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Psicólogo
Jadir Lessa
Introdução
Os estóicos herdaram o nome do local onde Zenão gostava de fazer os
seus encontros filosóficos: a stoá, a parte coberta do mercado de
Atenas.
Confesso que não tinha uma boa impressão dos estóicos antes de ler
tudo o que Gilles Deleuze escreveu sobre eles. Gostava mais do epicurismo
em função das boas lembranças das aulas do professor José Américo
Peçanha no IFICS. Agora encontro-me num empasse: estou apaixonado
pelas idéias dos dois, Zenão e Epicuro.
A impressão que tinha, anteriormente, sobre os estóicos estava muito
ligada ao suposto uso que a igreja católica teria feito dessa doutrina,
no sentido de valorizar a busca de um ideal transcendente. Acreditava
que ser estóico era o mesmo que ser católico e que, para os estóicos,
ser ético seria viver como um aprendiz de santo, que nega as paixões
imanentes para afirmar uma razão transcendente.
Muito me surpreendi com as aulas do professor Auterives, que me apresentou
uma nova e encantadora visão do estoicismo. Despertou em mim, que
sempre me interessei pela ética, o desejo de me tornar um homem ainda
mais ético. Ético pelo prazer de ser ético e não apenas para cumprir
um dever. Agora entendo que ser ético, segundo os estóicos, é negar
a paixão pelos corpos, que ao se encontrarem produzem os acontecimentos,
para afirmar o amor pelos acontecimentos, independentemente dos corpos
que, ao se encontrarem, fazem acontecer. Confesso que passei a encarar
meus relacionamentos com esse enfoque, o que tem me permitido escolher
bons encontros e saborear deliciosos acontecimentos.
A Ética na Grécia Antiga
As epopéias homéricas
As epopéias homéricas revelam uma ética aristocrática onde a nobreza,
a virtude e a excelência são considerados características inatas.
Entendia-se que os descendentes das grandes famílias não precisavam
fazer nada além de revelar a nobreza, o virtuosismo e a excelência
que seriam as características naturais e espontâneas dos descendentes
de tais famílias.
Os poemas de Esíodo
Esíodo se contrapõe a Homero, afirmando em seus poemas que a areté,
a virtude, a excelência são o resultado de uma conquista, de um esforço,
de um empenho efetivo. Para ele a virtude é o resultado de um trabalho
interior, de uma conquista, de uma transformação pessoal. A virtude,
a areté, a excelência são construídas a partir de uma conduta ética.
A partir de Esíodo o que as diferentes éticas propõem são caminhos
de aperfeiçoamento do ser humano através da realização de um artesanato
que pode ser pessoal ou político, mas que sempre visa a construção
de um estilo, uma estilização da vida. Surge aí a possibilidade da
transformação pessoal e da mobilidade social. O inculto não terá que
ser sempre necessariamente inculto. O nobre não terá que ser sempre
necessariamente nobre. E o súdito não terá que ser sempre necessariamente
súdito.
Vários estilos éticos são propostos para o homem desenvolver-se, aprimorar-se
e conquistar excelência. Essas éticas se inspiram em diferentes princípios.
Por exemplo: a beleza e a ordenação do cosmos; a beleza e a saúde
do corpo ou a capacidade de guiar e conduzir um barco navegando em
alto mar. Segundo Michel Foucault o homem grego antigo buscava desenvolver
uma ética que fosse, ao mesmo tempo, uma estética da existência. E
da Grécia antiga, destacamos a ética dos estóicos.
Os estóicos: da física dos corpos à lógica dos acontecimentos
Diógenes Laércio, em seu livro "Vida e Doutrina de Filósofos
Ilustres", afirma que os estóicos começaram a pensar a ética
a partir da física dos corpos. Corpo para eles é tudo aquilo que existe.
Tudo o que é substantivo e tudo que é adjetivo. Os corpos se comportam
sempre como causas. Dos encontros dos corpos emergem efeitos incorpóreos
que são os acontecimentos. Os acontecimentos, por não serem corpóreos,
não existem. Os corpos habitam o plano físico e os acontecimentos
o extra-físico. Os corpos existem e os acontecimentos insistem. Toda
ação física ou corpórea é inseparável de uma cadeia de ações. Os estóicos
chamam essa cadeia causal das ações entre os corpos de destino. Concluíram
que, sendo o destino regido apenas pela física dos corpos, não haveria
liberdade de escolha. Assim sendo a ética não seria possível. Seu
desafio era encontrar um modo de afirmar o destino e, ao mesmo tempo,
salvar a liberdade individual de escolha. Resolveram esse problema
concluindo que a ética não poderia se basear exclusivamente, nem na
física dos corpos, nem na lógica dos acontecimentos. A ética estaria
situada entre as duas, do mesmo modo que, em um ovo, a clara se encontra
entre a gema e a casca. O que tornou possível essa articulação da
ética com a física e com a lógica foi o modo como compreenderam o
tempo.
Do limitado presente para a ilimitada eternidade
Os estóicos afirmam que podemos pensar o tempo de duas maneiras: a
partir dos corpos e a partir dos acontecimentos. A física dos corpos
estaria submetida à cronos, o tempo cronológico que mede o intervalo
do movimento da ação de todos os corpos que existem. Enquanto tempo
dos corpos ele é sempre presente. E só o presente existe. A partir
dos acontecimentos o tempo não existe, insiste. Os acontecimentos
estariam imersos no aion, o tempo ilimitado onde o passado e o futuro
insistem. Nesse tempo todo acontecimento é, foi e será. Presente,
passado e futuro acontecem ao mesmo tempo. Por exemplo: se estou amando,
eu amo, já amei e vou amar. Tudo ao mesmo tempo. Todo acontecimento,
que insiste, tem a forma do passado e do futuro, no momento em que
acontece. É como se o tempo passado e o tempo futuro se encontrassem
no instante, do mesmo modo que as linhas paralelas se encontram no
infinito, para formar o tempo do presente eterno, desprovido de idade
cronológica. Esse tempo, de idade eterna, seria a própria eternidade.
Quando cronos e aion se encontram, qualquer banalidade pode se transformar
em um grande acontecimento e qualquer acontecimento pode corresponder
a eternidade de uma vida, porque é vivido num tempo ilimitado. É justamente
nesse tempo que o amor é vivido como sendo eterno.
Para os estóicos não se pode atribuir juízos morais aos acontecimentos
Todos os corpos são causas. Quando um corpo age, é uma causa ativa.
Quando recebe a ação é uma causa passiva. As causas remetem sempre
a outras causas. Os efeitos emergem das interações dos corpos. Num
plano físico estão as causas e num plano extra-físico estão os efeitos.
Os encontros dos corpos geram acontecimentos. Os acontecimentos não
são causas, são efeitos. Por não serem causas não são ativos nem passivos,
são impassíveis. O efeito não age nem padece. Portanto ele é neutro.
Compreender a neutralidade do efeito é fundamental para entender a
ética dos estóicos. Podemos atribuir juízos morais aos corpos ativos
e passivos, mas nunca aos acontecimentos. Nada mais imoral do que
estabelecer juízos morais a cerca de acontecimentos neutros. Nada
é mais imoral para um homem do que não ser dígno do que lhe acontece.
Os estóicos e a ética dos acontecimentos
Na vida, todo ser humano convive tanto com os corpos que existem quanto
com os acontecimentos que insistem. Há três maneiras de lidar com
os acontecimentos: negá-lo, aceitá-lo ou afirmá-lo. As duas primeiras
são indignas. Ser ético é afirmar os acontecimentos, sejam eles quais
forem. E afirmar os acontecimentos não é aceitar passivamente nem
negar o que acontece, mas sim querer alguma coisa no que acontece,
tornando-se co-autor dos acontecimentos. Tornar-se ético, portanto,
é aprender a ser criativo. É aprender a criar o que não existe. É
aprender a captar o que insiste. Querer alguma coisa no que acontece
é querer, a partir da finitude do presente que existe, o ilimitado
do passado e do futuro que insiste. É querer retirar do presente finito,
o ilimitado da eternidade.
Contra-Efetuação
Esse movimento de passar do instante para o acontecimento como ilimitado
os estóicos chamaram de contra-efetuação. Contra-efetuar é entrar
no interior do acontecimento na medida em que ele estiver se efetuando.
É captar do acontecimento a sua parte incorpórea: o passado e o futuro.
E isso é o que significa devir. Devir é tornar-se. Se os corpos são
tudo o que é substantivo e adjetivo, os acontecimentos são os verbos
no infinitivo: amar, dançar, filosofar; ou no gerúndio: amando, dançando,
filosofando. Devir é tudo o que é transitório. Querer alguma coisa
no que acontece é querer o que há de transitório no acontecimento.
Por exemplo: os verdadeiros amantes não fazem apenas o encontro com
os corpos que existem. Fazem um encontro com o amor, que é transitório.
Sendo transitório o amor não existe, insiste. Ser ético, portanto,
é experimentar o amor fati e viver em devir. É aprender a perceber-se
como causa ativa ou passiva de todos os efeitos que nos acontecem.
É assumir inteira responsabilidade por nossa atividade ou passividade.
É ser digno de tudo aquilo que acontece. Pois dignos ou indignos não
são os acontecimentos. Dignos somos nós mesmos quando conseguimos
extrair o que há de melhor em um acontecimento. Indignos somos nós
mesmos quando extraímos o pior. Ou, como afirmavam os estóicos:
"Torna-te o homem das tuas infelicidades ao invés de passar a
vida se queixando. Seja digno do que te acontece ao invés de ficar
transformando os acontecimentos em chagas, em feridas purulentas.
Isso é ética!".
Conclusão
Na vida temos apenas uma tarefa existencial. Nossa tarefa é
a de tentarmos nos tornar dignos de tudo aquilo que nos acontece,
no lugar de transformarmos os acontecimentos, que são efeitos,
em causas sob as quais padecemos ou das quais nos lamentamos. Tornamo-nos
dignos do que nos acontece, quando afirmamos o acontecimento, querendo
alguma coisa de tudo aquilo que acontece. Com isso tornamo-nos co-autores
dos acontecimentos. E conseguir alguma coisa do que acontece é
extrair, a partir da finitude do instante que existe, o ilimitado
do passado e do futuro que insiste. O presente existe no istante que
insiste. O passado e o futuro não existem, insistem. Insistem
em permanecer eternamente passado e futuro. O tempo não passa
nós é que passamos!
Psicólogo
Jadir Lessa
Analista Existencial
Autor dos livros Solidão e Liberdade e A
Construção do Poder Pessoal
Autor
dos seguintes artigos publicados no Jornal Existencial:
A
Origem da Psicoterapia Existencial
Solidão
e Liberdade
Humano,
Simplesmente Humano
A
Felicidade como Possibilidade Existencial
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