Psicóloga Tereza Camasmie

Quando
um cliente procura fazer Psicoterapia, geralmente já tentou outras
alternativas: remédios que não fizeram efeito, exames que não deram
nenhum resultado, viagens que não trouxeram a mesma alegria de antes,
práticas religiosas que não deram a melhora esperada.
E é assim que ele chega ao consultório: sua motivação
principal é sair do sofrimento em que se encontra. Quando o cliente
vê a Psicoterapia como sua última alternativa, pode despertar no
psicólogo iniciante muita preocupação em não ser mais um na lista
dos profissionais procurados.
Para não entrar nessa angústia que é do cliente,
é preciso esclarecer que o fato deste querer sair do seu sofrimento
não quer dizer que queira fazer mudanças em sua maneira de ser.
Para o psicólogo isso quer dizer a mesma coisa, uma vez que para
ele, não há como sair do sofrimento sem que haja mudanças internas
no indivíduo. Acontece que para o cliente a questão não é vista
dessa forma. Para ele, o psicólogo já tem a solução para aquilo
que ele busca, já possui o alívio para a dor que ele sente. Não
é à toa que freqüentemente o psicoterapeuta se vê numa situação
difícil quando seus clientes novos o empurram contra a parede perguntando:
"Tudo bem, eu já entendi tudo, mas, e então?! Como é que eu
faço?" Quando o psicoterapeuta não tem essa resposta na ponta
da língua, o cliente se decepciona, fica com raiva, e pode até abandonar
a psicoterapia. Provavelmente deve pensar: "ora, mas se ele
que é o psicólogo, não sabe como eu vou sair dessa, o que é que
eu vou continuar fazendo aqui?"
Para o cliente a psicoterapia pode ser a sua salvação.
Não raro, o psicólogo pode se colocar como o salvador. Mas esse
tipo de relação deixa de ser terapêutica, por não oferecer condições
para o cliente se libertar. Dessa forma mantém o cliente na posição
daquele que foi salvo, aprisionando-o à sua própria dificuldade
de se tornar autônomo.
Tudo isso poderia ser diferente se ambos estivessem
conscientes dessa diferença de ponto de vista, do âmbito e do limite
da responsabilidade de cada um no processo terapêutico. Cabe ao
psicólogo compreender a angústia do cliente, mas deixá-lo com ela
para que, a partir desta, faça as mudanças necessárias. Cabe ao
cliente conscientizar-se de sua responsabilidade no processo de
mudança pessoal. Apropriar-se tanto de sua angústia como de quaisquer
outros sentimentos produzidos por ele mesmo e que de maneira nenhuma
serão retirados pelo psicoterapeuta.
Mudanças sempre são vistas como algo terrível e
assustador, principalmente porque são indicadoras de que algo anteriormente
não estava indo tão bem. Ora, se mudar pode significar melhora,
por que o cliente sofre tanto quando esta se processa?
Pode ser, em primeiro lugar, porque para o cliente
não é clara a diferença entre o que em si mesmo é autêntico e o
que não é. Mudar, é antes de mais nada transformar o que há de inautêntico.
Para ele, que não tem essa diferenciação consciente, ser confrontado
e romper com essa ambivalência, gera grande sofrimento porque é
como se estivesse sendo atacado em seu centro. Este é o momento
mais delicado, ao meu ver, da relação cliente-psicoterapeuta, pois
se a confiança não for sólida, o cliente não suporta esses abalos
e rompe seu processo psicoterápico. Como se saindo da situação terapêutica
pudesse negar sua necessidade de mudança.
Para o psicoterapeuta é um momento de ter bastante
cuidado, pois sem a paciência necessária, deixa de ajudar seu cliente.
Pode, com sua ansiedade, acelerar o processo que necessita de tempo
exato para ocorrer a tão esperada transformação. É o momento de
não julgá-lo, nem de apressá-lo. O interessante é que neste instante
a vida do cliente fica em suspenso. Os acontecimentos externos se
tornam bem pequenos e o tema da psicoterapia passa a ser se ele
continua daquele jeito ou não.
Outra possibilidade, é que mudar necessita esforço.
Muitos clientes gostariam de melhorar magicamente. Outros imaginam
até que essa mudança vai se dar de repente, como se não fosse um
processo. Como se ao acordarem num determinado dia, depois de um
tempo de psicoterapia, estivessem prontos, mudados. Mudar implica
em viver perdas, para abrir a possibilidade dos ganhos. Será que
aquele que vive e respira sofrimento, está realmente disposto (=
sair do posto, sair de sua posição) a enfrentar tudo isso?
Ainda exemplificando situações de mudanças, me
chamam atenção os clientes que ao se depararem com aquilo que realmente
são, sentem-se pressionados a mudar, mas não porque realmente desejam
isso para seu crescimento e proveito próprio, mas porque está "errado"
ser assim. Mais ainda, quando percebem que não são aceitos desse
jeito de ser "errado", ao invés de perceberem que podem
se modificar, vêem-se na impossibilidade de existir! Na sua maneira
de pensar, entendem que "se eu não sou aceito desse modo, eu
então não posso ser, porque não sei ser do outro jeito!"
Antes de fazer qualquer mudança é preciso inicialmente,
que o cliente se dê conta de como está sua vida. De como são suas
relações no mundo. Como vem realizando suas escolhas, se tem atendido
às suas decisões ou se à dos outros. Se tem aproveitado a vida,
feito dela o melhor que pode. Se ocupa seu tempo com ações que o
deixem feliz, se tem um projeto de vida, se suas atitudes são coerente
com esse projeto, enfim, é necessário ter um panorama de seu estado.
A partir dessa conscientização, o cliente pode
lamentar-se muito. Às vezes leva um grande tempo se culpando por
não ter visto nada disto antes.
Depois aceita porque se vê como responsável (e
não mais culpado), por sua vida ter tomado essa direção. E como
foi ele quem escolheu esse caminho, pode agora escolher uma nova
diretriz de vida. Mais ainda, que essas mudanças ele pode fazer
sempre que sentir necessidade, que não depende do outro para isso,
pois é livre para fazer de sua vida o que considerar o melhor para
si mesmo.
Psicóloga
Ana Tereza Camasmie
Psicoterapeuta Existencial formada pela SAEP
http://www.existencialismo.org.br
http://www.existencialismo.org.br/jornalexistencial
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