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I
Modificações:
1. Seu Objetivo Inicial:
1.1. A idéia era a de pesquisar, nessa genealogia, de que maneira
os indivíduos foram levados a exercer, sobre eles mesmos e sobre os
outros, uma hermenêutica do desejo à qual o comportamento sexual desses
indivíduos sem dúvi-da deu ocasião, sem no entanto constituir seu
domínio exclusivo.
1.2. Estudar os jogos de verdade na relação de si para si e a constituição
de si mesmo como sujeito, tomando como espaço de referência e campo
de investi-gação aquilô que poderia chamar-se "história do homem
de desejo".
2. Sua Motivação:
2.1. Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns,
espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade
em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada
com um pouco de obstinação: não aquela que pro-cura assimilar o que
convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que
valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquistcao
dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto poss(vel,
o descaminho daquele que conhece?
3. Como Entende o Filosofar:
3.1. Mas o que é filosofar hoie em dia - quero dizer, a atividade
filosófica - senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio
pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até
onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que
já se sabe?
4. Sua Proposta de Exercício da Atividade Filosofante:
4.1. O "ensaio" - que é necessário entender como experiência
modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação sim-plificadora
de outrem para fins de comunicação - é o corpo vivo da filosofia,
se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma
"ascese", um exercício de si no pensamento.
5. Suas Inquietações e seus Questionamentos Iniciais:
5.1. Por_que o comporta-mento sexual, as atividades e os prazeres
a ele relacionados, são objeto de uma preocupação moral?
5.2. Por que esse cuidado ético que, pelo me-nos em certos momentos,
em certas sociedades ou em certos grupos, parece mais importante do
que a atenção moral que se presta a outros campos. não obstante essenciais
na vida individual ou coletiva, como as condutas alimentares ou a
realização dos deveres cívicos?
5.3. De que maneira, por que e sob que forma a atividade sexual foi
constituída como campo moral? Por que esse cui-dado ético tão insistente,
apesar de variável em suas formas e em sua intensidade? Por que essa
problematização?
II As Formas de Problematização:
1. Categorias:
1.1. Paganismo, Cristianismo, moral e moral sexual.
2. Em que pontos a mo-ral sexual do cristianismo opôs-se, o mais nitidamente,
á moral se-xual do paganismo antigo?
2.1. O valor do próprio ato sexual: o cristianismo o teria associado
ao mal, ao pecado, à queda, â morte, ao passo que a Anti-güidade o
teria dotado de significações positivas.
2.2. A delimitação do parceiro legítimo: o cristianismo, diferentemente
do que se passava nas sociedades gregas ou romanas, só o teria aceito
no casamento nio-nogâmico e, no interior dessa conjugalidade, lhe
teria imposto o princi-pio de uma finalidade exclusivamente procriadora.
2.3. A desqualificação das relações entre indivíduos do mesmo sexo:
o cristianismo as teria excluído rigorosamente, ao passo que a Grécia
as teria exaltado - e Roma, aceito - pelo menos entre homens.
2.4. A esses três pontos de opo-sição maior, poder-se-ia acrescentar
o alto valor moral e espiritual que o cristianismo, diferentemente
da moral pagã, teria atribuido à absti-nência rigorosa, à castidade
permanente e à virgindade. Em suma: sobre todos esses pontos que foram
considerados, durante tanto tem-po, como tão importantes - natureza
do ato sexual, fidelidade mono-gâmica, relações homossexuais, castidade
-, parece que os Antigos te-riam sido um tanto indiferentes, e que
nada disso teria atraído muito atenção, nem constituído para eles
problemas muito agudos.
3. Pareceu-me, assim, que haveria que operar todo um recentramen-to.
Em vez de buscar as interdições de base que se escondem ou se ma-nifestam
nas exigências da austeridade sexual, era preciso pesquisar a partir
de quais regiões da experiência, e sob que formas, o comporta-mento
sexual foi problematizado, tornando-se objeto de cuidado, ele-mento
para reflexão, matéria para estilização. Mais precisamente, era preciso
perguntar-se por que justamente os quatro grandes domínios de relações
onde parecia que o homem livre, nas sociedades antigas, teria podido
desenvolver sua atividade sem encontrar maiores proibi-ções foram
objeto de uma problematização intensa da prática sexual. Por que foi
aí, a propósito do corpo, da esposa, dos rapazes e da ver-dade, que
a prática dos prazeres foi questionada? Por que a interferên-cia da
atividade sexual nessas relações tornou-se objeto de inquieta-ção,
de debate e de reflexão? Por que esses eixos da experiência coti-diana
deram lugar a um pensamento que buscava a rarefação do com-portamento
sexual, sua moderação, sua conformação e a definição de um estilo
austero na prática dos prazeres? De que maneira o compor-tamento sexual,
na medida em que implicava esses diferentes tipos de relação, foi
objeto de reflexão como domínio de experiência moral?
III Moral e Prática de Si
1. Sua Conceituação de Moral
1.1. Por "moral" emende-se un, conjunto de valores e regras
de ação propostas aos individuos e aos grupos por intermédio de aparelhos
prescritivos diversos, como podem ser a família, as instituições educativas,
as Igrejas, etc. Aconte-ce dessas regras e valores serem bem explicitamente
formulados numa doutrina coerente e num ensinamento explicito. Mas
acontece também delas serem transmitidas de maneira difusa e, longe
de formarem um conjunto sistemático, constituírem um jogo complexo
de elementos que se compensam, se corrigem, se anulam em certos pontos,
permi-tindo, assim, compromissos ou escapatórias. Com essas reservas
pode-se chamar "código moral" esse conjunto prescritivo.
Porém, por "mo-ral" entende-se igualmente o comportamento
real dos indivíduos em relação às regras e valores que lhes são propostos:
designa-se, assim, a maneira pela qual eles se submetem mais ou menos
completamente a um princípio de conduta; pela qual eles obedecem ou
resistem a uma interdição ou a uma prescrição; pela qual eles respeitam
ou negligen-ciam um conjunto de valores; o estudo desse aspecto da
moral deve de-terminar de que maneira, e com que margens de variação
ou de trans-gressão, os indivíduos ou os grupos se conduzem em referência
a um sistema prescritivo que é explícita ou implicitamente dado em
sua cul-tura, e do qual eles têm uma consciência mais ou menos clara.
Chame-nos a esse nível de fenômcnos a "moralidade dos comportamentos".
2. A Prática de Si
2.1. Não existe ação moral particular que não se refira à unidade
de uma conduta moral; nem conduta moral que não implique a constituição
de si mesmo como sujeito moral; nem tampouco constituição do sujei-to
moral sem "modos de subjetivaçâo", sem uma "ascética"
ou sem "práticas de si" que as apóiem. A ação moral é indissociável
dessas formas de atividades sobre si, formas essas que não são menos
diferen-tes de uma moral a outra do que os sistemas de valores, de
regras e de interdições.
3. Análise Histórica
3.1. História das "Moralidades": aquela que estuda em que
medida as ações de tais individuos ou tais grupos são conformes Ou
não ás regras e aos valores que são propostos por dife-rentes instàncias.
3.2. História dos códigos": a que analisa os diferentes sistemas
de regras e valores que vigoram numa determinada sociedade ou num
grupo dado, as instâncias ou aparelhos de coerção que lhes dão vigência,
e as formas tomadas por sua multiplicidade, suas diver-gências ou
suas contradições.
3.3. História da Ética e da Ascética: a história da maneira pela qual
os indivíduos são chamados a se constituir como sujeitos de con-duta
moral: essa história será aquela dos modelos propostos para a instauração
e o desenvolvimento das relações para consigo, para a re-flexão sobre
si, para o conhecimento, o exame, a decifração de si por si mesmo,
as transformações que se procura efetuar sobre si. Eis ai o que se
poderia chamar uma história da "ética" e da "ascéticí',
entendida como história das formas da subjetivação moral e das práticas
de si destinadas a assegurá-la.
3.4. Análise Comparativa: parece-lhe que "as refle-xões morais
na Antigüidade grega ou greco-romana foram muito mais orientadas para
as práticas de si, e para a questão da askesis, do que para as codificações
de condutas e para a definição estrita do permitido e do proibido.
Se excetuarmos a República e as Leis, encontraremos muito poucas referências
ao princípio de um código que definida no varejo a conduta conveniente,
à necessidade de uma instância encarre-gada de vigiar sua aplicação,
à possibilidade de castigos que sanciona-riam as infrações cometidas.
Mesmo se a necessidade de respeitar a lei e os costumes - os nomoi
- é freqüentemente sublinhada, o importante está menos no conteúdo
da lei e nas suas condições de aplicação do que na atitude que faz
com que elas sejam respeitadas. A ênfase é colo-cada na relação consigo
que permite não se deixar levar pelos apetites e pelos prazeres, que
permite ter, em relação a eles, domínio e superio-ridade, manter seus
sentidos num estado de tranqüilidade, permanecer livre de qualquer
escravidão interna das paixões, e atingir a um modo de ser que pode
ser definido pelo pleno gozo de si ou pela soberania de si sobre si
mesmo".
3.5. Opção de Método: daí a opção de método que fiz ao longo desse
estudo sobre as mo-rais sexuais da Antigüidade pagã e cristã: manter
em mente a distinção entre os elementos de código de uma moral e os
elementos de ascese; não esquecer sua coexistência, suas reIações,
sua relativa autonomia, nem suas diferenças possíveis de ênfase; levar
em conta tudo o que parece indicar, nessas morais, o privilégio das
práticas de si, o interesse que elas podiam ter, o esforço que era
feito para desenvolvê-las, aper-feiçoá-las, e ensiná-las, o debate
que tinha lugar a seu respeito. De tal modo que teríamos que transformar,
assim, a questão tão freqüentemente colocada a propósito da continuidade
(ou da ruptura) entre as morais filosóficas da Antigüidade e a moral
cristã: em vez de pergun-tar quais são os elementos de código que
o cristianismo pôde tomar emprestado ao pensamento antigo, e quais
são os que acrescentou por sua própria conta, a fim de definir o que
é permitido e o que é proibido na ordem de uma sexualidade supostamente
constante, conviria per-guntar de que maneira, na continuidade, transferência
ou modificação dos códigos, as formas da relação para consigo (e as
práticas de si que lhes são associadas) foram definidas, modificadas,
reelaboradas e di-versificadas.
3.6. Hipótese Apresentada: parece haver todo um campo de historicídade
complexa e rica na maneira pela qual o indivíduo é chamado a se reconhecer
como sujeito moral da conduta sexual. Tra-tar-se-ia de ver de que
maneira, a pattir do pensamento grego clássico até a constituição
da doutrina e da pastoral cristã da carne, essa subje-tivação se definiu
e se transformou.
O Projeto do Livro: gostaria de marcar alguns traços gerais que caracterizam
a maneira pela qual o comportamento sexual foi re-fletido, pelo pensamento
grego clássico, como campo de apreciação e de escolhas morais. Partirei
da noção, então corrente, de "uso dos pra-zeres" - chrèsis
aphrodisiõn - para distinguir os modos de subjetivação aos quais ela
se refere: substância ética, tipos de sujeição, formas de elaboração
de si e de teleologia moral. Em seguida, partindo cada vez de uma
prática que, na cultura grega, tinha sua existência, seu status e
suas regras (a prática do regime de saúde, a da gestão da casa, e
da cor-te amorosa), estudarei a maneira pela qual o pensamento médico
e filosófico elaborou esse "uso dos prazeres" e formulou
alguns temas de austeridade que se tornariam recorrentes sobre quatro
grandes eixos da experiência: a relação com o corpo, a relação com
a esposa, a rela-ção com os rapazes e a relação com a verdade.
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