A
conceituação
de sucesso, os métodos para alcançá-lo e todos os aparatos contruídos
para a sua evidência, tendo sido hoje em dia, tema muito comum
de várias palestras.
Vivemos numa sociedade obcecada por essa palavra:
sucesso. Geralmente, por uma interpretação fixa da mesma, ou
seja, sucesso é ter: muito dinheiro, um carrão do ano, uma casa
de praia num balneário famoso, ter o reconhecimento dos outros
pelas tarefas ou trabalhos que desenvolvemos, estar casado com
a mulher ou o homem mais bonito da região, ter filhos que só
tiram nota dez na escola, etc..
Todavia, surge a pergunta: Podemos chamar isso
de sucesso? Posso afirmar, peremptoriamente, que não! Muita
gente tem perseguido todas estas coisas como sinônimo de sucesso
e, com elas, alcançam hipertensão, infarto agudo do miocárdio,
enxaquecas terríveis, úlceras profundas e uma desarmonia total
interna e exteriormente.
Que tal aquela história do executivo que perseguia
o sucesso a qualquer preço, não tinha tempo para descansar,
não tinha tempo para se alimentar de forma saudável (café da
manhã, almoço e jantar tinha como objetivo principal "tratar
de negócios"), não tinha tempo para fazer coisas prazerosas,
não tinha tempo para desfrutar da presença da família, não tinha
tempo para construir amizades profundas, não tinha tempo para
dedicar-se a si mesmo. Repentinamente, em uma de suas viagens
"de negócio", começa a sentir uma dor profunda, como
se fosse uma espada cortante, que começava na altura do seu
tórax e espalhava-se em direção ao braço esquerdo. Sente vertigem,
o mundo roda à sua volta, começa a transpirar de forma intensa,
o ar parece pesado, não consegue mais respirar normalmente.
Estava tendo um ataque cardíaco. Pensa rápido, começa a ver
a sua vida como num filme. Cada instante da sua "existência"
vai passando na sua frente e, ele percebe, que todas as coisas
que ele conquistou até então, encaradas como sucesso não fazia
muito sentido. Sozinho, vestindo um terno de US$ 500,00, tendo
um Rolex no pulso, um computador portátil ao seu lado e dirigindo
uma Ferrari, aos poucos, o carro vai parando naquela estrada
deserta, longe de tudo e de todos, seguindo o acostamento, a
dor está muito mais forte, o carro pára, não tem forças para
usar o seu telefone celular, pois mesmo sem precisar discar,
já não consegue articular uma palavra, só pensa. E a conclusão
que chega é: "SÓ, AQUI COMIGO NESTE DESERTO, TENHO EM BENS,
CERCA DE US$ 85.000,00, MAS O SUCESSO QUE TANTO EU BUSQUEI,
AGORA VEJO, QUE FOI UM GRANDE EQUÍVOCO!!!" Dando um último
suspiro, despede-se e morre.
Será que isso é sucesso? Será que você entende
sucesso também assim? Afinal como podemos conceituar esta palavra
tão enigmática?
No Aurélio a palavra sucesso é definida da
seguinte forma: "Sucesso do latim SUCCESU, substantivo
masculino, que significa: 1. Aquilo que Sucede; 2. Acontecimento,
Sucedimento; 3. Resultado, Conclusão; 4. Bom Êxito, Resultado
Feliz". No francês a palavra é SUCCÈS, que significa vitória;
no italiano é SUCESO , que significa fato, evento, episódio;
no inglês SUCCESS, que significa fortuna, prosperidade; no alemão
é a palavra ERFOLG, que é a junção do pronome pessoal "ER"
que significa "ele" , com o substantivo "FOLGE",
que significa sucessão, seqüência, série, continuação, que nos
mostra o sucesso como sendo ele uma sucessão, uma consequência,
uma série, uma continuação.
Diferentemente, da concepção francesa e inglesa,
que em si mesmas valorizam mais o "FIM" (vitória,
fortuna e prosperidade) do que o "PROCESSO" (sucessão,
continuação, etc.), parece que a definição alemã declara como
sendo mais importante o desenrolar das coisas do que as suas
metas. Ou seja, o sucesso é o meio, o como, e não o objetivo!
Deste modo, já que o sucesso, nessa interpretação
é um meio, um processo, qual seria o objetivo ou a meta a ser
atingida? Aqui está o ponto chave da questão. O objetivo é viver
de uma forma mais prazerosa, afastando o máximo possível a dor.
O ser humano integralmente saudável sempre
buscará o prazer e desprezará a dor. Ninguém, que desfrute de
sã consciência procurará o sofrimento, a tristeza ou a dor,
antes sempre irá trabalhar no sentido de viver alegre e defrutando
de felicidade. Esta é a meta do sucesso ser feliz!!!
Sendo assim, usarei como definição de sucesso
a usada pelo Dr. DEEPAK CHOPRA, Médico Indiano, que diz: "Sucesso
na vida poderia ser definido como a expansão contínua da felicidade
e a realização progressiva de objetivos compensadores".
Após está breve introdução, prosseguiremos
a nossa reflexão no sentido de perceber algumas pistas existenciais,
que poderão nos oferecer uma direção para o desenvolvimento
do sucesso na nossa vida. Só que essa direção é relativa, depende
de cada um, não é uma direção universalista, mas personalizada,
na medida em que você e eu, damos a "nossa cara para o
conjunto" das mesmas.
Seria um contra-senso dizer que tais pistas
serviriam para todas as pessoas do mesmo modo, porque, cada
um de nós, somos pessoas diferentes, que percebem as coisas
de maneira diferente.
Por isso, esses referenciais são apenas orientações,
não são regras, ou mesmo normas. São sugestões que poderão otimizar
a caminhada de sucesso na vida individual.
Deste modo, permita-me dissertar um pouco sobre
as pistas existenciais para o desenvolvimento do sucesso, são
elas:
I - A PISTA DO AUTO- CONHECIMENTO - Um dos
grandes obstáculos para o desenvolvimento harmônico e integral
do sucesso na existência, é justamente a falta de conhecimento
e de contato com a nossa própria vida.
A grande maioria das pessoas não sabem quem
são elas mesmas. Algumas tem uma ligeira idéia de si através
dos que os outros dizem. Outros formulam o intento de serem
iguais a um determinado personagem do seu convívio pessoal e/ou
cultural estabelecem assim um grau de identificação exagerada
, seguindo piamente isso.
No entanto não conseguem responder a pergunta:
Quem sou eu? São indivíduos determinados pelo meio, são apenas
o produto das vivências sociais, são iguais a todos e, consequentemente
não são ninguém. Descartam a sua originalidade, jogam fora a
si próprios. Estão afastados de si. Querem sair de dentro de
si como na melodia de Márcio Greic: "Não eu não consigo
mais viver dentro de mim, quero até morrer do que viver assim..."
Ou seja, se há uma pessoa da qual eles se distanciam mais, essa
pessoa são eles mesmos.
Como desenvolver o sucesso, ou a caminhada
do sucesso, se o indivíduo, você e eu, não sabemos quem somos?
É, por essa razão que alguns fazem tudo e transformam o sucesso
num fim em si mesmo, porque assimilam um padrão de sucesso externo,
tomando-o como se fosse seu. Igual na história que contamos
acima. SE A PESSOA NÃO SABE QUEM É, PODERÁ FAZER AS MAIORES
VIOLÊNCIAS CONTRA SI PRÓPRIO! Para ser feliz, para se atingir
este objetivo do sucesso, faz-se mister ter a consciência de
que o indivíduo não precisa abrir mão de tudo, quanto menos
da sua própria existência.
Para lidar com isso, os orientais ensinaram
uma grande técnica, que muitos encaram como algo mágico ou mesmo
esotérico, mas não tem nada de miraculoso ou sobrenatural, é
apenas o diálogo silencioso consigo próprio. O nome desse instrumento
chama-se meditação.
Marque um encontro com você mesmo, pelo menos
uma vez por dia. Fique sozinho, entre num lugar onde tenha privacidade
e ouça a sua própria voz, os seus sentimentos, as suas emoções.
Não julgue, não fale, apenas ouça e sinta você mesmo. Você é
a única pessoa que tem acesso pleno ao seu coração. O que você
está dizendo agora para si? Quem é você? Será que você poderá
responder a essa pergunta?
II - A PISTA DO DAR E RECEBER - Este é o segundo
degrau na caminhada do sucesso, que só é possível para aqueles
que já estão trabalhando o seu auto-conhecimento.
Neste mundo informatizado, onde a vida real
vai dando lugar à virtual e, a cada dia, o "cyberspace",
torna-se maior e com uma população crescente, fato este, que
é um dos motivos relevantes, no sentido de inviabilizar o encontro
concreto e frutífero entre as pessoas.
O aperto de mãos, o abraço, o sorriso espontâneo,
o olho no olho, o toque, estão se escasseando no dia-a-dia do
homem contemporâneo.
Nada contra o avanço tecnológico, é muito bom
termos agilidade na comunicação. Saber que em frações de minutos,
posso mandar um e-mail para o outro lado do mundo, ou seja,
Austrália, Japão ou Nova Zelândia.
Porém, o grande contraste em tudo isso, é que
as pessoas, por mais chance que tenham de se comunicarem, estão
se encontrando cada vez menos e, escondendo-se cada vez mais.
Como exemplo disso podemos citar as "SALAS DE CHAT OU DE
CONVERSAÇÃO", nas quais o que impera são as máscaras, a
ilusão e o engodo.
O que isso conceitua? Que o homem e a mulher,
que o ser humano, são seres de re-lação, são seres-com-os-outros,
bem como, consigo mesmos em primeiro lugar.
O filósofo Martin Heidegger disse no "Ser
e Tempo", O Dasein, que podemos interpretar como "PRESENÇA",
presença reveladora da humanidade que cada um de nós representamos,
presença que amostra "O SER-AÍ", presença que revela
uma das categorias existenciais mais estimulantes, qual seja,
"O SER-COM-O-OUTRO".
Buber disse que o humano se circunscreve na
esfera do dialógico e do encontro, onde o "eu" e o
"tu", de maneira genuína e autêntica podem se apresentar
mutuamente no contato entre eles.
E o que está ocorrendo hoje em dia? O não contato
e o encastelamento das pessoas, que eu chamaria de clausura
relacional, não tem permitido que elas possam trocar coisas
significativas entre si.
Temos sido incapazes de dar e receber presentes
emocionais, tais como um elogio, uma palavra de carinho, um
gesto de amor, um cumprimento solidário. Quantas vezes não aproveitamos
a oportunidade para dizer à pessoa que amamos, o quanto ela
é importante para nossa vida? Quantas vezes não conseguimos
receber o calor fraterno que o outro tenta nos passar?
Façamos o seguinte: "Sejamos uma espécie
de presente em todo lugar que formos, para todos quantos nós
encontrarmos pelo caminho. Recebamos as pessoas com as quais
entrarmos em contato, como dádivas ou jóias preciosas para a
nossa existência". Dê e receba afeto, demonstre as emoções
que você sente em relação ao outro e, permita, que o outro possa
fazer o mesmo com você.
III - A PISTA DA CONSTANTE ESCOLHA - Se há
algo do qual não podemos escapar é do ato de escolher. "A
CADA INSTANTE DANOSSA VIDA, ESTAMOS ESCOLHENDO COISAS E REJEITANDO
MUITAS OUTRAS".
O filósofo Jean-Paul Sartre na sua conferência
o "Existencialismo é um Humanismo", disse que o homem
não pode se esquivar disso, ou seja, não pode se esquivar de
escolher. Para tanto, disse Sartre "O Homem está condenado
à liberdade" . Isso significa que ele é totalmente livre
nas suas escolhas, inclusive quando ele se exime de escolher,
pois, já está escolhendo. Ou seja, escolheu não escolher.
Todavia, para que possamos desenvolver o caminho
do sucesso, faz-se mister, que cada vez, mais possamos exercer
essa condição humana, qual seja, assumir de forma consciente
as rédeas das nossas escolhas, pois, caso contrário, o outro
o fará por nós.
Procure observar a maneira como você está escolhendo.
Perceba como você exerce a sua liberdade. Veja se as suas escolhas
são compatíveis com o seu projeto e se o instrumento balizador
das mesmas é o seu coração.
O que eu quero dizer quando falo que a baliza
das suas escolhas é o seu coração? Certamente não desejo fazer
menção só ao músculo cardíaco, mas, uso-o metaforicamente, também,
para afirmá-lo como o centro dos nossos sentimentos e emoções,
para afirmar a necessidade que temos de ouvir o nosso interior.
Para que fique mais claro isso, posso citar
como exemplo um dos primeiros acionistas da Sony, um empresário
japonês, que todas as vezes que tinha que assinar um novo contrato,
não procurava basear-se nas estatísticas, no mercado, ou mesmo,
no conselho de consultores. Procurava ficar sozinho, geralmente
durante as refeições, para escutar o seu coração e saber se
podia digerir aquilo que lhe estava sendo proposto. Ao sinal
do primeiro incômodo físico, ou seja, má digestão. Dizia ele:
"Este contrato não dá para comer".
Só uma pessoa que se conhece e está aberta
às situações da vida, pode se determinar nas suas escolhas e
prosseguir no desenvolvimento do caminho do sucesso. Como você
percebe isto em sua vida? Como estão as suas escolhas?
IV - A PISTA DO DESPOJAMENTO - Qual seria o
conceito que eu quero falar sobre despojamento? Despojamento
é o ato de privar-se da posse, de se desapossar. É o ato pelo
qual eu tomo consciência de que tudo que eu tenho é circunstancial
e, que o único bem verdadeiro que eu possuo sou eu mesmo.
O despojamento me permite enxergar como um
ato de distancimento e aproximação. Distanciamento da idéia
fatiga de posse e aproximação daquilo que caracteriza a existência:
O paradoxo, o mistério, o risco e a incerteza.
Quando temos consciência do despojamento, não
nos misturamos com as coisas ou com as situações. Na grande
depressão de 1929, muitos homens de negócio se suicidaram quando
viram as suas empresas falirem e os seus recursos minguarem.
Como não tinham a consciência do despojamento, consequentemente,
tornaram-se parte daquilo que construiram, fizeram-se empresa
falida, riqueza gasta. Não se diferenciaram das coisas, mas
jungiram-se às mesmas.
Outros sobreviveram à catástrofe, transformando-se
da noite para o dia de milionário em limpador de rua, conservando
o maior tesouro que cada ser humano pode ter na existência:
sua própria vida.
Quando nos conscientizamos do despojamento,
promovemos uma injeção energética na nossa vida. Passamos a
não desperdiçar as nossas "reservas emocionais", antes
com o mínimo de esforço, vivemos como um rio, sempre fluindo,
sem qualquer obstrução.
A consciência de despojamento, permite-me aceitar
as coisas como elas se apresentam para mim e, isto inclui pessoas,
situações, circunstâncias, fatos e acontecimentos. Aceitando
as coisas como elas são, assumo responsabilidade e gerência
sobre as minhas escolhas, sobre a minha própria situação.
Quando eu vivencio a consciência de despojamento,
eu deixo de viver com medo de perder "as coisas",
eu deixo de me defender. Pois, se eu conheço quem sou, se estou
aberto à troca, se exerço as minhas escolhas segundo as minhas
intenções e projetos, o que poderei temer? Nada, absolutamente
nada.
Porém, só consigo exercitar essa consciência,
na medida em que eu, posso ver-me, como diria Gabriel Marcel,
como um "HOMO VIATOR", como um viajante ou peregrino,
que está aqui de passagem, procurando fazer a viagem da melhor
maneira que encontrar.
V - A PISTA DA VISÃO DE FUTURO - Finalmente
teria esta última pista a comentar, para que possamos desenvolver
o caminho do sucesso, que é ter uma visão de futuro.
Ter visão de futuro é viver na realidade, é
lidar com a concretude, sem deixar de ser um sonhador. E o que
é ser um sonhador? É poder olhar para frente e conservar-se
firme no propósito de realizar o seu projeto, de ver o seu sonho
concretizado. De vivenciar a possibilidade de que o onírico
hoje, torna-se-á verdade amanhã.
Houve
um homem que não tinha exércitos, que não era violento, que não
se dizia dono de nada, que não se nomeava revolucionário e nem usou
para si tal nomeclatura. Porém, o que fez na sua vida foi unicamente
sonhar. Sonhar acordado. Sonhar colocando em ato o sonho. Sonhar
vislumbrando o desenrolar do sonho. O nome pelo qual esse homem
era conhecido, foi de Mahatma Gandhi.
Creio que todos conhecem a história desse grande
ser humano. Que vivenciando os cinco pontos desta reflexão, pôde,
realizar o seu sonho. Enfim, fez o desenvolvimento da sua caminhada
do sucesso, fez-se um peregrino, um viajante, que carrega consigo
somente o seu sonho.
Mas talvez você me pergunte: Será que esse é um
bom exemplo de desenvolvimento da caminhada do sucesso, já que ele
foi assassinado pelo seu próprio povo? Então, respondo-lhe: Se você
ver o sucesso como pontual, como um acontecimento, você irá valorizar
só o final e não o processo, só os fatos e não a construção, só
o evento e não os investimentos.
Se você considerar o sonho como acabado, realizado,
concretizado, esse sonho poderá ser "destruído".
Todavia, se você renovar esse sonho a cada manhã,
a cada minuto, a cada dia, poderão surgir tempestades, intempéries.
Mas o sonho está ali, na sua frente, desenvolvendo-se, processando-se,
ganhando uma nova face em cada entardecer.
Agora fica somente algumas indagações: Você se
vê como uma pessoa que está desenvolvendo a sua caminhada do sucesso?
Como você se percebe diante das pistas existenciais para o desenvolvimento
do sucesso? O que tudo isso significa para você?
Psicólogo Marco Antonio do Nascimento Sales
Psicoterapeuta Existencial formado pela SAEP
Pós-graduando em Filosofia Contemporânea - UERJ
Artigos
publicados no Jornal Existencial On Line:
O
Desespero da Vida Autêntica
A
Relevância Ética de Bergson para O Novo Milênio
Pistas
Existenciais para o Desenvolvimento do Sucesso
Dra.
Julia Watkin: Uma Vida Dedicada à Obra
de Kierkegaard
http://www.geocities.com/Athens/Crete/2094/index.html
http://www.angelfire.com/ma/MarcoSales/index.html
http://www.angelfire.com/nt/nitrosofia/index.html
e-mail: marcosales@angelfire.com
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