EDIÇÃO ESPECIAL

Caderno de Terapias Corporais

 

 

RESUMO

 

Resumo da Introdução de "O Uso dos Prazeres" de Michel Foucault

I Modificações:

1. Seu Objetivo Inicial:
1.1. A idéia era a de pesquisar, nessa genealogia, de que maneira os indivíduos foram levados a exercer, sobre eles mesmos e sobre os outros, uma hermenêutica do desejo à qual o comportamento sexual desses indivíduos sem dúvi-da deu ocasião, sem no entanto constituir seu domínio exclusivo.

1.2. Estudar os jogos de verdade na relação de si para si e a constituição de si mesmo como sujeito, tomando como espaço de referência e campo de investi-gação aquilô que poderia chamar-se "história do homem de desejo".

2. Sua Motivação:
2.1. Quanto ao motivo que me impulsionou foi muito simples. Para alguns, espero, esse motivo poderá ser suficiente por ele mesmo. É a curiosidade em todo caso, a única espécie de curiosidade que vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: não aquela que pro-cura assimilar o que convém conhecer, mas a que permite separar-se de si mesmo. De que valeria a obstinação do saber se ele assegurasse apenas a aquistcao dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto poss(vel, o descaminho daquele que conhece?

3. Como Entende o Filosofar:
3.1. Mas o que é filosofar hoie em dia - quero dizer, a atividade filosófica - senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe?

4. Sua Proposta de Exercício da Atividade Filosofante:
4.1. O "ensaio" - que é necessário entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não como apropriação sim-plificadora de outrem para fins de comunicação - é o corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora, ou seja, uma "ascese", um exercício de si no pensamento.

5. Suas Inquietações e seus Questionamentos Iniciais:
5.1. Por_que o comporta-mento sexual, as atividades e os prazeres a ele relacionados, são objeto de uma preocupação moral?

5.2. Por que esse cuidado ético que, pelo me-nos em certos momentos, em certas sociedades ou em certos grupos, parece mais importante do que a atenção moral que se presta a outros campos. não obstante essenciais na vida individual ou coletiva, como as condutas alimentares ou a realização dos deveres cívicos?

5.3. De que maneira, por que e sob que forma a atividade sexual foi constituída como campo moral? Por que esse cui-dado ético tão insistente, apesar de variável em suas formas e em sua intensidade? Por que essa problematização?

II As Formas de Problematização:

1. Categorias:
1.1. Paganismo, Cristianismo, moral e moral sexual.

2. Em que pontos a mo-ral sexual do cristianismo opôs-se, o mais nitidamente, á moral se-xual do paganismo antigo?
2.1. O valor do próprio ato sexual: o cristianismo o teria associado ao mal, ao pecado, à queda, â morte, ao passo que a Anti-güidade o teria dotado de significações positivas.
2.2. A delimitação do parceiro legítimo: o cristianismo, diferentemente do que se passava nas sociedades gregas ou romanas, só o teria aceito no casamento nio-nogâmico e, no interior dessa conjugalidade, lhe teria imposto o princi-pio de uma finalidade exclusivamente procriadora.
2.3. A desqualificação das relações entre indivíduos do mesmo sexo: o cristianismo as teria excluído rigorosamente, ao passo que a Grécia as teria exaltado - e Roma, aceito - pelo menos entre homens.
2.4. A esses três pontos de opo-sição maior, poder-se-ia acrescentar o alto valor moral e espiritual que o cristianismo, diferentemente da moral pagã, teria atribuido à absti-nência rigorosa, à castidade permanente e à virgindade. Em suma: sobre todos esses pontos que foram considerados, durante tanto tem-po, como tão importantes - natureza do ato sexual, fidelidade mono-gâmica, relações homossexuais, castidade -, parece que os Antigos te-riam sido um tanto indiferentes, e que nada disso teria atraído muito atenção, nem constituído para eles problemas muito agudos.

3. Pareceu-me, assim, que haveria que operar todo um recentramen-to. Em vez de buscar as interdições de base que se escondem ou se ma-nifestam nas exigências da austeridade sexual, era preciso pesquisar a partir de quais regiões da experiência, e sob que formas, o comporta-mento sexual foi problematizado, tornando-se objeto de cuidado, ele-mento para reflexão, matéria para estilização. Mais precisamente, era preciso perguntar-se por que justamente os quatro grandes domínios de relações onde parecia que o homem livre, nas sociedades antigas, teria podido desenvolver sua atividade sem encontrar maiores proibi-ções foram objeto de uma problematização intensa da prática sexual. Por que foi aí, a propósito do corpo, da esposa, dos rapazes e da ver-dade, que a prática dos prazeres foi questionada? Por que a interferên-cia da atividade sexual nessas relações tornou-se objeto de inquieta-ção, de debate e de reflexão? Por que esses eixos da experiência coti-diana deram lugar a um pensamento que buscava a rarefação do com-portamento sexual, sua moderação, sua conformação e a definição de um estilo austero na prática dos prazeres? De que maneira o compor-tamento sexual, na medida em que implicava esses diferentes tipos de relação, foi objeto de reflexão como domínio de experiência moral?
III Moral e Prática de Si

1. Sua Conceituação de Moral
1.1. Por "moral" emende-se un, conjunto de valores e regras de ação propostas aos individuos e aos grupos por intermédio de aparelhos prescritivos diversos, como podem ser a família, as instituições educativas, as Igrejas, etc. Aconte-ce dessas regras e valores serem bem explicitamente formulados numa doutrina coerente e num ensinamento explicito. Mas acontece também delas serem transmitidas de maneira difusa e, longe de formarem um conjunto sistemático, constituírem um jogo complexo de elementos que se compensam, se corrigem, se anulam em certos pontos, permi-tindo, assim, compromissos ou escapatórias. Com essas reservas pode-se chamar "código moral" esse conjunto prescritivo. Porém, por "mo-ral" entende-se igualmente o comportamento real dos indivíduos em relação às regras e valores que lhes são propostos: designa-se, assim, a maneira pela qual eles se submetem mais ou menos completamente a um princípio de conduta; pela qual eles obedecem ou resistem a uma interdição ou a uma prescrição; pela qual eles respeitam ou negligen-ciam um conjunto de valores; o estudo desse aspecto da moral deve de-terminar de que maneira, e com que margens de variação ou de trans-gressão, os indivíduos ou os grupos se conduzem em referência a um sistema prescritivo que é explícita ou implicitamente dado em sua cul-tura, e do qual eles têm uma consciência mais ou menos clara. Chame-nos a esse nível de fenômcnos a "moralidade dos comportamentos".

2. A Prática de Si
2.1. Não existe ação moral particular que não se refira à unidade de uma conduta moral; nem conduta moral que não implique a constituição de si mesmo como sujeito moral; nem tampouco constituição do sujei-to moral sem "modos de subjetivaçâo", sem uma "ascética" ou sem "práticas de si" que as apóiem. A ação moral é indissociável dessas formas de atividades sobre si, formas essas que não são menos diferen-tes de uma moral a outra do que os sistemas de valores, de regras e de interdições.

3. Análise Histórica
3.1. História das "Moralidades": aquela que estuda em que medida as ações de tais individuos ou tais grupos são conformes Ou não ás regras e aos valores que são propostos por dife-rentes instàncias.
3.2. História dos códigos": a que analisa os diferentes sistemas de regras e valores que vigoram numa determinada sociedade ou num grupo dado, as instâncias ou aparelhos de coerção que lhes dão vigência, e as formas tomadas por sua multiplicidade, suas diver-gências ou suas contradições.
3.3. História da Ética e da Ascética: a história da maneira pela qual os indivíduos são chamados a se constituir como sujeitos de con-duta moral: essa história será aquela dos modelos propostos para a instauração e o desenvolvimento das relações para consigo, para a re-flexão sobre si, para o conhecimento, o exame, a decifração de si por si mesmo, as transformações que se procura efetuar sobre si. Eis ai o que se poderia chamar uma história da "ética" e da "ascéticí', entendida como história das formas da subjetivação moral e das práticas de si destinadas a assegurá-la.
3.4. Análise Comparativa: parece-lhe que "as refle-xões morais na Antigüidade grega ou greco-romana foram muito mais orientadas para as práticas de si, e para a questão da askesis, do que para as codificações de condutas e para a definição estrita do permitido e do proibido. Se excetuarmos a República e as Leis, encontraremos muito poucas referências ao princípio de um código que definida no varejo a conduta conveniente, à necessidade de uma instância encarre-gada de vigiar sua aplicação, à possibilidade de castigos que sanciona-riam as infrações cometidas. Mesmo se a necessidade de respeitar a lei e os costumes - os nomoi - é freqüentemente sublinhada, o importante está menos no conteúdo da lei e nas suas condições de aplicação do que na atitude que faz com que elas sejam respeitadas. A ênfase é colo-cada na relação consigo que permite não se deixar levar pelos apetites e pelos prazeres, que permite ter, em relação a eles, domínio e superio-ridade, manter seus sentidos num estado de tranqüilidade, permanecer livre de qualquer escravidão interna das paixões, e atingir a um modo de ser que pode ser definido pelo pleno gozo de si ou pela soberania de si sobre si mesmo".
3.5. Opção de Método: daí a opção de método que fiz ao longo desse estudo sobre as mo-rais sexuais da Antigüidade pagã e cristã: manter em mente a distinção entre os elementos de código de uma moral e os elementos de ascese; não esquecer sua coexistência, suas reIações, sua relativa autonomia, nem suas diferenças possíveis de ênfase; levar em conta tudo o que parece indicar, nessas morais, o privilégio das práticas de si, o interesse que elas podiam ter, o esforço que era feito para desenvolvê-las, aper-feiçoá-las, e ensiná-las, o debate que tinha lugar a seu respeito. De tal modo que teríamos que transformar, assim, a questão tão freqüentemente colocada a propósito da continuidade (ou da ruptura) entre as morais filosóficas da Antigüidade e a moral cristã: em vez de pergun-tar quais são os elementos de código que o cristianismo pôde tomar emprestado ao pensamento antigo, e quais são os que acrescentou por sua própria conta, a fim de definir o que é permitido e o que é proibido na ordem de uma sexualidade supostamente constante, conviria per-guntar de que maneira, na continuidade, transferência ou modificação dos códigos, as formas da relação para consigo (e as práticas de si que lhes são associadas) foram definidas, modificadas, reelaboradas e di-versificadas.
3.6. Hipótese Apresentada: parece haver todo um campo de historicídade complexa e rica na maneira pela qual o indivíduo é chamado a se reconhecer como sujeito moral da conduta sexual. Tra-tar-se-ia de ver de que maneira, a pattir do pensamento grego clássico até a constituição da doutrina e da pastoral cristã da carne, essa subje-tivação se definiu e se transformou.
O Projeto do Livro: gostaria de marcar alguns traços gerais que caracterizam a maneira pela qual o comportamento sexual foi re-fletido, pelo pensamento grego clássico, como campo de apreciação e de escolhas morais. Partirei da noção, então corrente, de "uso dos pra-zeres" - chrèsis aphrodisiõn - para distinguir os modos de subjetivação aos quais ela se refere: substância ética, tipos de sujeição, formas de elaboração de si e de teleologia moral. Em seguida, partindo cada vez de uma prática que, na cultura grega, tinha sua existência, seu status e suas regras (a prática do regime de saúde, a da gestão da casa, e da cor-te amorosa), estudarei a maneira pela qual o pensamento médico e filosófico elaborou esse "uso dos prazeres" e formulou alguns temas de austeridade que se tornariam recorrentes sobre quatro grandes eixos da experiência: a relação com o corpo, a relação com a esposa, a rela-ção com os rapazes e a relação com a verdade.


Inscreva-se nos Cursos à Distância da SAEP:

Curso de Introdução ao Existencialismo

Curso Diálogo Maiêutico e Psicoterapia Existencial

Estude sem sair de casa

LIVROS RECOMENDADOS


Os livros Solidão e Liberdade e A Construção do Poder Pessoal encontram-se a venda exclusivamente nas livrarias do Rio de Janeiro, na sede da SAEP  ou pelo Correio, para todo o Brasil, pelos telefones (021-21) 264-8615 ou (021-21) 567-4420, pelo preço de R$10,00 e R$ 12,00, respectivamente.

 

Esta página é parte integrante do Jornal Existencial On Line: www.existencialismo.org.br
 

©1999 - Todos os direitos reservados à SAEP - Sociedade de Análise Existencial e Psicomaiêutica Webmaster: Jadir Lessa: jadirlessa@msm.com.br

 

 Rua Conde de Bonfim, 370 Sala 1005 - Tijuca - Rio de Janeiro - RJ - CEP 20520-054 - Tel. (021) 2567-4420, Telefax (021) 2264-8615 e Celular (021) 9323-2129