| Henrique
Meirelles |
| Pres.
Geral do Bank Boston |
| |
Liderar
é uma combinação de vocação com treinamento. Ao mesmo tempo que
é inato, porque não é qualquer um que consegue exercer liderança,
é também fruto de muita dedicação e preparo. Se pudesse resumir
toda a complexidade que envolve liderança em uma idéia seria a de
que liderar é transmitir um sonho. É preciso inspirar as pessoas
a chegar a um lugar em que elas ainda não estão. Não basta motivar-se,
tem de motivar os outros. Não é suficiente ter uma idéia clara de
onde ir, mas principalmente de como ir. O mais completo é o que
sabe também assumir a função de gerência.
Talvez o aprendizado mais importante seja a necessidade de definir
claramente as regras do jogo. Seja na política, seja numa empresa
global, seja num campo de futebol, o primeiro degrau para o sucesso
é entender o que pode e o que não pode, o que deve e o que não deve.
Faz parte do papel de um líder colocar isso na cabeça de todos.
Esta definido pela evolução da sociedade que prevalece a vontade
da maioria em qualquer circunstância, seja no município, seja no
Estado, seja no governo federal. Isso elimina o conflito. Na empresa,
o poder reside na assembléia de acionistas. É ela que define as
regras do jogo e nomeia o conselho de administração. Os executivos
contratados devem gerir a empresa balizados por essas regras.
Veja:
Que características são indispensáveis a um profissional
que ambicione uma carreira como a sua?
Henrique Meirelles: Tenho que pensar no que eu
procuro quando vou contratar um profissional. A primeira coisa é
o preparo. É muito importante que a pessoa domine as ferramentas
básicas para a função. Um exemplo: quem quer trabalhar no departamento
financeiro de uma empresa precisa conhecer finanças. Parece óbvio,
mas muita gente negligencia o básico, achando que pode sair-se bem
apenas com determinação e jogo de cintura. Há alguns anos, peguei
um táxi numa capital latino-americana. O motorista era articulado
e começou a criticar o ministro da Fazenda do pais. Chamou minha
atenção pela inteligência, capacidade de comunicação e nível de
informação. Só que o táxi estava mal cuidado, amassado, sujo e ele
dirigia mal. Na semana seguinte, estava em Zurique e perguntei a
um motorista de táxi o que ele achava do ministro da Fazenda. Ele
não sabia sequer o nome do sujeito. Mas seu carro estava arrumado,
limpo, bem conservado. Dirigia muito bem e me levou sem sobressaltos
ao desatino. O segundo motorista evidentemente estava mais bem preparado
para o trabalho que o outro. O segundo ponto que levo em consideração
é se o candidato gosta do que faz.
Veja:
Gostar do trabalho faz realmente diferença?
Henrique Meirelles: Faz toda. E é preciso deixar
isso claro. Vou dar um exemplo. Há muitos anos, contratei uma recepcionista.
Com alguns dias de trabalho, notei que ela recebia as pessoas de
forma muito sisuda. Conversando com a moça, descobri duas coisas.
A primeira foi que ela não gostava de sorrir. A segunda, que ela
não gostava de ser interrompida quando envolvida em alguma tarefa.
Ora, ninguém é obrigado a gostar de sorrir e achar legal ser interrompido.
Só que recepcionistas, por definição, são interrompidas e sorriem.
Precisam demonstrar satisfação e prazer em receber. Ela não servia
para o cargo.
Veja:
Então esse é o grande segredo? Ter competência técnica
e gostar do que se faz?
Henrique Meirelles: Essas são apenas as premissas
básicas. Há uma qualidade rara, que eu chamo de assunção de responsabilidade
pelo resultado. Significa saber se responsabilizar pelo trabalho.
Funcionários com essa característica são mercadoria preciosa. É
fácil reconhecer um. Ele nunca diz "Não foi minha culpa",
uma das frases mais irritantes que um chefe é obrigado a ouvir.
Nem se sente injustiçado quando responsabilizado pelo fracasso de
uma missão que repassou a seus subordinados. É bem mais comum encontrar
funcionários que despejam explicações e concluem dizendo "Fiz
a minha parte". Ora, meu trabalho é fazer com que o banco não
perca crédito, dê lucro e satisfaça os clientes. A partir daí, o
que está acontecendo com a economia é um problema que eu tenho de
lidar.
Definindo bem o resultado que se espera, todos podem focar o mesmo
resultado. Definidos os resultados esperados, o profissional que
quer obter sucesso deve fixar padrões pessoais de excelência superiores
à média. É fundamental. Os resultados que você espera de si mesmo
têm de estar à frente daqueles que seus colegas, na maioria, esperam
de si próprios. É comum eu me sentar com um subordinado para comunicar
que nós dois estamos definindo o que é resultado satisfatório de
maneiras diferentes. Às vezes, o que ele julga bom para ele não
é suficiente para mim. Como eu sou o chefe, ou à pessoa se adapta
ou procura outro trabalho.
Veja:
À exceção da competência técnica, tudo o que o senhor citou
pode ser qualificado como inteligência emocional.
Henrique Meirelles: É isso mesmo. Gostar do que
se faz, assumir responsabilidade, focar resultados e ter padrão
de cobrança pessoal elevado são componentes emocionais.
Veja:
O senhor é ambicioso?
Henrique Meirelles: É preciso definir o que é ambição.
Agora há pouco eu disse que é necessário fixar padrões de excelência
pessoal acima da média para obter sucesso. Isso pode ser considerado
ambição. Quero sempre entregar os melhores resultados.
É importante que todo profissional seja remunerado de forma justa.
Mas não se pode tomar decisões profissionais colocando essa preocupação
em primeiro lugar.
Entrevista
com o SR. Henrique Meirelles, Presidente Mundial
do BankBoston, publicada na Revista Veja, Ano 34 - Nº 9 de 07/03/2001
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