“Infância
Higienizada”
Por:
Nina Eiras Dias de Oliveira
“Eu posso”, “Eu quero”, “Eu vou”... tanta eloqüência das crianças que, hoje, encontram maior espaço e oportunidade de se manifestarem é, muitas vezes, confundida pelos pais como sinal de independência e maturidade. Cabe aos pais exercerem e ocuparem seu papel de representantes da criança filtrando seus anseios, orientando, oferecendo opções justas, possíveis e ajustadas à realidade de cada criança e de cada família e, vetar o que acham inadequado. Encontro, cada vez mais, pais com medo de um confronto com os filhos, com receio de frustrá-los, com medo de se posicionar. A capacidade e exercício de poder escolher de uma criança precisa ser conduzida e auxiliada por seus representantes e cuidadores. Na ausência deste cuidado a criança pensa poder agir como adulto, tem um ingresso pré-maturo na adolescência e, uma permanência maior nessa fase pela dificuldade de poder, de fato, gerir sua vida.A jornalista Hara Estroff Marano declarou, recentemente, numa entrevista que “as crianças vivem uma infância higienizada. Com os pais tentando remover todas as dificuldades e desafios de suas vidas por meio da superproteção e, lançando mão de toda tecnologia possível a serviço de um supermonitoramento.” O celular, walk-talk e o computador ocupam, de forma crescente, o papel de babás na vida das crianças. Sintomas como depressão, ansiedade e queixas de desinteresse e “preguiça”, estão mais presentes nas crianças que chegam ao consultório. São crianças que vivem situações ou relações de superproteção onde têm nos pais ou representantes alguém que faça por elas impedindo-as de lidar com o ensaio e erro, riscos, frustração, pertinentes ao aprendizado e conhecimento daquilo que já são capazes de fazer. Alguns aproveitam a onda de ansiedade e, lançam produtos para proteger as crianças como os géis higienizadores de assentos de banheiros, por exemplo. Uma criança precisa de proteção que indica limite, cuidado, zelo, acompanhamento. A superproteção, ou seja, a proteção além, não diz respeito à criança, mas sim, a quem dela exercita. Mobilizados, às vezes, pela culpa de uma convivência com afastamento físico grande; pela dificuldade ou falta de engajamento e paciência no papel de cuidadores e representantes da criança; pela falta de discernimento com relação aos valores educacionais; os pais apresentam grande permissividade no tratamento com os filhos. Permissividade esta que é sentida pelas crianças como abandono e falta de interesse dos pais com relação as suas vidas. Assustados pela insegurança dos empregos e situação do mercado de trabalho competitivo os pais pressionam as crianças numa expectativa de sucesso. Tendem a ver as brincadeiras infantis como pura perda de tempo se não forem associadas com alguma tarefa intelectual. Nos Estados Unidos algumas escolas baseadas nesta crença já extinguiram de suas pautas, os recreios. Esquecem ou não se dão conta de que brincando, naturalmente, a criança lida com uma série de situações que viabilizam informações, aprendizados, experiências de si, do mundo e das relações.
A violência é também outro fator que mobiliza a superproteção. É claro que temos de proteger nossos filhos da bala perdida, do assalto, das guerras. Mas proteger significa, também, mostrar riscos, sem exagero, buscar espaços e alternativas onde o exercício e desenvolvimento da autonomia, de buscar espaços e condições possíveis do brincar espontâneo, do ser responsável por si e pela relação com o outro possa ser exercido.
Atenção novo e-mail: ninaeiras@petronline.com.br
*Psicóloga existencial infantil, especialista clínica
pelo CRP/RJ