| ARTIGO |
| O Paradoxo do Homem como Liberdade no Existencialismo de Jean-Paul Sartre | |
| Cléa Gois e Silva | |
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INTRODUÇÃO A consciência como ser no mundo, a consciência nas situações, o mundo como mundo de utensílios, são os principais conceitos que Sartre utilizava nas suas análises fenomenológicas; mas são conceitos que, nesta forma, deixam de pertencer à fenomenologia para pertencerem à análise existencial, que é precisamente aquela que se relaciona com o ser do mundo. Desde as suas primeiras obras, Sartre não foi um fenomenólogo mas um existencialista. A
ontologia da consciência entendida como ser no mundo é
o fim nítido da principal obra de Sartre O Ser e o Nada . A
consciência é em primeiro lugar consciência de
qualquer coisa e de qualquer coisa que não é consciência.
Sartre chama a este qualquer coisa ser-em-si. O ser-em-si só
pode descrever-se analiticamente como "o ser que é aquilo
que é", expressão que torna clara a sua opacidade,
o seu caráter maciço e estático devido ao qual
não é nem possível nem necessário, é
pura positividade, é simplesmente".7 Relativamente ao
ser em si a consciência é o "ser-para-si, isto é,
presença a si mesma"8 .A presença a si mesma implica
uma cisão, uma separação interior , no ser da
consciência. Uma crença, por exemplo, é, como
tal, sempre consciência da crença; mas para a atingir
como crença, é preciso de qualquer modo fixá-la
como tal, separá-la da consciência, a que é presente.
Separá-la através de que? De nada . Nada existe e pode
existir a separar o sujeito de si mesmo. A distância ideal,
o lapso de tempo, a diferença psicológica implicam certamente
, como tais, elementos de positividade; mas a sua função
é sempre negativa. "A fissura interior à consciência
é nada fora daquilo que nega e só pode ter o ser enquanto
não vista, este negativo, que é um nada de ser, e ao
mesmo tempo um poder nulificante, é o nada. Em nenhum lugar
o poderemos atingir numa tal pureza. Em toda a parte, é preciso,
de um modo ou de outro, conferir-lhe o ser-em-si enquanto nada. Mas
o nada que surge no coração da consciência não
é , mas sim foi "9. Condicionando a estrutura da consciência,
o nada condiciona a totalidade do ser, que o é apenas pela
consciência e na consciência. Sartre realça o significado
negativo dos termos aparentemente positivos com os quais Heidegger
descreve ou caracteriza a existência. Que o Dasein esteja fora
de si, no mundo, que seja "um ser da distância, que seja
cuidado, que seja as suas próprias possibilidades, equivale
a dizer, segundo Sartre, que ele não é em si, que não
é a si mesmo numa proximidade imediata e que ultrapassa o mundo
na medida em que se coloca a si mesmo como não existente em
si e como não existente no mundo "10. Estas características
pertencem todas ao ser-para-si, isto é, ao ser da consciência.
Daqui deriva a tese fundamental de Sartre: o ser devido ao qual o
nada surge no mundo deve ser o seu próprio nada. A consciência
é o seu próprio nada na medida em que se determina perpetuamente
a não ser o em-si. Ela funda-se a si mesma enquanto rejeita
de si um certo ser ou uma certa maneira de ser. Em primeiro lugar,
nega o ser-em-si; e em segundo lugar nega ou nulifica o seu para-si
e constitui-se precisamente através desta nulificação
e da presença nela daquilo que nulifica, exatamente a título
de nulificado. O se como ser-em-si falhado é o sentido da realidade
humana. O fato de a realidade humana ser nulificação,
falta de ser, é já suficientemente demonstrado pelo
desejo: este só pode ser explicado como falta própria
do ser que deseja, isto é, como uma necessidade de se completar.
Ao ser referido à consciência, a própria realidade
objetiva ( o ser-em-si) é afetado por aquela falta e nulifica-se
a si mesma. Por seu lado, o ser-em-si é sempre completo, sempre
cheio. A um círculo incompleto, a um quarto de lua, não
falta verdadeiramente nada: são aquilo que são. Só
a consciência lhes atribui uma falta na medida em que espera
ou pretende o seu complemento, aquilo que não é. Todos
os aspectos da realidade humana são interpretados por Sartre
de forma análoga. O fato de a realidade humana ser constituída
por possíveis significa apenas que é constituída
pela falta de qualquer coisa que a completaria. "o possível
é aquilo que falta ao para-si para ser si" 11 , isto é,
é aquilo que falta ao sujeito para ser objeto e que só
existe, portanto, a título de falta ou de deficiência.
O mesmo acontece com o valor , que o é enquanto não
é; isto porque , mesmo quando toma corpo ou é intuído
em certos atos, está para além deles e constitui o limite
ou o termo para que eles tendem. Como valor, o valor nunca é,
visto estar sempre para além daquilo que é; o seu ser
consiste em ser o fundamento do seu próprio nada, isto é,
o fundamento daqueles atos ou situações que tendem para
ele, mas em que ele, como valor, não é. O conhecimento,
pelo qual o objeto ( o em-si) se apresenta à consciência
( para-si), é do mesmo modo uma relação de nulificação:
o objeto só se pode apresentar à consciência como
aquilo que não é consciência. Ainda de forma análoga,
a outra existência só o é na medida em que não
é a minha: esta negação é a estrutura
constitutiva do ser outro. Nesse caso, a negação é
mesmo recíproca. Não só devo negar o outro em
relação a mim mesmo, a fim de que o outro exista, mas
é ainda necessário que o outro me negue relativamente
a ele próprio, simultaneamente com a minha própria negação. Para Sartre, a existência desagrega e nulifica a realidade de fato e afirma-se sobre ela como poder absoluto. A filosofia de Sartre é uma filosofia da liberdade absoluta que pretende dissolver e anular toda a necessidade. A liberdade, segundo Sartre , é a possibilidade permanente daquela nulificação do mundo que é a própria estrutura da existência. "Estou condenado, a existir para sempre para além da minha essência, para além dos móbiles e dos motivos do meu ato: eu estou condenado a ser livre"12 . Isto significa que não se podem encontrar para a minha liberdade outros limites além da própria liberdade: ou, que não somos livres de deixar de ser livres. A liberdade não é o arbítrio ou o capricho momentâneo do indivíduo: radica na mais intima estrutura da existência, é a própria existência. Um existente que, como consciência, está necessariamente separado de todos os outros, já que esses se encontram em relação com ele apenas na medida em que existem para ele, um existente que decide do seu passado, sob forma de tradição, à luz do seu futuro, em vez de deixá-lo pura e simplesmente determinar o seu presente, um existente que se perspectiva através de algo distinto de si, isto é, de um fim que não é e que ele projeta no outro lado do mundo, eis aquilo, a que chamamos um existente livre. É evidente que a liberdade não se refere tanto aos atos e às volições particulares como ao projeto fundamental em que eles se encontram compreendidos, o qual constitui a possibilidade última da realidade humana, a sua escolha originária. O projeto fundamental deixa sem dúvida uma certa margem de contingência às volições e aos atos particulares, mas a liberdade originária é aquela que é inerente à escolha do próprio projeto. E é uma liberdade incondicionada. A modificação do projeto inicial é a todo o momento possível. " A angústia que, quando revelada , manifesta à nossa consciência a nossa liberdade, testemunha a modificabilidade perpétua do nosso projeto inicial "13. Nós estamos perpétuamente ameaçados de nulificação da nossa escolha atual, perpétuamente ameaçados de escolhermos ser, e portanto torna-mo-nos, diferentes do que somos. A nossa opção é frágil pelo simples fato de ser absoluta: assentando sobre ela a nossa liberdade, colocamos simultaneamente a sua perpétua possibilidade de tornar-se um aquém ultrapassado pelo além que eu serei. Certamente, a liberdade do projeto inicial não é a possibilidade de fugir ao mundo e anular o próprio mundo. Se a liberdade significa fugir ao dado ou ao fato, ela é o fato do fugir ao fato. A liberdade permanece nos limites da factualidade, , isto é, do mundo. Mas esta factualidade é indeterminada: a liberdade põe-na em ser com a sua escolha. Por isso o homem é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser. Tudo o que acontece no mundo reporta-se à liberdade e à responsabilidade da escolha originária; por isso, nada daquilo que acontece ao homem pode ser dito inumano. Não existe aí uma situação inumana: somente pelo medo, pela fuga ou pelo recurso a comportamentos mágicos, eu decidirei sobre aquilo que é inumano; mas esta decisão é humana e dela terei inteira responsabilidade. Sou eu que decido do coeficiente de adversidade das coisas e até da sua imprevisibilidade decidindo de mim própria. Não existem casos acidentais: um acontecimento social que se me depara subitamente e me arrasta não é exterior a mim; se sou mobilizada para uma guerra, esta é a minha guerra, a minha imagem, e eu mereço-a: " Mereço-a em primeiro lugar porque poderia subtrair-me a ela suicidando-me ou desertando; devemos ter sempre presentes estas possibilidades últimas quando temos de enfrentar uma situação. Se não me subtraí a ela, é porque a escolhi: talvez que o tenha feito apenas por fraqueza perante a opinião pública, dado que prefiro certos valores à recusa de entrar na guerra. Mas de qualquer modo, trata-se sempre de uma opção"14. Os atos , decisões e escolhas particulares repõem sistematicamente em questão a escolha originária, o projeto fundamental, que por sua vez determina dentro de certos limites as opções , as volições e os atos particulares. Sartre pensa que a estrutura ontológica do projeto fundamental deve ser atingida através de uma Psicanálise Existencial , diferente da psicanálise de Freud sobretudo porque a sua justificação última consiste em reconhecer a existência, não de uma força instintiva que atua mecanicamente, mas sim de uma escolha livre. Para a psicanálise existencial, projeto de ser, possibilidade, valor são termos equivalentes que exprimem, todos, o fato fundamental de que o homem é desejo de ser. Mas desejo de qual ser? Evidentemente do ser-em-si, já que o ser-para-si ( o ser da consciência) é um puro nada. Mas como desejo de ser-em-si ( isto é, do ser objetivo, de fato), a consciência tende para o ideal de uma consciência que seja, com a pura consciência de si mesma, o fundamento do seu próprio ser-em-si. Ora este ideal é aquilo a que se pode chamar Deus. "Pode-se dizer então que aquilo que torna mais concebível o projeto fundamental da realidade humana é o fato de que o homem é o ser que projeta ser Deus. Quaisquer que sejam os mitos e os ritos da religião considerada, Deus é em primeiro lugar 'sensível ao coração' do homem como sendo aquilo que o anuncia e o define no seu projeto último e fundamental."15 . Ser homem significa tender para deus; o homem é fundamentalmente desejo de ser Deus. No entanto, o homem é um Deus falhado. Tudo parece indicar que o ser-em-si do mundo e o ser-para-si da consciência se apresentam num estado de desintegração relativamente a uma síntese ideal que nunca teve lugar mas que é sempre indicadae sempre impossível. O seu perpétuo fracasso explica simultaneamente a indissolubilidade do em-si e do para-si e a sua relativa independência. A passagem entre o para-si e o em-si é de fato impossível; e no entanto, é a passagem para que tende incessantemente a ação humana. O problema da ação pressupõe a dilucidação da eficácia transcendente da consciência e põe-nos no caminho da sua verdadeira relação com o ser. Uma ética apresenta-se assim como o complemento necessário da ontologia. Esta moral deverá prescindir do espírito de seriedade, isto é, da tendência para considerar as coisas já providas do seu valor e o valor como um dado transcendente, independente da subjetividade humana. Admitir o princípio de que só o homem é o ser para quem os valores existem não é possível, a não ser que se tenha em conta o fato de todas as atividades humanas serem equivalentes, dado que todas tendem a sacrificar o homem para fazer surgir a causa de si, e que todas estão voltadas, em princípio, ao fracasso. "No fundo, é a mesma coisa embebedar-se sozinho ou conduzir os povos. Se uma destas atividades é superior à outra, não é devido à sua finalidade real mas sim devido à consciência que possui da sua finalidade ideal; e neste caso a imobilidade do bêbado solitário é superior à vã agitação do condutor de povos". 16 A
ontologia de Sartre não consegue disfarçar, uma inelutável
compulsão à transformação do homem. Uma
primeira razão para compreendê-lo pode ser vista na presença
do problema moral , como já mencionamos , em seu livro O Ser
e o Nada . E, de um modo geral, embora não seja explicitado,
o problema ético está mais presente nas análises
de Sartre ; não é por acaso que ele conclui o seu livro
com uma longa série de perguntas que "só podem
encontrar uma resposta no terreno moral "17 . Realmente, toda
a análise existencial de Sartre conduz necessária e
obrigatoriamente a uma ética. Além disso, ao longo de
todo o livro, é flagrante o profundo inconformismo de Sartre
em face da condição, usual do homem. Com certeza, o
seu pro-jeto mais original se concentra na exigência de transformação
do homem. Considerada como prolegômenos a uma ética futura, a filosofia de O Ser e o Nada autoriza dois tipos fundamentais de relação . A primeira é a relação do sujeito consigo mesmo, visto que o para-si se manifesta antes de mais nada como presença a si; toda moral só pode descobrir seu fundamento na subjetividade do sujeito. A outra relação é a de sujeito-objeto; em última instância, não há uma relação intersubjetiva no existencialismo, pois, o conflito que preside ao relacionamento com o outro termina por frustrar qualquer tentativa de superar a categoria do objeto. Convém acrescentar que, se a negação determina a relação, a rigor, a relação se nega a si própria: uma relação negativamente determinada não chega a ser propriamente uma relação . De qualquer forma, esses dois tipos de relação constituem o palco em que se desenvolve o comportamento moral do homem e em que se apresentam basilares da ética: liberdade, valor , compromisso, responsabilidade e, de um modo geral, a ação humana. O para-si é liberdade compreendida como autonomia de escolha, e Sartre leva essa autonomia às suas últimas implicações. Por ela, determina-se o conceito-chave da ética: o valor. Se a liberdade é absoluta , o valor não poderia apresentar consistência objetiva; muito pelo contrário, o valor brota da subjetividade. A ontologia e a psicanálise existencial devem mostrar ao homem que "ele é o ser pelo qual os valores existem".21 E note-se que por homem se entende a individualidade subjetiva. Com efeito, o valor exige um fundamento; mas o fundamento não poderia ser o ser, pois se o fosse, desde que o homem se norteia por valores , o comportamento instauraria a má-fé e destruiria a liberdade. Segue-se que a liberdade é o único fundamento dos valores e que nada, absolutamente nada, me justifica ao adotar tal ou tal valor, tal ou tal escala de valores. Enquanto ser pelo qual os valores existem eu sou injustificável. E minha liberdade se angustia de ser o fundamento sem fundamento dos valores. Assim como não há natureza humana que determina o que o homem deve fazer, também não há uma ordem pré-estabelecida de valores. Desse modo, o valor encontra a sua gênese no ato livre, é absolutamente indeterminado: escolher é inventar. Disso resulta que o homem é apenas seu projeto, só existe na medida em que se realiza, ele é tão-somente o conjunto de seus atos. De um ponto de vista negativo, a má-fé polariza a grande preocupação dessa doutrina. Sartre busca pensar o fato da subjetividade até os seus limites mais extremos , e para ele isso significa a necessidade de excluir a categoria do objeto. Quando o homem se deixa determinar pelo objeto, ou por uma objetividade que se pretende autônomas, assume "l'esprit de sérieux" ; parte-se então, do mundo e se atribui mais realidade ao mundo que a si mesmo. Segundo Sartre, Marx colocou o dogma primeiro do sério quando afirmou a prioridade do objeto sobre o sujeito, e o homem é sério quando se toma por um objeto. Essa seriedade define precisamente a má-fé , que bloqueia a espontaneidade inventiva dos atos. Por essa razão, Sartre recusa toda a moral tradicional , que é livre para o mal e não para o bem, que é livre para o erro e não para a verdade. Bem e mal, verdade e erro devem ser invenções do homem. Nesse sentido, liberdade se faz sinônimo de libertação. Mas cabe então perguntar: libertação do que ? Libertação
, antes de mais nada, de tudo o que não se confunde com a própria
subjetividade. Mas libertação também de si mesmo.
Inventar um determinismo é como que introduzir o em-si no fundamento
do para-si , numa tentativa de coincidir absolutamente consigo mesmo
e, em consequencia, de justificar -se na condição de
objetividade. No entanto, a liberdade é fuga de si, é
manter-se à distância de si próprio e haver-se
com a angústia de não poder ser. "Uma liberdade
que se quer como liberdade é um ser-que-não-é-o-que-ele-é
e que-é-o-que-ele-não-é que escolhe, como ideal
de ser , o ser-o-que-ele-não-é e o não-ser-o-que-ele-é."22
Isso quer dizer, enfim, que a realidade humana nunca está realmente
em casa, e quando pensa que está , incide em má-fé.
O homem se habita perpétuamente como um estranho. Este
mesmo individualismo se aplica à acepção sartriana
do compromisso. "Cada vez que o homem escolhe seu compromisso
e seu projeto com toda sinceridade e com toda lucidez, qualquer que
seja esse projeto, torna-se-lhe impossível preferir um outro".
27 Aqui também , o fundamento do compromisso sofre uma determinação
negativa, pois só se esclarece a partir da subjetividade instauradora;
a pressão das circunstâncias se faz pressão enquanto
nadificada pelo para-si. Nesse caso não se percebe como realmente
se pode verificar o compromisso; se a possível objetividade
do valor é determinada pelo para-si, então o homem só
se compromete consigo mesmo. E dizer que o homem pode julgar o outro,
reconhecendo, por exemplo, que ao afirmar "querer a liberdade,
nós descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade dos
outros "28 , não é suficiente para que se justifique
o compromisso ou a responsabilidade; a concepção sartriana
do homem não permite ao para-si " aderir " a nada,
precisamente porque ele só é, só tem ser, pelo
nada, e seu desenraizamento termina sendo total. Se a lucidez é
critério absoluto, o teor objetivo do projeto torna-se indiferente,
resvalando para uma neutralidade que tudo justifica. Sartre, quando escreveu O Ser e o Nada (l943) , manifestou a intenção de consagrar um estudo ao problema da moral. Desse projeto deixou indicações esparsas em várias obras, entre as quais os Cahiers pour une morale , que foram escritos durante os anos de l947 e l948, e publicado em l983. A moral de sartre é uma moral indiferente às distinções do bem e do mal. Ela assume suas responsabilidades frente a uma determinada realidade humana. É a moral da situação. Segundo os preceitos dessa moral, os valores não existem em si. São criados pelo homem. Consciente de sua liberdade, ele descobre angustiado que é a única fonte de valor. Como Sartre não admite a existência de Deus, com isso desaparece a possibilidade de existirem valores a priori , porque não há quem os pense. E Sartre, convencido de que Deus não existe, admite que não existem valores diante de nós e que tudo nos será permitido. Conclui-se que o fundamento dessa moral é precisamente a ausência de toda norma moral , consubstanciada na ausência de Deus e na liberdade absoluta do homem. Sartre
traça livremente o projeto de sua vida, sem interferência
de normas preestabelecidas. As suas decisões dependem apenas
dele em cada situação. É o que projeta ser e
só existe à medida que se realiza. Ela se define e se
constrói pela ação, dentro da relatividade cultural
da época em que vive. Face às pressões, deve
agir com autenticidade para legitimação de sua conduta.
sartre classifica de indecentes aqueles que se comportam com má-fé.
Sartre declara que" não quer compreender o mundo, mas quer mudá-lo. É a idéia de uma filosofia engajada na realização. E completa o pensamento dizendo que o mundo não existe somente para ser mudado, mas para ser descoberto. Ser descoberto ao ser mudado. O mais profundo mistério consiste talvez em que sejamos nós que o criamos." 29 Sartre setencia que a moral deve ser histórica. Exalta a criação de uma moral relativa, na qual o senhor se reconhece como a fonte da moral e se coloca acima de toda moral. Nessa relação feudal de homem a homem, o servo descobre-se como inessencial em face do senhor que é essencial. A
história e a moral histórica devem se preocupar com
a ação: a ação do homem sobre o mundo,
a ação do homem sobre os homens e a correspondente reação
dos homens e do mundo. Sartre porpõe-se a fazer uma fenomenologia
da ação e uma fenomenologia da história, descrevendo
a situação histórica e os objetivos do homem
através dessa história. Segundo
Sartre, cada um nasce numa determinada situação histórica.
O problema é que essa situação é forjada
por aqueles que o precedem e que pretendem dar ao mundo o sentido
que lhes convém. São eles, que definem a natureza humana
daqueles que os sucedem. Essa natureza é insidiosa. É
uma idéia que penetra em cada um de nós. Quem nasceu
judeu, fica penetrado de uma natureza judaica. Assim eu sou pensada
pelos outros, graças aos quais eu existo e que cerceiam a minha
liberdade. Em suma, eu sou uma liberdade hipotecada. Diante dessa
situação eu posso assumir três atitudes: seja
resignar-me com ela, seja aceitá-la ou rejeitá-la, seja
superá-la. Sartre concebe , além da antinomia entre
a moral e a história , uma moral concreta de ação
efetiva. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1
SARTRE, Jean-Paul. La Transcendence de l'Ego. Paris, J.Vrin,l936.
p.42 BIBLIOGRAFIA AUDI,R.
(General Editor). The Cambridge Ditionary os Philosophy. Cambridge
University Press. 2ª Ed. 1999 COOPER,
D. Existencialism Ethics. Craig Ed. Vol 3.1998
Professora
Cléa Gois e Silva
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