EDIÇÃO ESPECIAL

Caderno de Psicoterapia Existencial

 

ARTIGO

 

Jean-Paul Sartre: da Liberdade à Consciência
Cléa Gois e Silva

Existencialismo ou a filosofia da existência é uma vasta corrente filosófica contemporânea que se afirma na Europa logo após a Primeira Guerra Mundial, se impõe no período entre as duas guerras e se desenvolve ainda mais e se expande até tornar-se moda sobretudo nas duas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial. Assim, se consideramos o tempo de seu nascimento e de seu crescimento, é fácil perceber que o existencialismo expressa e leva à conscientização a situação histórica de uma Europa dilacerada física e moralmente por duas guerras, de uma humanidade européia que, entre as duas guerras, experimentam em muitas de suas populações a perda da liberdade, com regimes totalitários.

A época do existencialismo é época de crise: a crise daquele otimismo romântico que, durante todo o século XIX e a primeira década do século XX, garantia o sentido da história em nome da Razão, do Absoluto, da Idéia ou da Humanidade, fundamentava valores estáveis e assegurava um progresso certo e incontível. O idealismo, o positivismo e o marxismo são todas filosofias otimistas, que presumem ter captado o princípio da realidade e o sentido progressivo absoluto da história. O existencialismo, porém, considera o homem como ser finito, lançado no mundo e continuamente dilacerado por situações problemáticas ou absurdas. E é precisamente pelo homem, o homem em sua singularidade, que o existencialismo se interessa. O homem do existencialismo não é o objeto que exemplifica uma teoria, um membro de uma classe ou um exemplar de gênero substituível por outro exemplar qualquer do mesmo gênero. Da mesma forma, o homem considerado pela filosofia da existência também não é simples momento do processo de uma Razão oniabrangente ou uma dedução do Sistema. A existência é indedutível e a realidade não se identifica com a racionalidade e nem se reduz a ela.

A não identificação da realidade com a racionalidade é acompanhada, como elemento característico, por três pontos básicos do pensamento existencialista, que são: a) a centralidade da existência como modo de ser daquele ente finito que é o homem; b) a transcendência do ser - o mundo e/ou Deus - com o qual a existência se relaciona; c) a possibilidade como modo de ser constitutivo da existência e, como categoria insubstituível na análise da própria existência.

Mas como se qualifica o conceito de existência no interior do existencialismo? A primeira coisa que se deve destacar é que a existência é constituída do sujeito que filosofa e o único sujeito que filosofa é o homem: por isso, ela é exclusivamente típica do homem, já que o homem é o único sujeito a filosofar. Além disso , a existência é modo de ser finito e é possibilidade, isto é, um poder-ser. A existência, precisamente, não é essência, coisa dada por natureza, realidade predeterminada e não modificável . As coisas e os animais são o que são e permanecem o que são. Mas o homem será o que ele decidiu ser. O seu modo de ser, a existência, é um sair para fora em direção à decisão e à automoldagem. Assim, a existência é um poder-ser e, portanto, é incerteza, problematicidade, risco, decisão, impulso adiante. Este impulso pode ser em direção a Deus, ao mundo, ao próprio homem, a liberdade, ao nada. Aqui começam a se dividir as correntes do existencialismo conforme a direção tomada.

Na perspectiva da história das idéias, o existencialismo se apresenta como uma das manifestações da grande crise do hegelianismo, manifestações que se expressam no pessimismo de Schopenhauer, no humanismo de Feuerbach e na filosofia de Nietzsche e que , por outro lado, encontram sua correspondência na obra literária de Dostojewskij e de Kafka, obra permeada de tão profunda problematicidade humana .

Nas raízes do existencialismo encontra-se o pensamento de Kierkegaard. O chamado renascimento Kierkegaardiano constitui a divisa da nova tendência teológica do cristianismo reformado e teve a sua melhor expressão na obra de Karl Barth. Sua obra mais importante é o comentário à Epístola de São Paulo, Carta aos Romanos ( 1919), refere-se explicitamente à especulação de Kierkegaard e é uma tentativa de traduzir nas formas de tal especulação um cristianismo depurado dos seus aspectos míticos e farisaicos. Escreveu Barth " Se tenho um sistema, ele consiste em ter constantemente presente no seu significado negativo e positivo aquilo a que Kierkegaaard chamou a infinita diferença qualitativa entre tempo e eternidade. Deus está no céu e nós na terra. A relação entre este Deus e o homem, a relação entre o homem e este Deus é para mim o tema único da Bíblia e da filosofia " ( pp. XIII). Mas esta relação é o único tema da Bíblia e da filosofia porque constitui a própria existência do homem.

Se Kierkegaard é a raiz do existencialismo, a Fenomenologia é a raiz mais próxima ainda do existencialismo. Com efeito, o existencialismo se articula em contínuo exercício de análise da existência e das relações da existência humana com o mundo das coisas e o mundo dos homens. A existência humana não pode e não deve ser deduzida a priori; ao contrário, ela deve ser escrupulosamente descrita assim como se manifestam suas variadas formas da experiência humana efetiva, esta descrição é a aplicação do método fenomenológico .

A análise da existência não foi objeto somente de obras filosóficas, como é o caso da analítica existencial realizada com o métoto fenomenológico por Heidegger em Ser e Tempo , mas também de vasta obra literária que , sobretudo com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, sublinhou os traços menos nobres, mais tristes e dolorosos das vicissitudes humanas e, com Gabriel Marcel, destacou os traços mais positivos da experiência da pessoa.

Na França, os representante do existencialismo são Jean-Paul Sartre, Gabriel Marcel, Maurice Merleau-Ponty e Albert Camus.

No imediato após guerra, o pensamento de Jean-Paul Sartre, nascido em Paris em 1905, se impôs ao público mundial durante cerca de duas décadas, graças ao seu teatro de situações, influindo amplamente na sociedade e nos costumes.

Sartre iniciou a sua atividade de pensador com análises de psicologia fenomenológica relativas ao eu, à imaginação , às emoções. Para Sartre, em A Náusea, a vida da personagem de Roquentin é desprovida de sentido; nenhum objetivo consegue mais orientá-lo; ele existe como uma coisa, como todas as coisas que emergem, na experiência da náusea, em sua gratuidade e em seu absurdo: um sujeito sem sentido cancela de golpe o sentido de todas as coisas e passam a faltar instruções para o seu uso. Tudo é gratuito, e quando acontece de nos darmos conta disso, revolta-nos o estomago e tudo se põe a flutuar, eis a Náusea.

Se a experiência da náusea revela a gratuidade das coisas e do homem reduzido a coisa e submerso nas coisas, a análise desenvolvida em O Ser e o Nada revela, antes de mais nada, que a consciência é em primeiro lugar consciência de alguma coisa e de qualquer coisa que não é consciência. Sartre chama a este qualquer coisa de ser-em-si. O ser-em-si só pode descrever-se analiticamente como "o ser que é aquilo que é "( p.33), expressão que torna clara a sua opacidade, o seu caráter maciço e estático devido ao qual não é nem possível nem necessário, é simplesmente. Relativamente ao ser-em -si a consciência é o ser-para-si , isto é, presença a si mesma. A presença a si mesma implica sua cisão, uma separação interior no ser da consciência. Uma crença, por exemplo, é como tal, sempre consciência da crença; mas, para a atingir como crença, é preciso de qualquer modo fixá-la como crença, separá-la da consciência, a que é presente. Separá-la através do Nada. Nada existe e pode existir a separar o sujeito de si mesmo. A distância ideal , o lapso de tempo, a diferença psicológica implicam certamente, como tais, elementos de positividade; mas a sua função é sempre negativa. O nada que surge no coração da consciência não é , mas sim foi . A consciência está no mundo, no ser-em-si, mas é radicalmente diferente do mundo, não está ligada ao mundo. A consciência, que vem a ser a existência, isto é, o homem, é portanto, absolutamente livre. O ser-em-si é o ser que é o que é; a consciência não é objeto. O ser pleno e completo; a consciência é vazia de ser, é possibilidade, e a possibilidade não é realidade. A consciência é liberdade.

A liberdade, segundo Sartre , é a possibilidade permanente daquela ruptura ou nulificação do mundo que é a própria estrutura da existência. "Eu estou condenado, a existir para sempre para além da minha essência, para além dos móbiles ou moventes e dos motivos do meu ato: eu estou condenado a ser livre. "(p.515) Isto significa que não se pode encontrar para a minha liberdade outros limites além da própria liberdade: ou, se se preferir, que não somos livres de deixar de ser livres. A liberdade não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo: radica na mais íntima estrutura da existência, é a própria existência. Um existente que , como consciência, está necessariamente separado de todos os outros, já que esses se encontram em relação com ele apenas na medida em que existem para ele, um existente que decide do seu passado, sob forma de tradição, à luz do seu futuro, em vez de deixá-lo pura e simplesmente determinar o seu presente, um existente que se perspectiva através de algo distinto de si, isto é, de um fim que não é e que ele projeta no outro lado do mundo, eis aquilo a que chamamos um existente livre. É evidente que a liberdade não se refere tanto aos atos e às volições particulares como ao projeto fundamental em que eles se encontram compreendidos, o qual constitui a possibilidade última da realidade humana, a sua escolha originária. O projeto fundamental deixa sem dúvida uma certa margem de contingência às volições e aos atos particulares, mas a liberdade originária é aquela que é inerente à escolha do próprio projeto. E é uma liberdade incondicionada. A modificação do projeto inicial é a todo momento possível. A angústia que, quando revelada, manifesta à nossa consciência a nossa liberdade, testemunha a modificabilidade perpétua do nosso projeto inicial. Nós estamos perpetuamente ameaçados de nulificação da nossa escolha atual, perpetuamente ameaçados de escolhermos ser, e portanto tornar-mo-nos, diferentes do que somos. A nossa escolha é frágil pelo simples fato de ser absoluta: assentando sobre a escolha a nossa liberdade, colocamos simultaneamente a sua perpétua possibilidade de tornar-se um aquém ultrapassado pelo além que eu serei. Certamente, a liberdade do projeto inicial não é a possibilidade de fugir ao mundo e anular o próprio mundo. Se a liberdade significa fugir ao dado ou ao facto, ela é o facto do fugir ao facto. A liberdade permanece nos limites da factualidade, isto é, do mundo. Mas esta factualidade é indeterminada: a liberdade põe o mundo em ser com a sua escolha. Por isso o homem é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser. Tudo o que acontece no mundo reporta-se à liberdade e à responsabilidade da escolha originária; por isso, nada daquilo que acontece ao homem pode ser dito inumano. As mais atrozes situações da guerra, as piores torturas não criam de fato um estado de coisas inumano. Não existe aí uma situação inumana: somente pelo medo, pela fuga ou pelo recurso a comportamento mágicos, decidiremos sobre aquilo que é inumano; mas esta decisão é humana e dela terei inteira responsabilidade. Sou eu que decido sobre a adversidade das coisas e até da sua imprevisibilidade decidindo de mim própria. Não existem casos acidentais: um acontecimento social que ocorre subitamente e me arrasta não é exterior a mim; se sou mobilizada para uma greve, esta é a minha greve, a minha própria imagem, e eu mereço-a . Mereço-a por que a escolhi, trata-se sempre de uma escolha.

É o homem, que se escolhe: a sua liberdade é incondicional e ele pode mudar seu projeto original ou inicial a qualquer momento. E, assim como a náusea constitui aquela experiência metafísica que revela a gratuidade e o absurdo das coisas, da mesma forma a angústia , como já dissemos, é a experiência metafísica do nada, isto é, da liberdade incondicional. Com efeito, o homem e só o homem é o ser para o qual todos os valores existem.

As coisas do mundo são gratuitas e um valor não é superior a outro. As coisas são desprovidas de sentido e fundamento e as ações dos homens são desprovidas de valor. Em suma, a vida é uma aventura absurda, onde o homem se projeta continuamente além de si mesmo, como para tornar-se deus. Escreve Sartre: "o homem é o ser que projeta ser Deus, mas, na realidade, ele se mostra como aquilo que é, uma paixão inútil "
(p.515) O homem é fundamentalmente desejo de ser Deus. Deus não é senão este desejo mal sucedido. O ser-em-si do mundo e o ser-para-si da consciência se encontram num estado de perpétua ruptura com relação a uma síntese ideal que jamais existiu, mas que é sempre indicada, embora sempre impossível.

A liberdade consiste na escolha do próprio ser. E essa escolha é absurda. Assim o existencialismo sartreano afirmava a realidade dos homens, através da consciência como liberdade.


Bibliografia

SARTRE, Jean-Paul. L'Être et le N'éant - Essai d'Ontologie Phénoménologique. Paris. Gallimard, 1953.
_______. La Nausée. Paris. Gallimard, 1938

 

Professora Cléa Gois e Silva
Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro -UERJ
DCH da Universidade Veiga de Almeida - UVA


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