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| Filósofa
Maria José Campos |
Um dos
traços fundamentais que conferem a nossa época sua
fisionomia particular e específica é a emancipação
progressivamente radical de um certo
"pensamento" que, para conquistar a sua
autonomia, precisa romper com toda e qualquer tentativa
de meditação, aqui entendida como um pensamento mais
profundo, essencial.
A racionalidade operatória, por sustentar-se a si mesma,
não experimenta nenhuma necessidade dessa profundidade
de pensamento, pois aí não existe um olhar direcionado
para a verdade, mas tão somente "visões" que
se contentam com a exatidão e a certeza, o possível
projeto desse "pensamento" justificando-se pelo
desejo de lucro e de poder. Sua meta, em consequência,
são as transformações eficazes e "práticas"
- a única forma de prestar contas a esse desejo e ser
coerente com esse projeto.
Assim, quando o próprio projeto se instala, acontece a
imediata exclusão de qualquer meditação possível,
pois a realização do conhecimento operatório exclui
por sua própria natureza qualquer necessidade, ou
possibilidade de pensar.
Isso significa que, enquanto o pensamento calculador, que
tudo explica, se expande por todo lado, a vida se reduz a
uma insipidez e mediocridade insustentáveis: a liberdade
desaparece na massificação organizada, a linguagem se
converte em objeto de manipulação utilitária, em mero
«falatório»... Tudo se aprende da maneira a mais
rápida e econômica para logo depois ser esquecido.
Perde-se o gosto pela originalidade criadora.
Ora, a "lógica" de um tal
"pensamento" produz efeitos pouco confortadores
e formam a trama de nosso cotidiano: uniformização e
gregarismo crescentes, perda do sentido do mais simples e
familiar, ânsia de organização pela organização,
falsa segurança nos planejamentos, destruição diária
da natureza e de seus melhores recursos - um ciclo
infernal de produção e consumo. É quando palavras como
cultura, educação, saúde, memória, amor, respeito,
identidade social , e tantas outras, tornam-se termos e
temas vazios.
Vazios temas e termos inúteis, com certeza para aqueles,
por exemplo, que "pensam " o nosso País -
nossa referência, nossa terra , tradição e pátria.
Dessa forma, nas visões formadas sob o ângulo do
manipulável e do disponível, a racionalidade fria
permite ao homem perder-se em um movimento que ele não
mais domina. Seu "pensamento" não pode parar e
muito menos voltar-se para si mesmo (não existe
re-flexão), mas apenas promover a perda, quase
imperceptível, de todas as raízes.
Entretanto, em meio a essa situação de perigo, a
"solução" não pode estar na simples
condenação ou na recusa do progresso de nosso mundo (a
nossa referência) e muito menos na aceitação
nostálgica desse indigente pensamento que acompanha esse
progresso. Pode acontecer de a salvação florescer de
dentro do inautêntico, no interior do próprio perigo ou
no meio do risco destruidor que representa a busca de
tanta eficácia e segurança ...
É justamente por isso que o caminho do pensamento que
medita é sempre o mais árduo e o mais longo, pois
adverte, alerta, indica ao homem, enquanto o abriga e
protege das ameaças do "progresso", uma nova e
mais AUTÊNTICA relação com os outros homens e com o
mundo. Uma relação que, na realidade, permaneceu a
mesma, pois apesar de oculta sob aquelas ameaças, não
perdeu suas raízes verdadeiras.
A despeito das possíveis objeções de que esse
pensamento que salva nada possui de prático e por alçar
vôos muito além da realidade termina por se transformar
em meditação exótica, mística ou até mesmo
irracional, apesar disso, esse pensamento que medita
sobre o que é digno de ser meditado não se empenha em
nenhum descrédito na razão, mas, muito ao contrário,
procura obstinadamente extrair, da própria validade dos
projetos científicos, o seu melhor sentido enquanto
possibilidade verdadeiramente humana.
Filósofa Maria José Campos
Doutora em Filosofia pela UFRJ
Professora (Apos.) do Depto. de Filosofia - Fafich-UFMG
Publicou, dentre outros,«Arte e Verdade» (Edições
Loyola, SP, 1992)
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