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EDIÇÃO ESPECIAL Caderno de Filosofia

 

ARTIGO

 

A Solidão da Palavra
 
Filósofa Maria José Campos
(a Martin Heidegger)

Aceita-se que a linguagem seja um sistema de signos, pois trata-se de um ponto de vista perfeitamente ajustável a qualquer análise dos fenômenos linguísticos, até que se questione a sua essência. Fora desse questionamento, a interpretação da palavra como instrumento de comunicação e de informação torna-se evidente por si mesma.

Entretanto, por estranho paradoxo, é justamente no círculo da "clareza" científica de todas as formas de se considerar a linguagem, e não apenas no campo linguístico, que as questões aparecem. É de sua própria tendência a se instrumentalizar que a palavra deseja liberar a sua vocação, que é essencialmente dizer. Dizer como mostrar, revelar a realidade, em seu mais amplo sentido.

Enquanto mero instrumento, a linguagem é transformada em objeto de consumo técnico e ideológico e, consequentemente, dia após dia se vê tolhida pelo domínio absoluto dos processos calculadores que produzem mensagens de muito falar e muito pouco dizer. Sob esse domínio, e em estado de constante risco, a palavra começa a perder os seus direitos, sobretudo o direito à simplicidade.

Mas o simples não é o simplório e, em sua dignidade, não perde a dimensão do complexo, do que possui a sua lógica própria, suas descontinuidades, diferenças, intensidades e forças. O dizer, em sua complexa simplicidade, convive com o erro e com o mistério, foge das convenções universalmente estabelecidas e dos conceitos classificadores. Pergunta sem pressa, porque deseja com-preeender: prender-se, envolver-se pacientemente com a verdade. Abraçar o mundo, sem reduzí-lo. Distinguir o novo da novidade vazia, valorizar o silêncio.

O risco de a palavra perder o simples é justamente o risco de cair na complicação da simploriedade, na busca desenfreada de modelos, regras, rótulos e clichês vitoriosos, na repetição de programas infalíveis que as máquinas oferecem A possível comunicação torna-se aí um "entendimento" acabado, com questões e respostas prontas e imediatas, as transformações verdadeiras se enfraquecem, diluindo-se complicadamente na superfície da aceitação simplória e no desejo apressado de resultados.

Mas se esse processo desencadeia não apenas um intercâmbio frio entre os homens, como também uma redução do mundo a um objeto sobre o qual a tecnologia dirige os seus ataques, a própria natureza transformando-se em fonte poderosa de energia para essa agressão, isso não significa que se deva evitar o que está disponível, como é o caso dessas "sábias" máquinas das quais se depende inevitavelmente. É possível utilizá-las (hoje é quase impossível não fazer uso delas), desde que se mantenha as distâncias devidas e sem autorizar que promovam a corrupção e o esvaziamento do espírito. Ou sob a condição de se saber se o progresso da ciência, na decantada "era da cibernética", está verdadeiramente próximo da saúde do homem, ou se prefere antecipar a sua morte.

Entre o dizer simples e a fala simplória, oscila a palavra cotidiana dos homens. Uma palavra solitária e fatigada pelo uso que, se reclama os seus direitos, ao mesmo tempo é uma palavra indecisa, temerosa da verdade, facilmente seduzida por aquela "sabedoria"... Aprisionada no vazio da comunicação e no consumo técnico *o que é expresso não passa de tentativa de expressão*, é uma palavra que deseja, mas não sabe (ou não pode) denunciar, preservar a sua simplicidade, prestar atenção aos lentos sinais do que não deve ser calculado ou antecipado.

Certos domínios do homo economicus e do homo politicus, onde se "fala" imperativa e eloquentemente em nome do fascínio ridículo pelo poder, são domínios que estão muito distantes da palavra do homo aestheticus, atento para aqueles sinais, sob o sentimento do mais simples, do mais próximo e do mais belo.

Substituida essa distância por um maior convívio, possa talvez a linguagem, do fundo de sua solidão e estranhamento, e por fidelidade à vocação perdida, recuperar a sua dimensão ética e salvadora e tocar a proximidade do informulado e do inexprimível.

Filósofa Maria José Campos
Doutora em Filosofia pela UFRJ
Professora (Apos.) do Depto. de Filosofia - Fafich-UFMG
Publicou, dentre outros,«Arte e Verdade» (Edições Loyola, SP, 1992)


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