num espaço mínimo.
Sobre cada uma delas se tem escrito livros que esquadrinham
seus mais variados aspectos. * -No percurso de uma vida
as perdas são inevitáveis; não me refiro às perdas materiais
apenas. Estamos perdendo algum bem sempre. Perdemos crenças,
valores, além de amigos e seres queridos. Perdemos a juventude,
as ilusões construtivas e estimulantes. Vamos perdendo a cada
instante a vida, pois a morte habita no coração mesmo de nosso
ser. Os existencialistas falam do nada como a contrapartida
inevitável do ser, mas o nada é a matéria invisível da qual
está feita a morte. * -A morte nos preocupa quase sempre,
mas não a levamos a sério, salvo quando entramos num período
depressivo ou nos casos que nos deparamos de frente com a eminência
do fim (doença grave, acidente, falecimento de um ente amado).
Depois dos 40 começamos a perceber sua sombra; com o passar
dos decênios vai adquirindo corpo, ocupando espaço em nossa
vida. Chega um momento que nos deitamos com ela, sem saber se
no dia seguinte já se apossou por inteiro de nosso espírito
e de nosso corpo. Somos mortais; rara vez nos apercebemos da
importância deste fato tão simples e tremendo; por sermos mortais
o brevíssimo lapso de tempo no qual transcorre nossa vida se
torna precioso. Se vivêssemos indefinidamente ou por milhares
de anos tudo seria diferente; tudo aconteceria com a lentidão
da tartaruga (que vive o dobro da espécie humana); talvez fossemos
como esses homens-animais que descreve Jorge Luis Borges num
de seus contos, que por viverem milhares de anos já nada mais
tinha importância para eles. Talvez se tinham tornado imortais,
entrado na roda do intemporal e, em conseqüência, a vida carecia
de qualquer objetivo. Não existia para eles nem sucesso nem
fracasso, simplesmente porque tudo já era o mesmo. * -Talvez
não exista fantasma que nos cause maior embaraço e dissabor,
levando-nos inclusive à vergonha e ao desvalor, quando entra
em nossa casa: o fracasso. O fracasso delata, na percepção da
pessoa e dos outros, a incapacidade e a inépcia. Poucos são
os que admitem um fracasso revelando a frustração decorrente
dele. Tolo engano. A verdade é que em quase todos os empreendimentos
de valor os resultados ficam quase sempre bem aquém das expectativas
e do esperado. Uma parte considerável de nossos objetivos não
se consegue. Não sentimos o malogro em parte porque nos conformamos
com a parcela conseguida, em parte porque não estamos dispostos
a admitir o fracasso relativo. Racionalizamos. A história dos
chamados triunfadores é geralmente um mito. O sujeito até ganhou
muito dinheiro ou conquistou a fama, mas não se curou de seus
medos e de sua neurose. Lembre-se dos casos de Marilyn Monroe
e de Michael Jackson -dois exemplos nada excepcionais. São os
paradigmas gritantes do sucesso e do fracasso. Só quando o sujeito
não deseja ter nada , ou apenas o suficiente, a dicotomia
sucesso-fracasso acaba. * -Os psicólogos não se cansam
de enfatizar o lado positivo da solidão. Jadir Lessa, em livro
recente, sublinha este ponto: ela nos leva a um maior contato
com nós mesmos, permitindo-nos uma consciência mais profunda
de nossa radical identidade como sujeitos únicos, agentes e
pacientes de nosso destino. Assinala igualmente seu lado negativo:
a impossibilidade de uma comunhão permanente com o outro, por
acima das inevitáveis contingências interpessoais. Aponta também
a questão da incomunicação que, ao tornar-se ostensiva, acentua
o sentimento de solidão -sentimento experimentado de modo lancinante
nos períodos depressivos e nos momentos das grandes decisões,
que só ao sujeito corresponde fazer sob sua inteira responsabilidade
e liberdade. De qualquer maneira, o sentimento de solidão como
decorrência da consciência de não contar com ninguém é um dos
maiores fracassos humanos. * -A comunicação é um dos temas de
nosso tempo, trilhado e manuseado. Vivemos na época da comunicação
eletrônica e da pobreza da comunicação humana. A quanto maior
comunicação eletrônica, menor comunicação humana -este parece
ser o princípio. Mas não se pense que a incomunicação
é um fenômeno apenas de nossa época. A verdade é que quase
sempre predomina a pseudo-comunicação. Na vida cotidiana a comunicação
interpessoal se mantém num plano funcional e instrumental.
A famosa comunicação eu-tu, que tanto valorizou Martin Buber,
é excepcional. A incomunicação não é uma simples conseqüência
de um mal uso do código lingüístico. Deriva em grande medida
da intenção comunicativa dos interlocutores e da atitude que
orienta o processo comunicativo. Se a atitude predominante é
de tipo funcional e instrumental à outra pessoa interessa
muito pouco. Se a intenção é usar ao outro como um mero meio
para fins pessoais então o mais propriamente humano se perde
ou passa para um lugar secundário. Por outra parte, a comunicação
verdadeira se dá mediante o diálogo e o diálogo supõe que os
interlocutores saibam escutar -o que é uma atitude pouco comum.
Este é um tema muito complexo, que já provocou muita pesquisa,
mas todas elas concluem que embora o homem esteja inserido em
redes relacionais, continua sendo, em grau apreciável, uma ilha
-desmentindo ao poeta John Donne. * -Basta observar alguns aspectos
do sistema social e da história humana para concluir com uma
idéia que Shakespeare pois na boca de Macbeth, apenas tirando
um pouco a radicalidade de seu enunciado: a vida é um absurdo,
uma história contada por um idiota, entre o estrépito e a fúria.
A história nos parece uma luta sórdida pelo poder entre os que
estão nas esferas de comando, com as piores conseqüências para
os que estão por baixo. A injustiça e a violência, a prepotência
e a brutalidade são demasiado freqüentes como para que as consideremos
apenas uma mancha menor no cenário da evolução humana. Isto
no nível coletivo. Como fica a história individual? É verdade
que nós sempre descobrimos uma certa lógica em nossa trajetória
vital. Chegamos ao ponto E mas primeiro passamos por todos
os anteriores numa seqüência compreensível, pelo menos
nas suas linhas gerais. Entretanto, por muito linear que seja
nosso percurso existem pontos de ruptura, reações estranhas,
viradas surpreendentes, conflitos e impasses, nódulos obscuros.
Tudo isso nos resulta difícil de entender. Nos comportamos de
modo estranho que, já passados os eventos, nos parecem absurdos
e inacreditáveis. Como chegamos a pensar em suicídio -e, outras
vezes, em assassinato- simplesmente porque o objeto de nossa
paixão nos deixou desolados no muro das lamentações? Não demoramos
a perceber que o irracional está tanto fora quanto dentro de
nós. * -Preciso referir-me à angustia? Soren Kierkegaard foi
o primeiro que nos ensinou o lado positivo desse estado de espírito.
Precisamos de uma certa dose de angustia para manter um
nível de vigilância e de procura -do contrário nos
mantemos num conformismo mole e paralizante. Esta é a angústia
existencial (ou real), correlativa da liberdade própria do ente
humano. Somos livres e por esta razão somos responsáveis; e
por sermos responsáveis nos angustiamos. Responsáveis perante
Deus (se você acredita num Ser Supremo), perante o próximo
e perante nós mesmos. Esta é uma das fontes básicas da angústia.
Há uma outra: nunca estamos inteiramente predeterminados (como
querem os deterministas). Sempre há uma margem considerável
de incerteza. Por esta abertura ao futuro entra a insegurança
-um fator associado e disparador da angústia. Existem outros
tipos de ansiedade (outro nome para o mesmo fenômeno). No tipo
neurótico o sujeito vive com o sentimento constante de ameaça
e de vulnerabilidade, precisando de uma série de mecanismos
e truques para amenizar e afugentar esta vivência que o dilacera.
Na reação de pânico a pessoa torna-se ainda mais sensível a
sua fragilidade perante as incertezas, chegando a experimentar
diversos sintomas somáticos, que ainda pioram seu sentimento
de desamparo. Estes dois tipos obrigam a pessoa a procurar ajuda
terapêutica, única maneira de sair do círculo vicioso
desta forma de sofrimento. O leitor pouco acostumado
a encarar os aspectos menos benignos da vida
humana -como são todas as negatividades apontadas acima
- talvez se pergunte se não há um certo pessimismo
em nosso enfoque. Eu lhe diria que seria pessimismo lamentar
meramente sua presença; e seria tolice tentar ignorar a existência
destes fantasmas que coabitam conosco. Sustentamos que saber
encará-los com tranqüilidade e firmeza, sabendo conviver
com eles, constitui o caráter autêntico da pessoa. Por último,
não esqueçamos que todas estas negatividades nos levam a valorizar
suas antíteses. Valorizamos a vida mais que a morte, as pequenas
realizações mais que o fracasso, a serenidade mais que
a angustia, a companhia e o diálogo cordial mais que a incomunicação,
o predomínio do sentido mais que o absurdo, as novas possibilidades
mais que as perdas.
- Emílio
Romero é psicólogo clínico e professor de psicopatologia; autor
de vários livros, entre outros: O Inquilino do Imaginário
- Formas de Alienação e Psicopatologia (Lemos Editor,S.P.l996)
e As Dimensões da Vida Humana (Novos Horizontes Editora.
S. José dos Campos,S.P. l998)
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