EDIÇÃO ESPECIAL Caderno Temas Existenciais

 

ARTIGO

 

O Movimento Existencialista como Quebra de Paradigma

Psicólogo Jadior Lessa

Na Arte e na Literatura
Várias foram as expressões do movimento existencialista e também seu aparecimento não se limitou a um só lugar.
A crise psicológica e a situação histórica do mundo ocidental propiciaram a manifestação de expressões, tais como o movimento intelectual da esquerda parisiense, compreensões niilistas do homem e filosofias anti-racionalistas. Fizeram-se sentir ainda em vários aspectos da cultura, através das artes plásticas, com Van Gogh, Picasso, Cezanne, etc. e na literatura com Dostoievsky, Baudelaire, Kafka, Rilke e outros.

Na Filosofia
A expressão que marca o início desse movimento tem como representante Kierkegaard, considerado o pai do Existencialismo. Porém outros pensadores em épocas anteriores, pela vitalidade e curso de seus questionamentos, podem ser considerados como precursores, tais como Heráclito, Sócrates, Santo Agostinho e Pascal.

Kierkegaard combate energicamente o pensamento racionalista de Hegel, que identificava verdade abstrata com realidade, vendo o homem como um sujeito que só adquiria realidade enquanto ser pensante. O indivíduo tornava-se objeto de controle, não estava mais em devir . Previsível, encaixava-se passivamente em teorias e hipóteses científicas.

O termo "existência" vem do latim ex-sistere, que significa emergir, impor-se, aflorar, sobressair. Essa é a proposta filosófica e psicológica desse movimento que se rebela contra o aprisionamento do homem em mecanismos, esquemas e pré-conceitos.

A ciência tradicional ocupa-se das essências (substância), deseja conhecê-las, defini-las e catalogá-las. Com isso realizado, trata de apontar leis, desenvolver teorias e criar sistemas que se articulam na intenção de uma previsibilidade racional supostamente perfeita. Dentro das ciências, inclusive a Psicologia, o importante era selecionar fenômenos que pudessem ser classificados e controlados para daí chegar a explicar e prever a realidade. A grande questão é que se abre um abismo imenso entre a verdade matemática e a lógica das ciências e a realidade existencial das pessoas. A existência humana não pode ser reduzida à definição e classificação da substância orgânica que compõe o corpo do homem e do seu comportamento aparente. O homem é emergente, pulsante. Seu ritmo é o devir. O Existencialismo não nega os fatores biológicos e sociais, porém coloca o homem como ser responsável e livre para lidar com estes aspectos que também fazem parte de sua realidade.

O Existencialismo passa principalmente por três fases: a primeira com a oposição de Kierkegaard a Hegel; a segunda com a oposição de Karl Marx a Hegel. Nietzsche também pode ser incluído neste bloco, caracterizando uma filosofia de contestação, assistemática e com fortes traços emocionais, nos depoimentos dos filósofos. A terceira fase (contemporânea) ocorre após a Primeira Guerra Mundial com a utilização do método fenomenológico de Husserl por Heidegger, Jaspers, Sartre e outros. Heidegger, especialmente com sua obra Ser e Tempo , dá contribuição decisiva para o crescimento do movimento existencialista.

O movimento filosófico existencialista e a Psicoterapia Existencial, na visão de Rollo May, ocupam-se dos indivíduos em crise. A proposta que segue é a de buscar a verdade por pior que seja, pois a verdade sempre deixa o sujeito mais sólido e íntegro. Aponta ainda para uma identificação entre o Zen Budismo (filosofia oriental) e o Existencialismo, quando ambas ocupam-se de uma ontologia: a filosofia oriental nunca sofreu cisões entre sujeito e objeto e o Existencialismo busca superar esta fragmentação ocidental através de uma visão integrada do homem.

Dentro de uma perspectiva histórica, vários fatos contribuíram para o surgimento deste movimento. As características mais marcantes do século XIX situam-se, principalmente, num estado de falência do controle racional do homem.

Suas emoções adestradas através de um processo de negação dos sentimentos e da descaracterização da espiritualidade resultaram numa desintegração pessoal e social, manifestando-se em várias formas de expressão cultural como, por exemplo, um excesso de romantismo nas artes, em contraste com a realidade dos acontecimentos; a religião como ritual a ser cumprido sem o envolvimento da fé; a separação entre a Filosofia e a Psicologia e etc.

O homem desta época curvava-se para o deus razão. Esta meta dirigia seu comportamento, norteava suas escolhas. A razão e a vontade agiam sobre a emoção, e a irracionalidade era o fim. A capacidade de condicionar-se coloca o homem numa condição de objeto útil aos meios de produção. Surge o homem-máquina cuja desumanização serviu ao processo de industrialização.

Em relação ao progresso das ciências isto não se deu de forma muito diferente. Estas cresceram isoladamente, tentando entrosar-se posteriormente, porém a tecnologia dificultou a junção das inúmeras subespecializações que surgiram.
A Primeira Guerra Mundial eclodiu como expressão máxima de fragilidade no sistema de repressão. A consciência ontológica estava submersa no homem, porém a necessidade de liberdade surgiria em breve para sacudir as pessoas de um estado crônico de alienação.

Na Ciência
O Existencialismo representa uma quebra de paradigma não só na arte, na literatura, na filosofia, na psicologia, mas também na ciência e na cultura como um todo. A ciência apoiava-se no Racionalismo Mecanicista de Descartes e no Idealismo de Hegel. Muito do vertiginoso progresso material que conquistamos em nosso planeta devemos a esta visão de mundo mecanicista e racionalista. Porém, em nome dela, produzimos o maior desequilíbrio ecológico de todos os tempos: o homem substituiu Deus no papel de Senhor do Mundo, acreditando, por muito tempo, que o mundo era uma grande máquina. E, como jovem governante, cometeu muitos equívocos ao longo do tempo em que alimentou a ilusão de que esta máquina podia ser controlada e dominada.

Segundo Albert Einstein "...não nos deve portanto surpreender o fato de todos os físicos do século passado terem encarado a mecânica clássica como uma fundação sólida e definitiva de toda a física - na verdade, de toda a ciência natural..."

Portanto, durante muitos anos nos acostumamos a entender o universo, a natureza e o próprio homem como sendo máquinas, mais ou menos complexas, que estariam no mundo à nossa inteira disposição. Além disso alimentamos a pretensão de acreditar que todo o universo obedeceria às leis da Mecânica clássica proposta por Newton. Caso assim fosse, bastar-nos-ia conhecer as leis da Mecânica para podermos controlar todo o universo, incluindo o homem. Mas é o próprio Einstein quem nos esclarece como os cientistas abandonaram esta crença quando afirma: "O que levou finalmente os físicos, após longa hesitação, a abandonar a crença na possibilidade de toda a física ter como base a mecânica de Newton foi a eletrodinâmica de Faraday e Maxwell."

Para complementar, despede-se de Newton quando diz:
... "Perdoe-me, Newton; você descobriu talvez o único caminho possível em sua época para um homem possuidor do mais alto raciocínio e poder criativo. Os conceitos que criou, ainda hoje orientam o nosso pensamento na física, embora saibamos que deverão ser substituídos por outros, muito afastados da esfera da experiência imediata, para possibilitar a compreensão mais profunda dos relacionamentos."...

Heidegger, utilizando a Fenomenologia de Husserl, demonstra a impropriedade da utilização do método cartesiano no estudo das questões humanas, criando assim, um novo paradigma. Deixa-se de buscar as explicações e as relações mecânicas de causa e efeito. Passa-se à investigação descritiva, analisando o sentido que o próprio indivíduo atribui aos fatos, buscando assim a sua compreensão. Este processo de mudança de paradigma não se deu apenas na Física, como vimos acima, mas em toda a ciência. Por isso, o Existencialismo provocou forte reação nos meios acadêmicos. Mas na atualidade vem sendo absorvido gradualmente.

Por tudo isso, a meu ver, a Psicologia não pode mais explicar o homem como um ser possuidor de um mecanismo psíquico determinado por forças inconscientes, nem reduzi-lo apenas ao comportamento aparente determinado e condicionado por estímulos e respostas. O homem não é uma máquina psíquica nem um organismo determinado pelas leis naturais, necessárias e universais. Temos que resgatar não apenas sua singularidade e originalidade, mas acima de tudo sua individualidade. Indivíduo quer dizer indivisível. O conceito cartesiano do homem dividido em corpo e mente é tão superado quanto dividir a natureza em matéria e energia. Einstein nos ensinou a relatividade de todas as coisas quando nos disse: E = m.c2 . Ou seja, tudo é uma coisa só: matéria e energia. O universo não está dividido. O homem também não. No lugar de dividir é preciso somar, integrar. Nas duas últimas décadas deixamos de ser só a nossa mente e conseguimos resgatar o nosso corpo. Resta-nos agora resgatar o entusiasmo e a alegria de viver.

Psicólogo Jadir Lessa jadirlessa@easyline.com.br
Analista Existencial
Autor dos livros Solidão e Liberdade e A Construção do Poder Pessoal

Autor dos seguintes artigos publicados no Jornal Existencial:

A Origem da Psicoterapia Existencial

Solidão e Liberdade 

Humano, Simplesmente Humano

A Felicidade como Possibilidade Existencial 


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