EDIÇÃO ESPECIAL

Caderno de Psicoterapia Existencial

 

ARTIGO

 

Jean-Paul Sartre: o ser-para-si
Cléa Gois e Silva

Quando se fala do Existencialismo de Sartre, lembramo-nos imediatamente do princípio geral que sua doutrina dá relevo: " a existência precede a essÊncia".
A importância capital deste princípio intangível compreende - se bem. O homem existe primeiro e depois é que se define. Vai se definindo à medida que se vai fazendo. Se a Existência não precedesse a essência, necessariamente teria-se de admitir alguém anterior ao homem que pensasse na natureza deste, o projetasse e lhe desse execução.
Confunde-se, em certo sentido a essência de uma coisa com a idéia que se tem dela, uma espécie de causa exemplar. Aliás, o próprio Sartre o confirma na conferência O Existencialismo é um Humanismo, com o exemplo do corta-papéis idealizado primeiro e executado depois, tal como acontece com todos os objetos manufaturados e realizações técnicas.
Mas o que Sartre mais questiona é que, desse modo, a natureza humana idealizada e realizada mediante uma suposta criação traria inscritos em si valores determinantes de toda a atividade do homem. Daí resultaria uma impossível Existência humana determinada, autonoma, pois sem espontaneidade e poder total de escolha não há liberdade.
Vê-se bem que a noção de essência de um objeto como "o conjunto de receitas e de características que permitem produzí-lo e definí-lo" ( Sartre, l954,p.240), contém resquícios do racionalismo essencialista em que Sartre foi educado e que , pelo culto ao pensamento conceitual, entendia a essência como mera coerência lógica interna, visto o ente ser aquilo que não envolvia contradição quer existisse quer não, e a existência a mera transposição da essência perfeitamente pensada do estado de possibilidade ao estado de atualidade.
Mas interessa a Sartre, a Existência concreta, o objeto predileto de sua Ontologia Fenomenológica. Nem o princípio de que "a existência precede a essência"autoriza, só pelo seu enunciado, a pensar que trata-se de uma Ontologia da Existência pura, abstrata, sem consistência real. Trata-se, na verdade, de uma Ontologia total, que, examinando a essência da consciência na sua faticidade, detecta ao mesmo tempo a sua transcendência e, com ela, o mundo, o outro, a temporalidade, a sua liberdade em situação . Toda a obra de Sartre tem por finalidade, apresentar sob todos os aspectos, o que ele entende por Existência autêntica da consciência condenada a uma liberdade criadora.
Para compreender melhor o pensamento de Sartre, consideremos os três sentidos principais da Existência.
Em primeiro lugar, temos o sentido "metafísico"de ente-pelo-qual ( ens-quo) e não de ente-que (ens quod), isto é, o sentido de parte integrante da realidade já constituída e que se põe em atualidade, não sendo por conseguinte a própria realidade. Está é a acepção daqueles que, com a essência e existência, concebem a realidade, inclusive a realidade humana, como ente finito cuja concreção resulta de uma qüididade analógica em si mesma uma composição e dependência ônticas a exigir fundamento último num Absoluto transcendente. A Ontologia sartreana rechaça esta significação "metafísica"de Existência.
Em segundo lugar, o sentido ontológico, podendo vislumbrar-se aqui entre a Existência "metafísica"e esta Existência "ontológica"uma diferença análoga, embora deslocada, à diferença ontológica de Heidegger. Com efeito, passa-se do campo ôntico nada simpático a Sartre para o campo ontológico onde a Existência de modo nenhum se pode assinalar e, muito menos, restringir ao "esse" escolástico, tendo visto incluir já na sua própria noção a relação-para e também a presença ativa do (meu) logos ou consciência. Uma presença que não pode dar-se sem que se dêem ao mesmo tempo todas as coisas; uma presença que se dá com simultânea e conseqüente negação de e em si de todas as coisas: é o Nada. Compreende-se, pois, que em Sartre haja primordialmente Ontologia. Só haveria Metafísica se pudesse ultrapassar este campo e examinar a Existência onde ela não fosse, ao mesmo tempo, presença e negação interna.
E por último, vem a Existência "existencialista", concreta, vivida. É a Existência ontológica, não já na mente reflexiva, mas concretizada na realidade do dia-a-dia, não definida por noções abstratas, mas que se impõe com a sua presença real como a da raiz entumecida e disforme que desperta Roquentin de A Náusea da irrealidade imaginária e lhe revela algo de novo, a única coisa sempre nova que tudo descobre. Existência que é consciência,existência que é projeto, existência que é temporalidade, existência que é agir, existência que é responsabilidade; existência que é realidade-humana, que não é só do homem, mas sim deste homem, daquele homem, do negro americano, de Orestes, do cidadão , do escritor Flaubert, do prisioneiro em campo de concentração, do colonizado e dos planos da sua libertação, do operário, do estudante. É esta, para a doutrina sartreana, a Existência autêntica, digna dos esforços da investigação filosófica, dos sacrifícios dos inconformistas que reagem contra a má-fé em toda a atitude moral.
É a Existência que distingue, dentre os seres vivos, um cuja estrutura implica uma Consciência com poder nadificante e que, por isso, é Liberdade que cria a sua própria essência e os valores, organizando e hierarquizando estes, e que é Espírito na plenitude do agir.
Não há Existência sem uma consciência que repila da sua estrutura constitutiva o ser-em-si numa negação interna irreversível e seja, ao mesmo tempo e por isso mesmo, um ser-para-si, isto é, uma Liberdade na escolha fundamental da sua própria Existência que concretiza nas escolhas parciais inevitáveis e na transcendência do mundo e do outro a estabelecer o "circuito da ipseidade" no qual o Homem se realiza e cria a sua essência. O outro inclui Deus para quem O queira admitir, a Liberdade sartreana vai até ao ponto de supor possível essa atitude-limite da má-fé, embora contraditória em si.
Todo fenômeno revela o ser-em-si e revela-o porque há uma Consciência que não é nem pode ser nunca esse ser, uma consciência que é ser-para-si , com poder nadificante e criador, isto é, uma subjetividade livre pela qual há o Mundo e nele se introduz a negação, se criam valores e é possível a ação; estabelecem-se relações intersubjetivas e aparecem atitudes éticas , formam-se sociedades e nelas se debatem e aplicam assuntos e problemas com os mais diversos nomes: civilização, cultura, ensino, nações, governos, paz, guerras, amor, ódio, etc. É o Espírito humano que, agindo modifica a face da terra, modificando-se na afirmação perene do seu ser que consiste, precisamente, em não se esgotar no que é, pois não é o que é e é o que não é.
E uma vez que tratamos da Existência concreta, notemos desde já , certa precipitação dos que pretendem aproximar o Existencialismo de Sartre com o Materialismo puro e simples. Não porque Sartre tenha adotado a palavra Espírito para designar a Liberdade total da consciência, mas porque divergem as características fundamentais das duas teorias. Para o materialismo, o mundo é, por natureza, material e a matéria, por conseguinte, o dado primário, sendo então a consciência ou o espírito um dado secundário derivado, num salto dialético-crítico, da matéria. Para Sartre, embora, admitindo o primado ontológico do em-si, é todavia a consciência o dado primário, sem o qual não haveria mundo nem matéria nem o próprio eu. Verifica-se, pois, a distinção inconfundível nas suas respectivas bases filosóficas entre o Existencialismo e o Materialismo. O "acontecimento absoluto"do surgir do fundamento ou do para-si pela nadificação do em-si" ( Sartre, l943,p.124-125), nada tem a ver com a evolução dialético-progressiva dos materialistas e com o seu salto da quantidade à qualidade. Por outro lado, essa subjetividade livre que, na sua plenitude, Sartre, chama de "Espírito" , não é a subjetividade espiritual, a qual , mesmo envolvendo um aspecto de negatividade enquanto importa que o ser espiritual não fique fechado naquilo que é, apresenta principalmente um aspecto de transcendência que abre à Totalidade, um aspecto de profundidade inesgotável que, é senhora dos seus atos.
Neste momento, Sartre emprega uma análise fenomenológica do modo de ser da realidade-humana, a Existência nas suas manifestações. Segundo Sartre, "o surgir do para-si como nadificação do em-si se constitui ao mesmo tempo sob todas as dimensões possíveisde nadificação. O para-si é o ser que, sendo, faz existir todas as dimensões possíveis de nadificação" ( Sartre, l943,p.182). A Reflexão, a transcendência, o ser-no-mundo e o ser-para-outro são diversos modos de nadificação, só possível porque há consciência, manifestados da unidade nuclear do ser pelo qual o Nada vem ao mundo. E, com o Nada, a multiplicidade. "O em-si não é diverso nem múltiplo; para que haja multiplicidade como característica do seu ser-no-meio-do-mundo, é necessário que surja um ser que esteja presente ao mesmo tempo a cada em -si isolado na sua identidade" .( Sartre, l943,p.182).
As três dimensões possíveis de nadificação: a) não ser aquilo que é; b) ser aquilo que não é ; c) a unidade de uma perpétua implicação mútua, ser o que não é e não ser o que é. Existem concretamente no para-si, isto é, são a Existência concreta do para-si que se revela como consciência e liberdade, como ser-para -outro, como ser sem fundamento no ser, sem poder realizar a sua "paixão inútil" do ser-em-si-para-si. Existência concreta que, manifestando-se com todas as suas dimensões de nadificação, se temporaliza, se compromete, se humaniza e procura humanizar todas as Existências concretas, embora sempre perseguida pela angústia da responsabilidade por si e por todo o mundo, pela náusea da sua contingência original e pelos fracassos da sua realização.
Existir é ter de ser o seu ser para lá de tudo o que é. Todavia, se só pelo para-si é que vem ao mundo o fundamento, também o para-si só do Nada é fundamento e, neste sentido, ele é necessário, como necessário é todo o fundamento, e destaca-se da sua contingência original de que não pode nem libertar-se nem fundir-se nela. A Existência nunca será o fundamento do ser que é, mas esse ser está lá: "l'en-soi ... demeure au sein du pour-soi comme sa contingence originelle" ( Sartre, l943,p.124-125) . Desse ser se separa o para-si pelo Nada da faticidade.
Pela contingência e faticidade, ele é para si próprio e é-o irremediavelmente, gratuitamente. O seu ser é para ele , mas ele não é para esse ser: à gratuidade da sua contingência original repugna tal reciprocidade. O para-si não pode existir senão como superação nadificante; a sua estrutura necessária, o ser perpetuamente ultrapassado que ele "existe", ou que ele é sob a forma de ter de sê-lo, é o passado.
O para-si não pode nunca considerar-se como não tendo um passado, até pela razão óbvia de que ele não existe primeiro e depois surge no mundo; o seu surgir no mundo, a sua Existência, dá-se na unidade ek-stática de uma relação com o passado.
Para Sartre parece "absurdo" que a consciência "apareça", venha habitar no embrião; absurdo que haja um momento em que o ser vivo em formação não tenha consciência ou em que a consciência que, por natureza, é subjetividade intencional relacional, não tenha ainda um passado. E o absurdo persistirá se pretender-se que uma consciência suponha uma consciência anterior petrificada no em-si. Só se estabelece relação do para-si presente com o para-si tornando-se em-si como reflexo da relação original do para-si com o em-si puro.
O para-si surge no mundo enquanto nadificação do em-si, o "acontecimento absoluto" pelo qual simultaneamente se constitui o passado com relação original do para-si ao em-si.
Assim, existir implica um ser relacional: o para-si constitui-se em relação a um ser que não é consciência, " que existe na noite total da identidade, e o para-si é obrigado a ser, fora dele, para lá dele" ( Sartre, l943,p.184) podendo dizer-se que o em-si é o que o para-si era antes . Noite tenebrosa em que se perde a nossa Existência concreta na solidariedade permanente com o embrião longínquo, com o em-si de origem ainda mais distante. O embrião representa realmente o limite-de-fato da memória e de toda a investigação , mas não o limite-de-direito do meu passado. E aqui desponta inquietante o insolúvel problema metafísico do nascimento: como é que eu nasci de tal embrião?
É óbvio, que resta a explicação ontológica que supera o problema: a consciência aparece como nadificação do em-si ou, como tendo já nascido. O fenômeno do nascimento físico é apenas uma lei de ser do para-si para o qual existir é ter nascido. Esta explicação só é válida na análise fenomenológica , que Sartre usa incondicionalmente. Mesmo no âmbito do problema metafísico, se torna ocioso interrogar sobre o em-si de que se nasce, como era ele. É que qualquer interrogação só ocorre, porque já surgiu o para-si: " Não há primeiro um tempo universal dentro do qual apareceria de súbito um Para-si sem ter ainda um passado. É a partir do nascimento, como lei de ser original e a priori do Para-si, que se desvela um mundo com um tempo universal no qual se pode designar um momento em que o Para-si não exista ainda e um momento em que ele aparece, seres de que ele não nasceu e um ser de que ele nasceu" ( Sartre, l943, p.185-186)
Parece que a Existência se converteu em enigma. A luz volta ao filósofo se não esquecer-se de que o para- si tem de ser o que não é . A consciência é consciência de alguma coisa, de uma árvore, por exemplo. O que a consciência tem de ser sob o modo de para-si é, neste caso, o não-ser-árvore; sendo consciência do que ela não é, a consciência dá testemunho do não-ser, negação explícita que estabelece a ligação de ser entre o objeto percebido e o para-si: " O Para-si nada mais é que o nada translúcido que é negação da coisa percebida" ( Sartre, l943, p.186) .
Quanto ao passado, há que considerar outra perspectiva essencial: o para-si dá-se como sendo o seu passado, não põe teticamente o seu passado, pois só se pode pôr como tal aquilo que se não é. Mas sucede ao contrário com o objeto, o mundo: este põe-no a consciência como aquilo que ela não é, ao passo que o passado assume-o a consciência como aquilo que ela é, destacada dele, sim, mas apenas pela natureza do ser para-si que não pode ser nada sob forma de o ser totalmente.
Mas o problema, longe de desaparecer, parece tornar a complicar-se, visto que o passado não é imanente ao para-si, embora esteja nele para sempre desde o instante em que o para-si se assume como negação de algo que percebe. O passado não é objeto de olhar do para-si, dirigido para o futuro como projeto que o para-si é constitutivamente. O passado uma coisa que se é, sem a pôr, está fora do campo temático, está lá quase como contra o para-si que tem de o ser sem poder afirmá-lo ou negá-lo, nem tematizá-lo ou absorvê-lo.
Pode ocorrer então uma dificuldade: como se estuda a História se o passado não pode ser tematizado? Pode, com certeza; mas, nesse caso, ele é objeto de pesquisa explícita do para -si que, por esse fato mesmo, se afirma como não sendo o passado que agora põe teticamente. De maneira originária, o para-si é o seu passado que não põe teticamente ( o que não significa que não tenha dele consciência); de maneira secundária, o seu passado é objeto e objeto tético do conhecimento da consciência, continuando esta a não ser, por sua natureza mesma, esse objeto. Confirma-o a experiência cotidiana; temos por vezes consciência de algo de que não temos conhecimento tético: o passado está lá, por exemplo, no rosto que contemplo e que já vi, mas não consigo dizer quem é; na rua que percorro e que já não me é estranha, mas da qual nem o nome conheço neste momento. Pois que o passado é a minha ligação contingente e gratuita com o mundo e comigo, enquanto a vivo continuamente como abandono total é o saber flexível, insinuante, fonte de atividade intelectual, que constitui a trama de todos os nossos pensamentos e que se compõe de mil indicações vazias, de mil designações a despontar atrás de nós, sem imagem, sem palavra, sem tese; é o meu passado concreto, enquanto eu o era, enquanto irreparável profundidade para trás de todos os meus pensamentos e de todos os meus sentimentos.
Longa explicação ontológica que Sartre sintetiza na linguagem simples de conversa com Madeleine Chapsal: "A História faz o homem e o homem faz a História"( Sartre, l965,p. 30 ).
A segunda dimensão ek-stática, ser o que não é , revela-nos o para-si como falha e como aquele a quem a falha, visto ter de ser sem cessar aquilo que é. Se cessase de o ser, teria sido, já não seria agora e aqui, e estaríamos caídos no passado. A identidade é um peso que atira para o passado; o para-si não pode deixar de ter de ser, precisamente porque não é aquilo que é, tendo de ser aquilo que não é e de sê-lo sem interrupção.
O presente manifesta assim o para-si como totalidade inacabada e perenemente inacabada, o que condiz aliás com a característica nadificante da sua liberdade, projeto contido para o futuro. O para-si nunca cristaliza na identidade, aspira a ser e tem de ser o-que-ainda-não-é. Assim se constitui também o valor que nunca poderá consistir na identidade, inércia e atemporalidade do em-si: "A eternidade, que o homem procura, não é a infinidade da duração , da vã corrida para o ser, de que eu próprio sou responsável; mas é o repouso em si , a atemporalidade da coincidência absoluta consigo" ( Sartre, l943,p.188)2.
Mas o para-si, que pode parecer disperso pelas duas dimensões ek-státicas anteriores, como refletido que reflete, como projetado que projeta, unifica-se pela terceira dimensão: ao mesmo tempo, no mesmo surgir absoluto, ele não-é-o-que-é-e-é-o-que-não-é. O seu ser está em todo lado e não se encontra em nenhum, apresenta-se e escapa-nos "é esta contradança do movimento de vaivém, de atração e repulsão no seio do Para-si, que é a Presença do ser" ( Sartre, l943, p. 188).
O para-si, pelo fato mesmo de se nadificar, revela-se com as três dimensões temporais manifestadoras, por sua vez, da contingência original do acontecimento absoluto pelo qual ele surgiu. Não há nenhuma prioridade ontológica a assimilar nas três dimensões, nenhuma pode existir independentemente das outras.
Assim, ao mesmo tempo que se ilumina a consciência de ter alguém nascido brasileiro (passado), ele assume-se e vive brasileiro (presente) para se pro-jetar brasileiro e constituir autêntico valor o-ser-brasileiro (futuro). Daí o compromisso, característica essencial da Existência.
Em resumo, a Existência é a razão de ser de aspirações e projetos para o que ainda não é, totalidade inacabada, insatisfação dinâmica que procura vencer obstáculos na ânsia de uma liberdade respeitada e respeitadora que garanta a dignidade humana de todos e crie aversão sincera à violência. A Existência é compromisso perante o mundo a valorizar e sobretudo perante outras consciências com as quais sobressai a sua estrutura de ser relacional.
A estrutura relacional da Existência vem realçar e dramatizar a oposição entre facticidade e transcendência. " A lei de ser do Para-si, como fundamento ontológico da consciência, é de ser ele mesmo sob a forma de presença-a-si" ( Sartre, l943, p.119).. A consciência, com o seu poder nadificante, é causa da sua própria maneira de ser, mas, por isso mesmo, ela exclui qualquer causa: nada é causa da consciência. A presença-a-si da consciência não pode, pois, ser explicada por nenhuma outra coisa que não seja ela própria e nem sequer por ela própria. Com efeito: o para-si é, enquanto há nele algo de que ele não é o fundamento: a sua presença ao mundo; o para-si é presente unicamente a título de fato. E Sartre não pretende, de modo algum, aprofundar esta idéia da faticidade; pelo contrário acabará afirmando que : "na apreensão de nós mesmos por nós mesmos , aparecemo-nos com os caracteres de um fato injustificável" ( Sartre, l943, p. 122) . Assim, o Para-si é sustentado por uma perpétua contingência que ela toma à sua conta e se assimila sem jamais a suprimir. Esta contingência perpétua está no Para-si como uma recordação de ser, um vestígio saudoso mas nadificado e irrecuperável para todo o sempre, que é causa precisamente da Náusea, provocada e mantida pela angústia: "Assim como a minha liberdade nadificante tem consciência de si própria pela angústia, assim o Para-si é consciente da sua faticidade: tem o sentimento da sua inteira gratuitidade , apreende-se como estando lá para nada, como sendo a-mais" ( Sartre, l943, p.124).
Mas, além da faticidade contingente, há que se considerar a evasão de si, o ultrapassar-se a si, o opor-se a uma existência à maneira das coisas consolidadas no ser. É a transcendência. E de fato, há no Para-si a tendência, tomada como ideal , de ser o que é, e aqui radica a má-fé. E quando dizemos que alguém é isto ou aquilo, podemos esquecer que o ser do Para-si deve ser sempre posto em questão. Por isso mesmo se afirma ser isto ou aquilo, por não haver evidência e por parecer ao próprio Para-si ambígua a sua presença.
O Para-si pode interrogar-se sobre o seu ser fundamental. Mas, a interrogação nadifica e exige uma resposta que ultrapasse tudo o que seria em si mesmo para atingir apenas o que não pode ser senão para si mesmo.
Temos, de novo, a angústia até a Náusea: sentindo-se presença-a-si, o Para-si não pode nunca absorver-se no ser; sente igualmente a distância de si: assim este ser perpetuamente ausente que assedia o para-si é ele próprio endurecido em em-si. É a impossível síntese do para-si e do em-si, pois ele seria o seu próprio fundamento não enquanto Nada, mas enquanto Ser, e conservaria em si, ao mesmo tempo, a translucidez necessária da consciência e a consciência consigo do ser em-si. Conservaria em si o retorno a si que condiciona toda a necessidade e todo o fundamento. Mas este retorno a si far-se-ia sem distância, não seria de modo algum presença a si, mas identidade. A realidade-humana surge como tal em presença da sua própria totalidade ou de si como falha dessa totalidade.
O ser consolidado em si não pode existir no Para-si senão como relação, nunca como ser substancial. O Para-si é totalidade inacabada, pois que a totalidade perfeita contém a identidade a si e elimina a distância de si; isto é, acabaria com a oposição dialética da faticidade e da transcendência, uniria num ser os caracteres incompatíveis do em-si e do para-si . É esta necessidade de ser , de fundamentar a existência e torná-la necessária que Sartre exprime, nos personagens de suas obras, como no Roquentin de A Náusea, no Goetz de O Diabo e o Bom Deus, no Hugo de Mãos Sujas . Essa necessidade, criando momentos perfeitos e aventuras densas e inexplicáveis em diferentes contextos, acaba em drama angustiante que deve ser conscientemente vivido.
Sartre não comete a violência lógica de negar a transcendência. A sua formação kantiana dentro de um pensamento de base cartesiana leva-o a ver no homem uma estrutura fundamental para a transcendência. Mas, porque trata-se de uma transcendência sem objeto, ela resume-se na distância-a-si do Para-si, num círculo em que é ultrapassado o mundo, é ultrapassado o outro, se criam valores e a ação toma sentido de realização objetiva, ao mesmo tempo que é realização do sujeito.
Tudo nasce da estrutura da Existência que fundamentalmente tende para o em-si de que aliás teve origem ontológica. É a recordação do ser, é uma certa nostalgia de uma transcendência hipostasiada mas que se sente impossível, até mesmo contraditória, expressa com os termos: falta, lacuna, vazio, etc., e que dá a essa mesma Existência o sabor acrído da angústia e as vascas martirizantes da náusea.
E onde o chamar-se consciência infeliz, porque sempre atormentada e atraída pela sua própria totalidade que ele é sem a poder ser. Ela não é consciência até senão enquanto falha a respeito da totalidade. E aqui temos a transcendência circunscrita ao próprio homem como contradição dialética: presença-a-si na distância-de-si. E aqui está , mais uma vez, a inutilidade da aventura e da paixão humana, o fracasso : " O para-si , no seu ser, é fracasso, porque não é fundamento senão de si próprio enquanto Nada. O acontecimento puro pelo qual a realidade-humana surge como presença ao mundo é apreendida por si como sua própria falha de ser. A realidade-humana apreende-se no seu surgir na existência como ser incompleto" ( Sartre, l943, p.132).
Como compreender , a Existência que começa por impotência de dar significado à vida até ao uso da razão e termina com a mesma súbita impotência? para Sartre, a Existência não se explica nem define: vive-se apenas e vive-se de tal modo que é por ela que aparece o mundo, a verdade, o fundamento, a transcendência, o amor e a sociedade. A Existência tem de ser corajosamente assumida e realizada na liberdade.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


1. SARTRE, Jean-Paul. La Nausée. Paris, Gallimard, l938.
2. _______. L'Être et le Néant- Essai d' Ontologie Phénoménologique. Paris, Gallimard, l943.
3. _______. Baudelaire. Paris. Gallimard, l947.
4. _______. Les Mains Sales, Paris, Gallimard, l948.
5. _______. Le Diable et le Bon Dieu. Paris, Gallimard, l951.
6. _______. Saint Genet, Comédien et Martyr, Paris, Gallimard, l952.
7. _______. L'Existentialisme est un Humanisme. Paris, Nagel, l954.
8. _______. Situations VII. Paris. Galimard, l965.

 

 

Professora Cléa Gois e Silva
Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro -UERJ
DCH da Universidade Veiga de Almeida - UVA


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