|
Quando se fala do Existencialismo de Sartre, lembramo-nos
imediatamente do princípio geral que sua doutrina dá relevo: " a
existência precede a essÊncia".
A importância capital deste princípio intangível compreende - se bem.
O homem existe primeiro e depois é que se define. Vai se definindo à
medida que se vai fazendo. Se a Existência não precedesse a essência,
necessariamente teria-se de admitir alguém anterior ao homem que
pensasse na natureza deste, o projetasse e lhe desse execução.
Confunde-se, em certo sentido a essência de uma coisa com a idéia que
se tem dela, uma espécie de causa exemplar. Aliás, o próprio Sartre o
confirma na conferência O Existencialismo é um Humanismo, com o
exemplo do corta-papéis idealizado primeiro e executado depois, tal
como acontece com todos os objetos manufaturados e realizações
técnicas.
Mas o que Sartre mais questiona é que, desse modo, a natureza humana
idealizada e realizada mediante uma suposta criação traria inscritos
em si valores determinantes de toda a atividade do homem. Daí
resultaria uma impossível Existência humana determinada, autonoma,
pois sem espontaneidade e poder total de escolha não há liberdade.
Vê-se bem que a noção de essência de um objeto como "o conjunto de
receitas e de características que permitem produzí-lo e definí-lo" (
Sartre, l954,p.240), contém resquícios do racionalismo essencialista
em que Sartre foi educado e que , pelo culto ao pensamento conceitual,
entendia a essência como mera coerência lógica interna, visto o ente
ser aquilo que não envolvia contradição quer existisse quer não, e a
existência a mera transposição da essência perfeitamente pensada do
estado de possibilidade ao estado de atualidade.
Mas interessa a Sartre, a Existência concreta, o objeto predileto de
sua Ontologia Fenomenológica. Nem o princípio de que "a existência
precede a essência"autoriza, só pelo seu enunciado, a pensar que
trata-se de uma Ontologia da Existência pura, abstrata, sem
consistência real. Trata-se, na verdade, de uma Ontologia total, que,
examinando a essência da consciência na sua faticidade, detecta ao
mesmo tempo a sua transcendência e, com ela, o mundo, o outro, a
temporalidade, a sua liberdade em situação . Toda a obra de Sartre tem
por finalidade, apresentar sob todos os aspectos, o que ele entende
por Existência autêntica da consciência condenada a uma liberdade
criadora.
Para compreender melhor o pensamento de Sartre, consideremos os três
sentidos principais da Existência.
Em primeiro lugar, temos o sentido "metafísico"de ente-pelo-qual (
ens-quo) e não de ente-que (ens quod), isto é, o sentido de parte
integrante da realidade já constituída e que se põe em atualidade, não
sendo por conseguinte a própria realidade. Está é a acepção daqueles
que, com a essência e existência, concebem a realidade, inclusive a
realidade humana, como ente finito cuja concreção resulta de uma
qüididade analógica em si mesma uma composição e dependência ônticas a
exigir fundamento último num Absoluto transcendente. A Ontologia
sartreana rechaça esta significação "metafísica"de Existência.
Em segundo lugar, o sentido ontológico, podendo vislumbrar-se aqui
entre a Existência "metafísica"e esta Existência "ontológica"uma
diferença análoga, embora deslocada, à diferença ontológica de
Heidegger. Com efeito, passa-se do campo ôntico nada simpático a
Sartre para o campo ontológico onde a Existência de modo nenhum se
pode assinalar e, muito menos, restringir ao "esse" escolástico, tendo
visto incluir já na sua própria noção a relação-para e também a
presença ativa do (meu) logos ou consciência. Uma presença que não
pode dar-se sem que se dêem ao mesmo tempo todas as coisas; uma
presença que se dá com simultânea e conseqüente negação de e em si de
todas as coisas: é o Nada. Compreende-se, pois, que em Sartre haja
primordialmente Ontologia. Só haveria Metafísica se pudesse
ultrapassar este campo e examinar a Existência onde ela não fosse, ao
mesmo tempo, presença e negação interna.
E por último, vem a Existência "existencialista", concreta, vivida. É
a Existência ontológica, não já na mente reflexiva, mas concretizada
na realidade do dia-a-dia, não definida por noções abstratas, mas que
se impõe com a sua presença real como a da raiz entumecida e disforme
que desperta Roquentin de A Náusea da irrealidade imaginária e lhe
revela algo de novo, a única coisa sempre nova que tudo descobre.
Existência que é consciência,existência que é projeto, existência que
é temporalidade, existência que é agir, existência que é
responsabilidade; existência que é realidade-humana, que não é só do
homem, mas sim deste homem, daquele homem, do negro americano, de
Orestes, do cidadão , do escritor Flaubert, do prisioneiro em campo de
concentração, do colonizado e dos planos da sua libertação, do
operário, do estudante. É esta, para a doutrina sartreana, a
Existência autêntica, digna dos esforços da investigação filosófica,
dos sacrifícios dos inconformistas que reagem contra a má-fé em toda a
atitude moral.
É a Existência que distingue, dentre os seres vivos, um cuja estrutura
implica uma Consciência com poder nadificante e que, por isso, é
Liberdade que cria a sua própria essência e os valores, organizando e
hierarquizando estes, e que é Espírito na plenitude do agir.
Não há Existência sem uma consciência que repila da sua estrutura
constitutiva o ser-em-si numa negação interna irreversível e seja, ao
mesmo tempo e por isso mesmo, um ser-para-si, isto é, uma Liberdade na
escolha fundamental da sua própria Existência que concretiza nas
escolhas parciais inevitáveis e na transcendência do mundo e do outro
a estabelecer o "circuito da ipseidade" no qual o Homem se realiza e
cria a sua essência. O outro inclui Deus para quem O queira admitir, a
Liberdade sartreana vai até ao ponto de supor possível essa
atitude-limite da má-fé, embora contraditória em si.
Todo fenômeno revela o ser-em-si e revela-o porque há uma Consciência
que não é nem pode ser nunca esse ser, uma consciência que é
ser-para-si , com poder nadificante e criador, isto é, uma
subjetividade livre pela qual há o Mundo e nele se introduz a negação,
se criam valores e é possível a ação; estabelecem-se relações
intersubjetivas e aparecem atitudes éticas , formam-se sociedades e
nelas se debatem e aplicam assuntos e problemas com os mais diversos
nomes: civilização, cultura, ensino, nações, governos, paz, guerras,
amor, ódio, etc. É o Espírito humano que, agindo modifica a face da
terra, modificando-se na afirmação perene do seu ser que consiste,
precisamente, em não se esgotar no que é, pois não é o que é e é o que
não é.
E uma vez que tratamos da Existência concreta, notemos desde já ,
certa precipitação dos que pretendem aproximar o Existencialismo de
Sartre com o Materialismo puro e simples. Não porque Sartre tenha
adotado a palavra Espírito para designar a Liberdade total da
consciência, mas porque divergem as características fundamentais das
duas teorias. Para o materialismo, o mundo é, por natureza, material e
a matéria, por conseguinte, o dado primário, sendo então a consciência
ou o espírito um dado secundário derivado, num salto
dialético-crítico, da matéria. Para Sartre, embora, admitindo o
primado ontológico do em-si, é todavia a consciência o dado primário,
sem o qual não haveria mundo nem matéria nem o próprio eu.
Verifica-se, pois, a distinção inconfundível nas suas respectivas
bases filosóficas entre o Existencialismo e o Materialismo. O
"acontecimento absoluto"do surgir do fundamento ou do para-si pela
nadificação do em-si" ( Sartre, l943,p.124-125), nada tem a ver com a
evolução dialético-progressiva dos materialistas e com o seu salto da
quantidade à qualidade. Por outro lado, essa subjetividade livre que,
na sua plenitude, Sartre, chama de "Espírito" , não é a subjetividade
espiritual, a qual , mesmo envolvendo um aspecto de negatividade
enquanto importa que o ser espiritual não fique fechado naquilo que é,
apresenta principalmente um aspecto de transcendência que abre à
Totalidade, um aspecto de profundidade inesgotável que, é senhora dos
seus atos.
Neste momento, Sartre emprega uma análise fenomenológica do modo de
ser da realidade-humana, a Existência nas suas manifestações. Segundo
Sartre, "o surgir do para-si como nadificação do em-si se constitui ao
mesmo tempo sob todas as dimensões possíveisde nadificação. O para-si
é o ser que, sendo, faz existir todas as dimensões possíveis de
nadificação" ( Sartre, l943,p.182). A Reflexão, a transcendência, o
ser-no-mundo e o ser-para-outro são diversos modos de nadificação, só
possível porque há consciência, manifestados da unidade nuclear do ser
pelo qual o Nada vem ao mundo. E, com o Nada, a multiplicidade. "O
em-si não é diverso nem múltiplo; para que haja multiplicidade como
característica do seu ser-no-meio-do-mundo, é necessário que surja um
ser que esteja presente ao mesmo tempo a cada em -si isolado na sua
identidade" .( Sartre, l943,p.182).
As três dimensões possíveis de nadificação: a) não ser aquilo que é;
b) ser aquilo que não é ; c) a unidade de uma perpétua implicação
mútua, ser o que não é e não ser o que é. Existem concretamente no
para-si, isto é, são a Existência concreta do para-si que se revela
como consciência e liberdade, como ser-para -outro, como ser sem
fundamento no ser, sem poder realizar a sua "paixão inútil" do
ser-em-si-para-si. Existência concreta que, manifestando-se com todas
as suas dimensões de nadificação, se temporaliza, se compromete, se
humaniza e procura humanizar todas as Existências concretas, embora
sempre perseguida pela angústia da responsabilidade por si e por todo
o mundo, pela náusea da sua contingência original e pelos fracassos da
sua realização.
Existir é ter de ser o seu ser para lá de tudo o que é. Todavia, se só
pelo para-si é que vem ao mundo o fundamento, também o para-si só do
Nada é fundamento e, neste sentido, ele é necessário, como necessário
é todo o fundamento, e destaca-se da sua contingência original de que
não pode nem libertar-se nem fundir-se nela. A Existência nunca será o
fundamento do ser que é, mas esse ser está lá: "l'en-soi ... demeure
au sein du pour-soi comme sa contingence originelle" ( Sartre, l943,p.124-125)
. Desse ser se separa o para-si pelo Nada da faticidade.
Pela contingência e faticidade, ele é para si próprio e é-o
irremediavelmente, gratuitamente. O seu ser é para ele , mas ele não é
para esse ser: à gratuidade da sua contingência original repugna tal
reciprocidade. O para-si não pode existir senão como superação
nadificante; a sua estrutura necessária, o ser perpetuamente
ultrapassado que ele "existe", ou que ele é sob a forma de ter de
sê-lo, é o passado.
O para-si não pode nunca considerar-se como não tendo um passado, até
pela razão óbvia de que ele não existe primeiro e depois surge no
mundo; o seu surgir no mundo, a sua Existência, dá-se na unidade
ek-stática de uma relação com o passado.
Para Sartre parece "absurdo" que a consciência "apareça", venha
habitar no embrião; absurdo que haja um momento em que o ser vivo em
formação não tenha consciência ou em que a consciência que, por
natureza, é subjetividade intencional relacional, não tenha ainda um
passado. E o absurdo persistirá se pretender-se que uma consciência
suponha uma consciência anterior petrificada no em-si. Só se
estabelece relação do para-si presente com o para-si tornando-se em-si
como reflexo da relação original do para-si com o em-si puro.
O para-si surge no mundo enquanto nadificação do em-si, o
"acontecimento absoluto" pelo qual simultaneamente se constitui o
passado com relação original do para-si ao em-si.
Assim, existir implica um ser relacional: o para-si constitui-se em
relação a um ser que não é consciência, " que existe na noite total da
identidade, e o para-si é obrigado a ser, fora dele, para lá dele" (
Sartre, l943,p.184) podendo dizer-se que o em-si é o que o para-si era
antes . Noite tenebrosa em que se perde a nossa Existência concreta na
solidariedade permanente com o embrião longínquo, com o em-si de
origem ainda mais distante. O embrião representa realmente o
limite-de-fato da memória e de toda a investigação , mas não o
limite-de-direito do meu passado. E aqui desponta inquietante o
insolúvel problema metafísico do nascimento: como é que eu nasci de
tal embrião?
É óbvio, que resta a explicação ontológica que supera o problema: a
consciência aparece como nadificação do em-si ou, como tendo já
nascido. O fenômeno do nascimento físico é apenas uma lei de ser do
para-si para o qual existir é ter nascido. Esta explicação só é válida
na análise fenomenológica , que Sartre usa incondicionalmente. Mesmo
no âmbito do problema metafísico, se torna ocioso interrogar sobre o
em-si de que se nasce, como era ele. É que qualquer interrogação só
ocorre, porque já surgiu o para-si: " Não há primeiro um tempo
universal dentro do qual apareceria de súbito um Para-si sem ter ainda
um passado. É a partir do nascimento, como lei de ser original e a
priori do Para-si, que se desvela um mundo com um tempo universal no
qual se pode designar um momento em que o Para-si não exista ainda e
um momento em que ele aparece, seres de que ele não nasceu e um ser de
que ele nasceu" ( Sartre, l943, p.185-186)
Parece que a Existência se converteu em enigma. A luz volta ao
filósofo se não esquecer-se de que o para- si tem de ser o que não é .
A consciência é consciência de alguma coisa, de uma árvore, por
exemplo. O que a consciência tem de ser sob o modo de para-si é, neste
caso, o não-ser-árvore; sendo consciência do que ela não é, a
consciência dá testemunho do não-ser, negação explícita que estabelece
a ligação de ser entre o objeto percebido e o para-si: " O Para-si
nada mais é que o nada translúcido que é negação da coisa percebida" (
Sartre, l943, p.186) .
Quanto ao passado, há que considerar outra perspectiva essencial: o
para-si dá-se como sendo o seu passado, não põe teticamente o seu
passado, pois só se pode pôr como tal aquilo que se não é. Mas sucede
ao contrário com o objeto, o mundo: este põe-no a consciência como
aquilo que ela não é, ao passo que o passado assume-o a consciência
como aquilo que ela é, destacada dele, sim, mas apenas pela natureza
do ser para-si que não pode ser nada sob forma de o ser totalmente.
Mas o problema, longe de desaparecer, parece tornar a complicar-se,
visto que o passado não é imanente ao para-si, embora esteja nele para
sempre desde o instante em que o para-si se assume como negação de
algo que percebe. O passado não é objeto de olhar do para-si, dirigido
para o futuro como projeto que o para-si é constitutivamente. O
passado uma coisa que se é, sem a pôr, está fora do campo temático,
está lá quase como contra o para-si que tem de o ser sem poder
afirmá-lo ou negá-lo, nem tematizá-lo ou absorvê-lo.
Pode ocorrer então uma dificuldade: como se estuda a História se o
passado não pode ser tematizado? Pode, com certeza; mas, nesse caso,
ele é objeto de pesquisa explícita do para -si que, por esse fato
mesmo, se afirma como não sendo o passado que agora põe teticamente.
De maneira originária, o para-si é o seu passado que não põe
teticamente ( o que não significa que não tenha dele consciência); de
maneira secundária, o seu passado é objeto e objeto tético do
conhecimento da consciência, continuando esta a não ser, por sua
natureza mesma, esse objeto. Confirma-o a experiência cotidiana; temos
por vezes consciência de algo de que não temos conhecimento tético: o
passado está lá, por exemplo, no rosto que contemplo e que já vi, mas
não consigo dizer quem é; na rua que percorro e que já não me é
estranha, mas da qual nem o nome conheço neste momento. Pois que o
passado é a minha ligação contingente e gratuita com o mundo e comigo,
enquanto a vivo continuamente como abandono total é o saber flexível,
insinuante, fonte de atividade intelectual, que constitui a trama de
todos os nossos pensamentos e que se compõe de mil indicações vazias,
de mil designações a despontar atrás de nós, sem imagem, sem palavra,
sem tese; é o meu passado concreto, enquanto eu o era, enquanto
irreparável profundidade para trás de todos os meus pensamentos e de
todos os meus sentimentos.
Longa explicação ontológica que Sartre sintetiza na linguagem simples
de conversa com Madeleine Chapsal: "A História faz o homem e o homem
faz a História"( Sartre, l965,p. 30 ).
A segunda dimensão ek-stática, ser o que não é , revela-nos o para-si
como falha e como aquele a quem a falha, visto ter de ser sem cessar
aquilo que é. Se cessase de o ser, teria sido, já não seria agora e
aqui, e estaríamos caídos no passado. A identidade é um peso que atira
para o passado; o para-si não pode deixar de ter de ser, precisamente
porque não é aquilo que é, tendo de ser aquilo que não é e de sê-lo
sem interrupção.
O presente manifesta assim o para-si como totalidade inacabada e
perenemente inacabada, o que condiz aliás com a característica
nadificante da sua liberdade, projeto contido para o futuro. O para-si
nunca cristaliza na identidade, aspira a ser e tem de ser
o-que-ainda-não-é. Assim se constitui também o valor que nunca poderá
consistir na identidade, inércia e atemporalidade do em-si: "A
eternidade, que o homem procura, não é a infinidade da duração , da vã
corrida para o ser, de que eu próprio sou responsável; mas é o repouso
em si , a atemporalidade da coincidência absoluta consigo" ( Sartre,
l943,p.188)2.
Mas o para-si, que pode parecer disperso pelas duas dimensões
ek-státicas anteriores, como refletido que reflete, como projetado que
projeta, unifica-se pela terceira dimensão: ao mesmo tempo, no mesmo
surgir absoluto, ele não-é-o-que-é-e-é-o-que-não-é. O seu ser está em
todo lado e não se encontra em nenhum, apresenta-se e escapa-nos "é
esta contradança do movimento de vaivém, de atração e repulsão no seio
do Para-si, que é a Presença do ser" ( Sartre, l943, p. 188).
O para-si, pelo fato mesmo de se nadificar, revela-se com as três
dimensões temporais manifestadoras, por sua vez, da contingência
original do acontecimento absoluto pelo qual ele surgiu. Não há
nenhuma prioridade ontológica a assimilar nas três dimensões, nenhuma
pode existir independentemente das outras.
Assim, ao mesmo tempo que se ilumina a consciência de ter alguém
nascido brasileiro (passado), ele assume-se e vive brasileiro
(presente) para se pro-jetar brasileiro e constituir autêntico valor
o-ser-brasileiro (futuro). Daí o compromisso, característica essencial
da Existência.
Em resumo, a Existência é a razão de ser de aspirações e projetos para
o que ainda não é, totalidade inacabada, insatisfação dinâmica que
procura vencer obstáculos na ânsia de uma liberdade respeitada e
respeitadora que garanta a dignidade humana de todos e crie aversão
sincera à violência. A Existência é compromisso perante o mundo a
valorizar e sobretudo perante outras consciências com as quais
sobressai a sua estrutura de ser relacional.
A estrutura relacional da Existência vem realçar e dramatizar a
oposição entre facticidade e transcendência. " A lei de ser do
Para-si, como fundamento ontológico da consciência, é de ser ele mesmo
sob a forma de presença-a-si" ( Sartre, l943, p.119).. A consciência,
com o seu poder nadificante, é causa da sua própria maneira de ser,
mas, por isso mesmo, ela exclui qualquer causa: nada é causa da
consciência. A presença-a-si da consciência não pode, pois, ser
explicada por nenhuma outra coisa que não seja ela própria e nem
sequer por ela própria. Com efeito: o para-si é, enquanto há nele algo
de que ele não é o fundamento: a sua presença ao mundo; o para-si é
presente unicamente a título de fato. E Sartre não pretende, de modo
algum, aprofundar esta idéia da faticidade; pelo contrário acabará
afirmando que : "na apreensão de nós mesmos por nós mesmos ,
aparecemo-nos com os caracteres de um fato injustificável" ( Sartre,
l943, p. 122) . Assim, o Para-si é sustentado por uma perpétua
contingência que ela toma à sua conta e se assimila sem jamais a
suprimir. Esta contingência perpétua está no Para-si como uma
recordação de ser, um vestígio saudoso mas nadificado e irrecuperável
para todo o sempre, que é causa precisamente da Náusea, provocada e
mantida pela angústia: "Assim como a minha liberdade nadificante tem
consciência de si própria pela angústia, assim o Para-si é consciente
da sua faticidade: tem o sentimento da sua inteira gratuitidade ,
apreende-se como estando lá para nada, como sendo a-mais" ( Sartre,
l943, p.124).
Mas, além da faticidade contingente, há que se considerar a evasão de
si, o ultrapassar-se a si, o opor-se a uma existência à maneira das
coisas consolidadas no ser. É a transcendência. E de fato, há no
Para-si a tendência, tomada como ideal , de ser o que é, e aqui radica
a má-fé. E quando dizemos que alguém é isto ou aquilo, podemos
esquecer que o ser do Para-si deve ser sempre posto em questão. Por
isso mesmo se afirma ser isto ou aquilo, por não haver evidência e por
parecer ao próprio Para-si ambígua a sua presença.
O Para-si pode interrogar-se sobre o seu ser fundamental. Mas, a
interrogação nadifica e exige uma resposta que ultrapasse tudo o que
seria em si mesmo para atingir apenas o que não pode ser senão para si
mesmo.
Temos, de novo, a angústia até a Náusea: sentindo-se presença-a-si, o
Para-si não pode nunca absorver-se no ser; sente igualmente a
distância de si: assim este ser perpetuamente ausente que assedia o
para-si é ele próprio endurecido em em-si. É a impossível síntese do
para-si e do em-si, pois ele seria o seu próprio fundamento não
enquanto Nada, mas enquanto Ser, e conservaria em si, ao mesmo tempo,
a translucidez necessária da consciência e a consciência consigo do
ser em-si. Conservaria em si o retorno a si que condiciona toda a
necessidade e todo o fundamento. Mas este retorno a si far-se-ia sem
distância, não seria de modo algum presença a si, mas identidade. A
realidade-humana surge como tal em presença da sua própria totalidade
ou de si como falha dessa totalidade.
O ser consolidado em si não pode existir no Para-si senão como
relação, nunca como ser substancial. O Para-si é totalidade inacabada,
pois que a totalidade perfeita contém a identidade a si e elimina a
distância de si; isto é, acabaria com a oposição dialética da
faticidade e da transcendência, uniria num ser os caracteres
incompatíveis do em-si e do para-si . É esta necessidade de ser , de
fundamentar a existência e torná-la necessária que Sartre exprime, nos
personagens de suas obras, como no Roquentin de A Náusea, no Goetz de
O Diabo e o Bom Deus, no Hugo de Mãos Sujas . Essa necessidade,
criando momentos perfeitos e aventuras densas e inexplicáveis em
diferentes contextos, acaba em drama angustiante que deve ser
conscientemente vivido.
Sartre não comete a violência lógica de negar a transcendência. A sua
formação kantiana dentro de um pensamento de base cartesiana leva-o a
ver no homem uma estrutura fundamental para a transcendência. Mas,
porque trata-se de uma transcendência sem objeto, ela resume-se na
distância-a-si do Para-si, num círculo em que é ultrapassado o mundo,
é ultrapassado o outro, se criam valores e a ação toma sentido de
realização objetiva, ao mesmo tempo que é realização do sujeito.
Tudo nasce da estrutura da Existência que fundamentalmente tende para
o em-si de que aliás teve origem ontológica. É a recordação do ser, é
uma certa nostalgia de uma transcendência hipostasiada mas que se
sente impossível, até mesmo contraditória, expressa com os termos:
falta, lacuna, vazio, etc., e que dá a essa mesma Existência o sabor
acrído da angústia e as vascas martirizantes da náusea.
E onde o chamar-se consciência infeliz, porque sempre atormentada e
atraída pela sua própria totalidade que ele é sem a poder ser. Ela não
é consciência até senão enquanto falha a respeito da totalidade. E
aqui temos a transcendência circunscrita ao próprio homem como
contradição dialética: presença-a-si na distância-de-si. E aqui está ,
mais uma vez, a inutilidade da aventura e da paixão humana, o fracasso
: " O para-si , no seu ser, é fracasso, porque não é fundamento senão
de si próprio enquanto Nada. O acontecimento puro pelo qual a
realidade-humana surge como presença ao mundo é apreendida por si como
sua própria falha de ser. A realidade-humana apreende-se no seu surgir
na existência como ser incompleto" ( Sartre, l943, p.132).
Como compreender , a Existência que começa por impotência de dar
significado à vida até ao uso da razão e termina com a mesma súbita
impotência? para Sartre, a Existência não se explica nem define:
vive-se apenas e vive-se de tal modo que é por ela que aparece o
mundo, a verdade, o fundamento, a transcendência, o amor e a
sociedade. A Existência tem de ser corajosamente assumida e realizada
na liberdade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. SARTRE, Jean-Paul. La Nausée. Paris, Gallimard, l938.
2. _______. L'Être et le Néant- Essai d' Ontologie Phénoménologique.
Paris, Gallimard, l943.
3. _______. Baudelaire. Paris. Gallimard, l947.
4. _______. Les Mains Sales, Paris, Gallimard, l948.
5. _______. Le Diable et le Bon Dieu. Paris, Gallimard, l951.
6. _______. Saint Genet, Comédien et Martyr, Paris, Gallimard, l952.
7. _______. L'Existentialisme est un Humanisme. Paris, Nagel, l954.
8. _______. Situations VII. Paris. Galimard, l965.
Professora
Cléa Gois e Silva
Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
-UERJ
DCH da Universidade Veiga de Almeida - UVA
Conheça os Psicoterapeutas Existenciais na Internet
Iinscreva-se
no Curso à Distância:
Curso
de Introdução ao Existencialismo
Estude
sem sair de casa
LIVROS
RECOMENDADOS
|